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Alegorias dos meses do ano

A Biblioteca Brasiliana da USP colocou  disposição do público seu maravilhoso acervo digitalizado, aquilo que de mais raro e precioso pode haver em termos literário e histórico. As ilustrações, a seguir, extraídas do Almanach Familiar para Portugal e Brazil (1868), é uma pequena mostra desses achados que se perderam ao longo dos tempos, mas que agora foram recuperados digitalmente para acesso livre na Internet. As imagens representam alegorias de cada mês do ano, simbolizando-os inclusive etimologicamente. Muito interessante!
JANEIRO - A etimologia de Janeiro vem de Jano, deus que os romanos figuravam com duas caras: uma simbolizando o ano que fundava, e outra, o ano que principiava. Neste dia presenteavam-se os romanos uns aos outros, oferecendo tâmaras, figos e mel, com o nome de janualia.

FEVEREIRO - A etimologia desta palavra, na opinião de alguns, provém do culto particular, que, durante este mês, se prestara a Jano, e que os romanos denominavam februalia; na opinião de outros, está fundamentado nos sacrifícios em honra dos mortos, igualmente chamados februalia, e que se celebravam também durante este mês.
ABRIL - O nome deste mês deriva-se da palavra latina aperireabrir, porque é neste tempo que a terra abre o seio, e se adorna de flores. É o mês que marca o principio da primavera. Os romanos consagravam-no a Vênus: e era representado por um homem, dançando ao som de um instrumento.
 
MAIO - Na opinião de alguns etimologistas este mês era chamado maius em honra dos senadores, que se chamavam majores. Na opinião de outros, vem Maio do nome da deusa Maia, filha de Atlas e mãe de Mercúrio. Outros em fim, querem que esta palavra tenha a origem de Maia ou Maiesta, nome da mulher de Vulcano, porque, no dia das calendas deste mês, o sacerdote deste deus oferecia sacrifícios àquela deusa.
 
JUNHO - Para explicar a etimologia desta palavra, supõe-se que este mês foi consagrado a Juno ou a Hebe, deusa da juventude, ou a Junio Bruto, fundador da liberdade romana.

JULHO - Depois da morte de Júlio César, reformador do calendário Romano, decretou o cônsul Marco Antônio, que para honrar o illusre senador, nascido a 12 deste mês, se lhe desse o nome de Julius do qual  se originou o nome de Julho.

AGOSTO - O numero dos dias deste mês  tem variado muito, quando era o sexto chamava-se Sextilis: tinha então 30 dias. Quando Numa reformou o calendário, acrescentando-lhe Janeiro c Fevereiro, deu-lhe só 29 dias. Mais tarde, Júlio César fê-lo de 31 dias. Não sofreu de então para cá alteração alguma.

SETEMBRO - O nome latino September mostra claramente, que a principio era este mês o sétimo. Não obstante passar a ser o nono, tem conservado o nome primitivo.

OUTUBRO - Este mês é assim chamado, por ser o oitavo do calendário de Rômulo; e posto haver passado a décimo, no de Numa, e ter, desde então, ocupado sempre este lugar,  tem contudo conservado o mesmo nome. Os imperadores e o senado romano muitas vezes lho quiseram mudar. Era mês consagrado a Marte.

NOVEMBRO - Na origem do império romano, depois de Rômulo haver fundado a cidade, que devia ser um dia a senhora do mundo, denominou-se este mês November como o nono que era. Os romanos consagravam-no a Diana.
DEZEMBRO - Chama-se assim este mês, por ser o décimo do ano de Rômulo. O imperador Comodo quis dar-lhe o nome de Amazona em honra a uma dama romana, de quem trazia o retrato num anel, vestida de amazona. Não vingou a ideia ; e mais tarde tornou a dar-se-lhe o nome de Dezembro, posto que fosse o duodécimo mês do ano. Era consagrado a Vesta.

