Showing posts with label MIGUEL DE CERVANTES. Show all posts
Showing posts with label MIGUEL DE CERVANTES. Show all posts

A assimilação dos conselhos de dom Quixote e o governo de Sancho Pança



“O comportamento de Sancho Pança ao longo dos capítulos é ambíguo. Suas palavras não são condizentes com suas atuações. Elas estão baseadas nos saberes populares de que dispõe, aliados aos conselhos dados por seu amo, antes de assumir e também durante seu governo. Já suas atuações baseiam-se nos conselhos dados por dom Quixote e também na interpretação, muitas vezes aguda, que fez desses conselhos.

O aconselhamento que faz dom Quixote a Sancho nos remete às práticas de aconselhamento de príncipes, relatadas, por exemplo, em O Cortesão, de Castiglione. Os conselhos têm a função de fornecer ao príncipe elementos suficientes para que este possa fazer o bom governo de si mesmo e das cidades. Assim, os conselhos de dom Quixote a Sancho coincidem com o tipo de conselho dado pelo cortesão ao príncipe, ainda que, como sabemos, nem dom Quixote é um cortesão, nem Sancho é, na realidade, um príncipe, embora tenha sido alçado a essa condição devido à armação realizada pelos Duques. A atuação de Sancho no capítulo XLII começa quando ele é notificado pelo Duque de que está pronto para assumir o governo da ilha. Nesse momento, Sancho fala ao Duque de uma maneira que demonstra reflexão. Ao se referir ao governo da ilha e, conseqüentemente, ao poder, diz:

“Después que bajé del cielo [referindo-se ao episódio de Clavilenho], y después que desde su alta cumbre miré la tierra y la vi tan pequeña, se templó en parte en mí la gana que tenía tan grande de ser gobernador, porque ¿qué grandeza es mandar en un grano de mostaza, o qué dignidad o imperio el gobernar a media docena de hombres tamaños como avellanas que, a mi parecer, no había más en toda la tierra?”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLII, p. 338.)

A fala de Sancho no fragmento anterior surpreende pelo fato de que, até onde sabemos, ele tem poucas informações sobre o mundo em geral. Constatar a grandeza da Terra e notar, a partir daí, a pequenez de mesmo a maior de todas as ilhas, requer a utilização de um raciocínio agudo e entremeado de conexões, o que não seria comum a Sancho Pança.

Independentemente da reflexão realizada, Sancho se mostra disposto a governar a ilha, e quer fazê-lo somente para experimentar qual o gosto de ser governador. Nesse primeiro instante, deixa claro que não está assumindo o governo por cobiça ou ganância. O que o atrai para o exercício do governo é a possibilidade de mandar, coisa totalmente nova para ele, que era um simples lavrador e, depois de alçado à condição de escudeiro, também sempre deveu obediência a seu amo. Sancho deseja o poder pela possibilidade que ele oferece de mandar em vez de ser mandado. Diz que imagina que é bom mandar, ainda que seja a um rebanho de gado.

Nesse momento, o fato de querer assumir o governo da ilha somente pela possibilidade de mandar reflete uma atitude imprudente por parte de Sancho, pois ele não pensa nas conseqüências decorrentes de eventuais más atitudes no governo. Em nenhum momento ele faz uma avaliação ponderada da situação em que se encontra para ver se tem ou não condições de assumir o governo. Porém, a imprudência de Sancho aí está vinculada à oscilação característica dos personagens cervantinos que ora realizam reflexões extremamente pertinentes e agudas, ora agem como a mais torpe das criaturas.

Quando notificado de que assumiria o governo, Sancho não demonstrou estar preocupado em enquadrar a sua figura à de um governador. Ao ser informado pelo Duque de que naquela mesma tarde seus criados lhe trariam os trajes que levaria ao governo, reage dizendo: “— Vístanme como quisieren; que de cualquier manera que vaya vestido seré Sancho Panza.” (Don Quijote de la Mancha, v. II, XLII, p. 339.) Não devemos tomar a atitude de Sancho como uma espécie de rebeldia. O que ocorre, de fato, é que ele estava muito centrado em si mesmo e em seus valores, deixando de notar que, ao passar a exercer o cargo de governador, ganharia uma posição de destaque, a qual requeria que seu ocupante se adequasse não só em termos morais, mas também em relação à aparência física. Sancho não dispunha de nenhum traquejo social, e sua condição de lavrador o impedia de reconhecer importância naquelas práticas ali explícitas. Ele pensa poder assumir o governo sem promover nenhum tipo de alteração em si mesmo, o que vai contra as práticas discretas do ambiente de corte. Como vimos, o cuidado com a aparência e a habilidade no trato social constituem requisitos fundamentais para o trânsito adequado em determinados ambientes sociais, como o palácio ducal ou o ambiente de seu governo.

A rusticidade de Sancho traz consigo um grande nível de sinceridade e autenticidade. Ele parece ter uma existência calcada puramente na essência, desprezando o ser social que deveria habitar sua pessoa. Ao conversar com o Duque que procurava lhe mostrar que, para o exercício do governo, as armas e as letras eram igualmente necessárias, Sancho revela, sem nenhum pudor, sua condição de quase analfabeto, dizendo:

“— Letras, pocas tengo, porque aún no sé el A, B, C; pero bástame tener el Christus en la memoria para ser buen gobernador. De las armas, manejaré las que me dieren, hasta caer, y Dios delante.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLII, p. 339.)

Pelo dito acima, inferimos que Sancho quer e acha possível ser governador utilizando somente sua experiência de vida, uma vida simples e bastante diferente daquela sociedade em que se encontrava naquele momento.

No decorrer da conversa entre Sancho e o Duque, entra dom Quixote, o qual, percebendo o que estava acontecendo, numa atitude prudente, retira seu escudeiro e o conduz a um local reservado, com a finalidade de aconselhá-lo para que se saia bem no governo.

No início da conversa com dom Quixote, Sancho parecia muito entusiasmado pelo governo da ilha e teve dificuldade para se concentrar e começar a ouvir seu amo. Durante o aconselhamento, Sancho não consegue se limitar a ouvir e, muitas vezes, comenta os conselhos dados por dom Quixote de uma maneira que irrita seu amo.

O primeiro comentário de Sancho se refere à origem daqueles que governam. Ele parece não se sentir incomodado pelo fato de ter origem humilde, pois parece ter consciência de que nem todos os que governam têm origem nobre. Esse fato parece garantir certa comodidade a Sancho, pois visualiza ser possível exercer o governo mesmo possuindo sua origem e sua condição.

No início do capítulo XLIII, Sancho se porta de maneira diferente da que estávamos acostumados a vê-lo anteriormente. Agora parece mais contido e concentrado, como nos informa o narrador ao dizer que “atentísimamente le escuchaba Sancho [referindo-se a dom Quixote] y procuraba conservar en la memoria sus consejos como quien piensa guardarlos y salir a buen parto de la preñez de su gobierno”. (Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 343.) Nesse aspecto, apesar de não mudar em essência, parece que os primeiros conselhos de dom Quixote já lhe haviam surtido algum efeito, o que fez com que se concentrasse mais para ouvi-los.

Sancho parece entender os conselhos de seu amo no que se refere a manter-se limpo e com as unhas cortadas, vestir-se adequadamente a si e a seus pajens, não comer nem beber demasiadamente. Porém, confunde-se quando dom Quixote fala sobre os hábitos à mesa. Diante do conselho de não erutar à mesa, Sancho manifesta sua ignorância, dizendo a seu amo que não entendia o significado daquela palavra. Após a explicação de dom Quixote, o escudeiro promete adotar a prática sugerida.

