"As Caçadas de Pedrinho" e a origem de um preconceito

Diante da celeuma envolvendo trechos considerados politicamente incorretos do livro “As Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou ontem que não homologará parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) contrário à distribuição, para escolas públicas da referida obra: “É incomum a quantidade de manifestações que recebemos de pessoas que são especialistas na área e que não veem nenhum prejuízo em que essa obra de Monteiro Lobato continue sendo adotada nas escolas”, afirmou Haddad.

Os trechos do livro que aludem ao politicamente incorreto refletem não apenas a mentalidade de grande parte da população branca naquele período, como, também, lamentavelmente ainda retrata o pensamento de muitos “moderninhos” com a cabeça entupida pela imbecilidade do preconceito.

Note-se que a estúpida associação racista do negro com o macaco mantém conotação direta com os pressupostos de evolução como progresso (até alcançar seu estado de humanidade, o homem passou por vários estágios evolutivos, dentre os quais, o simiesco). Num dado momento da narrativa, diz uma personagem: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens.”

Alguns afirmam que Charles Darwin nunca declarou que o homem descende do macaco, e isso é realmente verdade. Mas ele dizia cousa muito pior: afirmou que prefereria descender de um símio a ter como ancestral um “selvagem”: “
Quanto a mim, quisera antes ter descendido daquela pequena e heróica macaquinha que desafiou o seu terrível inimigo para salvar a vida do próprio guarda; ou daquele velho babuíno que, des­cendo da montanha, levou embora triunfante um companheiro seu jovem, livrando-o de uma matilha de cães estupefatos, ao invés de descender de um selvagem que sente prazer em tor­turar os inimigos, que encara as mulheres corno escravas, que não conhece o pudor e que é atormentado por enormes su­perstições” (“A Origem do Homem e a Seleção Sexual”. Hemus Editora, 1994, p. 710).

Bom, mas vamos ao Lobato e ao seu livro “As Caçadas de Pedrinho”. Vejamos onde foi, creio eu, que se centrou toda a polêmica:

TRECHO 1:
Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros.

TRECHO 2:
— É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena.

TRECHO 3:
— Peço a palavra! — gritou o bugio, que estava de cabeça para baixo, seguro pelo rabo no seu galho. — Acho que o melhor meio de vocês escaparem à fúria desses meninos é fazerem como nós fazemos: morar em árvores. Quem mora em árvores está livre de todos os perigos do chão.
— Imbecil! — resmungou a capivara, furiosa de tamanha asneira. — Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens. Esta reunião foi convocada para discutir-se a sério, visto que o caso é muito sério. Quem tiver uma idéia mais decente que a deste idiota pendurado, que tome a palavra e fale.

TRECHO 4:
Vieram os tatus encapotados em suas cascas rijas; as lontras embrulhadas em suas capas de pele macia como o veludo; as preás assustadinhas. Também vieram cobras — as jibóias enormes que engolem um bezerro taludo; as cascavéis de guizos na ponta da cauda; as lindas corais-vermelhas; as muçuranas que se alimentam de cobras venenosas sem que nada lhes aconteça. E sapos — desde o sapo-ferreiro, cujo coaxo lembra marteladas em bigorna, até a pequenina perereca, que vive pererecando pelo mundo. E aves, desde o negro urubu fedorento, até essa jóia de asas que se chama beija-flor. E ainda insetos — borboletas de todos os desenhos e cores, besouros de todas as cascas, serra-paus de todas as serras. E joaninhas e louva-a-deus e carrapatos...

É isso!

7 comentários:

  1. Eu concordo plenamente em retirar esse livro das escolas, até porque o constrangimento de um aluno perante os outros é grande, afinal nessa fase é que se cria o pre-conceito.

