Jeca Tatu: símbolo de uma ideologia

"O discurso das elites brasileiras sobre o habitante do sertão, visto até então como um “tipo inferior” e “inapto” para desenvolver a civilização, passava agora, como ressalta Tânia Regina de Luca, “a condição de vítima, injustamente caluniado e criminosamente abandonado à própria sorte, sem saúde, justiça ou educação”. Ao revelarem essa nova imagem sobre o “homem sertanejo”, os cientistas de manguinhos acabariam por causar um grande impacto sobre a representação que os intelectuais brasileiros tinham em relação ao seu próprio país. De acordo com Gilberto Hochman, as expedições científicas e as campanhas realizadas em pról do saneamento tiveram uma ampla repercussão no meio médico, político e intelectual brasileiro, o que teria possibilitado a conversão de importantes intelectuais ao credo médico-sanitarista, como o escritor Monteiro Lobato.

O avanço das pesquisas bacteriológicas e os estudos sobre a patologia das moléstias tropicais contribuiriam também para reforçar a percepção dos sanitaristas, e da própria sociedade brasileira, quanto às possibilidades que o conhecimento científico apresentava enquanto ferramenta para regenerar a população nacional. Se, até então, a mestiçagem e o clima eram vistos como as principais causas da degeneração racial, a ciência demonstrava, agora, que o atraso do país estaria relacionado às doenças e a falta de saneamento. De uma interpretação determinista sobre os problemas sociais, a ciência abriria caminho para uma interpretação médico-sanitarista.

O exemplo de maior recorrência para ilustrar esse movimento de mudança de concepção sobre os problemas nacionais pode ser encontrado através da reconversão que Monteiro Lobato operou no final dos anos 1910. Em 1914, ao escrever o conto Urupês, publicado na imprensa paulista a partir de uma série de artigos, este intelectual havia descrito o homem sertanejo, denominado por ele de “Jeca Tatu”, como um ser “fraco”, “indolente” e “incapaz de evoluir”, alheio ao trabalho e a idéia de progresso. No entanto, em 1918, quando a ciência e o laboratório o permitiam respirar com mais
desafogo, Monteiro Lobato ressuscitaria o seu personagem ao afirmar que “o Jeca não é assim; está assim”. Iluminado pela ciência que agora proclamava a doença e a falta de higiene como os grandes inimigos do sertanejo, Lobato concluiria:

A nossa gente rural possui ótimas qualidades de resistência e adaptação. É boa por índole, meiga e dócil. O pobre caipira é positivamente um homem como o italiano, o português, o espanhol. Mas é um homem em estado latente. Possui dentro de si grande riqueza em forças. Mas força em estado de possibilidade. E é assim porque está amarrado pela ignorância e falta de assistência às terríveis endemias que lhe depauperam o sangue, caquetizam o corpo e atrofiam o espírito. O caipira não é assim. Está assim. Curado, recuperará o lugar a que faz jus no concerto etnológico.

A guinada teórica assumida por Monteiro Lobato transformou-se em símbolo de um amplo movimento nacionalista que ganhava força junto à elite intelectual e política brasileira. No final dos anos 1910, o discurso sanitarista e a crença nesse poder salvacionista do laboratório, reforçariam a convicção na capacidade da ciência em resolver os grandes problemas nacionais. Neste contexto em que a confiança profética no poder dos “homens de ciência” se afirmava, em que o pensamento sanitarista se transformava numa ideologia da construção da nacionalidade,52 os eugenistas encontrariam um solo fértil para propagarem suas idéias e se estabeleceram no campo
científico brasileiro, assumindo um importante lugar no discurso regenerador da nação. Disposta a promover a higiene e o saneamento “como panacéia universal”, a intelligentsia brasileira se viu encantada pela eugenia ao visualizar em seus enunciados “um tipo de extensão e modernização científica do trabalho de figuras heróicas como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas”.

Amplamente assimilada pelo discurso médico-sanitarista, as idéias eugênicas surgiram na década de 1910 como “uma metáfora para a própria saúde publica”, prometendo eugenizar e sanear tanto o sertão quanto os espaços urbanos do litoral brasileiro. Além de refutar a inevitabilidade da degeneração e da saúde racial da população, a eugenia oferecia soluções científicas práticas para combater os problemas nacionais, denominados na época como a “questão social”. Por outro lado, a eugenia garantia a um grupo de intelectuais brasileiros, sobretudo aqueles ligados à medicina
social, um espaço de autoridade onde pudessem dar continuidade à implementação de políticas de saúde públicas.

Acalentados por esses ideais que o discurso eugenista proporcionava, os intelectuais e cientistas das mais diversas matizes desejavam ver as idéias eugênicas amplamente divulgadas entre o público brasileiro. As teses acadêmicas, livros, artigos de jornais e revistas não seriam, contudo, suficientes para “vulgarizar” este discurso, seria necessário uma rede bem estabelecida e institucionalizada, capaz de mobilizar interesses e angariar a legitimidade social e política. A partir do final dos anos 1910, foi nesta direção que eugenistas, médicos, higienistas, sanitaristas, educadores, juristas e jornalistas procuraram se organizar no Brasil.

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É isso!

Fonte:
VANDERLEI SEBASTIÃO DE SOUZA: “A POLÍTICA BIOLÓGICA COMO PROJETO: A ‘EUGENIA NEGATIVA’ E A CONSTRUÇÃO DA NACIONALIDADE NA TRAJETÓRIA DE RENATO KEHL -1917-1932. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História das Ciências da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre. Área de Concentração: História das Ciências. Orientador: Prof. Dr. ROBERT WEGNER). CASA DE OSWALDO CRUZ – FIOCRUZ. Rio de Janeiro, 2006.

Nota:

O título e a imagem inseridos no texto, não se incluem na referida tese.


Um comentário:

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