JUCESP - Junta Comercial do Estado de São Paulo

A JUCESP – Junta Comercial do Estado de São Paulo é, atualmente (2012), um órgão subordinado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, sendo suas principais atividades: registro de atos de constituição, alteração e encerramento de empresas, expedição de certidões, fotocópias de documentos, emissão de fichas cadastrais e atividades referentes aos Armazéns Gerais, Leiloeiros, Tradutores Públicos e Intérpretes Comerciais, autenticação de registro de livros mercantis etc.

A sua fundação foi oficializada no dia 19 de julho de 1890, criada pelo Decreto 596, um ano depois da Proclamação da República, num ambiente de efervescência política que deu origem à reforma do Código Comercial e a elaboração do primeiro código Penal no Brasil. Inicialmente a Junta Comercial tinha jurisdição sobre os distritos de São Paulo, Goiás e Paraná. Em 1892, porém, houve o desmembramento de Goiás e Paraná, quando também se propôs a fundação de uma praça de comércio na cidade de São Paulo. Já no Estado Novo, mais precisamente no ano de 1939, durante o governo de Getúlio Vargas, houve uma importante mudança no funcionamento da Junta Comercial, quando então o presidente da instituição, o secretário, o procurador e os suplentes passaram a ser nomeados pelo governo do Estado. Em 13 de julho de 1965, através da Lei 4.726, foram unificados os procedimentos das Juntas Comerciais de todo o país. Em 1996 teve início a descentralização do atendimento da Junta, com a criação de convênios com entidades privadas em diversas cidades do Estado. Vejamos um pouco de sua história visual...


Comunicado de Instalação da Junta Comercial de São Paulo, do dia 4 de maio de 1891

Rua São Bento no começo do século XX (foto: Guilhome Gaensly)

Largo de São Bento, nos primórdios do século XX (foto: Guilhome Gaensly)

Largo do Rosário no início do século XX

Rótulo de produto registrado na Junta Comercial logo após sua fundação, em 1890

Rótulo de produto registrado na Junta Comercial logo após sua fundação, em 1890

Rótulo de produto registrado na Junta Comercial logo após sua fundação, em 1890

Modelo de registro do ano de 1909

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Fonte das imagens:
JUCESP: 120 ANOS: Governo do Estado de São Paulo - Secretaria da Fazenda, 2010.

O Carnaval antigo em São Paulo - IV


Um pouco mais da história visual do Carnaval de São Paulo, através de fotografias publicadas ao longo do século XX, como as que seguem...

O Carnaval na Avenida Paulista em 1918

O Carnaval na Avenida Paulista em 1918

O Carnaval na Avenida Paulista em 1918

O Carnaval na Avenida Paulista em 1918

O Carnaval na Avenida Paulista em 1918

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Fonte:
Revista "A Cigarra", edições de 1918, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

O amor poético

Por: Iba Mendes (2006)

O amor é, sem de dúvida, o tema de maior primazia entre os poetas. Na verdade, ambos, amor e poesia, são, de certa forma, elementos ligados entre si. Isso pode ser facilmente atestado quando examinamos as obras dos grandes poetas. Em algum momento o amor despontará em suas penas.

É bem verdade que a concepção acerca do que seja o amor varia muito entre cada poeta e suas épocas. Contudo, nas suas mais variadas formas, nos seus múltiplos aspectos, o amor sempre foi e continuamente há de ser o assunto por excelência daqueles que inspirados (como Luís Camões) ou “secos” e objetivos, (como João Cabral de Melo Neto) externaram tão belo sentimento.

A seguir, apresentamos uma seleção de poemas relacionados ao tema. Observe como cada escritor abordou o assunto; perceba o estilo pessoal de cada um deles; note a visão pessoal que eles tiveram acerca do assunto. Vejamos...

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LUÍS DE CAMÕES

Amor é um fogo que arde sem se ver
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

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DOMINGOS CALDAS BARBOSA

O QUE É AMOR
Levantou-se na cidade
um novo e geral clamor;
todos contra o amor se queixam,
ninguém sabe o que é amor.

Dizem uns que ele é doçura
outros dizem que ele é dor;
não lhe acertam nome próprio,
ninguém sabe o que é amor.

Que importa que alguém presuma
nestas cousas ser doutor,
se ele ignora como os outros?
Ninguém sabe o que é amor.

Amor é uma ciência
que não pode haver maior,
pois por mais que o amor se estude,
ninguém sabe o que é amor.

Em mil formas aparece
o menino encantador;
inda assim não se conhece...
Ninguém sabe o que é amor.

Ao valente faz covarde,
ao covarde dá valor;
como é isto não se sabe,
ninguém sabe o que é amor.

Choram uns o seu desprezo,
outros cantam seu favor,
de amor choram, de amor cantam...
Ninguém sabe o que é amor.

A uns faz gelar de susto,
noutros causa um doce ardor;
não se sabe a qualidade,
ninguém sabe o que é amor.

Amor tem um ser divino,
não tem forma, corpo ou cor,
sente-se mas não se vê...
ninguém sabe o que é amor.

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JOSÉ DE ABREU ALBANO


“AMAR É DESEJAR O SOFRIMENTO”
Amar é desejar o sofrimento
E contentar-se só de Ter sofrido,
Sem um suspiro vão, sem um gemido,
No mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento
É deste mundo enfim tão esquecido,
É pôr o seu cuidar num só sentido
E todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,
De rudes pescadores rodeado,
Caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,
É ser enfim vendido por dinheiro,
E entre ladrões morrer crucificado.

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SE AMAR É PROCURAR A COUSA AMADA...
Se amar é procurar a cousa amada
E unir duas vontades num desejo,
Se é ressentir um mal tão benfazejo
Que quanto mais tortura, mais agrada;

Se amar é sofrer tudo por um nada
E a um tempo achar que é pouco e que é sobejo,
Já claramente agora entendo e vejo
Que não há quem de amor me dissuada.

Ó doce inquietação e doce engano,
Doce padecimento e desatino
De que não me envergonho, antes me ufano!

Comigo quantas vezes imagino:
Se é tão doce na terra o amor humano,
Que não será no céu o amor divino?!

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GUILHERME DE ALMEIDA

AMOR, FELICIDADE
Infeliz de quem passa pelo mundo,
procurando no amor felicidade!
A mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.

Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...

Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz não diz,
percebe que afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

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TOBIAS BARRETO

AMAR
Amar é fazer o ninho,
Que a duas almas contém,
Ter medo de estar sozinho,
Dizer com lágrimas: vêm,
Flor, querida, noiva, esposa...
Cabemos na mesma lousa...
Julieta, eu sou Romeu;
Correr, gritar: onde vamos?
Que luz! que cheiro! Onde estamos!
E ouvir uma voz: no céu!