    ResponderExcluir
  2. por exemplo e se a narrativa fosse assim vi a dona benta comendo milho mo coxo como se fosse uma pórca branca e como se só fizesse isso a vida toda !!! e ai como fica a narrativa ....qual é a opiniao das pessoas brancas a respeito ..hummmm minha opiniao é éssa tirem esse livro preconceituoso e malicioso das escolas há coisas melhores a se falar do que da mente podre e suja de algums antepassados . pelo amor de DEUS ESTAM0S em 2012 ... FUII

    ResponderExcluir
  3. eu particularmente vejo o racista sendo ele BRANCO OU PRETO como alguém sem moral própia . alguém com interior pobre e sombrio com certeza é um grande problema de miséria humana. e o resultado disso é o que se vé por esse mundo afora

    ResponderExcluir
  4. José de Senna27/09/2012 07:18

    Gente, que tolice... Daqui há pouco ninguém vai poder falar mais nada sem que um sujeito "politicamente correto" venha chamá-lo de "racista", "homofóbico", "pedófilo", entre outros. Até onde essa banalização do preconceito vai nos levar?

    ResponderExcluir
  5. José de Senna27/09/2012 07:53

    Bem, mas antes que alguém venha a falar qualquer coisa, vamos a uma breve análise de cada um dos trechos mensionados (nunca li a famosa coleção de Monteiro Lobato, apenas acompanhei superficialmente suas diversas adaptações, logo não posso fazer uma análise mais abrangente).

    Trecho 1: aqui a comparação de Tia Nastácia com uma macaca se deu devido a habilidade com que que subiu no mastro São Pedro, a despeito de sua idade e dos "numerosos reumatismos". Talves a palavra "carvão" tenha ofendido alguns, mas isso é, senão irrelevante, secundário.

    Trecho 2: aqui sim há uma espécie de discriminação. Todos no sítio são brancos, exceto Tia Nastácia, "que tem carne preta" - mas nem por isso ela vai escapar de seja lá o que for que está para acontecer! Os professores podem se aproveitar da situação para falar às crianças a respeito das diferenças de pensamento entre a sociedade daquela época e a sociedade atual, apontando onde está o preconceito e por que ele é errado, e não descartando-o como se não existisse.

    Trecho 3: aqui não tem Tia Nastácia. Na verdade, não tem pessoa nenhuma. Temos uma reunião de animais em que o macaco apresenta uma ideia ridícula. Provavelmente Monteiro Lobato se utilizou dessa comparação para mostrar o quanto o ser humano é estúpido e ignorante, a ponto de sex extremamente parecido com um macaco. Uma outra razão deve ser o paradigma evolucionista, que estava em plena formação na época.

    Trecho 4: aqui ele afirma que o urubo é preto e fedorento. Por acaso um urubu não é preto e fedorento? Onde está a referência a raça negra nessa frase? Será a palavra "negro". Gente, será tão difícil enxergar o quanto tal conexão com o racismo é ridícula nesse contexto?

    Além disso, pelo que acompanhei nas adaptações, pude perceber que Tia Nastácia e outros personagens negros eram tratados como iguais, como se fizessem parte da família. Logo, dentro desse contexto maior de inclusão, não vejo motivos para esquentar tanto a cabeça por conta de trechos isolados que nem são tão preconceituosos assim.

    O que mais me preocupa nisso tudo é o fato de algumas pessoas associarem rapidademente as palavras "macaco", "urubu" e outras, a raça negra. Alguém têm dúvidas de que é nessas pessoas que reside o verdadeiro preconceito?

    ResponderExcluir
  6. Sobre a polêmica do post: Monteiro Lobato foi um dos mais influentes escritores brasileiros. A sua obra "Caçadas de Pedrinho" não pode ser taxada como "racista" , pois Monteiro Lobato sempre foi um "visionário" em suas obras, sempre destacou a preservação ao Meio Ambiente, algo além do seu tempo e sempre denunciou de forma cotidiana os abusos comuns aos negros. Exemplificar os abusos aos negros e depois tratá-los de forma igual é racismo?? O problema não é o preconceito e sim a sua "banalização" para que seja usada de forma política. Criam o problema para depois serem a "cura" e assim conquistam pessoas e votos. Nada além de uma "tática" política. Não concordo e condeno o preconceito em geral, somos todos iguais e a morte nos prova isso.

    ResponderExcluir
  7. Vai estudar (Anônimo27/02/15 04:08) se você não sabe o Monteiro Lobato era um simpatizante da Kun-Klux-Klan, então obtenha conhecimentos antes de expressar algo.

    ResponderExcluir

Excetuando ofensas pessoais ou apologias ao racismo, use esse espaço à vontade. Aqui não há censura!!!