A personagem negra em Monteiro Lobato

Personagens negros: estereotipia/inferiorização – século XX, décadas de 20 a 75: antes, durante e após Lobato

O escritor, ao caracterizar uma personagem, o faz a partir de modelos literários de sua tradição cultural. Essas formas verbais são assim atualizadas, de acordo com a época do escritor, num trabalho de modelização em quesão importantes: os modelos da tradição [...] os códigos sociais e culturais da época e seu modo de pensar. (ABDALA JUNIOR, 1995)

Para compreender se houve a propalada inovação quanto à caracterização dos personagens negros nas publicações dos anos 80, é necessário trazer à tona algumas considerações de pesquisadores que apresentam leituras críticas sobre eles, com o fim de discuti-las, percebendo, assim, se há correlação entre as características levantadas e as produções literárias dos anos 80. Além dos contos do século XIX (GRIMM e ANDERSEN), aqui aludidos, não se pode esquecer da produção de Lobato, haja vista a importância de suas obras para a literatura infanto-juvenil brasileira. Duas obras desse escritor serão enfocadas, mas sob o ponto de vista étnico-racial.

Lobato é considerado um marco na Literatura infanto-juvenil brasileira, e é nele que Coelho se baseia para subdividir essa literatura em três momentos básicos: 1) Precursora – período pré-lobatiano (1808 – 1919); 2) Moderna – período lobatiano (1920/1970); 3) Pós-moderna – período pós-lobatiano (anos 70...?). Não me deterei nas três fases, pois interessa, aqui, em uma primeira instância, situar o leitor acerca da caracterização dos personagens negros na produção de Lobato. A digressão temporal que agora realizo será fundamental para, posteriormente, tomar como ponto de partida, com vista à interpretação das produções dos anos 80.

Conforme Coelho (1985, p. 185), a “[...] Monteiro Lobato coube a fortuna de ser, na área da literatura infanto-juvenil, o divisor de águas que separa o Brasil de ontem e o Brasil de hoje”. Diz-se tal coisa, por conta da ruptura do autor com a influência européia, quanto à valorização da cultura brasileira, por resgatar o folclore nacional. Ao aludido escritor, deveu-se o investimento nas primeiras editoras voltadas para as produções infantis e também juvenis. Ele educa o leitor por meio de sua obra, mas o diverte e apresenta um universo imerso em fantasia, ludicidade, criatividade e aventura no Sitio do Pica Pau Amarelo.

Mas, por outro lado, há críticas quanto à estereotipia atribuída ao negro na obra de Lobato. Em especial nas Histórias da Tia Nastácia e em Reinações de Narizinho. Na primeira narrativa, a cultura popular é depreciada e o conhecimento de Tia Nastácia é associado à ignorância. Em contraposição, existe Dona Benta que simboliza a sabedoria livresca. Logo, o seu conhecimento é superior ao de sua empregada, a qual “[...] representa o lado ingênuo e crédulo do povo”, pois os “demais habitantes do sítio pensam que tia Nastácia fala ‘errado’, e que apresenta idéias simplistas em relação aos problemas que a cercam” (KHÉDE, 1990, p. 88). Quanto ao seu desenvolvimento cognitivo, no texto ela é assemelhada às crianças ou, até, colocada aquém destas. Dona Benta é, portanto, o único adulto no texto. É ela o símbolo de inteligência, de conhecimento, conforme os padrões brancos.

Para Khéde (1990, p. 88), Tia Nastácia simboliza a “preta de alma branca”, “negra beiçuda”. A autora reitera que “[...] Nastácia é símbolo do desejo de incorporação pacífica do negro na sociedade branca”, correspondendo à tese “da mestiçagem sem trauma”, defendida por alguns autores – dentre eles, Gilberto Freyre –, os quais “[...] paternalizam as relações entre negros e brancos passando por cima dos conflitos de classe, identidade e de peculiaridades étnicas”. Khéde (1990, p. 88) coloca ainda que Nastácia é “Símbolo da cordialidade do brasileiro, [pois] preenche o desejo de muitos brasileiros das elites dominantes: ter uma preta de alma branca em casa a cantar canções de ninar”.

Indo ao encontro da visão de Khéde com relação aos personagens negros em Lobato, mas apresentando um quadro geral acerca deles nas narrativas do início do século XX, Gouvêa (2001) reconhece que os valores em voga são constitutivos da modernização da época, por conta do processo de urbanização dos grandes centros, o que evidenciava o avanço do progresso da nação e, conseqüentemente, a busca de “definição da identidade cultural nacional”. Isto é, da brasilidade. Ou seja, meios culturais que marcassem a singularidade da nação brasileira. Conforme Gouvêa (2001, p. 2):

A brasilidade, ícone que marcará profundamente a produção literária voltada para o pública adulto, se traduz na literatura infantil brasileira na tentativa de construção de personagens e temáticas que recuperassem uma tradição oral presente no imaginário social brasileiro e que, ao mesmo tempo, falasse sobre seu patrimônio cultural [...]