Vagar em campos floridos
Que a terra mesma não tem;
Chegarmos loucos, perdidos
Onde não chega ninguém...
E, ao pé de correntes calmas,
Que espelham virentes palmas,
Dizer-te: senta-te aqui;
E além, na margem sombria.
Ver uma caroça bravia,
Pasmada, olhando p’ra ti!

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LUÍS EDMUNDO

AMOR
Este é um carro triunfal, plaustro de rodas de ouro;
Arrasta-o sobre o mundo em fúria desabrida
Um estranho animal, que lembra na corrida
A bravura de um leão e os ímpetos de um touro.

Nada lhe embarga o passo; o abismo, o sorvedouro,
Tudo calca e subjuga e leva de vencida;
E os homens em tropel cheios de ardor e vida
Vão atrás dele como atrás de algum tesouro.

Triunfalmente altiva, o olhar forte, os cabelos
Irradiando como a luz de setestrelos,
No plaustro, uma mulher passa o mundo fitando;

Na mão esquerda, como símbolo perfeito,
Leva um lírio que tem o cálice direito,
Na outra, fera e brutal, leva um punhal sangrando...

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É isso!

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Imagem:
Pierre Ribeira: "Na borda do abismo", revista Ilustração Brazileira, edição de 1911, disponível digitalmente no site: Domínio Público

O Carnaval antigo em São Paulo - III

Um pouco mais da história visual do Carnaval de São Paulo, através de fotografias publicadas ao longo do século XX, como as que seguem...

"Carro" puxado por burros no Carnaval de 1915, na Avenida Paulista

Baile de Carnaval realizado na terça-feira do Carnaval de 1915

Automóvel que fez parte do Corso na Avenida Paulista, no Carnaval de 1915

Automóvel que fez parte do Corso na Avenida Paulista, no Carnaval de 1915

Editorial da Revista "A Cigarra", edição de março de 1936, que discorre sobre o Carnaval em São Paulo

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Fonte:
Revista "A Cigarra", edições de 1915 e 1936, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Machado de Assis e a liberdade religiosa

Embora fosse católico, Machado de Assis nutria de grande tolerância por qualquer religião. Em uma de suas deliciosas crônicas, de 22 de novembro de 1864, publicada num jornal carioca, ele faz menção de um caso ocorrido naquele mesmo ano, no qual um vendedor de Bíblia, um evangélico metodista, quase que foi linchado por uma turba católica (na época o catolicismo era religião oficial do Brasil). Machado critica veementemente o jornal católico “O Cruzeiro”, que condenou o governo por este ter protegido o vendedor contra a ira popular: “Nada do que diz o Cruzeiro é novo; mas nem por isso deixa de ser lamentável que se imprimam coisas tais em um país onde a liberdade religiosa, se não é completa, está já adiantada”. No dia 29 de novembro do mesmo ano, ele fez uma dura crítica à constituição vigente na época: “O defeito da constituição está em não ter completado a liberdade, tirando os entraves que lhe impõe, e em declarar a religião católica como religião do Estado”. E continua: “No dia em que se tiver saído da tolerância para a liberdade completa, teremos dado o último passo neste assunto. Que os leitores me permitam a figura, - a tolerância assemelha-se a uma gaiola de papagaio, aberta por todos os lados, sem aparências mesmo de gaiola, mas onde a ave fica presa por uma corrente que lhe vem do pé ao poleiro. Quebre-se a corrente, uma vez por todas, e dê-se a liberdade ao pobre animal. Um sistema político como o nosso que, a pretexto de proteger os rouxinóis, protege cem papagaios por cada rouxinol, parece incrível que nutra tanta aversão a este judicioso conselho”.

É isso!

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Fonte da imagem:
Revista BA-TA-CLAN, edição de 1867, disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

O Carnaval antigo em São Paulo - II


Um pouco mais da história visual do Carnaval de São Paulo, através de fotografias publicadas ao longo do século XX, como as que seguem...

O Corso das Borboletas cheio de "Pierrotos" e "Pierretes", em 1918

Corso na Avenida Paulista no ano de 1918

O Corso das Falenas, na Avenida Paulista, em 1918

A elite paulistana durante intervalo do Corso no Carnaval de 1919 na Avenida Paulista

O Carnaval na Avenida Paulista em 1917, vendo-se no primeiro quadro o governador Altino Arantes

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Fonte:
Revista "A Cigarra", edições de 1917, 1918 e 1917, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Caiu o Ministério!

Brevíssimos comentários sobre a peça "Caiu o Ministério", de França Junior
Por: Iba Mendes (fevereiro/2012)

Ainda não havia lido França Junior, e muito pouco sabia a seu respeito. Foi sua comédia “Caiu o Ministério!” que despertou em mim o interesse por seu legado literário. A peça é o reflexo irônico da política no Brasil durante a segunda metade do século XIX, sob o regime imperial de D. Pedro II, quando este já apresentava visível sinal de decadência. Mas a peça não trata exclusivamente de política. Também se observa nela, por exemplo, a banalidade dos costumes: DONA BÁRBARA — É moda cá da sua terra. Andam as velhas por aí todas pintadas, frisadas, esticadas e arrebicadas, à espera dos rapazes pelas portas dos armarinhos e das confeitarias. Cruz, credo, Santa Bárbara! Só se benzendo a gente com a mão canhota. Olhe, lá em Minas nunca vi disto e estou com cinqüenta anos! A influência da língua francesa no linguajar da burguesia tupiniquim, em detrimento da prevalência do inglês, é outro aspecto bem realçado na obra, algo que fica muito bem tipificado na personagem Beatriz: BEATRIZ — O corpinho estava come ci, come cá. A saia é que estava ravissant! Era toda bouilloné, com fitas veill’or e inteiramente curta. / O que aqui apreciam é muita fita, muitas cores espantadas... enfim, tout ce qu’il y a de camelote. / Muito bem, muito bem, lá para que digamos não senhor. Diz monsiù, negligè, bordó, e outras que tais. Outro traço destacado na comédia refere-se à influência da Europa, sobretudo da Inglaterra, em privilégios na execução de obras aqui no Brasil. É o caso do capitalista inglês Mr. James, que propõe uma “revolução” no transporte urbano da cidade do Rio de Janeiro, com a criação de um trem cinófero, ou seja, puxado por cachorros: MR. JAMES — Idéia estar aqui completamente nova. Mim quer adota sistema cinófero. Quer dizer que trem sobe puxada por cachorras. Cachorra propriamente no puxa. Roda é oca. Cachorra fica dentro de roda. Ora, cachorra dentro de roda, no pode estar parada. Roda ganha impulsa, quanto mais cachorra mexe, mais o roda caminha! Mim precisa de força de cinqüenta cachorras por trem; mas deve muda cachorra em todas as viagens. / Mas eu aproveita todas as cachorras daqui e faz vir ainda muitas cachorras de Inglaterra. / Oh! senhorr, não tem a menor periga. Se cachorra estar danada, estar ainda melhor, porque faz mais esforça e trem tem mais velocidade. França Junior foi um crítico contumaz da facilidade dos ingleses em obter regalias do governo brasileiro. Isso fica bem explicitado nesta fala de Mr. James: MR. JAMES — Mim quer privilégia para introduzir minha sistema em Brasil, e estabelecer primeira linha em Corcovada, com todas as favores de lei de Brasil para empresa de caminha de ferro.