O desconhecimento de uma palavra que leva a uma prática tão desastrosa a um discreto confirma mais uma vez que Sancho não dominava as regras do ambiente ao qual estava prestes a ser lançado. O conhecimento da palavra erutar demandava certo nível de erudição, o qual Sancho não possuía e ao qual nem dava importância.

O jeito contido que Sancho apresentava no início do capítulo não se mantém por muito tempo. Falastrão e intrometido, Sancho interrompe várias vezes dom Quixote durante o aconselhamento. Além disso, crê-se no direito de achar que pode escolher entre os conselhos de dom Quixote aqueles que pretende seguir. Em relação ao erutar, por exemplo, Sancho diz: “— En verdad, señor, que uno de los consejos y avisos que pienso llevar en la memoria ha de ser el de no regoldar, porque lo suelo hacer muy a menudo.” (Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 344.)

Sancho admite concessões às práticas sociais somente quando as que possui lhe parecem extremamente inadequadas. Pelo que se vê, ele se guia pelos seus valores e princípios e é muito refratário a algumas interferências vindas de seu amo. Dessa forma, seria pouco provável que conseguisse atingir o nível de erudição e sutileza necessários a um indivíduo discreto, pois não estava aberto ao aprendizado de que necessitava.

Dando seqüência aos acontecimentos do capítulo XLIII, a conversa entre dom Quixote e Sancho transcorria de forma tranqüila até o momento em que o cavaleiro fez referência à linguagem utilizada pelo escudeiro, dizendo-lhe que não devia utilizar em suas conversas a grande quantidade de provérbios que lhe saíam pela boca aos borbotões, e que representavam mais uma de suas tantas indiscrições. O nível de linguagem de Sancho e a conseqüente utilização de muitos provérbios eram próprios do meio popular em que ele vivia, e que já havia se constituído em um hábito muito arraigado, difícil de ser remediado. De tão característico, é quase impossível, inclusive ao leitor, imaginar Sancho Pança sem utilizar seus provérbios. O próprio Sancho reconhece a dificuldade de abandonar tal prática:

“— Eso Dios lo puede remediar, porque sé más refranes que un libro, y viénenseme tantos juntos a la boca cuando hablo, que riñen, por salir, unos con otros; pero la lengua va arrojando los primeros que encuentra, aunque no vengan a pelo. Más yo tendré en cuenta de aquí adelante de decir los que convengan a la gravedad de mi cargo; que en casa llena, presto se guisa la cena; y quien destaja no baraja; y a buen salvo está el que repica; y el dar y el tener, seso ha menester.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 344.)

Nesse fragmento, Sancho parece tentar fazer uma concessão a fim de evitar a utilização de provérbios que não correspondam à situação, mas, em seguida, com sua oscilação e descuidos característicos, desfere a dom Quixote uma série de provérbios que, como o próprio Sancho diz, estavam brigando entre si para ver qual deles saía primeiro.

Após seu amo ter terminado de aconselhá-lo, Sancho o surpreende de novo, dizendo-lhe que os conselhos são muito bons e proveitosos, mas de que lhe hão de servir, se não consegue se lembrar de nenhum deles? Essa fala de Sancho nos remete novamente à sua origem humilde, pois em sua vida como lavrador estava acostumado ao exercício de uma sabedoria prática. O contato com elementos mais eruditos dificultava que o escudeiro os memorizasse, pois alguns deles não faziam o menor sentido para ele, conforme ele mesmo afirma:

“(...) Verdad sea de aquello de no dejarme crecer las uñas y de casarme otra vez, si se ofreciere, no se me pasará del magín; pero esotros badulaques y enredos y revoltillos, no se me acuerda ni acordará más dellos que de las nubes de antaño, y así, será menester que se me den por escrito; que puesto que no sé leer ni escribir, yo se los daré a mi confesor para que me los encaje y recapacite cuando fuere menester.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 345.)

Pelo dito acima, mais uma vez notamos que Sancho não interioriza totalmente os conselhos dados por seu amo e tem dificuldade de reconhecer a utilidade de alguns deles. Apenas mostra a intenção de segui-los, em virtude da confiança que deposita em dom Quixote, a quem de alguma maneira substituirá pelo confessor quando estiver no governo e longe de seu amo.

Apesar de dom Quixote insistir sobre quão pernicioso é a um governante o fato de não saber nem ler nem escrever, Sancho o retruca dizendo-lhe que isto não o fará falta no exercício de seu governo, pois, por meio de sua liberalidade, conseguirá disfarçar suas faltas. Sobre isso, Sancho declara:

“— Bien sé firmar mi nombre; que cuando fui prioste en mi lugar, aprendí a hacer unas letras como de marca de fardo, que decían que decía mi nombre; cuanto más que fingiré que tengo tullida la mano derecha, y haré que firme otro por mí; que para todo hay remedio, si no es para la muerte; y teniendo yo el mando y el palo, haré lo que quisiere; cuanto más el que tiene el padre alcalde... Y siendo yo gobernador, que es más que ser alcalde, ¡llegaos, que la dejan ver! No, sino popen y calóñenme; que vendrán por lana, y volverán trasquilados; y a quien Dios quiere bien, la casa le sabe; y las necedades del rico por sentencias pasan en el mundo; y siéndolo yo, siendo gobernador y juntamente liberal, como lo pienso ser, no habrá falta que se me parezca. No, sino haceos miel, y paparos han moscas; tanto vales quanto tienes, decía una mi agüela; y del hombre arraigado no te verás vengado.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 346.)

Nesse fragmento, Sancho faz uma série de considerações importantes. A primeira é fazer uso de algum artifício para disfarçar algo que lhe falta. Se é importante que o governante saiba ler e Sancho não o sabe, a saída encontrada pelo escudeiro é a utilização de algum artifício que possa ajudá-lo a disfarçar a sua falta. Sancho procura utilizar-se de um recurso que lhe permita ocultar algo indesejado. Porém, apesar de, nesse caso, referirmo-nos às noções de artifício e aparência, não as podemos tomar no sentido graciano, as quais estão vinculadas a práticas honestas, e não à fabricação de situações enganosas como as propostas pelo escudeiro.

O segundo aspecto interessante é que Sancho pretende ser um governador cuja liberalidade também terá a função de disfarçar suas faltas, o que talvez não seja uma prática muito benéfica ao governante.

Por último, retomando a citação, ao dizer que “las necedades del rico por sentencias pasan en el mundo”, Sancho declara conhecer uma noção de poder em que o governante, por mais ignorante que seja, é acatado, pelo simples fato de ser governante e ter o poder. Porém, parece-nos que essa frase de Sancho é apenas uma constatação, fruto de seu entendimento sobre o poder. Por tudo que já havia dito, não parece que ele concorde com isso ou pretenda se utilizar exatamente desse artifício em seu governo.

Apesar de pretender usar do artifício para disfarçar suas faltas, diante de seu amo Sancho não tem pudores de admiti-las. Referindo-nos especificamente aos refrãos, talvez Sancho não os desqualifique pelo fato de eles representarem o único patrimônio de que dispõe:

“— Por Dios, señor nuestro amo – replicó Sancho –, que vuesa merced se queja de bien pocas cosas. ¿A qué diablos se pudre de que yo me sirva de mi hacienda, que ninguna otra tengo, ni otro caudal alguno, sino refranes y más refranes?”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 346.)

