Mostrando postagens com marcador FUNDO DO BAÚ (LITERATURA). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FUNDO DO BAÚ (LITERATURA). Mostrar todas as postagens

Machado de Assis e os críticos de seu tempo


O texto, a seguir, foi extraído da revista “Kosmos”, em sua edição nº 4, de abril do ano de 1909, portanto, um ano após a morte do nosso genial Machado de Assis. Trata-se de uma crítica feita ao nosso romancista, de autoria de um tal José Maria de A. Bello, cujo nome já  se perdeu no trânsito da história...
Segundo um pensamento atribuído a Sibelius: “Não devemos dar demasiada atenção ao que os críticos dizem. Nunca foi erguida uma estátua em honra de um crítico.” A crítica do nosso José Maria parece exemplificar em maestria esta importante reflexão. Lá pela tantas diz ele do grande Machado de Assis:  “Machado de Assis não teve e nem terá nunca uma larga repercussão no nosso meio”. Incrível como a crítica literária às vezes é tão burra e cega, baseando-se exclusivamente numa visão restrita ao seu tempo! Hoje Machado de Assis é a referência máxima de nossa literatura, sendo inclusive de elevado prestígio nos âmbitos literários em todo o mundo. Mais adiante diz ainda o mesmo crítico: “Machado de Assis não é nosso pois, não está na curva da nossa evolução intelectual...” Como se pode notar Machado de Assis não fora muito bem aceito por determinada elite tupiniquim, e sua condição social e étnica explicam um pouco esta aversão ao nosso gênio literário.
Machado é o nosso grande escritor e merece todos os méritos, pois, além de tudo, tornou-se num maravilhoso exemplo de uma pessoa verdadeiramente batalhadora, que lutou contra as intempéries da vida, que, no seu caso, era sua condição social humilde, sua cor e sua doença, a epilepsia. VIVA MACHADO DE ASSIS!!!


