A Eugenia no Sítio de D. Benta: “O lugar da negra”

“A idéias de Emilia, por todos os personagens chamada de “torneirinha de asneiras” e, por isso mesmo, autorizada, devem ser investigadas. Seus arroubos de racismo explícito são inúmeros. Se fôssemos citar todos, esta humilde dissertação seria pequena demais. Mas vamos ver um deles: “Bem se v que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe? Todos os viventes tem o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora!... Um excelente estudo sobre a representação do negro na obra de Monteiro Lobato é “Negros e Negras em Monteiro Lobato”, de Mansa Lajolo. A autora aborda algumas questões em tomo do racismo em dois livros específicos de Lobato (Histórias de Tio Nastócia e O Choque das Raças), procurando demonstrar que o autor não era o único:

Efetivamente, a representação do negro, em Lobato, não tem soluções muito diferentes do encaminhamento que a questão encontra na produção de boa parte da intelectualidade brasileira, e não só da contemporânea de Lobato, como vem ensinando os estudos de Heloísa Tolier. Longe de desqualificar a questão, esta ambigüidade torna-a ainda mais relevante. Mas os melhores ângulos para discuti-la não se esgotam nos xingamentos: os bem intencionados de Emílta, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem”.

Ao analisar o livro Histórias de Tia Nastácia, Lajolo faz uma pequena comparação acerca do lugar que a cozinheira ocupa como narradora assim, como em outros livros do mesmo período, como Histórias do Pai João de Oswaldo Orico ou Histórias da Velha Totonha, de José Lins do Rego, nos quais negros também assumem o posto de narrador. Em Histórias de Tia Nastácia, a narradora dos contos folclóricos não é D. Benta ou Emilia. O espaço antes ocupado por uma narradora autorizada pela sua sabedoria, por sua cor, pelo seu lugar hierárquico ou famiiiar de avó bondosa e social de proprietária, passa a ser ocupado por aquela que, em outros livros, tem seu lugar de exclusão reconhecido por todos, inclusive por D. Benta e por ela mesma: a cozinha.

Lajolo chama a atenção para o fato de que as tensões, ao longo do livro, entre Tia Nastácia e seus ouvintes vão se acentuando. As crianças não fazem nenhum esforço para esconder sua insatisfação com as histórias folclóricas que em nada lembravam aquelas que os personagens estavam acostumados a ouvir de D. Benta, a patroa branca. Quando o estoque de histórias de Tia Nastácia acaba, a avó assume a narração do livro, o que visivelmente agrada mais às crianças, dissolvendo a tensão existente entre os personagens e a narradora negra. Além disso, as crianças pedem que D. Benta conte histórias folclóricas de países europeus, e não do folclore brasileiro, como havia feito Tia Nastácia.

“E agora? — perguntou Narizinho. — Ainda sabe mais alguma coisa dojabuti? Arre, menina. Que tanto quer?- respondeu a preta. — Não sei mais nada, não. Chega. Tenho de ir cuidar do jantar. Até logo. Então vovó que conte mais algumas. Dona Benta respondeu: Eu sei centenas de histórias. O difícil está na escolha. Sei histórias do folclore de todos os países. Então conte uma do folclore da India! —pediu o menino. Da Índia, não. Da China — pediu Narizinho. Da China, não. Do Cáucaso — pediu a boneca, que andava com mania de coisas russas. E Dona Benta contou uma história do folclore do Cáucaso”.

É interessante, nesta citação observar dois fatos: em primeiro lugar, além do estoque de Tia Nastácia terminar, ela precisa ir cuidar da cozinha, seu lugar de confinamento e reclusão, abrindo espaço para D. Benta que assume o posto até o final do livro. Ou seja, um pouco menos da metade do livro, que talvez não devesse chamar Histórias de Tia Nastácia e sim, como sugeriu Marisa Lajolo, Um parêntesis na vida do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Além disso, a avó afirma que sabe histórias de vários lugares, o que apenas cristaliza sua posição de superioridade frente a Tia Nastácia, que teve seu estoque rapidamente esgotado. Outra questão é a forma como o livro termina, ajudando a cristalizar a idéia de que as histórias européias são mais interessantes e inteligentes do que as folclóricas ou, como diriam os personagens do Sítio, do povo - que, coincidentemente, Monteiro Lobato traduziu e publicou: “Também estou farta — disse Narizinho. — Histórias do povo não quero mais. De hoje em diante, só as assinadas pelos grandes escritores. Agora cama! Narizinho bocejou três vezes... E a criançada foi dormir”.