É com a intenção de resgatar e exprimir o folclore nacional, por meio da linguagem literária infanto-juvenil que os autores buscam construir

[...] uma literatura infantil genuinamente brasileira [...] É nessa perspectiva que a temática racial torna-se constante nas obras construídas entre as décadas de 20 e 40 [...] os personagens negros, são associados às raízes culturais do país.(GOUVÊA, 210, p. 2)

Antes, porém, nos textos correspondentes ao período de 1900 a 1920, Gouvêa (2001, p. 3) constata que “[...] o negro constitui personagem quase ausente, ou referido ocasionalmente como parte da cena doméstica. É personagem mudo, desprovido de uma caracterização que vai além da referência racial”. Embora hoje o personagem negro esteja presente nas narrativas, na relação do MEC, de 267 livros selecionados e indicados para os alunos das escolas públicas, só há dois livros cuja temática envolve personagens negros. Quer dizer, tais personagens estão, nesse sentido, ainda ausentes na maioria dos livros indicados para os alunos das escolas públicas, mesmo no século XXI. Isso denota, no mínimo, descaso quanto a sua importância nas obras selecionadas.

Gouvêa (2001, p. 3) atribui a ausência e caracterização do negro naquele período (1900 a 1920) à sua “[...] marginalização após a abolição”, o que reflete “uma mentalidade dominante calcada na idéia de progresso e civilização”, enquanto o negro simbolizava o “[...] herdeiro de uma ordem social arcaica e ultrapassada, ligada ao tradicionalismo, à ignorância”, devendo sersubstituído pelo “modelo europeizante”, calcado na idéia de progresso. Esse ponto de vista é pertinente. Mas, ao se levar em conta que, no final do século XIX a sociedade brasileira viva sob
a égide do racismo científico, por meio do qual se compreendia o negro e seus descendentes como seres inferiores ao branco, será possível constatar que, no bojo dessa mentalidade de “civilização” e “progresso”, prevalece a intenção da elite em rejeitar aqueles que ela desejava continuar explorando. Tal exploração iniciou-se desde o momento em que ela os raptou do berço materno, a África, para submetê-los ao sistema escravocrata, deixando-os depois entregues àprópria sorte em uma meio social que os desprezava.

Embora a elite tivesse o seu projeto de nação civilizada, branca, ela não conseguia eliminar da noite para o dia o povo negro e toda a sua herança cultural, considerada “incivilizada”. Então, aquele povo foi tecido nas narrativas a partir do século XIX na Literatura infanto-juvenil (Gouvêa, 2001), mas de maneira depreciativa e inferiorizada, colocado aquém do branco. Eis, a seguir, alguns traços que caracterizavam os personagens negros na época, na produção do final do século XIX e, principalmente, na produção de Lobato.

Negro – saber negado (a). Dentro do resgate da tradição oral, Gouvêa coloca que, desde 1919, se tecem textos com esse fim. A pesquisadora menciona a coleção Biblioteca Infantil, que lança um “[...] volume com contos atribuídos ao folclore africano: Flor Encarnada (1919c). Trata-se da estória de uma princesa africana, Flor Encarnada, que “sabia os remédios” a serem dadosaos doentes, que tinha muito conhecimento sobre “todas as espécies de plantas e ervas para comer”, mas descobre que o conhecimento que tinha era soprado em seus ouvidos por “uma jovem branca”. Por conta disso, Gouvêa reconhece que “[...] o saber negro é negado e atribuído” ao personagem branco, “destituindo-se o negro de um elemento fundamental de sua sabedoria”(GOUVÊA, 2001, p. 5). Quer dizer, há a supervalorização do branco em detrimento do negro no texto. Eis uma outra maneira de emudecê-los, e invisibilizá-los, como se não existissem, já que são preteridos na relação de obras indicadas pelo setor educacional oficial.

Contadores de história (b) – na figura do negro e negra velha, que são “[...] agentes socializadores das crianças brancas, numa posição de servidão”, o que “revela a continuidade com o modelo escravocrata” (GOUVÊA, 2001, p. 3). Desse modo, o negro é um personagem “[...] sempre presente, mesmo como coadjuvante, nas narrativas destinadas às crianças do período” (década de 20). Dentro de tal caracterização, Gouvêa (2001, p. 3) coloca que enquanto “[...] a modernidade é associada a urbanidade, progresso, técnica, ruptura, o negro vem a se associar a significantes opostos que falam de tradição e ignorância, de universo rural, de mundo antigo”. O negro real, criança, jovem, adulto ou idoso, que sofre as conseqüências da rejeição social em virtude do passado escravo, não aparece nos textos, mas, sim, o “negro mítico”, logo, “[...] negado de sua concretude, mas reificado e folclorizado no imaginário lendário” (GOUVÊA, 2001, p. 3).