O enterro de Machado de Assis, em 1908
----
Bem cedo, o grande morto do ano passado vai sendo esquecido.
A última vez, que se falou dele foi, parece-me, na bela conferencia do sr. Oliveira Lima, que o Jornal da Comércio nos deu integralmente.
No entanto, ninguém em nosso meio, como Machado de Assis, consegue despertar o interesse literário.
Nulo se o lê impunemente; é uma figura estranha entre nós.
Normalmente, a cultura brasileira não permitiria o seu aparecimento; ele paira numa esfera superior ao seu tempo e á sua raça.
Como se tem dito mais de uma vez, foi um grego ou um francês das antigas tradições, prendendo-se através de Anatole France e de Rénan ao grande século de Luiz XIV.
A obra literária representa, tanto quanto a personalidade do escritor, as idéias, os costumes, as aspirações ambientes; aquele se torna, inconscientemente, o mais alto expoente da inteligência e dos sentimentos do seu meio. Machado de Assis, não. Isola-se dos seus, foge a corrente da literatura nacional; pelo seu refinado intelectualismo, pela sua arte originalíssima é um produto esporádico, uma espécie de anomalia.
Se não tem escolas nem épocas literárias, a humanidade de, seus 1ivros não é propriamente uma humanidade ideal sem limites geográficos ou históricos. Neles se retrata urna sociedade, que já foi uma geração extinta, que nós, os novos, não conhecemos e quase não compreendemos hoje:
Não quer isto dizer que Machado de Assis tivesse sido um escritor de romances nacionais ou um novelista indígena, no estreito ponto de vista de Macedo ou de Alencar.
O Brasil se resumia para ele no Rio de Janeiro, onde, como  todos os centros cosmopolitas, as originalidades de raça se perdem, na imitação inconsciente das civilizações modelares.
Assim pois, ele colheu o homem na sua formação definitivas como um produto completo, de que não quis conhecer os fatores.
O mundo físico quase que não existe na sua arte; aproximando-se de Sthendal, neste ponto, o homem só lhe valia como uma complicada máquina cerebral, que ele psicólogo sutil se comprazia em movimentar.
Não foi um romancista; os seus livros não são romances, na acepção nítida e moderna do termo, depois de Flaubert e de Zola.
A ele, o senhor da suprema harmonia no estilo, o mestre querido da medida e da sobriedade literárias, faltava a lógica do conjunto, a arte, talvez um pouco mecânica, da confecção externas como lhe faltou também o talento descritivo  e o poder de imaginação.
E preciso aceitá-lo, tal qual se revelou, com os defeitos de suas virtudes.
Deixou-se influir muita pela liberdade de forma de De Maistre e, mais ainda, dos humoristas ingleses Sterne e Dichens foram de certo, seus ídolos literários.
Eu sei que a novela romântica ou os romances lógicos, medidas e justos de Flaubert, Zola e Bourget se tem tornado de unia banalidade fatigante, em França, sobretudo, onde os psicólogos subtis de anomalias sentimentais se multiplicam espantosamente.
Os livros de Anatole France demonstram a reação, que se vai fazendo em bem da graça, da bula e da sobriedade, que são os apanágios eternos do espírito francês.
Entretanto não creio que “Thais”  ou os “Contes de Jacques Tournebroche” representem a forma definitiva e vitoriosa da literatura.
Na intensidade da vida moderna, o intelectualismo se aniquila; a arte se torna, inevitavelmente, utilitária e democrática.
O romance tende pois a se resumir numa espécie de monografia científica, num estudo breve e incisivo de patologia social ou humana.
Mas nós não passamos pela fase primeira. Machado de Assis é pois, um prematuro na nossa evolução literária e, sobretudo, um entranho.
Ninguém foi menos nacional do que ele. Não sentiu nunca a influencia deletéria, para a arte, da natureza violenta dos trópicos.
De origem humilde, mestiça e tipógrafo, jornalista e burocrata depois, dir-se-ia que se encerrava em si mesmo, criando-se um mundo intangível e a parte.Sua timidez congênita seu bom gosto inato salvaram-no.
Num país, em que o estilo é a pompa, a adjetivação desvairada, a frase voluptuosa e quente, que causam arrepios de volúpia e calafrios de gozo, foi um sóbrio e um harmônico.
Colocando-se alguém, num ponto de vista de critica dogmática não o compreenderia. Com a sua timidez, no ambiente social, em que viveu, deveria ter feito unia literatura de comendador solene e besta.
Mestre de sua língua respirando a atmosfera envenenada por um século de romntisrno, seria antes um retórico genial ao modo de Ruy Barbosa.
No encanto, nem uma nem outra coisa. Mesmo nos seus primeiros livros, em “Helena”, em “Histórias sem data”, ou em “Papeis avulsos”, eivados ainda de certas ficções românticas, o artista impecável de “Braz de Cubas”, ou de Dom Casmurro, se revela já, na ironia amarga e suave, simultaneamente, na psicologia aguda, na limpidez do estilo e sobretudo na correção da língua.
O cético e o humorista da “Teoria do medalhão”, e do “Alienista” valem bem o cético e o humorista do “Braz Cubas”, que é, sem dúvida, a sua obra prima.
Para conhece-lo, é suficiente talvez ler esse livro de ouro, relê-lo duas, três vezes nas entrelinhas, nos capítulos, que não escreveu... enfim, nas suas subtilezas todas, na sua ironia branda, no seu pessimismo, que ele embalde, tenta ocultar.
Não lhe esqueçamos o fim: “não tive filhos, não transmitir  a nenhuma criatura o legado de nossa mesina...”
Como ele próprio o diz, foi este o único saldo que Braz Cubas encontrou na morte ou no outro lado do mistério.
Esta historia singela sem episódios românticos, espécie de diário de uma vida burguesa e vulgar é, no fundo, um livro doloroso e triste, o livro de um descrente, quase uma apologia da inércia.
É preciso censura-lo por isso? Não. Machado foi sincero, a sua filosofia, que, no dizer do sr, O. Lima, consiste no modo de ver e compreender o universo, era aquela.
E quem poderá dizer que não seja a verdadeira e negar a inanidade de todos os esforços a eterna importância humana?
Spencer nos “Primeiros Princípios”, depois da sistematização genial de urna filosofia viril e triunfante, cabe na dúvida, que lhe é um desmentido, na descrença, que é uma irmã da inércia.