O “audacioso” projeto de Mr. James, de carros saindo do Cosme Velho para o Corcovado, puxados por cães, transforma-se numa verdadeira batalha política. Havia os que estavam do “lado dos cachorros” e os que se opunham aos bichos. Da mesma forma como ocorre hoje com os nossos políticos, havia compras de votos e promessas de vantagens para quem ficasse ou saísse de ambas facções:
FILOMENA — E o que se lucrou em consultar a Câmara? Em assanhar a oposição, e formar no seio do parlamento dois partidos, o dos cachorros e o dos que se batem, como leões, contra os cachorros.
BRITO — E que partidos!
FILOMENA — E lá se vai o privilégio, falto à palavra que dei ao inglês, e o casamento da menina, víspora!
BRITO — Mas o que queres que faça?
FILOMENA — Que envides todos os esforços para que o projeto passe! Hoje é a última discussão.
BRITO — E o último dia talvez do ministério.
FILOMENA — Quais são os deputados que votam contra?
BRITO — Uma infinidade.
FILOMENA — O Elói é cachorro?
BRITO — Sim, senhora.
FILOMENA — O Azambuja?
BRITO — Cachorro.
FILOMENA — O Pereira da Rocha?
BRITO — Este é de fila.
FILOMENA — O Vicente Coelho?
BRITO — Era cachorro; mas passou anteontem para o outro lado.
FILOMENA — E o Barbosa?
BRITO — Está assim, assim. Talvez passe hoje para cachorro.
FILOMENA — Ah! Que se as mulheres tivessem direitos políticos e pudessem representar o país...
BRITO — O que fazias?
FILOMENA — O privilégio havia de passar, custasse o que custasse. Eu é que devia estar no teu lugar, e tu no meu. És um mingau, não nasceste para a luta.
BRITO — Mas com a breca! Queres que faça questão de gabinete?
FILOMENA — Quero que faças tudo, contanto que o privilégio seja concedido.
BRITO (Resoluto.) — Pois bem; farei questão de gabinete, e assim fico livre mais depressa desta maldita túnica de Nessus.

A “batalha dos cachorros” culmina, enfim, com mais uma queda de Ministério. Pronto! Estava aberto o caminho para os novos aspirantes a ministros e novos jogos de interesses na política tupiniquim.

Simplesmente genial esta comédia de França Junior!

É isso!

Fotos antigas de cidades do Pernambuco - XVII


Um pouco mais da história visual de algumas importantes cidades do grande Estado do Pernambuco, através de fotografias publicadas ao longo do século XX, como as que seguem, publicadas na Revista da Cidade, em 1927...

CARUARU - A famosa "Feira de Caruaru", vendo-se a "seção de utensílios de barros", em 1927

CARUARU - A famosa "Feira de Caruaru", vendo-se a "seção de tecidos", em 1927

CARUARU - A famosa "Feira de Caruaru", vendo-se a "seção de malas", em 1927

IPOJUCA - Cachoeira Maranhão, de propriedade do coronel João de Souza Leão, em 1927

IPOJUCA - Outra vista da Cachoeira Maranhão, em 1927

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Fonte:
Revista da Cidade, edições de 1927, disponível digitalmente no site do
Domínio Público

“María de Todos los Demonios”

Brevíssimos apontamentos sobre a obra “Do amor e outros demônio”, de Gabriel García Márquez

Por: Iba Mendes (fevereiro/2012)

Do amor e outros demônio”, como toda obra de Gabriel García Márquez, é o pleno império da sensibilidade e da imaginação. Mas não é só isso. A crítica aos valores que a sociedade convencionou e cristalizou como “padrão” também é outra característica que norteia este e outros romances desse maravilhoso autor colombiano. Sierva María de Todos los Ángeles, a menina “possuída”, muito além de uma figura de ficção, sintetiza o grito daqueles que, no decorrer da história, tornaram-se vítimas da estupidez humana, daqueles que suportaram a brutalidade dos que si diziam defensores de Deus e que deixaram suas marcas de sangue como mácula eterna para a posteridade.

A origem do livro, segundo o próprio Gabriel García Márquez, nasceu de uma reportagem que fizera em 1949, no antigo convento caribenho de Santa Clara, e tem como pano de fundo “a lenda de uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um vestido de noiva, que morreu de raiva causada pela mordida de um cachorro, e que era venerada no Caribe por seus muitos milagres.” A marquesinha de que discorre o autor é Sierva María de Todos los Ángeles, personagem central do romance, filha do marquês de Casalduero.

Sierva Maria de Todos los Ángeles, que cresceu sob o convívio dos escravos e orixás, sucumbiu à desgraça após ter sido mordida por um cachorro cinzento com uma estrela na testa. Vítima da superstição popular e religiosa, a menina padeceu os piores tormentos, tornando-se prisioneira num Convento, onde experimentou a dor e o amor.

Entre muitos temas que podem ser extraídos da obra, a problemática da superstição e da crendice popular merece o devido destaque. O mundo de Sierva Maria de Todos los Ángeles, é o mundo dos demônios, dos anjos, das forças sobrenaturais, dos mistérios, dos complôs espirituais e das guerras entre as potestades do bem e do mal. Isso fica bem realçado, por exemplo, nesta passagem, quando o pai busca auxílio da crendice popular para curar sua filha:

O marquês não se confiou a Deus, mas a tudo o que lhe desse alguma esperança. Na cidade havia outros três médicos formados, seis boticários, onze barbeiros sangradores e um sem-número de curandeiros e mestres em feitiçaria, embora nos últimos cinqüenta anos a Inquisição tivesse condenado mil e trezentos a diferentes penas e queimado sete na fogueira. Um jovem médico de Salamanca abriu a ferida fechada de Sierva María e pôs-lhe umas cataplasmas cáusticas para extrair os humores rançosos. Outro tentou a mesma coisa com sanguessugas nas costas. Um barbeiro sangrador lavou a ferida com a urina dela própria e outro a fez bebê-la. Ao fim de duas semanas ela havia suportado dois banhos de ervas e duas lavagens emolientes por dia, e levaramna à beira da agonia com cozimentos de antimônio natural e outros filtros mortais.
A febre cedeu, mas ninguém ousou proclamar que a raiva estivesse conjurada. Sierva Maria sentia-se morrer. A princípio resistia com o orgulho intacto, mas após duas semanas sem nenhum resultado tinha uma úlcera de fogo no tornozelo, a pele escaldada por sinapismos e vesicatórios, e o estômago em carne viva. Passara por tudo: vertigens, convulsões, espasmos, delírios, solturas de ventre e de bexiga, e se retorcia no chão uivando de dor e de fúria. Até os curandeiros mais afoitos a abandonaram à própria sorte, convencidos de que estava louca ou possuída pelos demônios. O marquês já tinha perdido todas as esperanças, quando apareceu Sagunta com a receita de Santo Huberto.
Foi o final. Sagunta se desfez de seus lençóis e se besuntou com ungüentos de índios para esfregar seu corpo no da menina nua. Esta resistiu de pés e mãos apesar de sua fraqueza extrema, e Sagunta a submeteu à força. Bernarda ouviu de seu quarto a gritaria demente. Correu para ver o que acontecia e encontrou Sierva María esperneando no chão, e Sagunta em cima dela, envolvida na maré de cobre da cabeleira e ululando a oração de Santo Huberto. Chicoteou ambas com as cordas da rede. Primeiro no chão, as duas encolhidas pela surpresa, e depois perseguindo-as pelos cantos até que lhe faltou fôlego”.

O imaginário religioso exerce força preponderante na vida das personagens, ainda mais por se estar no contexto histórico da Inquisição. A figura do demônio, como aquele que vive a atormentar as vidas dos homens que desobedecem a Deus, é essencial no enredo do romance. O comportamento “estranho” da garota não haveria de ser outra coisa senão a atuação do príncipe das trevas:

- Eu queria aguentar minha desgraça em silêncio - disse o marquês.
- Pois muito mal o conseguiste - disse o bispo. - É um segredo público que tua pobre filha rola pelo chão, tomada de convulsões obscenas e ladrando em gíria de idólatras. Não são sintomas inequívocos de uma possessão demoníaca?
O marquês estava espantado.
- Que quer dizer?
- Que entre as numerosas espertezas do demônio é muito freqüente a de assumir a aparência de uma doença imunda para se introduzir num corpo inocente - disse. - E uma vez dentro, não há força humana que o faça sair.

O comportamento de Sierva Maria de Todos los Ángeles, suas febres e delírios, não seria outra coisa senão a possessão maligna em seu corpo:

A abadessa brandiu o crucifixo como uma arma contra Sierva María.
- Vade retro - gritou.
Os criados recuaram, deixando a menina sozinha em seu espaço, com a vista fixa e em guarda.
- Aborto de Satanás - gritou a abadessa. Ficaste invisível para nos confundir.
Não conseguiram que dissesse uma palavra. Uma noviça quis levá-la pela mão, mas a abadessa a impediu, apavorada:
- Não a toques - gritou. E a seguir, para todos: - Que ninguém a toque.
Acabaram por levá-la à força, esperneando e distribuindo no ar dentadas de cachorro, até a última cela do Pavilhão da prisão. No caminho, perceberam que ela estava suja de seus próprios excrementos, e a lavaram a baldes de água no estábulo.

O imaginário religioso povoava as mentes que atribuíam à menina façanhas espetaculares e demoníacas, como voar com asas transparentes:

Daí por diante não aconteceu nada que não fosse atribuído ao malefício de Sierva María. Várias noviças declararam para as atas que ela voava com umas asas transparentes que emitiam um zumbido fantástico. Foram necessários dois dias e um piquete de escravos para encurralar o gado e pastorear as abelhas de volta às colméias, e pôr a casa em ordem. Correram rumores de que os porcos estavam envenenados, de que as águas provocavam visões premonitórias, de que uma das galinhas espantadas saiu voando por cima dos telhados até desaparecer no horizonte do mar. Mas os terrores das clarissas eram contraditórios, pois apesar dos espaventos da abadessa, e do pavor de uma ou outra, a cela de Sierva Mana se transformou no centro da curiosidade de todas. / No convento, ninguém mais pôs em dúvida que Sierva María tivesse poderes suficientes para alterar as leis das migrações. / Sierva María foi esquecida em meio à abrasão da cal viva, aos vapores do alcatrão, ao suplício das marteladas e às blasfêmias tonitruantes das pessoas de todo tipo que invadiram a casa até a clausura. Um andaime caiu com um estrépito colossal, um pedreiro morreu e sete outros operários ficaram feridos. A abadessa atribuiu o desastre aos fados maléficos de Sierva María e aproveitou a nova oportunidade para insistir que a mandassem para outro convento enquanto transcorria o jubileu.

Fazia-se necessário exorcizar o demônio, demolir as potestades das trevas. Para isso, incumbiu-se o Padre Cayetano Delaura:

Cayetano Delaura foi no dia seguinte ao convento de Santa Clara. No hábito de lã crua que vestia apesar do calor, levava o acéter de água benta e um estojo com os óleos acramentais, primeiras armas na guerra contra o demônio.

Todavia, este mesmo padre, que já havia tido um amistoso diálogo com o descrente Abrenuncio, fica surpreendido quando contempla o semblante místico da Sierva Maria, num ambiente aterrorizante:

- Mesmo que não estivesse possuída por nenhum demônio - disse -,esta pobre criança tem aqui o ambiente mais propício para ficar possuída.

E o padre, enfim, apaixona-se por Sierva Maria, caindo, em conseqüência disso, no braço do Santo Ofício, porém, fora poupado da morte em praça pública, cumprindo sua pena num hospital “onde viveu muitos anos em promiscuidade com os doentes, comendo e dormindo com eles no chão e lavando-se em suas águas usadas, mas não conseguiu, como desejava, contrair lepra”.

Sierva Maria de Todos los Ángeles, por sua vez, desamparada por Deus, pelos homens e pelo homem de sua vida, morreu numa cama com os olhos fulgurantes e pele de recém-nascida: “Os fios de cabelo brotavam-lhe como borbulhas no crânio raspado, e era possível vê-los crescer”.

Outra figura que merece destaque no romance é o ateu Abrenuncio. Embora vivendo os tempos da Inquisição, mantinha uma postura crítica diante dos dogmas, colecionando seus “livros proibidos”:

- Não há muita diferença em relação - feitiçarias dos negros - disse. - É pior ainda, Porque os negros não vão além de sacrificar galos, ao passo que o Santo Ofício se compraz em esquartejar inocentes no potro ou assá-los vivos num espetáculo público.

É isso!

Álvares de Azevedo: Uma literatura cindida no Romantismo

Álvares de Azevedo: Uma literatura cindida no Romantismo

Manuel Antônio Álvares de Azevedo ocupa uma posição singular no Romantismo brasileiro, graças a uma literatura sui generis. Dois motivos contribuem para tanto: o tratamento conferido à questão nacionalista e a exploração de um recurso ao qual o autor denominou “binomia”.