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Observação:
Não foi localizada imagem referente ao mês de março, infelizmente...
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Fonte:
Almanach familiar para Portugal e Brazil 1º anno - 1868, disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

Piadas do século XIX: 1878


O brasileiro sempre foi dado a uma boa piada!
Embora as piadas de antigamente fossem assim, digamos, bem "ingênuas" se comparadas às dos dias atuais, no seu tempo e contexto eram o que de mais engraçado havia entre o povo. A seguir vão alguns exemplos...

"Allegoria". Charge publicada no jornal "O Polichinello", em agosto de 1876

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PIADAS DO SÉCULO XIX: 1878

Um ladrão
Um ladrão tendo sido sentenciado à morte não fazia senão repetir enquanto liam a sentença:
- Ainda fiz pior, ainda fiz pior, ainda fiz pior...
- Então que fez você pior do que isto? - O quê?
Ao que ele respondeu:
- Deixei que me pegassem.

Antes e depois
“Meu Deus, valei-me”, gritava um carpinteiro ao descambar de um andaime; mas, percebendo que caíra em pé, acrescentou : “Agora já não é preciso.”

O recado
Uma senhora mandou um de seus filhos avisar a certa amiga que tinha dado à luz um menino.
O portador; ou por querer abrilhantar o recado, ou por esquecer-se das palavras “dar á luz”, disse:
- Minha mãe manda-lhe contar que deu à vela um menino.

Podia ser avô
Foi um velho a uma igreja para casar-se com uma menina de 16 anos. O padre estava detraído e não fazia caso dele.
- Sr. padre, dizia o velho; estou esperando.
- Aproxime-se da pia que eu já vou, volveu o padre.
- Não percebo; eu o que venho é casar-me, sr. padre.
- Ah! desculpe; eu cuidei que vinha batizar sua neta.

Paráfrase
Certo orador brasileiro de grande reputação, hoje falecido, estando na oposição do senado, e tendo caído o ministério, que guerreara dissertou sobre a vida do defunto-governo, e concluiu deste modo: abiit, excessit, evasit, erupit.
Sendo instigado a falar em português corrente, assim traduziu o latim: “Amolou canelas, estirou as gambias, deu às trancas, e foi-se com os diabos!”

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Fonte:
Almanach popular para o anno de 1878 contendo diversos artigos de interesse geral, e uma parte noticiosa, literaria e recreativa. Primeiro anno. Silva, Hipólito da (ed.)., disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP
Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.

"Seção dos Caloteiros"


Achei tão divertido o anúncio, a seguir, que dei por conta postá-lo no blog. Ele foi publicado no ano de 1908, na revista Progresso Commercial do Brazil, e traz os seguintes dizeres:
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Seção dos Caloteiros
Iniciamos hoje esta seção.
O nosso intuito, registrando aqui o nome dos indivíduos que nos passaram a perna, é tão somente em interesse dos incautos, para que não aconteça a outros o que a nós aconteceu.
A quem cabe a honra de abrir esta seção é ao Genaro Fernandes, da Rua do Riachuelo, 119, Rio de Janeiro.
Outros que nos forem caloteando, irão aparecer aqui.
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Faltou apenas ao editor escrever: Assinado Gervásio, parafraseando o divertido José Simão!



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Fonte:
Progresso Commercial do Brazil, edição de 1918, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

A "febre" dos chapéus


A deliciosa crônica, a seguir, consta do "Almanach de Porto Alegre 1920", e versa sobre o tradicional chapéu, que durante décadas foi símbolo de moda e status social: media-se a "fineza" de alguém pelo porte de seu chapéu. Isso era o que acontecia na década de 20, por exemplo, quando foi escrita a mencionada crônica.

Lotte Neumann - estrela do cinema mudo na década de 20

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OS CHAPÉUS

Afiançam as más línguas que, não raro, por causa de um chapéu, perde uma mulher inteiramente a cabeça. A nós nos parece mais verdadeiro perderem-se muitos formosos chapéus em cabeças que nada têm de formosas. Quando um chapéu assenta à fisionomia e condiz com o tipo e o gênero da portadora, é o mais favorável dos complementos da
toilette.