Lajolo é uma das poucas especialistas que se dedicam ao estudo de Monteiro Lobato a reconhecer e, principalmente, analisar o racismo na obra do autor. Tio Barnabé, considerado pela autora a versão masculina de Tia Nastácia, também é marginalizado e excluído do lugar de destaque do Sítio no qual só tinham espaço os personagens brancos e os sábios, como o Visconde ou ainda a boneca de pano.

A hipótese [de que os serões de Tia Nastácia são um parêntesis na vida do Sítio] e ganha força em outras passagens da obra lobatiana como, por exemplo, no fato de Tio Barnabé (versão masculina de Tia Nastácia....) também ficar confinado, ao longo de toda a obra infantil lobatiana, a papéis secundários. Mesmo em O Saci, obra que aparentemente desmente essa secundariedade, o papel dele é o de coadjuvante de Pedrinho, auxiliar ao qual o menino recorre em situação bastante próxima da que original as Histórias de Tia Nastácia”.

Nos livros em que D. Benta conta histórias para os personagens, os famosos serões, Tia Nastácia muitas vezes aparece no livro apenas para avisar que a pipoca está pronta ou o chá está servido anunciando, desta forma, o fim da aula de cultura e civilização da patroa branca. Quando Tia Nastácia se interessa em tomar parte dos serões junto com os outros personagens, como em Peter Pan ou em O Poço do Visconde, sempre dorme e nunca consegue acompanhar. Podemos pensar que Tia Nastácia está dormindo porque trabalhou o dia intéiro cuidando do Sítio, de D. Benta e de seus netos. Mas não há nenhum tipo de referência a isso. Pelo contrário. As sonecas da cozinheira durante os serões são encarados pelos personagens como falta de interesse e incapacidade da negra, sempre recriminados como forma de, mais uma vez, excluí-la das aulas oferecidas por D. Benta.

Em Geografia de Dona Benta a necessidade de Tia Nastácia acompanhar os personagens ao redor do mundo é pura e simplesmente pelo fato de precisarem de uma cozinheira. Mais uma vez Tia Nastácia aparece apenas para avisar que o jantar está servido ou para dizer que a comida a bordo está acabando. Quando fazem uma pequena parada nos Estados Unidos da América, mais precisamente em Nova York e na Califórnia, Tia Nastácia desembarca junto com todos os outros. Para tanto, D. Benta afirma ser necessário que aprendessem um pouco de inglês para não envergonharem o Brasil em terras estrangeiras. Enquanto se aproximam do país símbolo para Monteiro Lobato, Pedrinho, Narizinho, Emilia, Visconde, Quindim — Rabicó não viaja com os personagens neste livro - tomam lições da língua com D. Benta. Com exceção de Tia Nastácia, que não consegue aprender uma única palavra do idioma e ainda faz questão de afirmar que essa língua é do Diabo, já que ninguém consegue entendê-la.

Desde esse dia a rotina a bordo mudou muito. Só se cuidava de aprender inglês. Era Yes pra cá, How are you para lá, Goodbye, Thank you e mil frasezinhas das de uso mais freqüente. Quem sofreu com a mudança foi o cozinheiro, porque os meninos, a fim de praticar, só queriam falar inglês. Mr. Cook - dizia por exemplo a menina -, give a knife. Aquilo era simples, era o mesmo que dizer: Senhor cozinheiro, arranje-me uma faca, mas a pobre negra não entendia patavina”.