Nascido em São Paulo em 1831, transfere-se com a família para o Rio de Janeiro em 1833, onde inicia seus estudos. A morte do irmão Inácio Manuel aos dois anos de idade abala-o emocionalmente, a ponto de seus biógrafos atribuírem a esse fato a fragilidade de sua saúde a partir de então. Matriculado em um colégio de Niterói em 1837, é considerado intelectualmente apático. Em 1840, no Colégio Stoll, ele começa a dar indícios do aluno brilhante que seria até sua morte. Os estudos prosseguem no Colégio Pedro II, onde é declarado como um prodígio, e ele ingressa na Faculdade de Direito em São Paulo aos dezessete anos de idade. Lá, Azevedo reside em uma república estudantil na Chácara dos Ingleses, juntamente com os também poetas Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa.

É durante esse período que “Maneco” (como era tratado pelos íntimos) lê e escreve abundantemente. Consta que, ao mesmo tempo em que atingia notas excelentes nos exames jurídicos, lia Byron, Hugo, Musset e Shakespeare no idioma original, além de produzir estudos literários e filosóficos variados e escrever sua obra em verso e em prosa. Não chega, porém, a concluir o curso, pois ao ser aprovado para o quinto ano, passa as férias em uma fazenda em Itaboraí e cai de um cavalo; a conseqüência da queda foi um tumor na fossa ilíaca, sendo operado sem sucesso e falecendo a 25 de abril de 1852. Suas últimas palavras teriam sido “Que fatalidade, meu pai!”.

Confirmando a concepção romântica de gênio, Azevedo escrevia com a sofreguidão de quem previa morte próxima, como afirma Candido (1975): “ a febre de escrever atirou-o atabalhoadamente sobre o papel, como se as palavras viessem por demais imperiosas; grande número dos seus escritos manifestam o fluxo incontrolado que, para o Romantismo, era o próprio sinal da inspiração.” (CANDIDO, 1975, p.187).

Com efeito, Álvares de Azevedo demonstrava freqüentemente pressentimentos mórbidos, que expressava aos amigos e em cartas endereçadas à mãe e à irmã. Dois colegas quintanistas do curso de Direito haviam falecido em anos sucessivos e a ele coube pronunciar os discursos fúnebres. Azevedo teria escrito na parede do quarto os anos de 1850 e 1851, seguidos dos nomes dos colegas falecidos e reservando o ano de 1852 para ser preenchido depois com o seu próprio.

O poeta fez parte da chamada “segunda geração romântica”. Tristeza, ceticismo, ironia e obsessão pela morte constituem a temática abordada pelos ultra-românticos, distinta da geração anterior, que exaltou principalmente a nação e o indígena, sendo Azevedo sempre apontado como seu maior representante, embora a morte precoce o tenha impedido de amadurecer a genialidade. Candido (1975) a ele se refere como “personalidade literária mais rica da geração” (CANDIDO, 1975, p.178) e, em outro momento, “figura de maior relevo do nosso ultra-romantismo”. (CANDIDO, 1975, p.180).

As notas biográficas são importantes para compreender os motivos pelos quais se considera Álvares de Azevedo como figura contraditória na literatura brasileira. Existe uma preocupação em associar a produção literária azevediana à personalidade do poeta, que seria constituída simultaneamente por diferentes facetas. Assim, o poeta sentimental, dedicado à família e aos estudos conviveria com o poeta irônico, devasso e alienado. A esse respeito, Ramos (1979) afirma que a discussão sobre a (in)coerência entre vida e obra do poeta remonta ao século dezenove, quando o crítico Sílvio Romero escreve:

“Formaram-se logo dois partidos: uns afirmavam que o moço escritor era um espírito meigo, delicado, virgem, puro e singelo, não conhecendo as diabruras e irregularidades da vida senão pelos livros dos poetas e romancistas românticos. (...) Outros, julgando-se muito desabusados, tombam para o extremo oposto. Pintam o autor da Noite na Taverna como um monstrengo moral, um ser depravado, corrupto, ébrio, devasso, metido em extravagâncias de toda a casta. (...) Tudo isso é falso, falsíssimo. Nem anjo, nem demônio.” (ROMERO, 1949, apud RAMOS, 1979, p.127).

Essa antinomia é mais acentuada através da leitura do Prefácio à segunda parte da Lira dos Vinte Anos, em que Azevedo adverte o leitor da seguinte maneira:

“Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico.Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei; e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório: - a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.” (AZEVEDO, s/d, p.38)

A título de comparação, citamos uma estrofe de um poema pertencente à primeira parte da Lira, e outra de um poema da segunda parte:

Primeira parte: Soneto
Pálida, à luz da lâmpada sombria
Sobre o leito de flores reclinada
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia! (AZEVEDO, s/d,p.22)

Segunda parte: É ela! É ela! É ela! É ela!
Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado! (AZEVEDO, s/d, p.60)

Os trechos supra-citados confirmam que Azevedo vai do sublime ao grotesco, da idealização à realidade, “do mais ingênuo lirismo ao mais desabusado erotismo. É zombeteiro e irônico, alegre e triste, vibrante e meigo, sensual e pudico. Devemos-lhe a introdução do humor na poesia brasileira”. (CAVALHEIRO, s/d, p.86)

Acerca da exigência em atrelar a biografia e a produção literária de Álvares de Azevedo, dois fatores devem ser ressaltados: em primeiro lugar, sabe-se que na vida provinciana da São Paulo da época em que vivia o poeta, o tempo ocioso era grande, fazendo com que o mesmo dedicasse muitas horas à leitura e à escrita. Como bem afirma Rocha (1971, p.14), sua vida intelectual foi breve, mas intensa, iniciando-se antes dos dezoito anos e concluindo-se aos vinte anos e sete meses. Conseqüentemente, pouco tempo restaria para que ele desfrutasse da vida boêmia, que apareceria em seus livros como reflexo das leituras de Byron, Musset e outros. É importante lembrar que a vida monótona daquela cidade foi tema de cartas à família, gerando o sentimento de “spleen”, abordado em seus poemas e na ficção, consolidando assim a fantasia romântica do herói entediado com a realidade circundante.

Em segundo lugar, a busca de veracidade ou não acerca de um possível comportamento libertino de Álvares de Azevedo não pode estar associada ao valor que se atribui à sua obra, cuja qualidade não pode ser medida pelas categorias reducionistas de “anjo” ou “demônio”. A esse respeito, cabe citar as palavras de Candido: “ O fato de Álvares de Azevedo ter sido bem comportado ou devasso nada tem a ver com o imperioso jato interior que o propelia e que, brotado na zona escura da alma, se clareava depois por uma lucidez intelectual raramente encontrada em nossa literatura.” (CANDIDO, 1975, p.181)

Em Macário, a teoria da binomia aparece na construção dos personagens (Macário e Penseroso). No entanto, ela também é evidenciada no âmbito formal da obra, pelo confronto de gêneros distintos. Classificado geralmente como drama, Macário não é composto apenas por diálogos próprios desse gênero discursivo, mas seu prefácio (“Puff”) é um ensaio (prosa, portanto) dirigido ao leitor e contendo as idéias do autor sobre a arte teatral. Além disso, as páginas de um diário de um personagem são transcritas em meio aos diálogos, configurando-se, desse modo, um hibridismo de gêneros.