Tornou-se vulgar ouvirmos de uma senhora ou de uma moça: “É bonita, sim, mas é muito mais bonita de chape”. Esta pessoa encontrara naturalmente o chapéu que melhor lhe assentava, tivera a dita de encontrar o “seu chapéu”...

Os chapéus são como as almas, carecem de misteriosas afinidades entre a fisionomia guarnecem e o estilo do gênero em que foram feitos e dos enfeites que o ornam. Há rostos só favorecidos pelos grandes chapéus desabados, como
senão as pequeninas toques, enterradas até existem outros a quem não ficam bem as orelhas. Fisionomias de “canotier” e fisionomias que só adquirem a sua verdadeira e mais bonita expressão à sombra vaporosa das amplas formas emplumadas, ou arrepeladas de fios diáfanos de aigrettes.

As flores assentam geralmente ás caritas moças, cujo frescor primaveril lhes corresponde ao viço lustroso e novo. Há cabeças, porém, absolutamente refratárias ao chapéu, cabeças “inchapeláveis”, se nos querem excusar o neologismo, a que o chapéu desfigura e ridiculariza. São geralmente estas cabeças as infelizes portadoras do chapéu deitado para trás, o “chapéu no alto do cocuruto”, que é uma das mais feias expressões do mau gosto humano. O chapéu no alto do cocuruto desvaira a fisionomia, dá um quê de
esdrúxulo e desajeitado à cabeça, arroceirando desastradamente a pessoa. Dir-se-ia que um perpetuo pé de vento lhe desequilibra a harmonia da estabilidade, transformando em fabricação suburbana o mais elegante modelo da rua do Ouvidor ou da rue de La Paix. É coisa sabida, entre as modistas, que há caras para chapéus, e é em regra geral, nessa privilegiada classe que são escolhidas as vendedoras, tendo quase sempre de experimentar os chapéus que agradam ao capricho da cliente.

É daí que muito equivoco se origina. Um chapéu fica divinamente á cabeça loira da "vendeuse", a freguesa se encanta logo, e compra-o sob a recomendação enganadora dessa aparência. Chegada á casa verifica destoar completamente da sua trigueira e redonda fisionomia. Desola-se, e não compreendendo o porque dessa mudança, acha sinceramente horrível o que lhe pareceu lindo na loja e acusa temerariamente a modista, de lhe ter mudado o artigo. Tão pessoal é o chapéu que só a própria futura dona o deve experimentar.

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Fonte:
Almanach de Porto Alegre 1920,
disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP
Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.
A imagem não se inclui no referido texto.

Fonte da imagem:
Revista "Para Todos", edição de 1922,
disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil

Dos alimentos puramente africanos


Só quem já experimentou um acarajé quentinho da Bahia, mas aquele feito por uma legítima baiana, é que sabe o quanto é saborosa a comida de origem africana. As dicas (ou receitas), a seguir, constam de um livro sobre culinária baiana, publicado no ano de 1928. Sem dúvida, uma verdadeira delícia!!!
"Negra tatuada vendendo caju", de Jean-Babtiste Debret, 1827

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Dos alimentos puramente africanos

São estes os principais alimentos de que o africano fazia abundantemente uso, entre nós, e são, hoje em dia, preparados pelos seus descendentes, com a mesma perfeição:

ACASSÁ — Deita-se o milho com água em vaso bem limpo, isento de quaisquer resíduos, até que se lhe altere a consistência. Nestas condições, rala-se na, pedra, passa-se numa peneira ou urupema e, ao cabo de algum tempo, a massa fina adere ao fundo do vaso, pois, nesse processo, se faz uso de água para facilitar a operação.
Escoa-se a água, deita-se a massa no fogo com outra água, até cozinhar em ponto grosso.
Depois, com uma colher de madeira, com que é revolvida no fogo, retiram-se pequenas porções que são envolvidas em folhas de bananeira, depois de ligeiramente aquecidas ao fogo.