Nesse capítulo, Sancho ainda tem um embate final com dom Quixote, do qual sai vitorioso em virtude da astúcia e do entendimento que manifesta a seu amo sobre sua situação e a situação futura de governo. Ao se irritar com Sancho, dom Quixote sinaliza que poderia contar ao Duque sobre seu despreparo para assumir o governo. A reação de Sancho diante de tal situação nos surpreende pelo bom entendimento que demonstra e pelos pensamentos concatenados que possui. Respondendo a dom Quixote, ele diz:

“— Señor – replicó Sancho –, si a vuestra merced le parece que no soy de pro para este gobierno, desde aquí le suelto; que más quiero un solo negro de la uña de mi alma, que a todo mi cuerpo; y así me sustentaré Sancho a secas con pan y cebolla, como gobernador con perdices y capones; y más, que mientras se duerme, todos son iguales, los grandes y los menores, los pobres y los ricos, y si vuestra merced mira en ello, verá que sólo vuestra merced me ha puesto en esto de gobernar; que yo no sé más de gobiernos de ínsulas que un biultre; y si se imagina que por ser gobernador me ha de llevar el diablo, más me quiero ir Sancho al cielo que gobernador al infierno.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, XLIII, p. 348.)

Após a resolução do impasse criado por Sancho, por meio do qual relembra dom Quixote que ele, Sancho, não tinha aspirações a governar nada antes de conhecê-lo, o capítulo XLIII se encerra com uma fala de dom Quixote totalmente favorável a Sancho, que o havia surpreendido com suas colocações. Apesar de conhecer as falhas de seu escudeiro, dom Quixote volta a apoiá-lo e a reconhecer que Sancho parece ter condições de assumir o governo. Segundo dom Quixote, Sancho poderá superar suas falhas em virtude de possuir uma inclinação natural para o bem.

O capítulo LI, como dito em outro momento deste trabalho, passa-se durante o governo de Sancho, no qual ele prudentemente coloca em prática não só os conselhos fornecidos por seu amo, mas também uma interpretação muito perspicaz e discreta deles. Os conselhos de dom Quixote, por si só, não surtiriam efeito caso Sancho não tivesse recursos para interpretá-los e colocá-los em prática de maneira adequada à ocasião.

Nesse capítulo, aparecem de forma muito clara a oscilação e a ambigüidade de Sancho em relação à discrição. Se, por um lado, ele se mostra totalmente avesso a algumas práticas sociais, às quais chega a se referir como sendo “badulaques, enredos y revoltillos”, por outro lado demonstra uma perspicácia própria de um discreto, na interpretação de situações. Sancho Pança, um indiscreto por excelência, em seu governo surpreende pela discrição demonstrada em algumas ocasiões.

No início do capítulo LI, o narrador nos informa sobre a surpresa que o governo de Sancho estava causando até mesmo entre os que estavam participando da farsa. No governo, segundo nos mostra o narrador, as atitudes e palavras de Sancho sofriam oscilações que iam do discreto ao tonto, confirmando o que acabamos de dizer sobre Sancho no tocante à discrição. Porém, pelo que efetivamente se fala do governo do escudeiro, a discrição ocupa muito mais espaço que a tonteria.

Na condição de governador, Sancho se submetia ao que lhe diziam ser bom para realçar seu engenho. Ainda que algumas coisas não fizessem muito sentido para ele, assumiu sua função de governador com todo o ônus que esta lhe trazia. Não foram poucos os sofrimentos de Sancho. O doutor Pedro Recio, por exemplo, o fazia comer conserva e água fria como desjejum.

Em relação a isso, mais uma vez nos deparamos com a falta de autonomia de Sancho, o que era arriscado para um governante. Justamente pelo seu pouco conhecimento, não tinha discernimento sobre algumas práticas e situações. Sancho era uma pessoa extremamente crédula e, durante seu governo, manteve a mesma forma de comportamento, deixando de reconhecer a artificialidade de algumas situações. O fato de ter de depender de outros para algumas práticas fez com que ele tivesse sofrimentos que poderiam ser evitados caso tivesse o pleno controle das situações e conhecesse mais as práticas do meio em que vive. Mas, apesar do seu sofrimento, encara as atribuições de seu governo quase como uma missão, mesmo que as maldiga em um segredo íntimo.

Como dito anteriormente, algumas atitudes no governo de Sancho surpreendiam. Uma dessas surpresas pode ser representada pela solução encontrada em um de seus julgamentos.

O caso que apresentaram a Sancho era o seguinte: sobre um rio havia uma ponte que, para ser transposta, era necessário que o transeunte declarasse aonde ia e o que ia fazer. Se jurasse verdade, passaria sem problemas; se jurasse mentiras, seria duramente castigado. Sabendo das regras, um forasteiro quis passar pela ponte e, durante seu juramento, declarou que sofreria os castigos impostos aos que mentem. Diante de tal situação, os juízes se perguntavam qual seria a sentença correta, pois, caso permitissem que o forasteiro passasse, ele teria jurado em falso e deveria ser castigado. Mas, por outro lado, o forasteiro dissera que seria castigado e, portanto, jurou verdade. Como não houve consenso entre os juízes sobre aplicar ou não o castigo ao homem, coube a Sancho dar a sentença final. Sancho ouviu atentamente o relato e, diante do exposto, considerou que o homem deveria ser absolvido e condenado ao mesmo tempo. Dada a impossibilidade da execução de tal sentença, Sancho decide absolver o forasteiro, pois, se naquele caso, tanto a absolvição quanto a condenação teriam pertinência, o mais conveniente era decidir pela absolvição, pois, segundo Sancho, “siempre es alabado más el hacer el bien que el mal”.

Para chegar a tal sentença, Sancho raciocina e avalia cuidadosamente a situação, demonstrando grande capacidade de análise e discernimento para que pudesse chegar a uma sentença justa. Ao final, decide favoravelmente ao réu, seguindo, além de sua inclinação natural ao bem, o conselho de dom Quixote, o qual lhe recomendava clemência diante de um condenado ou que, havendo dúvidas quanto à condenação, se decidisse favoravelmente ao réu.

Houve outra situação em seu governo em que teve de aplicar a justiça. Referino-mos ao caso da mulher que, vendendo avelãs na praça, misturava frutas podres às boas e as vendiam todas juntas. Nesse caso, Sancho exigiu que se separassem as frutas boas das ruins e, como pena, sentenciou a mulher a não entrar na praça por quinze dias.

Como se vê, Sancho soube aplicar à mulher uma pena compatível com o delito cometido, o que vai ao encontro dos preceitos de justa medida, bom senso e moderação na aplicação da justiça.

Durante seu governo, Sancho demonstra uma confiança admirável em sua capacidade. Após a resolução do caso do forasteiro, parece animado e disposto a continuar decidindo sobre as questões de governo. Em determinado momento, diz a seu pajem: “(...) lluevan casos y dudas sobre mi, que yo las despabilaré en el aire”.

Apesar de falastrão e incontido em relação a muitos elementos, Sancho sabe da importância de seu cargo e de manter segredo sobre algumas questões de governo. Isso se nota quando ele recebe uma correspondência de dom Quixote. Nessa ocasião, pede a seu secretário que leia a carta primeiro para si próprio e, caso note que não existe nenhum segredo nela, que a divulgue entre todos os presentes. O secretário procedeu à leitura silenciosa da carta e, não havendo nenhum segredo em questão, leu-a para os presentes. A referida carta continha elogios à atuação de Sancho e outros conselhos que seu amo havia julgado pertinentes.

