Monteiro Lobato: até tu, Brutus?

Quem já não leu, assistiu ou ouviu falar do “Sítio do Pica Pau Amarelo” e de seus inúmeros personagens: Dona Benta, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Pedrinho, Tia Anastácia, Emília, Tio Barnabé, Marquês de Rabicó, Saci, Cuca, entre tantos outros?

Desde 1952 essas divertidíssimas histórias sofreram diversas adaptações para vários canais de televisão, das quais figura como mais conhecida aquela exibida pela Rede Globo, que popularizou o escritor Monteiro Lobato entre as crianças brasileiras. Além da ampla divulgação feita pela TV, a literatura infanto-juvenil de Lobato tornou-se quase que obrigatória em qualquer aula do currículo escolar do ensino fundamental. Todavia, o mesmo autor que escreveu “Reinações de Narizinho”, também concebeu à Literatura Brasileira o nauseabundo “O Presidente Negro”, livro no qual deixa explícito seus ideais de purificação racial, fundamentados nos idênticos ideais de Francis Galton, primo de Darwin, que idealizou a Eugenia, uma doutrina segregacionista que buscava o aprimoramento da “raça humana” por meio de cruzamentos indesejáveis e até mesmo por intermédio da esterilização dos “degradados social, espiritual, biológica e moralmente”, tais como os negros, os epiléticos, os deficientes físicos e mentais, as prostitutas e todos aqueles que viviam à margem da sociedade. A ideologia eugenista no Brasil teve impacto acentuado nos meios acadêmicos até os anos 30, culminando-se, por exemplo, na criação da Sociedade Eugênica de São Paulo, em 1918. Monteiro Lobato e muitos outros estudiosos deste período viam nesta pestilenta ideologia trazida da Europa um instrumento para "higienização" da sociedade, transformando o "inconsciente" processo de Seleção Natural numa arma para erradicar do convívio social "a raça degradada".

Selecionei, a seguir, alguns trechos deste referido livro de Monteiro Lobato, com os quais é possível ter-se uma noção de como este escritor aparentemente inofensivo e amado pelas crianças escancarou sua tara eugênica mediante a boca de suas várias personagens. Ei-los:

TRECHO 1:
"O choque das raças fora prevenido, o que valeu por nova
vitória da eugenia. A sociedade, livre de tarados, viu-se no momento do embate isenta dos perturbadores ao molde dos retóricos e fanáticos cujas palavras outrora impeliam as multidões aos piores crimes coletivos. A exasperação branca do primeiro momento breve desapareceu. O bom senso tomou pé e o ariano pôde filosofar com a necessária calma. A opinião corrente admitia não passar a vitória negra de um curioso incidente na vida americana. Oriunda de cisão sexual do grupo ariano, fora golpeada de morte no próprio dia das eleições pela adesão das sabinas ao Homo. O próximo pleito restabeleceria o ritmo quebrado e do incidente nada restaria no futuro além de um pouco mais de pitoresco na historia da America — qualquer coisa como na serie dos papas, o pontificado da papisa Joana."

TRECHO 2:
" —
O característico mais frisante dessa época, toda via, estava na organização do trabalho. Todos produziam. Muito cedo chegou o americano á conclusão de que os males do mundo vinham de três pesos mortos que sobrecarregavam a sociedade — o vadio, o doente e o pobre. Em vez de combater esses pesos mortos por meio do castigo, do remédio e da esmola, como se faz hoje, adotou solução muito mais inteligente: suprimi-los. A eugenia deu cabo do primeiro, a higiene do segundo e a eficiência do ultimo. Aliviada da carga inútil que tanto a embaraçava e afeava, pôde a America aproximar-se de um tipo de associação já existente na natureza, a colméia — mas a colméia da abelha que raciocina."

TRECHO 3:
"A ideia do expatriamento para o vale do Amazonas tinha um
ponto fraco: só podia ser voluntaria e o negro não se mostrava inclinado a trocar a cidadania americana por outra qualquer. O processo cientifico de embranquecê-los aproximava-os dos brancos na cor, embora não lhes alterasse o sangue nem o encarapinhamento dos cabelos. O desencarapinhamento constituía o ideal da raça negra, mas até ali a ciencia lutara em vão contra a fatalidade capilar. Se isso se desse, poderia o caso negro entrar por um caminho imprevisto, a perfeita camouflage do negro em branco, Tal saída, entretanto, era apenas um sonho dos imaginativos impenitentes. E como a repartição do país em duas zonas não fosse forma aceita pelos brancos, iam os Estados Unidos entrar no seu 88.° período presidencial com o mesmo problema que trezentos e trinta e nove anos antes preocupara o grande George Washington."

TRECHO 4:
"Até essa época a população negra representava um sexto da
população total do país. A predominância do branco era pois esmagadora e de molde a não arrastar o americano a ver no negro um perigo serio. Mas com o proibicionismo coincidiu o surto das ideias que a restrição da natalidade se impunha por mil e uma razões, resumíveis no velho truísmo: qualidade vale mais que quantidade. Deu-se então a ruptura da balança. Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Foi a maré montante do pigmento. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso."

TRECHO 5:
"Era Nova da raça humana datou da sua promulgação. A lei Owen, como
era chamado esse Código da Raça, promoveu a esterilização dos tarados, dos mal-formados mentais, de todos os indivíduos em suma capazes de prejudicar com má progênie o futuro da espécie. Só depois da aplicação de tais leis é que foi possível realizar o grandioso programa de seleção que já havia empolgado todos os espíritos. Os admiráveis processos hoje em emprego na criação dos belos cavalos puro-sangue passaram a reger a criação do homem na America."

TRECHO 6:
"De ha muito se havia eliminado as hipóteses de fraude, não só
porque a seleção elevara fortemente o nível moral do povo, como ainda porque a mecanização dos tramites entregava todo o processo eleitoral ás ondas hertzianas e á eletricidade, elementos estranhos á política e da mais perfeita incorruptibilidade."

Pois é. Nosso estimado autor de "Jeca Tatu" também foi um darwinista social. O seu livro "O Presidente Negro" deixa claro suas intenções no âmbito dessa ideologia social e biológica. Outros nomes da nossa literatura também cederam à novidade vinda da Europa, como o autor de "Os Sertões", Euclides da Cunha. Sim é verdade, que não se discute o valor literário de tais obras, porém, o seu "encanto poético" não deve ofuscar de nós as intenções maléficas de seus autores, as quais buscavam amputar do ser humano o sagrado direito de viver suas diferenças com dignidade e respeito.

É isso!

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