ACARAJÉ
— A principal substancia empregada é o feijão fradinho, depositado em água fria até que facilite a retirada do envoltório exterior, sendo o fruto ralado na pedra.
Isto posto, revolve-se a massa com uma colher de madeira, e, quando a massa toma a fôrma de pasta, adicionam-lhe, como temperos, a cebola e o sal ralados.
Depois de bem aquecida uma frigideira de barro aí se derrama certa quantidade de azeite de cheiro (azeite de dendê), e, com a colher de madeira vão-se deitando pequenos nacos da massa, e com um ponteiro ou garfo são rolados na frigideira até cozer a massa. O azeite é renovado todas as vezes que é absorvido pela massa a qual toma exteriormente a cor do azeite. Ao acarajé acompanha um molho, preparado com pimenta malagueta seca, cebola e camarões, moído tudo isso na pedra e frigido em azeite de cheiro, em outro vaso de barro.

ARROZ DE AUSSÁ — Cozido o arroz na água sem sal, mexe-se com a colher de madeira até que se torne delido, formando um só corpo e, em seguida, adiciona- se um pouco de pó de arroz para assegurar á consistência.
Prepara-se, depois, o molho em que entram como, substancias a pimenta malagueta seca, cebola e camarões, tudo ralado na pedra.
Leva-se, o molho ao fogo com azeite de cheiro e um pouco de água, até que esta se evapore.
Como complemento ao arroz de aussá, o africano frigia pequenos pedaços de carne de charque que eram espalhados sobre o arroz juntamente com o molho.

EFÓ — Corta-se a folha conhecida vulgarmente, por língua de vaca ou a mostarda e deita-se ao fogo a ferver com pouca água. Isto feito, escoa-se a água, espreme-se a massa daí resultante e coloca-se de novo na mesma vasilha com cebola, sal, camarões, pimenta malagueta seca, tudo ralado conjuntamente na pedra e, finalmente, o azeite de cheiro.
Prepara-se também o efó com peixe assado, ou com garoupa, caso em que esta é cozida á parte.
Ainda mais: como o peixe é assado sem sal, ralam-se os respectivos temperos, em quantidade suficiente e leva-se tudo ao fogo. O africano empregava ainda a folha de taioba no preparo do efó.

CARURU—Em seu preparo observa-se o mesmo processo do efó, podendo ser feito de quiabos, mostarda ou de taioba, ou de efó, ou de filtras gramíneas que a isso se prestem, como sejam as folhas dos arbustos conhecidos, nesta capital, por unha de gato bertalia, bredo de Santo Antônio, Capéba, etc, às quais se adicionam a garoupa, o peixe assado ou a carne de charque e um pouco de água que se não deixa secar ao fogo. O caruru é ingerido com acassá ou farinha de mandioca.

ECURU—Preparado o feijão fradinho, como se fez com o acarajé, coloca-se pequena quantidade em folhas de bananeira, á maneira do acassá, e cozinha-se em banho-maria, isto é, sobre garavetos colocados no interior de uma panela com água.
Depois de pronta, a massa é diluída em mel de abelhas ou num pouco de azeite de cheiro com sal.
É uma verdadeira farofa.

XIN-XIN — Morta a galinha, depena-se, lava-se bem, depois de retirados os intestinos e corta-se em pequenos pedaços.
Deitam-se na vasilha ou panela para cozinhar com sal, alho e cebola ralados.
Logo que a galinha estiver cozida, adicionam-se camarões secos em quantidade, sal, se for preciso, cebola, sementes ou pevides de abóbora ou melancia tudo ralado na pedra, e o azeite de dendê.

BOLAS DE INHAME — Despido da casca, lava-se o inhame com limão e coze-se com pouco sal. Em seguida é pisado em pilão e da massa se formam bolas grandes que são servidas com caruru ou efó.

BOBÓ DE INHAME — Corta-se o inhame em pequenos pedaços, leva-se ao fogo com água e finalmente tempera-se como o efó.

FEIJÃO DE AZEITE (humulucu) — Cozido o feijão fradinho, tempera-se com cebola, sal, alguns camarões, sendo todas estas substancias raladas na pedra, adicionando-se, ao mesmo tempo, o azeite de cheiro.
A iguaria só é retirada do fogo depois de cozidos os temperos.