Apesar dos protestos de Tia Nastácia, os personagens continuam seu treino e Quindim, com pena da cozinheira, resolve dar-lhe uma lição, na qual Tia Nastácia aprende algumas poucas expressões, como all right. Notem que não foi D. Benta que teve paciência de ensinar-lhe e sim o rinoceronte, que vinha das mesmas terras que Tia Nastácia e, provavelmente não queria que uma conterrânea sua fizesse feio no maior país do mundo. Mas foi a boa senhora que recomendou que a tudo que lhe perguntassem a cozinheira deveria responder all right.

E para Tia Nastácia recomendou: E você, que não sabe nada de inglês, responda All right a tudo quanto perguntarem. Assim não errará muito. A pobre negra já estava sentindo o coração aflito diante das prováveis conseqüências daquela aventura. Mas como sabia da existência de milhões de negros na América, sossegou. Entre eles havia de arranjar-se”.

Os personagens desembarcam em Nova York e começam a passear por uma das cidades símbolos norte-americanas: “O cortejo seguiu, sempre a mascar chewing gum e com Tia Nastácia a responder All right! a todas as perguntas que lhe eram feitas. Infelizmente sempre saía Ó raio! — e os perguntantes ficavam na mesma”. As esperanças de Tia Nastácia de se arranjar entre os negros norte-americanos foram totalmente frustradas, uma vez que acreditava que todos seriam iguais a ela e, principahnente falariam sua língua:

E esses negros que só falam inglês? É outra coisa que me parece arte do Diabo. Ontem criei coragem e saí e cheguei até a esquina. Estava lá olhando aquelas casas que somem na altura quando passou por mim uma negra, tal e qual a Liduína, cozinheira do Coronel Teodorico. Eu arreganhei uma risada de gosto. Uma negra! Uma patrícia minha! E me dirigi para ela dizendo: Como vai? Pois há de crer, sinhá, que a diaba não me entendeu? Olhou para mim, como quem olha para bicho do mato, e disse uma palavra que Seu Pedrinho depois me ensinou: Ai donte anderstande que é como quem diz que não está entendendo nada. Já se viu alguma assim? Fiquei desapontada, porque nunca imaginei que negro falasse inglês. Desde que nasci só vi negro falar brasileiro — inglês só um ou outro branco, ou aqueles estranjas de cara vermelha que às vezes portavam lá no sítio. Mas aqui é isso — até negro — até as negras falam esse raio de língua que ninguém entende...

É interessante notar que Tia Nastácia tem plena consciência de seu lugar, não apenas no Sítio do Pica-Pau Amarelo como também nos Estados Unidos. A cozinheira procurou outra negra para conversar e sentir-se mais à vontade entre seus “irmãos de cor”: mas provavelmente nunca procuraria um branco.

Assim, podemos perceber que os “xingamentos bem intencionados” da boneca de pano não se restringem apenas ao livro Histórias de Tia Nastácia. Tampouco o racismo fica restrito a Emília. O extremo desconforto de todos os personagens diante das histórias que Tia Nastácia conta — além, é claro, de ser uma maneira de desqualificar o folclore nacional, parte de uma discussão mais ampla nos anos 20 sobre a questão nacional - não é apenas um xingamento à boa cozinheira. Na verdade, Monteiro Lobato transferiu para a personagem negra que criou em sua obra todo o preconceito e racismo que já havia demonstrado em O Choque dos Raças. Há uma passagem de Geografia de Dona Benta que nos faz recordar o livro analisado e a carta com a qual fechamos o capítulo anterior. Se Monteiro Lobato, em carta a Arthur Neiva, faz um claro elogio à Ku-Klux-Klan, por que não falaria sobre a barreira entre brancos e negros que havia nos Estados Unidos da América na época em que seus personagens aportaram em terras americanas?

Os Estados Unidos sõo hoje um país de mais de 130 milhões de habitantes, dos quais 14 milhões negros e o resto branco. Mas há lá uma barreira entre os brancos e pretos, de modo que as duas raças, pouco se misturaram. Quem é branco fica branco e quem é preto fica preto”.