Sancho ouviu com muita atenção a leitura da carta, à qual respondeu em seguida.

Na carta enviada a dom Quixote, o escudeiro realiza uma espécie de prestação de contas a seu amo. Logo no início, e fazendo referência a um conselho recebido dele, Sancho diz não estar tendo tempo sequer para coçar a própria cabeça ou cortar as unhas, as quais estavam extremamente crescidas. Lembremo-nos de que, nesse momento, Sancho se refere ao conselho de dom Quixote que fazia referência a determinados comportamentos inadequados, como coçar a cabeça ou manter as unhas compridas. Relata também a seu amo estar passando mais fome do que quando, juntos, andavam pelos campos. Apesar disso, em sua carta, Sancho mantém um tom bem-humorado, demonstrando que as adversidades que vêm enfrentando não têm sido suficientes para quebrantar seu espírito. Sua declaração também nos remete à visão que ele tinha sobre o poder antes de assumi-lo, a qual se mostra bem diferente da que pensava anteriormente. Para ele, o ato de governar parecia mais simples do que de fato é. Além disso, não tem provado de nenhuma regalia que pensava possível existir na condição de governador. Para Sancho, o exercício do governo produz uma espécie de desencanto, conforme atesta na declaração que dá a dom Quixote:

“— Finalmente, él [referindo-se ao doutor Pedro Recio] me va matando de hambre, y yo me voy muriendo de despecho, pues cuando pensé venir a este gobierno a comer caliente y a beber frío, y a recrear el cuerpo entre sábanas de Holanda, sobre colchones de pluma, he venido a hacer penitencia, como si fuera ermitaño, y como no la hago de mi voluntad, pienso que al cabo al cabo me ha de llevar el diablo.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, LI, p. 414.)

Devemos salientar em Sancho governador que o fato de o exercício do governo estar lhe causando grande desconforto não o impede de fazer o que pensa e sabe ser correto.

Sancho também não demonstra medo no exercício do governo. Na carta que envia a seu amo, diz-lhe que o Duque o avisara que havia alguém na ilha disposto a matá-lo. Sancho não só não se preocupa com a questão como também a trata de maneira bem humorada, quase irônica:

“— Escribióme el duque, mi señor, el otro día, dándome aviso que habían entrado en esta ínsula ciertas espías para matarme, y hasta ahora yo no he descubierto otra que un cierto doctor que está en este lugar asalariado para matar a cuantos gobernadores aquí vinieren; llámase el doctor Pedro Recio, y es natural de Tirteafuera: ¡porque vea vuesa merced qué nombre para no temer que he de morir a sus manos!...”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, LI, p. 414.)

Nessa citação, vemos que Sancho estabelece uma relação entre a idéia de que alguém quer matá-lo e a idéia de morrer de fome, sendo esta última, evidentemente, uma metáfora de seu sofrimento devido à privação da alimentação.

Em seguida, faz mais algumas considerações sobre seu governo, sua situação com os duques e a forma como pensa deixar o cargo de governador. Nesse momento, retoma em tom jocoso o que havia dito sobre o doutor Pedro Recio:

“— Y con esto, Dios libre a vuestra merced de mal intencionados encantadores, y a mí me saque con bien y en paz deste gobierno, que lo dudo, porque le pienso dejar con la vida, según me trata el doctor Pedro Recio.”
(Don Quijote de la Mancha, v. II, LI, p. 416.)

O capítulo termina com a notícia de que as armações dos duques relativas ao governo de Sancho estavam prestes a se encerrar, e Sancho prestes a voltar ao convívio de seu amo. Apesar de tudo se tratar de uma grande farsa, o governo de Sancho foi marcado pela honestidade, moderação, justiça, interpretação adequada de conceitos e de idéias e de uma disposição implacável para fazer o bem. Enfim, um governo marcado pela discrição."

---
Fonte:
VALÉRIA TINI: “A (IN)DISCRIÇÃO: ASPECTOS DO DECORO EM DOM QUIXOTE DE MIGUEL DE CERVANTES”. (Trabalho apresentado ao Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo para a obtenção do título de Mestre, sob a orientação da Profª. Drª. Maria Augusta da Costa Vieira). São Paulo, 2007.

Nota
:
A imagem (ilustração de Sancho Pança) inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

Disponível digitalmente no site: Domínio Público

A literatura picaresca



¿Qué mayor pobreza que andar bebiendo los vientos, echando trazas, acortando la vida y apresurando la muerte, viviendo sin gusto con aquella insaciable hambre y perpetua sed de buscar hacienda y honra. (Vicente Espinel. El pícaro Marcos de Obregón)

“Aproximar-se do conhecimento acerca da novela picaresca é entrar em contato com um dos temas mais interessantes que oferece a literatura espanhola, tanto por razões literárias quanto p
or razões de ordem histórica, social e cultural. Na segunda metade do século XVI e na primeira metade do século XVII, período em que apareceram os primeiros romances picarescos, a sociedade espanhola vivia o auge da monarquia absolutista, período do reinado de Carlos I, Felipe II, Felipe III e Felipe IV. Durante este período, desenvolve-se um processo de unificação e de centralização do poder que culmina com a queda do Reino de Granada (1492) e a expulsão dos árabes, últimos “intrusos” em território espanhol. A coroa espanhola chega ao seu apogeu, bem como as artes e as letras vivem um período priviligiado.

Entretanto, dentro da esfera social, enormes desigualdades. As camadas mais desfavorecidas ficam cada vez mais isoladas pelo abismo social criado pela impossibilidade de ascensão.

Na literatura ainda permanece a popularidade dos livros de cavalaria. Esses relatos giravam em torno de uma seqüência de aventuras heróicas do cavaleiro andante, defensor dos fracos, das donzelas e da cristandade. Protótipo do modo feudal de conquista, o cavaleiro era a garantia da preservação da sociedade estamental medieval, cujo reconhecimento social por meio do trabalho era inexistente.

Nesse contexto, o nascimento de uma tradição de textos que, de alguma forma, reage à fantasia das narrativas em voga. São pseudo-autobiografias de anti-heróis que contam suas vidas marginalizadas e sua luta pela sobrevivência. O relato em primeira pessoa dos romances picarescos coloca o leitor em contato com a experiência de um narrador personagem. Já no prólogo de
Lazaril o o convite a várias leituras, o que incita o leitor a tomar uma postura mais ativa e interpretativa diante do narrado.

Embora o texto de "Rinconete y Cortadil o" esteja em terceira pessoa, a passagem inicial da novela em que os protagonistas narram em primeira pessoa sua vida imediatamente remete o leitor da época ao gênero picaresco. Essas linhas de alguma maneira irmanam os clássicos pícaros Guzmán e Lazaril o a Rincón e a Cortado.

A
Vida de Lazaril o de Tormes y de sus fortunas y adversidades sai impressa em 1554 em Burgos, em Alcalá de Henares, em Antuérpia e em Medina del Campo. Há razões para pensar que pode ter existido uma edição anterior, por volta de 1553, porém não se conservou nenhum exemplar desta. Supõe-se que sua composição tenha ocorrido entre 1525 e 1550 partindo de alguns dados presentes no livro.