A partir da década de 30 é que se torna maciça a presença de personagens negros na literatura infanto-juvenil brasileira. De acordo com Gouvêa (2001, p. 4), eles aparecem “[...] sobretudo como contadores de histórias, demonstrando a forte presença de traços associados à cultura negra, como a oralidade, à transmissão de histórias de origem africana”. Tia Nastácia se insere nessa perspectiva na obra de Lobato, afinal, é ela a preta velha ingênua, folclorizada, representante do povo. Tanto é que Pedrinho diz: “- Tia Nastácia é o povo”. Logo, o personagem expressa seu desejo: “Estou com idéia de espremer Tia Nastácia para tirar o leite do folclore que há nela”. Mas, enquanto representante do povo, e negra, Nastácia sofre rejeição por alguns personagens. Dentre eles, Emília que, indignada, diz:

- Só aturo estas histórias como estudo da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e bárbaras de negra beiçuda, como Tia Nastácia [...]. (LOBATO, apud GOUVÊA, 2001, p. 4)

É diante da percepção de Nastácia (o povo), pelos personagens do Sítio que ela fica em condição de inferioridade em relação a D. Benta, símbolo do conhecimento livresco, dos valores eurocêntricos.

Ausência de nome (c). Logo, “[...] o nome dos personagens negros é substituído por vocábulos como: negro, o negrinho, o preto, a negra, a negrinha, o preto velho, a negra velha” (GOUVÊA, 2001, p. 8), o que implica sua generalização em detrimento da singularização, da identidade, como se todos fossem iguais.

Corpo animalizado (d). Quer dizer, faz-se alusão à “raça” negra na produção de Lobato, por exemplo, através de referências ao “beiço de Tia Nastácia”. Para Gouvêa (2001, p. 8) isso implica uma “[...] desqualificação do negro, comparado ao branco”. E acrescenta:

Na verdade, a uma suposta inferioridade estética corresponderia uma desqualificação cognitiva. [Pois ao] animalizar os personagens negros, os autores reproduzem uma representação que associa tal inferioridade a uma menor capacidade cognitiva.

Negro = criança grande (e). Ainda em Lobato, Tia Nastácia é associada a uma criança por D. Benta, quando Nastácia atribui as asneiras de Emília ao “paninho ordinário” que utilizou para fazê-la. Então, “D. Benta olhou para Tia Nastácia dum certo modo, como que achando aquela explicação muito parecida com as de Emília” (LOBATO, apud GOUVÊA, 2001, p. 8).

Autopercepção inferiorizada (f). Nesse sentido, o negro tem vergonha de sua “cor”. Uma fala de Narizinho evidencia isso. Ela, ao justificar a ausência de Tia Nastácia diz: “Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, de ser preta” (LOBATO, apud GOUVÊA, 2001, p. 10). Se o negro tem um corpo animalizado, simboliza o povo, no sentido pejorativo, é associado a uma criança, em seu nível cognitivo, e o conhecimento que detém, quando detém, é dado pelo representante do branco, a sua presença nessa produção literária infanto-juvenil é, portanto, depreciativa, inferiorizada e estigmatizada.

Diante das características atribuídas aos personagens negros no período lobatiano (como já evidenciei), Gouvêa (2001, p. 10) conclui que se reproduz “[...] na literatura infantil uma representação social das relações inter-raciais no Brasil, representações em que uma visão racista e etnocêntrica se faz presente, de maneira sutil, escapando à idealização pretendida pelos autores”. Buscou-se, então, resgatar a cultura negra nas narrativas da época, porém esse resgate foi permeado pelo racismo e depreciação do povo negro através da caracterização dos personagens, no século XIX e início do XX, conforme mostrado anteriormente.

Enfim, é pertinente afirmar que, embora a crítica literária infanto-juvenil reconheça a inegável importância da produção de Lobato, e seja imprescindível registrar a valorização de sua obra, por outro lado, é também necessário analisar a forma como o personagem negro é aí tratado. Afinal, outros autores retomarão a temática étnico-racial e, cada um, ao inserir esse personagem em um determinado contexto sociocultural, acaba dando indícios para que o leitor (re)crie uma percepção do negro no contexto aludido; logo, tecido nos fios da trama. Foi com essa intenção que enfoquei a produção literária de Lobato.”

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É isso!


Fonte:
MARIA ANÓRIA DE JESUS OLIVEIRA: "NEGROS PERSONAGENS NAS NARRATIVAS LITERÁRIAS INFANTO-JUVENIS BRASILEIRAS: 1979-1989". (Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade (PEC), da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, para obtenção do título de Mestre em Educação, tendo como Orientador o Prof. Dr. Wilson Roberto de Mattos e Co-orientadora a Profa. Dra. Ana Célia da Silva). Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Salvador – Bahia, 2003.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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