Tudo muito natural e bem organizado, da mesma maneira que não houve nenhuma crítica em relação às “leis espartanas”, aqui também não houve nenhum tipo de questionamento sobre a divisão entre as raças, nem mesmo uma asneira emiliana. Muito pelo contrário: nosso autor dedica quase vinte páginas do livro para falar das virtudes do povo norte-americano, da mesma maneira que fez com a civilização grega em História do Mundo para Crianças, como veremos mais adiante.

Se em O Choque das Raças nosso autor reavivou as leis espartanas nos EUA de 2228 como uma das melhores formas de aplicação da eugenia, em “O Sítio” não fez o mesmo. Lobato não apresentou personagens defeituosos, com exceção do Saci, que nada mais é que uma lenda. Ao contrário, Lobato criou todos personagens saudáveis, inteligentes, bonitos, robustos e sadios exceto a negra bondosa, servil e ignorante.

Note-se o ideal eugênico de criança, que aprende as lições que os adultos lhes ensinam, sempre pela voz de D. Benta. Pedrinho, de acordo com o adequado perfil de gênero projetado, sempre lia as notícias nos jornais. É sempre ele que demonstra uma aguda capacidade intelectual e curiosidade acerca das coisas, mostrando assim que um menino esperto, saudável, inteligente procura se informar e é capaz de fazer as relações necessárias, até mesmo lembrando de livros do próprio Sítio e os referenciando quando algum assunto já havia sido abordado. Assim, Monteiro Lobato aproveitou, mais uma vez para fazer propaganda de seus livros, dos livros publicados por sua editora e por ele traduzidos e, principalmente, mostrar a importância da leitura. Narizinho, a menina bondosa, que tem piedade de Tia Nastácia, sempre a defendendo dos ataques ferozes de Emília que é considerada o alter-ego de Monteiro Lobato. A menina é também muito esperta e atenta, assim como seu primo, mas ao mesmo tempo, muito meiga e companheira de sua avó - e evidentemente os papéis de gênero são decisivos na construção de seu perfil. Se participa das aventuras dos personagens do Sítio, é sempre ela a mais cuidadosa e preocupada de todos eles. Se a esperta boneca de pano é realmente a expressão máxima do nosso autor da infancia brasileira, precisamos repensar que sociedade seria a ideal que Brasil Emília, ou Monteiro Lobato desejava ver surgir?

D. Benta acreditava que as crianças não tinham culpa de não saber, era para isso que existiam as avós: “Uma criança não tem culpa de não saber, e para que saiba uma porção de coisas úteis é que as vovós contam estas histórias do mundo”. Realmente, Monteiro Lobato escreveu uma obra na qual não apenas as vovós ganharam lugar de destaque na vida das crianças brasileiras, como criou um “reino” matriarcal no qual, entretanto, os papéis de gênero permanecem intactos. Afinal de contas, Tia Nastácia também teve voz ativa na saga do Sítio. É bem verdade que a condução da obra ficou por conta de D. Benta e seus netos brancos e eugenicamente perfeitos; a boneca de pano que virou gente e passou a ter opinião, mas foi criada pela preta velha que tanto desprezou pela pena de seu maior criador; pelo sábio que também ganha vida pelas mãos da cozinheira e que pode ser considerado a expressão máxima de um ateniense dos tempos de Péncles. Mas além de ter idealizado a avó perfeita — (que neto não gostaria de ter uma avó que até viaja pelos países para ensinar geografia ou a importância da Grécia Antiga?) - Monteiro Lobato fez com que D. Benta enveredasse por caminhos complicados cristalizando preconceitos e visões, comuns à sociedade brasileira de sua época.”

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É isso!

Fonte:
PAULA ARANTES BOTELHO BRIGLIA HABIB: “EIS O MUNDO ENCANTADO QUE MONTEIRO LOBATO CRIOU”: RAÇA, EUGENIA E NAÇÃO.” (Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas sob a orientação da Profª. Drª Maria Clementina Pereira Cunha). UNICAMP. CAMPINAS, 2003.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

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