O nascimento da picaresca representa um rumo diferente para a prosa espanhola. O tema do cotidiano já aparecera na literatura, mas sempre em tom burlesco, como nas comédias; todavia, com o surgimento da picaresca, a vida cotidiana se transforma em matéria narrativa.

El Lazaril o, concebido como autobiografía miserable e irónica, perfectamente construida, se distingue por su apariencia coloquial en el manejo de materiales eruditos y tradicionales, aportando como novedad dar la voz a personajes que, en su época, no son dignos de ser escuchados ni nada tienen que decir que pudiera interesar a su auditorio. Sin embargo, de su originalidad y vanguardia, no es tomado más que el esquema, la estructura externa, su ‘realismo’, que contribuía a romper el statu quo narrativo renacentista del decoro. Los pícaros vinieron a deshacer la idealidad cabal eresca, bucólica, pastoril y cortesana, con la irrupción de ambientes y hablas coloquiales.

Lazaril o
divulgou-se prontamente e foi reimpresso muitas vezes. Sua popularidade estendeu-se além das fronteiras da Espanha, tendo sido traduzido para vários idiomas.

A narrativa picaresca apresenta como personagem central o pícaro, cujo sentido, em língua portuguesa, equivaleria a uma espécie de anti-herói ou malandro. Embora o vocábulo “pícaro” não apareça em Lazaril o uma única vez, em Guzmán de Alfarache, o termo se consolida e, em "Rinconete y Cortadil o", Cervantes já o utiliza para identificar seus personagens.

O protagonista do primeiro romance é Lázaro de Tormes, que conta a sua vida sem qualquer excepcionalidade. Nasce à beira do rio Tormes, perto de Salamanca. É filho de um moleiro ladrão que morre sem glória numa expedição militar e de uma viúva que se une a um homem que rouba para sustentá-los. Logo, a mãe de Lázaro o entrega a um cego para servir como guia e criado. Lázaro passa fome por conta da avareza do cego e tem que se valer da astúcia para sobreviver. Essa relação termina com uma brutal vingança de Lázaro, que escapa em busca de outros amos. Todo o passado de Lázaro é filtrado por seu presente, na medida em que guarda certa visão crítica dos fatos, já que seus olhos não são os mesmos da juventude e que narra os acontecimentos de uma perspectiva de aparente estabilidade,
la cumbre de la existencia, segundo ele mesmo.

A preocupação maior da trajetória de Lázaro está em matar a sua fome, uma espécie de
leit motiv do relato. Começando sem ter nada e contando apenas com sua astúcia, o pícaro ao final de sua vida consegue subir os degraus inferiores de uma classe que desfruta de certa estabilidade. Diferentemente de Rincón e Cortado, que pouco evoluem em sua trajetória picaresca na novela cervantina, Lázaro aprende com as suas desventuras, alcançando alguma “maturidade”, que inclusive lhe permite narrar sua trajetória com certo distanciamento crítico.

Mesmo sendo incluído em 1559 no
Index de livros proibidos, continuaram em voga edições de Lazaril o que chegavam do estrangeiro, e, em 1573, uma vez extraídas as partes censuradas (tratados IV e V, bem como algumas frases do restante da obra), autoriza-se sua edição, porém a mesma só retorna completa em 1834. Tal popularidade fez com que aparecesse uma continuação, também anônima, em 1555. Contudo, é necessário um intervalo de quase 50 anos para que surja uma obra a qual, seguindo a mesma poética do Lazaril o, faça com que se torne evidente o nascimento de uma nova tradição literária. Com a publicação de Guzmán de Alfarache de Mateo Alemán em 1599, que alcança enorme sucesso, fica delineado o gênero picaresco, pois a obra consolida, definitivamente, as características de forma e conteúdo presentes no Lazaril o. Isto ocorre efetivamente a partir do momento em que o leitor percebe algo em comum entre as duas obras e passa a classificá-las como narrativas do mesmo tipo ou gênero. Guzmán, como já se mencionou, é o primeiro a receber o título de pícaro, dado por seu próprio criador, denominação esta que não figura no título, mas na aprobación, o que faz com que, logo depois da sua publicação, a obra passe a ser conhecida, simplesmente, como “El pícaro”.

Sintomas talvez da mudança histórica ocorrida no decorrer dos quase 50 anos que separam a publicação das duas obras,
Guzmán de Alfarache apresenta significativas diferenças. A mais perceptível entre elas é a inserção na narrativa de numerosas digressões morais. Essas reflexões morais do narrador/personagem superam em extensão os fragmentos narrativos e tratam, em geral, da condição humana — a honra, a riqueza, a aparência etc. — com certo tom bíblico e estóico. Essa inserção talvez contribua para que haja outras diferenças: o relato se tornara mais extenso e o personagem, muito mais crítico.

A aventura de Guzmán é mais extensa que a de Lazaril o e inclui viagens mais longas. Seu destino nas galeras parece menos vantajoso, embora o pícaro aproveite esse período de trabalho forçado para refletir e escrever o seu relato. A segunda parte de
Guzmán de Alfarache é publicada em 1604, em resposta a uma edição apócrifa publicada por Mateo Luján de Sayavedra na mesma época. Também, no mesmo período, entre 1603 e 1604, começam a circular alguns manuscritos de El Buscón de Quevedo, que seria impresso mais adiante, em 1626. La Pícara Justina, de Francisco López de Úbeda, surge em 1605, e assim sucessivamente vão aparecendo relatos picarescos por toda a Espanha, confirmando o nascimento de uma importante tradição literária.

Nunca é demais destacar a importância da picaresca na formação do romance moderno ocidental. Essa importância deve ser sempre lembrada principalmente por seu caráter universal, já que o romance picaresco, além de se expandir por toda a Espanha, em sua época alcançou inclusive o resto da Europa. Na Alemanha, por exemplo, por volta de 1669, surge em Nuremberg O aventureiro Simplícimus
e A vivandeira Courasche, ambos de autoria de Hans Grimmelshausen (1621? - 1676), sendo que o segundo tem como protagonista uma pícara. Entre 1665 e 1671, na Inglaterra de Richard Head e Francis Kirkman, surge a obra The English Rogue, considerada de pouco valor literário, apoiada na poética da picaresca espanhola. No entanto, o texto que na literatura inglesa dessa época melhor se aproxima é Mol Flanders, de Daniel Defoe (1660-1731), publicado em 1772, ao lado de Coronel Jack, do mesmo autor.

Essa expansão fez com que esse tipo de relato fosse aos poucos adquirindo contornos mais definidos, de modo a constituir uma forma narrativa reconhecida como romance picaresco, que também encontrou ecos na literatura latino-americana. O primeiro romance dessa etapa mais moderna a ser apontado como pícaro foi
El periquil o Sarniento (1816), de José Joaquim Fernández de Lizardi, na literatura mexicana. A picaresca e a neopicaresca foram objetos de estudos recentes, como o de M. González, que encontra na literatura brasileira marcas da picaresca clássica espanhola.

No entanto ainda hoje há certa dificuldade em classificar prontamente se uma obra é ou não picaresca. Embora essa dificuldade seja inerente à quase qualquer tipo de catalogação de obras literárias dentro de determinados cânones, no caso do relato picaresco é preciso deter-se um pouco na questão, que inclusive a obra em estudo costuma ser incluída num certo tipo de picaresca. Desse modo, para este estudo é fundamental observar como os primeiros relatos picarescos se articulam dentro da tradição. E, apesar de poder haver muitas picarescas gravitando em torno de
Lazaril o de Tormes, a picaresca que interessa para fins deste trabalho é a que foi contemporânea a Cervantes.