ALUA — O milho demorado na água, depois de três dias, dá a esta um sabor acre, de azedume, pela fermentação. Côa-se a água, adicionam-se pedaço^ de rapadura e, diluída esta, tem-se bebida agradável e refrigerante.
Pelo mesmo processo se prepara o aluá ou aruá da casca do abacaxi.

DENGUE — É O milho branco cozido, ao qual se junta um pouco de açúcar.

EBÓ — É preparado com milho branco pilado. Depois de cozido, certas tribos africanas adicionavam-lhe azeite de cheiro e outras o ouri.
Outro processo: misturam-se o milho e o feijão fradinho torrado, e, com uma pouca de água, deitam-se a ferver; depois, juntam-se sal e azeite de cheiro.

LATIPÁ OU AMORI — Era feito com as folhas inteiras da mostardeira, as quais, depois de fervidas, temperavam como o efó e deitavam a frigir no azeite de cheiro.

ABARÁ — Põe-se o feijão fradinho em vaso com água até que permita desprende-lo da casca, e depois de ralado na pedra com cebola e sal, junta-se um pouco de azeite de cheiro, revolvendo-se tudo com uma colher de madeira.
Finalmente, envolvem-se pequenas quantidades em folhas de bananeira, como se faz com o acassá, e coze-se a banho-maria.

ABERÉM — Prepara-se o milho como se fora para o acassá e deite se fazem umas bolas semelhantes ás de bilhar, que são envolvidas em folhas secas de bananeira, aproveitando-se a fibra que se retira do tronco para atar o aberém.
É servido com caruru e também com mel de abelhas? Dissolvido na água com açúcar, é excelente refrigerante. Havia ainda o aberém preparado com açúcar, cujas bolas, do tamanho de um limão eram ingeridas sem outro qualquer elemento adocicado.

MASSA — Rala-se o arroz, cozinha-se, e formam-se pequenas bolas que se envolvem em polvilho de arroz. São também refrigerantes, dissolvidas em água com açúcar.
O preto muçulmano, porém, frigia essas bolas de arroz no azeite de cheiro, ou no mel de abelhas, constituindo essa iguaria verdadeira preciosidade, em suas cerimônias religiosas.

IPETÊ — O inhame descascado, cortado miúdo, fervido até perdera consistência, é temperado com azeite de cheiro, camarões, cebola e pimenta, estes últimos ralados na pedra.

ADO — É o milho torrado reduzido a pó e temperado com azeite de cheiro, podendo juntar o mel de abelhas.

OLUBÓ — Descascada e cortada a raiz da mandioca, em fatias muito delgadas, são estas postas a secar ao sol.
Na ocasião precisa, são essas fatias levadas ao pilão, e aí trituradas e passadas em peneira ou urupema. A água a ferver, derramada sobre o pó, produz o olubó, que é uma espécie de pirão.

OGUEDÉ — É a banana denominada da terra frita no azeite de cheiro.

EFUN-OGUÉDÉ — Prepara-se com a banana de S.Thomé, não amadurecida de todo, descascada, cortada em fatias e deitada ao sol para secar.
Dias depois pisa-se, no pilão, passa-se na peneira e obtém-se a farinha chamada efun-oguedé.

ERAN-PATERÊ — E' um naco de carne verde, bem fresca, salgada e frita no azeite de cheiro.

Os africanos ainda condimentavam as suas refeições com o ataré (pimenta da Costa), em quantidade muito reduzida; com o irá, fava de um centímetro de diâmetro, usada em quantidade diminuta; com o pejerecum ou bejerecum, outra fava de quatro centímetros de comprimento por dez milímetros de espessura, empregada no tempero do caruru; com o ierê, semente semelhante á do coentro e usada como tempero do caruru, do peixe e da galinha.
Faziam ainda os africanos largo emprego do egussi (pevide de abóbora ou melancia) no condimento de certas iguarias.
O africano, em geral, era sóbrio no uso de bebidas alcoólicas: não se davam ao vicio da embriaguez, mas do dendezeiro extraiam generoso vinho.
Para esse fim, na parte superior do tronco dessa palmeira, faziam uma incisão e colocavam um pedaço de bambu para servir de escoadouro da seiva. Ao liquido que caía em uma cabaça aí amarrada, davam o nome de vinho de dendê.
Posteriormente, na Bahia, foi o vinho posto a fermentar e filtrado antes de engarrafado, e isso lhe imprimia certa potência alcoólica e característica, sem embargo do paladar agradável e saboroso.