No primeiro episódio, o estudante Macário conhece Satã, que se torna seu companheiro de viagem e com o qual discute sobre uma gama de assuntos como a condição humana, a poesia, o amor, em um diálogo que vai aos poucos evidenciando as principais características do personagem: o tédio, a rebeldia e o pessimismo.

Já no segundo episódio, surge Penseroso. O amigo de Macário, a outra face da moeda, é sentimental, sonhador e otimista. Candido (1975) assim resume os perfis dos personagens centrais do drama: “Macário é o Álvares de Azevedo byroniano, ateu, desregrado, irreverente, universal; Penseroso, o Álvares de Azevedo sentimental, crente, estudioso e nacionalista.” (CANDIDO, 1975, p.190)

Durante o segundo episódio, Azevedo inova ao inserir em um drama uma discussão acerca do nacionalismo literário, por meio dos posicionamentos de Macário (que o combate) e de Penseroso (que o defende). Candido (1975) afirma que o autor fez uma opção pela abordagem de problemas subjetivos em detrimento da tendência nacional que se impunha à época, em “trechos capitais, exprimindo a ambivalência do nosso Romantismo, transfigurador de uma realidade mal conhecida e atraído irresistivelmente pelos modelos europeus, que acenavam com a magia dos países onde radica a nossa cultura intelectual.” (CANDIDO, 1975, p.16).

A morte de Penseroso revela a vitória da postura universal, cética, racional e pessimista. Macário, portanto, com sua descrença na nação, no amor, na poesia, no ser humano, na vida – consegue reverter a situação de fé e otimismo de Penseroso, acarretando o seu suicídio.Derrotado o personagem símbolo do ideal romântico, do sonho, da subjetividade e da idealização, conseqüentemente está derrotado o nacionalismo, o excesso de emoção característicos daquele período literário.

Em suma, Álvares de Azevedo não buscou o patriotismo exacerbado como via de confronto com a literatura estrangeira, mas, declaradamente influenciado pela mesma, dela tirou o proveito necessário para apresentar uma proposta estética diferenciada, tanto sob o ponto de vista estrutural (as duas faces da moeda representadas pelas duas partes distintas da Lira dos Vinte Anos, a mescla dos gêneros em Macário) quanto no que se refere à dimensão temática de sua obra ( a binomia, o desdobramento do sujeito-autor nos personagens Macário e Penseroso).

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Fonte:
Fabíola Rodrigues da Silva: “O DRAMA ROMÂNTICO E A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO EM MACÁRIO, DE ÁLVARES DE AZEVEDO: HETEROGENEIDADES”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação: Mestrado em Lingüística, do Instituto de Letras e Lingüística da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Lingüística. Área de concentração: Estudos em Lingüística e Lingüística Aplicada Linha de pesquisa: Estudos sobre texto e discurso Orientadora: Dra. Joana Luíza Muylaert de Araújo). Uberlândia – MG, 2005.

Nota
:
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As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
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Fotos antigas de cidades do Pernambuco - XVI


Um pouco mais história visual de algumas conhecidas cidades do interior pernambucano, através de fotografias publicadas ao longo do século XX< mais exatamente no fim da década de 20...

PESQUEIRA - Barragem da firma Carlos de Britto & Cia, proprietária da "Fábrica Peixe", em Santana - 1929

PESQUEIRA - Barragem de Santana, em 1929

PESQUEIRA - Recifenses se divertindo na cidade, em 1927

PESQUEIRA - Grupo de pessoas que foram à Pesqueira para assistir a inauguração do serviço de iluminação, em 1927

CARUARU - Inauguração do serviço de abastecimento de água, em 1927

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Fonte:
Revista da Cidade, edições de 1927 e 1929,
disponível digitalmente no site: Domínio Público

Eta vida besta



Eta vida besta

Será outro país? O governo o pilhou? O tempo o corrompeu?
No país dos Andrades, secreto latifúndio, A tudo pergunto e invoco; mas o escuro soprou; e ninguém me secunda.
(“No País dos Andrades”, A Rosa do Povo)

Significativa ainda nessa primeira fase provinciana de Drummond, correspondente à fase denominada por Sant’Anna como “Eu maior que o Mundo”, é o poema “Lanterna Mágica” (AP), verdadeiro “cartão postal”, (MINAS GERAIS, 1981), ou espécie de “mosaico cultural”, na expressão de Fernando Correia Dias (1971). Dividido em oito partes, as cinco primeiras dedicadas à província, as duas seguintes a Nova Friburgo e ao Rio de Janeiro, e a última, apesar de ter como título “Bahia”, não fala dela diretamente, pois o poeta confessa nunca ter estado lá, revelando ironicamente uma crítica a um princípio estético: a impossibilidade de poetizar um espaço desconhecido. O poema pode ser interpretado como uma tentativa do poeta em abarcar, simbolicamente, o universo inteiro. Perseguindo “a idéia mítica de que o universo inteiro poderia ser condensado e contemplado a partir de um foco mágico” (BOLLE, 2000, p. 365). Nesse sentido, explica-se o título “Lanterna Mágica”.

Mesmo que a atenção, nesse momento, esteja voltada para o quarto poema, denominado “Itabira”, não é possível desconsiderar os poemas relativos a outras províncias mineiras, pois mesmo as referências a Sabará e a São João Del-Rei, feitas no poema “Lanterna Mágica”, podem ser interpretadas e transportadas para Itabira.

O primeiro poema, dedicado a Belo Horizonte, será analisado mais tarde. O segundo poema descreve Sabará, uma “cidadezinha calada, entrevada”, “A dois passos da cidade importante”. Suas casas são “velhas” e “encardidas”, nelas só “há velhas nas janelas”. No “Rio das Velhas”, corre uma “água suja, barrenta”, “água cansada”. As referências à cidade histórica e colonial estão presentes nos “bancos janelas fechaduras lampiões” e na alusão a Aleijadinho. O tempo nessas cidades típicas do interior passa devagar, lentamente, bem “de mansinho” e contrasta com o “trem bufando”, rápido, engolindo as cidades. Apenas o trem parece revelar movimento, velocidade, progresso, indícios de modernidade. E também o “cartaz de cinema com fita americana” que parece entrar nesse cenário meio sem querer: “de repente dá um salto”. De resto, a ausências de “Siderúrgica”, da “Central”, de “forde” compõem o cenário das sonolentas cidades do interior mineiro.