Os estudos críticos, na maior parte das vezes, optaram por segmentar a picaresca, tentando de algum modo determinar com certo rigor os contornos do gênero iniciado por
Lazaril o e Guzmán. Foram surgindo inúmeras sugestões de classificação por tema, conteúdo, com digressão moral, sem digressão moral, com ou sem narração autobiográfica etc. Aqui não se pretende esmiuçar essas classificações, posto que foge do escopo deste trabalho, mas é preciso ao menos deixar claro que a picaresca conhecida por Cervantes foi sobretudo a de Lazarril o e a de Guzmán, ambas obras mencionadas pelo autor do Quixote. É muito provável que tenha tido contato também com a continuação anônima de Lazaril o de Tormes (1555) ou, ainda, com os primeiros manuscritos de El Buscón (que circulariam entre 1603 e 1604).

Mesmo em se tratando de um conjunto de obras tão pequeno aquele que Cervantes conheceu, há algumas divergências nesse campo, pois não há um acordo sobre a origem da literatura picaresca. Alguns afirmam que está na publicação de
Lazaril o de Tormes, outros, em Guzmán de Alfarache. Rico defende que a matriz do gênero picaresco não está nem em uma nem em outra, mas, sim, nasce da dialética que entre as duas, pois: En esa superposición el uno enriquecía el otro [...] en una dialética de influjos recíprocos”. Para o crítico, Guzmán tinha que primeiro seguir os passos de Lazaril o para que se tornasse evidente para os escritores e leitores da época o surgimento de uma tradição de textos, bem como se hiciera manifiesta la fórmula elemental de la novela picaresca”. Dessa forma, Rico defende para Lazaril o de Tormes e Guzmán de Alfarache o título de iniciadores do gênero picaresco.

Parker, num trabalho que causou polêmica, coloca
Lazarillo de Tormes como um precursor do gênero. Segundo ele, Lázaro não seria um pícaro, pois não é assim denominado dentro da obra. O primeiro pícaro para Parker seria Guzmán, o que gerou inúmeros debates entre os estudiosos de picaresca. Carreter dedicou um apêndice inteiro de seu trabalho Lazarillo de Tormes en la picaresca para discutir a posição de Parker:

La calidad de modelo o cabeza de género corresponde indubitablemente al “Lazaril o”, cuyo autor realizó una de lãs mayores proezas conocidas en la invención de un nuevo tipo de relato.

Para o desenvolvimento desta dissertação, entende-se, como Francisco Rico, que, do denominador comum existente entre
Lazaril o de Tormes e Guzmán de Alfarache, surge a matriz do gênero que atraiu a atenção de Cervantes.

Lázaro Carreter destaca que, curiosamente, um dos primeiros leitores de que se tem conhecimento a perceber que
Lazaril o e Guzmán pertenciam ao mesmo tipo de literatura foi Cervantes, que, no Quixote I, capítulo 22, no famoso episódio dos galeotes, faz uma importante alusão ao gênero picaresco: Es tan Bueno que mal año para Lazaril o de Tormes y para todos cuantos de aquel género se han escrito o escribieren.” Desse modo, a partir desse momento, o trabalho passa a abordar as relações existentes entre esse episódio do Quixote e a novela "Rinconete y Cortadilo".

---
Fonte:
Paula Renata de Araújo: "CERVANTES E A NOVA ARTE DE NOVELAR EM "RINCONETE Y CORTADILLO". ( Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola, Literaturas Espanhola e Hispanoamericana, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientadora: Profa. Dra. Maria Augusta da Costa Vieira). São Paulo, 2010.

Nota
:
A imagem (Ilustração de Ricardo balaca -
Biblioteca Nacional Digital do Brasil) inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

Alonso Quijano autor de Dom Quixote



“Antônio Candido (1995, pp. 51-79), em seu texto “A personagem do romance”, estabelece uma interessante classificação de personagens de acordo com o grau de afastamento em relação à realidade:

1) Personagens transpostas com relativa fidelidade de modelos dados ao romancista por experiência direta — seja interior ou exterior. O caso da experiência interior é o da personagem projetada, em que o escritor incorpora sua vivência, os seus sentimentos (...). O caso da experiência exterior é o da transposição de pessoas com as quais o romancista teve contato direto (...).
2) Personagens transpostas de modelos anteriores, que o escritor reconstitui indiretamente por documentação ou testemunho, sobre os quais a imaginação trabalha (...).
3) Personagens construídas a partir de um modelo real, conhecido pelo escritor, que serve de eixo, ou ponto de partida. O trabalho criador desfigura o modelo, que todavia se pode identificar (...).
4) Personagens construídas em torno de um modelo direta ou indiretamente conhecido, mas que apenas é um pretexto básico, um estimulante para o trabalho de caracterização, que explora ao máximo as virtualidades por meio da fantasia, quando não as inventa de maneira que os traços da personagem resultante não poderiam, logicamente, convir ao modelo. (...)
5) Personagens construídas em torno de um modelo real dominante, que serve de eixo, ao qual vêm juntar-se outros modelos secundários, tudo refeito e construído pela imaginação. (...)
6) Personagens elaboradas com fragmentos de vários modelos vivos, sem predominância sensível de uns sobre outros, resultando uma personalidade nova. (...)
7) Ao lado de tais tipos de personagens, cuja origem pode ser traçada mais ou menos na realidade, é preciso assinalar aquelas cujas raízes desaparecem de tal modo na personalidade fictícia resultante que, ou não têm qualquer modelo consciente, ou os elementos eventualmente tomados da realidade não podem ser traçados pelo próprio autor (...). [Trata-se do arquétipo]. [pp. 71-73].

Aplicando a teoria de Candido às personagens cervantinas, veremos que muitas delas são baseadas em modelos reais. Ginés de Pasamonte, por exemplo, é apontado por alguns críticos como tendo sido inspirado em Jerómino de Pasamonte, uma pessoa com quem o autor teve contato direto, pois foi seu companheiro de cativeiro em Argel. Outra personagem histórica é Roque Guinart, um famoso bandoleiro catalão, contemporâneo de Cervantes; nesse caso, não sabemos qual o grau de conhecimento que Cervantes teria do bandoleiro. Dom Quixote, por sua vez, foi criado, por um lado, a partir de modelos reais — um tio da esposa de Cervantes, chamado “Quijano”, que adorava ler livros de cavalarias e, como vimos, dos cômicos italianos Botarga e Ganassa —, e, por outro, a partir de uma projeção do próprio autor. Cervantes, fracassado e desiludido, divide-se entre as letras e as armas, projetando-se em um Dom Quixote-Alonso Quijano igualmente desiludido e dividido entre seu entusiasmo pelos livros de cavalaria e seu desejo de tomar armas e lutar por um mundo mais justo.

Entretanto, no universo das personagens cervantinas, notamos que elas não estão todas no mesmo plano. Algumas se movem dentro da realidade ficcional de Alonso Quijano-Dom Quixote, como, por exemplo, Sancho, a ama, a sobrinha, o estalajadeiro, os duques, e muitos outros. Algumas personagens estão relacionadas aos diversos níveis de narração: Cide Hamete, o narrador cristão, o tradutor que também interfere na narração, os narradores anônimos (os apócrifos e a voz popular introduzida pela expressão: “dicen que...”). ainda personagens que se desdobram como Dorotéia que também é a princesa Micomicona ou Alonso Quijano que também é Dom Quixote.