Quando se lê Machado de Assis, um pesar único se tem; o de não ter descido mais na análise de nossas misérias, de não ter desnudado melhor a alma humana, que tão bem soube conhecer:
Machado de Assis, psicólogo de raça, não teve nunca esta grande vista de conjunto, este poder de síntese e de generalização filosóficos, um pouco dogmáticas talvez, que constituem o grande mérito de Zola, por exemplo. Sua critica se contenta em ferir de leve; não quis descer ao ámago das cousas.
Parece que o abismo da alma humana lhe causa medo e que a animalidade nossa lhe produz um movimento intinctivo de poder delicado e feminismo.
Está no seu gênio de tímido, de uma timidez sincera, senhora um pouco excessiva e que foi sempre um braço característico de si. Já se disse algures que essa timidez era um produto de sua vida banal de burocrata; traria assim para os seus livros um reflexo do convencionalismo e de respeito às causas aceitas, às hierarquias sociais.
Foi um pouco injusta a critica; ela he era orgânica. Se se lhe fosse buscar uma origem qualquer, seria, de certo, no seu ceticismo, no seu desprezo de artista pela imbecilidade humana. Com maior verdade se disse de Machado de Assis, que encontra um certo prazer em zombar do seu leitor, Sente-se-lhe o riso mudo nas entrelinhas, não o riso sarcástico e irreverente de Eça ou o ritus amargurado de Schopenhauer; é antes um riso piedoso e condescendente de avô cético...
A tolice nossa não lhe causa os gritos de revolta, o desespero agressivo de Eça de Queiroz; quando muito, lhe faz aflorar um ligeiro sorriso. É um paralelo interessante a se fazer, este, entre as dois maiores escritores da nossa língua. Dotados ambos de igual poder de observação, no entanto, a diferença entre os seus temperamentos e processos de artistas, é radical e profunda.
Eça, nervoso e irreverente, iconoclasta por índole e pela educação, chicoteou impiedosamente todo um povo, Caricaturista genial de uma sociedade degenerada, não conhecem limites à ironia, excedendo-se, por vezes, em prejuízo de sua impassibilidade superior de artista.
O cretino ou o imbecil lhe causam desespero e ódio. Temperamento de combate, violento e implacável, senhor de uma língua, que foi sua unicamente, mais do que escreveu, fotografou, mais de que romances de costumes, fez processos dessa sociedade de Acácios, Pachecos e Gouvarinhos, que foi portuguesa e é nossa hoje. Elegante e requintado, vivendo nas civilizações superiores do velho mundo, foi o maior patriota do seu tempo. Regenerou pelo ridículo, destruiu um mundo pela ironia. Machado de Assis, tão argusto e mais amargo do que seu confrade portuguuês, não teria nunca esse jacobinismo destruidor, essa irreverência atrevida, que já dizia João do Ega, é uma condição de progresso.
Ele fere, sem deixar a chaga sangrenta da autor dos “Maias”; a sua ironia é como um estilete agudo, que mal se sente. Faltava-lhe a ousadia de prosélito; não tentaria nunca destruir a ordem das cousas, aceitando a imbecilidade ambiente com uma bonomia de aparência ao menos.
Foi puramente, absurdamente, um intelectual nesta terra em que o intelectualismo é uma palavra vã, uma ficção para uso externo, nas conferencias de um patriota, como o sr. Oliveira Lima, fazendo indiretamente uma piedosa propaganda de sua gente...
Em casa se pode ser mais franco...  Machado de Assis não teve e nem terá nunca uma larga repercussão no nosso meio; sua obra foi superior á nossa cultura, estranha ao nosso gosto.
A nossa democracia, niveladora e exagerada, é impiedosa para as cousas de espírito, como aliás a são todas as democracias. Estigmatizadas de origem, com uma perniciosa educação política, sem vida social, asfixiados, sob a violência da natureza, numa fase ainda de formação e, assim, de imitação inconsciente, a nossa literatura tem de ser o que é, genuíno produto de todos esses fatores, uma literatura incolor, sem relevos, oscilando entre o indigenismo banal de Alencar e a obra vibrante, porém desarmônica de Coelho Neto, como seus melhores tipos, de um lado, e o plágio servil dos livros franceses, de outro lado.
Machado de Assis não é nosso pois, não está na curva da nossa evolução intelectual, de que o gênio do sr, Ruy Barboza é o ponto supremo.
O outro ático, que se lhe aproxima, o sr. Joaquim Nabuco, explica-se. Viveu longe do nosso meio, sentiu de perto o contágio indelével de Rénan, é um filho direto da cultura francesa. A campanha abolicionista, que o trouxe á rua á multidão ruidosa e bárbara, não conseguiu avilta-lo como artista, nobilitando-o, como homem.
Para ser justo, poderia excetuar ainda, Raul Pompéia, o grande artista do “Ateneu”,  talvez o livro mais perfeito da nossa literatura, e hoje os srs. Graça Aranha e Euclides da Cunha.
Mas esses dois últimos representam outra corrente literária, a da preocupação social, dos altos problemas da vida, invadindo a arte, mostrando-lhe a função futura e nobilíssima; assim me não é permitido estuda-los aqui, de afogadilho, nos modestos limites, que a mim próprio tracei. “Canaã” e, sobretudo, os “Sertões” são livros de sábios e de sociólogos.
O sr, Oliveira Lima não disse essas cousas, que todos nós sentimos.
Falando perante um auditório estrangeiro, s. exa. quis mostrar Machado de Assis, em si somente, através de seus livros e de sua vida íntima. Não lhe importou a anomalia, que ele representa nas nossas letras.
Sobre o escritor dificilmente algo se poderia dizer de novo, maximé depois dos estudos do erudito sr, José Veríssimo e da conferência do nosso digno diplomata.
Relendo-lhe a obra e esta conferência, fui tentado a dizer as minhas impressões, todas pessoais, sem pretensões a crítica dogmática, já se vê...
Eu sei bem que é uma irreverência, quase uma afronta a sua memória sagrada a nós todos, mas ele, que, como “Braz Cubas”, se encontra, agora, no outro lado do mistério, de certo, me perdoará, na sua condescendência de sempre, embora lhe sinta o sorriso cético e piedoso e mais este “incomensurável desdém dos mortos”...