No poema “Caeté” surge novamente o trem, símbolo de velocidade e progresso. A igreja aparece “de costas para o trem”, ressaltando seu conservadorismo. As casas aparecem “torcidas”. No quinto poema, “São João Del-Rei”, surge mais uma vez a referência a Aleijadinho, contribuindo para seu aspecto de cidade colonial, como também a alusão a crença em “mulas-sem-cabeça” que denuncia as lendas antigas. Em todos os três poemas, “Sabará”, “Caeté” e “São João Del-Rei” surge a imagem de igrejas, mas é nesse último que aparece uma expressão que parece ser apropriada também a Itabira: “cidade paralítica”. No quarto poema está Itabira:

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota
incomparável.

O poema, construído por sete versos, retrata a rotina e o cotidiano dessa pequena cidade do interior. No primeiro verso, o pico do Cauê surge ainda inteiro e imenso. Lembrança constante na poesia drummondiana, pois era imagem diária na vida do menino. “Da sacada do seu quarto (...) ele via o pico do Cauê, na época ainda intacto, uma espécie de descomunal toldo de circo feito de ferro, e que sempre foi o símbolo de Itabira” (CANÇADO, 2006, p. 36). Em seguida uma característica fundamental e mais conhecida da cidade, que ressoa na personalidade de seus habitantes e do poeta Drummond: a “cidade toda de ferro”, característica que reaparecerá no poema “Confidência do Itabirano”. Em suas ruas de ferro, apenas passam cavalos, e o barulho das ferraduras batendo lembram sinos. O primeiro carro só aparecerá na cidade em 1925. Eurico Camilo, farmacêutico culto da cidade, inaugurara “a primeira estrada de automóvel ligando Itabira a Santa Bárbara. Acabou com a era do cavalinho de viagem. Com a ‘condução’, como se dizia” (DRUMMOND, 1987, p. 16-17). Os carros, no entanto, demorariam a substituir o trajeto feito pelo lombo dos animais, como constata o poeta:

Carro não havia em parte alguma do Brasil, naquele tempo, salvo no Rio, e talvez em São Paulo. (...) Havia o de Chico Osório, (...) que foi realmente o primeiro em Itabira. É de 1925. Luz, eu conheci menino, instalada pela Câmara Municipal de que meu pai fazia parte como vereador (CRUZ, 2000, p. 102-103).

O surgimento do primeiro carro, anunciando o despertar para uma “nova aurora”, não é esquecido por Drummond, que relembra o fato no poema “Primeiro Automóvel” (BT):

Que coisa-bicho
que estranheza preto-lustrosa
Evém-vindo pelo barro afora?

É o automóvel de Chico Osório
é o anúncio da nova aurora
é o primeiro carro, o Ford primeiro
é a sentença do fim do cavalo
do fim da tropa, do fim da roda
do carro de boi.

Lá vem puxado por junta de bois.

A ironia, tão presente em Drummond, não está ausente nesse poema. O último verso denuncia que o progresso tardaria a chegar na pequena Itabira. Com suas estradas ainda de barro, o automóvel chega puxado pelo antigo, mas eficaz, carro de bois.

O quarto e o quinto versos do poema “Itabira” revelam a rotina da cidade. Os meninos indo para a escola e “Os homens olham para o chão”. Esse olhar preso ao solo, ao chão, denuncia a falta de horizontes dos habitantes de Itabira, cidade montanhosa que, portanto, encurta o olhar. De acordo com Affonso Romano de Sant’Anna (1992), nessa fase inicial, quando o poeta ainda não conhece a metrópole, quando ainda está morando na província, seu olhar caracteriza-se por uma “visão para baixo”, segundo expressão de Roger Bastide, citada por Sant’Anna. A visão de Drummond, sobretudo nos primeiros poemas, caracteriza-se como uma visão para baixo e não para o alto. “O mundo que ele apresenta é o mundo da terra, das pedras: ‘No meio do caminho tinha uma pedra’ – das calçadas, dos velhos porões, das casas; e o que ele vê nas pessoas são as pernas” (SANT’ANNA, 1992, p. 48) – a visão para o solo explica, portanto, o grande número do vocábulo “pernas” no seu livro inaugural, como já expresso anteriormente. Esse olhar inicial, que apenas parece espiar o mundo, depois, na metrópole carioca, se revelará como um olhar menos superficial, interessado em contemplar o mundo.

O verso seguinte do poema “Itabira”, contrapondo-se ao anterior, sem horizontes, revela o início do progresso em Itabira: “Os ingleses compram a mina”. A cidade, que no início do século XX era toda ferro e sossegada, irá ter seu destino mudado com a chegada em 1910 da primeira companhia inglesa para explorar o minério, a Itabira Iron Ore Co. Habitante de Itabira até 1920, Drummond viveu numa cidade ainda tranqüila, sem o intenso barulho das escavações de minério e do movimento dos trens. Em conversa com um casal de Itabira, em 1978, Domingo Gonzalez Cruz registra algumas informações que ajudam a construir o panorama da cidade natal de Drummond. Luís Gonzaga de Freitas nasceu em 1899 sua mulher, Efigênia, em 1903. Habitantes de Itabira antes do processo de aceleração da exploração de minério, eles recordam uma cidade que não existe mais. Falam de um tempo em que ainda se encontravam nas ruas ferreiros, ourives, espora, ferraduras, freios. E o progresso para eles parece ser identificado pela ausência dessas atividades e coisas: “É o progresso. Você vê que hoje a gente quase não acha um ferreiro” (CRUZ, 2000, p. 100). Objetos como esporas e ferraduras, diz Drummond, “Amanhã serão graças/ de museu” (“Agritortura”, BT).

Drummond, numa crônica de 1968, citada por Domingo Gonzalez Cruz (2000), também constata os efeitos do progresso novamente de forma irônica, que fizeram desaparecer a “nobre arte de São José”. Drummond procurava um carpinteiro para consertar pequenos serviços em seu apartamento, “caixilhos de vidraça e outro de porta estragada”, mas encontrava apenas “consertadores de persianas e técnicos de televisão ao mesmo tempo”. Três meses procurando um carpinteiro, Drummond decide dedicar-lhe um dia em outubro, um mês já “tão cheio de dias”:

Pelo quê, disponho-me a promover vasta campanha em favor do Dia do Carpinteiro Especializado em Pequenos Serviços, na esperança de que a homenagem comova um da classe (existe?) e o faça bater à minha porta quebrada ou à minha janela sem caixilhos, com um sorriso e esta declaração: ‘Eu conserto para o meu chapa’ (CRUZ, 2000, p. 115).

Com a chegada da companhia de minério, Itabira foi recebendo várias pessoas, de diferentes lugares, que iam aos poucos alterando a rotina e a paisagem de Itabira. O pico do Cauê, antes lugar preferido dos piqueniques, transformou-se num imenso vazio, escavado pelas máquinas.