Como sabemos, no primeiro capítulo da primeira parte, o fidalgo Alonso Quijano enlouquece, contaminado pela leitura dos livros de cavalaria aos quais era aficionado. Embora Dom Quixote cresse que Dom Belanís tivesse o rosto e o corpo cheio de cicatrizes das feridas que recebeu, admirava seu autor que, ao final da obra, prometia uma continuação das aventuras:

Pero, con todo, [Don Quijote] alababa en su autor aquel acabar su libro con la promesa de aquel a inacabable aventura, y muchas veces le vino deseo de tomar la pluma y dal e fin al pie de la letra como al í se promete; y sin duda alguna lo hiciera, y aun saliera con el o, si otros mayores y continuos pensamientos no se lo estorbaran.
[I, 1].

Mais adiante, ficamos sabendo que esses “otros mayores y continuos pensamientos”, que o impediam de tomar a pena e escrever a continuação da história de Don Belianís, referiam-se a sua decisão de “hacerse cabal ero andante y irse por todo el mundo con sus armas y cabal o a buscar las aventuras” [I, 1].

Alonso Quijano abandona seu projeto inicial de escrever um livro de cavalaria por outro, mais ousado, que é viver um livro de cavalaria. No primeiro capítulo, Alonso Quijano procede como um escritor, planejando sua história (“Imaginábase el pobre ya coronado por el valor de su brazo...” [I,1]) e criando suas personagens.

Nesse primeiro momento, as personagens criadas são inspiradas em modelos reais. Seu velho e doente pangaré é o modelo real para a criação de sua personagem Rocinante. Notemos que até o processo de criação dessa personagem assemelha-se ao ato criador do escritor. Ao escolher o nome do cavalo, Alonso Quijano:

(...) después de muchos nombres que formó, borró y quitó, añadió, deshizo y tornó a hacer en su memoria e imaginación, al fin le vino a l amar “Rocinante”, nombre a su parecer, alto, sonoro y significativo de lo que había sido cuando fue rocín, antes de lo que ahora era, que era antes y primero de todos los rocines del mundo [I,1].

O ato de fazer, desfazer, apagar, voltar a fazer imaginariamente, remete-nos ao mundo do escritor em processo de criação, assim como a preocupação pela musicalidade do nome e de sua composição (Rocin + antes: antes era rocim).

A segunda personagem criada é Dom Quixote de La Mancha, o modelo real é o próprio autor do romance que será vivido: Alonso Quijano. Dom Quixote é uma projeção de Alonso Quijano. Considerando a tipologia estabelecida por Candido, podemos dizer que Dom Quixote incorpora a vivência e os sentimentos de Alonso Quijano (seria o primeiro tipo proposto por Candido). Muito pouco sabemos de Quijano: consta-nos que era um fidalgo decadente, solteiro, vivia com sua sobrinha e uma criada, gostava de caçar, tinha um galgo e um velho cavalo, era aficionado pelos livros de cavalaria, esteve durante um tempo apaixonado por sua vizinha e seu epíteto era Quijano “el bueno”. Talvez este último qualificativo seja um dos poucos vínculos que podemos estabelecer entre os dois: Dom Quixote, assim como Alonso Quijano, era bom.

A terceira personagem criada pelo fidalgo é Dulcinéia del Toboso, inspirada também num modelo real Aldonza Lorenzo —, sobre a qual falaremos mais adiante.

Como dissemos, a ficção que está sendo planejada e construída por Alonso Quijano não é um romance escrito, porém, um romance que será vivido. Se Alonso Quijano tivesse escrito uma obra de cavalaria, como pensou fazê-lo, ele seria o autor, senhor absoluto das ações de suas personagens; porém, ao decidir viver a história em vez de escrevê-la, ele se confrontará com a realidade e com o livre arbítrio de pessoas reais (obviamente, quando falamos em “realidade” e “pessoas reais” estamos nos referindo estritamente à realidade ficcionalmente instaurada). Ele perde o controle das ações de seu romance, pois essas pessoas agem e interferem na construção de sua ficção, atuando também como autores ou co-autores da história, inicialmente criada por Alonso Quijano e vivida por Dom Quixote. O que teremos, ao longo da obra, é uma série de personagens-autores, que entram no jogo de Dom Quixote e criam pequenas histórias que serão vividas (porém não escritas) por eles mesmos ou por outras personagens.

É curioso observar que, se considerarmos Alonso Quijano uma personagem criada por Cervantes e Dom Quixote, ficcionalmente, uma personagem criada por outra personagem, um desdobramento de personagens (assim como tantas outras personagens ao longo da obra): poderíamos dizer que essas personagens criadas por outras personagens seriam uma espécie de personagem de segundo grau, pois elas estão em um nível diferente de seus modelos reais. Algumas personagens serão apenas autoras; outras, além de autoras, serão também atores/atrizes e representarão suas próprias personagens. Essas personagens de segundo grau em ação nos remetem ao teatro: daí o caráter teatral das histórias que serão encenadas. Vejamos isso na prática.

Tomemos, como exemplo, o episódio da princesa Micomicona [I, 29]. O autor do ardil para enganar Dom Quixote é o cura:

(...) vino el cura en un pensamiento muy acomodado al gusto de don Quijote y para lo que el os querían; y fue que dijo al barbero que lo que había pensado era que él se vestiría en hábito de doncel a andante, y él procurase ponerse lo mejor de pudiera como escudero, y que así irían adonde don Quijote estaba, fingiendo ser el a una doncella afligida y menesterosa, y le pediría un don, él cual no podrá dejársele de otorgar, como valeroso cabal ero andante. Y que el don que le pensaba pedir era que se viniese con ella donde ella l evase, a desfacelle un agravio que un mal cabal ero le tenía fecho; y que le suplicaba ansimesmo que no la mandase quitar su antifaz, ni la demandase cosa de su facienda fasta que la hubiese fecho derecho de aquel mal cabal ero, y que creyese sin duda que don Quijote vendría en todo cuanto le pidiera por este término, y que de esta manera le sacarían de allí y le llevarían a su lugar, donde procurarían ver si tenía algún remedio su extraña locura. [I, 26]

No capítulo seguinte, o cura e o barbeiro preparam os disfarces e se põem, com Sancho, em busca de Dom Quixote. No caminho, os dois encontram Cardênio, que lhes conta sua história; mais adiante, encontram a bela Dorotéia vestida de homem, lavando os pés no riacho: Dorotéia também conta sua história. No capítulo 29, o barbeiro e o cura contam a Dorotéia sua intenção de enganar Dom Quixote para devolvê-lo a sua casa. Dorotéia aceita fazer o papel de donzela necessitada. Quando Sancho pergunta quem era aquela bela jovem, o cura continua criando sua história:

Esta hermosa señora respondió el cura —, Sancho hermano, es, como quien no dice nada, es la heredera por línea recta de varón del gran reino de Micomicón, la cual viene en busca de vuestro amo a pedirle un don, el cual es que le desfaga un tuerto o agravio que un mal gigante le tiene fecho; y a la fama que de buen cabal ero vuestro amo tiene por todo lo descubierto, de Guinea ha venido a buscarle esta princesa. [I, 29]

Dorotéia, o barbeiro vestido de escudeiro barbado e Sancho vão ao encontro de Dom Quixote; Dorotéia representa o papel de donzela aflita e tira dom Quixote de sua penitência.