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Fonte:
Arte culinária na Bahia: (breves apontamentos). Querino, Manuel, 1851-1923, disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP
Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.
A imagem não se inclui no referido texto.

Origem das cartas de jogar

Abrindo a série "Fundo do Baú - Curiosidades", postaremos um texto de 1903, publicado num daqueles tradicionais almanaques. O texto versa sobre a origem das cartas de baralhos, algo que gerou muita especulação desde os remotos tempos. O nosso Blog também é cultura inútil!!! ((rs))

Origem das cartas de Jogar

Divergem muitíssimo as opiniões sobre a origem das cartas de jogar.

Segundo uns foram inventadas pelos chineses no principio do século XII, levadas pelos mongóis para a Ásia Ocidental e introduzidas na Europa pelos cruzados, segundo outros foram levadas para Itália pelos romanos. Finalmente, segundo Duchesne, foi entre os anos 1369 e 1392 que elas apareceram pela primeira vez em França, atribuindo-se a sua invenção a Jacques Gringonneur, pintor medíocre dessa época.

O que há, porém, de positivo é que as mais antigas cartas conhecidas, foram fabricadas no século XIV, em Veneza.

As mais antigas cartas de fabricação francesa foram pintadas á mão por Gringonneur em 1392, para o rei Carlos VI.

Os baralhos primitivos eram simples coleção de estampas, destinadas mais á instrução que ao divertimento dos homens.

Com a invenção da gravura, no século XV, as cartas aperfeiçoaram-se e multiplicaram-se infinitamente.

Os primitivos baralhos eram adornados com figuras muito diferentes das usadas hoje; estas, segundo a opinião de alguns autores, remontam ao século XVI.

A maior parte destes autores dizem que o rei de espadas (pique) David, é o emblema de Carlos VII; o rei de ouros (correaux) Carlos representa Carlos Magno ; o rei de copas (coeur) é a figura de Cezar, finalmente, o rei de paus (trefle) representa Alexandre.

César e Alexandre não são certamente o imperador de Roma e o rei da Macedônia, mas sim soberanos franceses, pois as cabeleiras, com que eles são representados, não são peculiares aos macedônios ou romanos mas sim aos franceses daquela época e ainda porque nas cartas antigas são sempre representados os mantos reais adornados com flores de liz, que os franceses usavam.

A dama de paus — “Argine”, anagrama de Regina — representa a rainha Maria de Aujon, mulher de Carlos VII; a dama de espadas (Gallas) representa a legendária guerreira Joana d'Arc; a dama de ouros, representa a imperatriz Judith, mulher de Luiz, o benigno, segundo uns, e Machel, Agnés Sorel, segundo outros; a dama de copas significa Isabel de Baviera, mulher de Carlos VI.

Ogier e Lancelot, valetes de escadas e paus, são dois heróis do tempo de Carlos Magno e companheiros deste; Heitor de Gallardon e Lahire, valetes de copas e ouros, são dois notáveis capitães do tempo de Carlos VII.

Os azes (az deriva-se do latim “as”, que designava uma moeda dos romanos), significavam riqueza e dinheiro.

Os pontos tinham ainda, a sua significação: — as espadas e os ouros (piques e carreaux) representavam as armas assim chamadas; os paus (trefle) designavam a guarda de uma espada, e as copas (coeur) significava a bravura.

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Fonte:
Almanak Historico-Litterario do Estado de S. Paulo. Para o anno de 1903. Monteiro, Oscar (org.), disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.
A imagem não se inclui no referido texto.