A Itabira da infância drummondiana vai, portanto, sofrendo as alterações do tempo. Em nome do progresso e da urbanização, sinônimos de modernidade, a cidade vai se desfigurando. Sua poesia retrata de início a Itabira tranqüila, quase idílica, com suas ruas calmas e silenciosas e o Pico do Cauê imenso a rodear a cidade. Com o tempo, Drummond descobre que sua Itabira não existe mais, foi sendo alterada pelas companhias de minério e pelo progresso. O poeta, contudo, refaz os caminhos de sua infância e adolescência na antiga Itabira, sem esquecer que o tempo passou, pois não sai “Para rever, sai para ver/ o tempo futuro” (“Documentário”, BT).

Enquanto nessa primeira estrofe do poema “Itabira”, os olhos parecem estar voltados para o presente, no último verso, isolado dos demais, está a figura de Tutu Caramujo, “Só”, ensimesmado em seu mundo e com os olhos para o passado, evidenciando uma postura saudosista. E por que Tutu Caramujo?

A sensibilidade do poeta, porém, exigiu um nome capaz de contar a cor local do ambiente provinciano e, certamente, há de se ter lembrado de Tutu Caramujo, que soa como personagem autêntico na paisagem regional. Essa identificação com algo existente valoriza o conteúdo semântico do nome, excitando a imaginação do leitor (MORAES, 1972, p. 237).

O cotidiano monótono de Itabira, desvelado pelo poema “Itabira”, pode também ser interpretado a partir do poema “Cidadezinha Qualquer”, (AP), poema que constitui imagem simbólica da província, mesmo não trazendo em seu texto o nome da cidade grafado:

Casas entre bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
Pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

O poema, dividido em três estrofes, apresenta na primeira o cenário interiorano, casas, bananeiras, laranjeiras e mulheres. A sugestão é de um espaço idílico e bucólico, sem conflitos, mas também sem ação, como confirma a presença dos dois verbos no infinito, “amor” e “cantar”. Os dois primeiros versos revelam a construção típica da poesia drummondiana: a repetição, construída por um substantivo, uma preposição e outro substantivo. Emanuel de Moraes (1972, p. 168) considera nesses versos o processo de enumeração, formada pelos versos iniciais, compreendidas por ele como “orações elípticas”. Assim, os versos “Casas entre bananeiras/ mulheres entre laranjeiras” “são predicados, ao menos psicológicos, de uma posição de observador do poeta passante, que realmente vê ou memoriza” (MORAES, 1972, p. 168).

Em seguida, sem separação de vírgulas, o que parece ser comum e restar nesse ambiente: “pomar amor cantar”. Na segunda estrofe, a ação se desenvolve devagar, em cenas que se repetem lentamente, denunciando a própria lentidão do tempo, característico da cidade pequena. Assim, homem, cachorro, burro, tudo vai devagar, como a vida e o tempo. Marcando um espaço cotidiano afastado da agitação e tumulto da cidade grande e de suas possíveis contradições, distanciado do movimento característico da modernidade. Nesse mundo, “nesse ‘espaço besta’ as coisas não têm importância. (...) Tudo se dá no mesmo nível: o homem e o vegetal, o homem e o animal, o homem e os objetos” (SANT’ANNA, 1992, p. 76). A cidade é tomada por uma monotonia, por uma falta de pretensões ou por uma ausência de horizontes, que leva a um estado de paralisia, como a imagem da “cidade paralítica” descrita no poema “São João Del-Rei”, em “Lanterna Mágica” (AP). Nessa segunda estrofe, ainda, há um outro tipo de enumeração definido por Moraes (1972, p. 168): a “enumeração de diversos sujeitos para um só predicado (...). O poeta prossegue na sua posição de observador diante da monotonia da vida, explicitando – observação e monotonia – no verso seguinte”: “Devagar... as janelas olham”.

Na persona de um ‘uomo qualunque’, o poeta sabe que a cidade inaugura-se pela pedra e pelas casas, que atendem aos destinos da construção. A cidadezinha existe lenta, entre cenas que se repetem. No jogo da indiferença, é o espaço do mesmo: a desqualificação do indivíduo apagado, desbotado entre burro e homem. O visto liberta-se das hierarquias, e a superioridade dos homens dissolve-se na lentidão, na igualdade possível entre os reinos naturais. Nesse espaço pastoso, o traçado lento do poema capta numa só pincelada mulheres, bananeiras e laranjeiras, recompondo a cidadezinha como o teatro possível da mediania, o exercício vagaroso e fatal da mediocridade (CHAVES, 2002, p. 140).

As cenas descritas são mecânicas, automáticas, como o ritmo do poema, basicamente repetitivo. Nesse instante, quando o poeta ainda está preso ao canto/província, falta-lhe a consciência do tempo. “O mundo está sendo visto de fora. De um canto, da província, de uma perspectiva gauche” (SANT’ANNA, 1992, p. 79). Não há ainda o conhecimento do tempo, pois o poeta desconhece a realidade representada pela metrópole. Apenas com a mudança geográfica, de Itabira para o Rio de Janeiro, se dará a experiência temporal.

De acordo com a classificação de poesia estabelecida por Pound, o poema “Cidadezinha Qualquer” caracteriza-se pela presença da “fanopéia”: “Um lance de imagens sobre a imaginação visual” (POUND, 1997, p. 11). É a projeção de uma imagem. Como se o poema revelasse um quadro desbotado das pequenas cidades do interior, com suas cenas previsíveis e suas personagens típicas. Não se trata, contudo, de um retrato sentimental ou simplesmente lírico. A última estrofe, formada por um verso, revela o teor crítico do poema, “o lance decisivo é a estocada final, de caipirismo irônico” (ACHCAR, 2000, p. 25). A expressão “Eta”, caracteristicamente mineira, está tão presente nesse poema que pode ser interpretada como um tema associado à vida comum e ingênua do interior. Não obstante, não é uma singularidade ou uma invenção drummondiana, mas pode ser vista como uma interpretação de um lugar-comum: “o topos, de gosto acentuadamente modernista, do desprezo urbano pela ‘idiotia rural’, agora transportada para a pequena cidade. ‘Cidadezinha Qualquer’ pode ser lido como um poema antibucólico” (ACHCAR, 2000, p. 26). É a imagem do eu provinciano que, através do efeito crítico do verso final, desvela sua insatisfação com sua geografia. De forma irônica o poeta descreve um modus vivendi interiorano, tranqüilo e sem movimento, que se contrapõe ao asfalto e ao urbano.

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Fonte:
CRISTIAN PAGOTO: “AS CIDADES NO MEIO DO CAMINHO DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: DA VIDA BESTA AO MUNDO GRANDE”. (Dissertação apresentada à Universidade Estadual de Maringá, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras, área de concentração: Estudos Literários. Orientador: Prof. Dr. Adalberto de Oliveira Souza). Maringá, 2008.

Nota
:
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