No capítulo 30, Dorotéia conta a história de Micomicona. Diz o narrador que Cardênio e o barbeiro se sentam ao seu lado “deseosos de ver cómo fingía su historia” [I, 30].

Notamos que há uma íntima relação entre a história da princesa Micomicona e a história da própria Dorotéia, o que inseriria Micomicona na condição de personagem que é uma projeção de seu autor (Dorotéia). Vejamos rapidamente as relações entre as duas histórias.

Dorotéia é filha de um rico lavrador e cuida dos negócios de seu pai; é assediada por Dom Fernando, filho de nobres. O pai, pressentindo o perigo que corria sua filha, quer casá-la com outro (da mesma classe social que ela). Dom Fernando seduz Dorotéia, prometendo-lhe casamento, desaparece e ela então fica sabendo que ele se casou com outra (uma nobre). Ela se veste de homem, pede a um criado que a acompanhe e vai ao encalço de Dom Fernando. Chegando à cidade onde havia acontecido o casamento, conhece pormenores da cerimônia: a noiva (Luscinda) desmaia; encontram-se sob sua roupa um punhal e uma carta, na qual se descobre que ela estava apaixonada por outro e pretendia suicidar-se após o casamento com Dom Fernando.

A princesa Micomicona, por sua vez, é filha de um rei, estudioso das artes mágicas, que prevê o futuro: ele e sua mulher morrerão deixando a filha órfã. No reino vizinho, há o terrível Gigante Pandafilando de la Fosca Vista, que invadirá as terras do pai de Micomicona e deixará a princesa despossuída, a menos que ela se case com ele. Para evitar que isso ocorra, ela deverá ir a Espanha, procurar Dom Quixote de La Mancha, que matará o Gigante e, se quiser, poderá desposá-la.

Nas duas histórias, temos referências aos pais das protagonistas (Dorotéia e Micomicona) e, nas tramas, as filhas assumem os negócios dos pais. O pai de Micomicona prevê sua tragédia; o pai de Dorotéia pressente o perigo que ronda sua filha. As duas histórias tratam de casamentos entre desiguais: Dorotéia, sendo filha de lavradores, pretende casar-se com um nobre e o horrível e malvado gigante pretende casar-se com a linda princesa16. Outro elemento em comum é o tema do casamento forçado. Micomicona casaria com Pandafilando contra sua vontade; no caso da história de Dorotéia, temos Luscinda, que se casará com Dom Fernando, estando apaixonada por outro. Micomicona sai de seu reino em busca de ajuda; Dorotéia sai de sua casa em busca de Dom Fernando. Tanto Micomicona como Dorotéia são jovens que sofreram “agravios”. um paralelismo entre Dom Fernando e o gigante Panfilando: além da coincidência das terminações dos nomes em “ando”, Dom Fernando age com Dorotéia com um monstro lascivo, destruidor de sua honra e vai casar-se com Luscinda contra a vontade desta. No capítulo 37, após o reconhecimento dos casais, temos a associação definitiva entre Dorotéia e Micomicona e entre Dom Fernando e Panfilando, quando diz o narrador que Sancho se entristeceu porque “la linda princesa Micomicona se le había vuleto en Dorotea, y el gigante en don Fernando” e, com isso, o escudeiro ficaria sem seu reinado.

Em nosso modo de ver, Dorotéia é uma das autoras que parte da realidade para construir sua personagem: uma história iniciada pelo cura e pelo barbeiro, e arrematada pela bela lavradora. Entretanto, não podemos nos esquecer que a personagem criada por Dorotéia é também baseada nas donzelas aflitas da literatura cavalheiresca. Micomicona, portanto, é uma junção de dois modelos: por um lado, é uma projeção da personalidade de Dorotéia; por outro, é uma imitação de um modelo literário. Ao longo do Quixote, várias personagens serão criadas a partir de modelos ficcionais, como Merlim e Clavilenho. O próprio Dom Quixote, em seus momentos de sonho ou alucinação, resgatará personagens como Montesinos, Durandarte, Belerma e outros.

Notamos também que há um paralelo entre a transformação de Dorotéia em Micomicona e a de Alonso Quijano em Dom Quixote. Os ideais de Alonso Quijano são nobres (resgatar os valores da cavalaria andante); os de Dorotéia também o são: levar o pobre louco de volta a sua casa para se tratar. Alonso Quijano parte de sua própria pessoa para criar Dom Quixote; também a história de Micomicona está relacionada com a história pessoal de Dorotéia. A diferença é que Alonso Quijano cada vez mais crê ser Dom Quixote — pois as demais personagens colaboram para alimentar sua fantasia —, enquanto Micomicona tem consciência de estar representando uma personagem criada pelo cura e por ela mesma.

Várias personagens serão autores e ao mesmo tempo atores, pois representarão suas personagens como o fez Dorotéia. É o caso dos episódios em que Sansão Carrasco transforma-se no Cavaleiro da Branca Lua ou no Cavaleiro dos Espelhos. Nesse segundo episódio citado, o paralelismo com a relação Alonso Quijano/Dom Quixote é ainda maior: assim como Alonso Quijano, Sansón Carrasco é autor de uma história e muda seu nome, transformando-se no Cavaleiro dos Espelhos; porém, a história, por ser vivida e não escrita, foge ao seu controle e suas expectativas são frustradas. Ele esperava vencer Dom Quixote; no entanto, é vencido.

Ao longo da obra, Dom Quixote se deparará com várias “personagens reais” (dentro, obviamente, do mundo ficcional); algumas, cientes de sua loucura, entrarão em seu jogo, com o objetivo de ajudá-lo, como Dorotéia, Sansão Carrasco, o cura e o barbeiro; outras, com a intenção de se divertirem às suas custas, transformam-no em verdadeiro bufão, como o fazem os duques e seus criados.

Após a derrota sofrida pelas mãos do Cavaleiro da Branca Lua, Dom Quixote e seu escudeiro planejam viver outro gênero literário: o romance pastoril. Agora, as duas personagens, enquanto autores, iniciam o mesmo processo de transformações realizado no primeiro capítulo: começam a dar nomes às suas personagens a partir de modelos reais: Dom Quixote ou Alonso Quijano será o pastor Quijotiz, Sancho será o pastor Pancino e assim por diante.

A maior parte dessas personagens de segundo grau tem um ou dois autores ficcionais (no caso de Micomicona, são dois: o cura e Dorotéia). Quando há mais de uma personagem-autor, em geral, há um entrosamento entre eles, o que propicia uma uniformidade na personagem de segundo grau criada (novamente, é o caso de Micomicona). Entretanto, casos em que dois ou mais autores divergem na concepção de uma mesma personagem, apresentando uma série de diferentes pontos de vista que propiciam a criação de uma personagem distorcida e pouco definida. É o caso de Dulcinéia del Toboso...[...]"

---
Fonte:
CÉLIA NAVARRO FLORES: "DA PALAVRA AO TRAÇO: DOM QUIXOTE, SANCHO PANÇA E DULCINÉIA DEL TOBOSO". (Natureza: Tese Grau pretendido: Doutor Instituição: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Universidade de São Paulo Departamento de Letras Modernas Área de concentração: Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana Orientador: Prof. Dr. Mario Miguel González Co-orientador: Prof. Dr. José Manuel Lucía Megías). São Paulo, 2007.

Nota
:
A imagem (Escudo da casa de Cervantes - Manuscrito da Biblioteca Nacional de Madri, nº 3.390) inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público