Darwin no “Sítio do Pica-Pau Amarelo”

É mais que notório que o autor do prestigiado “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, Monteiro Lobato, era declaradamente um darwinista social e, portanto, um eugenista. Esses traços ideológicos do também criador de “Jeca Tatu” ficam mais que explícitos em seu livro “O Presidente Negro”. Por exemplo: “Até essa época a população negra representava um sexto da população total do país. A predominância do branco era pois esmagadora e de molde a não arrastar o americano a ver no negro um perigo serio. Mas com o proibicionismo coincidiu o surto das idéias eugenísticas de Francis Galton. As elites pensantes convenceram-se de que a restrição da natalidade se impunha por mil e uma razões, resumíveis no velho truísmo: qualidade vale mais que quantidade. Deu-se então a ruptura da balança. Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Foi a maré montante do pigmento. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso” (Editora Brasiliense, 1979, p. 75). E também: “O choque das raças fora prevenido, o que valeu por nova vitória da eugenia. A sociedade, livre de tarados, viu-se no momento do embate isenta dos perturbadores ao molde dos retóricos e fanáticos cujas palavras outrora impeliam as multidões aos piores crimes coletivos. A exasperação branca do primeiro momento breve desapareceu. O bom senso tomou pé e o ariano pôde filosofar com a necessária calma” (p. 165).

A expressão extraída da última citação (“a sociedade, livre de tarados...”) leva-me diretamente a um texto extraído do “A Origem do Homem”, do naturalista Charles Darwin, que também deixa evidente seus ideais eugenistas de melhoria da “raça humana”. Escreveu ele,: “No que diz respeito às qualidades morais, a eliminação das piores disposições está sempre aumentando também nas nações mais civilizadas. Os malfeitores são justiçados ou lançados na prisão durante longos períodos, a fim de não poderem transmitir livremente as suas más qualidades. Os hipocondríacos e os loucos são confinados ou suicidam-se. Os violentos e os briguentos encontram muitas vezes um triste fim. Os vadios que não têm nenhuma ocupação estável — e este resto de barbárie representa um grande obstáculo para a civilização — emigram para países há pouco colonizados, onde se transformam em úteis pioneiros” (Hemus Editora, 1974, p. 165).

Toda a obra lobatiana está de algum modo influenciada pelos ideais evolucionistas, inclusive àquelas dirigidas ao público infantil. Em “Histórias de Tia Nastácia”, por exemplo, há duas referências à personagem Pedrinho, ligando-o diretamente à obra de Charles Darwin e ao seu “mantra evolutivo" denominado “sobrevivência do mais apto”. Veja-se em:

O diabo é o símbolo da maldade, mas até a maldade amansa quando em companhia da bondade. De viverem juntos ali na capelinha, o santo e o diabo se transformaram em amigos, e os bons sentimentos de um passaram para o outro.
— Influência do meio! — gritou Pedrinho, que andava a ler Darwin (Editora Brasiliense, 2002, p. 54).

E mais adiante:
— Gostei, gostei! — exclamou Emília. — Não tem nada de boba essa historinha. É uma luta de esperteza contra esperteza, em que o mais esperto saiu ganhando. Pedrinho sabe o que isto significa em linguagem científica. Diga lá, Pedrinho.
E o menino, que era um darwinista levado da breca, veio logo com a sua cienciazinha.
Isso significa a vitória do mais apto. O mais apto é o mais esperto (ibidem, p. 67).

Sou um enorme apreciador da literatura de Monteiro Lobato, e sei o quanto suas idéias foram também reflexo direto de um contexto histórico no qual o racismo, sob a falsa aparência de ciência, exerceu forte influência entre muitos outros escritores brasileiros, dentre os quais se incluem o grande Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”. Dito isso, mantenho meu olhar crítico sobre todos eles, afinal, alienação nunca fez bem a ninguém.

É isso!

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