Rio — Agosto —  1909.
JOSÉ MARIA DE A. BELLO

---
Fonte do texto:
Revista "Kosmos", ano VI, nº 4, abril de 1909, disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil

Bocage na visão do Olavo Bilac

A série "Fundo do Baú - Literatura", apresentará um texto de 1917, de autoria do poeta parnasiano (na época eleito o "príncipe dos poetas"), o nosso grande Olavo Bilac, e faz parte da obra "Ultimas conferencias e discursos", que a maravilhosa biblioteca Brasiliana, da USP, disponibiliza digitalmente em seu belo site. Neste texto, Bilac discorrerá acerca de outro grande poeta, o português Bocage. Sem dúvida, outra preciosidade literária que se perdeu nos emaranhados das letras ao longo dos tempos...


Inauguração de um monumento ao grande poeta Olavo Bilac, na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 7 de setembro de 1922

---
BOCAGE
Sociedade de Cultura Artística de S. Paulo. 19 de Março de 1917.

“Se o Destino cruel me não consente
Que o ferro nu brandindo, irado e forte,
Lá nos horrendos campos de Mavorte,
De loiros imortais guarneça a frente;

Se proíbe que, em sólio refulgente,
Faça os povos felizes, de tal sorte,
Que o meu nome, apesar da negra Morte,
Fique em padrões e estátuas permanente;

Se as suas ímpias leis inexoráveis
Não querem que os mortais em alto verso
Cantem de mim façanhas memoráveis,

Submisso à má ventura, ao fado adverso,
Ao menos por desgraças lamentáveis
Terei perpétua fama no Universo...”

Relembrei-me, tristemente, este desalentado soneto de Bocage, uma tarde, em Lisboa, numa loja do Rocio, em que se vendiam tabaco, jornais, revistas, e edições baratas de literatura equivoca. Sobre o balcão, havia um folheto mal impresso, de capa mascarrada, com um titulo vistoso, de chamariz, e um retrato do poeta:

"Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno..."

Abri o livreco, e folheei-o. Entre alguns poucos versos autênticos de Bocage, e ainda assim errados, cheios de aleijões, cobria as paginas uma germinação de pântano, anedotas insulsas, quadrinhas obscenas, motes e glosas de repugnante facécia, — tudo isso flagrantemente apócrifo, de gosto plebeu, de metro cambado, de gramática mascavada, revoltantemente atribuído ao talento de um dos melhores vernaculistas, do melhor metrificador da poesia portuguesa, de quem Teófilo Braga escreve "que é, depois de Camões, o único poeta de quem o povo português verdadeiramente se lembra". E voltaremos já a esta frase, para mostrar até que ponto um singular concurso ele circunstancias fatais deu a um dos mais belos e corretos cultores da nossa língua a mais triste e lastimável das reputações.

Atirei, com asco, a desavergonhada brochura. Pobre Bocage! Nem ao menos só pelas suas "desgraças lamentáveis" teve ele "perpetua fama no universo"!

A fama lhe foi dada por esta ignóbil literatura de pornéa! Era a sua estatua, aquele opúsculo torpe! — a estatua, que lhe foi erigida, amassada de lama, no coração da sua amada Lisboa, naquele mesmo Rocio, em que pompeou e brilhou, no fim do décimo-oitavo século, e no começo do décimo-nono, o famoso Botequim das Parras, teatro das glorias do inspirado repentismo de Elmano!. . . Como poderia Elmano, naquelas noites de triunfo, embriagado pelas palmas e pelas aclamações, pálido e descabelado, no arrebatamento da improvisação, adivinhar que aquele elogio geral, aquele louvor dos letrados e aplauso da plebe, aquele incensamento de excessivas lisonjas em vida, seriam, depois da sua morte, desfigurados em labéus?

Triste fraqueza humana, esta, talvez a mais triste das fraquezas que nos diminuem e envergonham: o amor da popularidade!

E' tão fácil ser popular! terríveis assassinos, exímios ladrões, grandes devassos alcançam facilmente uma celebridade mais vasta do que a que logram os mais altos benfeitores da humanidade e os mais claros servidores da arte. Nem é preciso para ganhar notoriedade ser um chapado criminoso, nem um rematado louco; para subir ao galarim, não é necessário ser Nero, nem Erostrato; a escalada para o fastígio não requer sublimidades de crueldade nem de megalomania: nem a carnificina de cem mil cristãos, nem o incêndio do templo de Diana. Para guindar um homem ao Capitólio, bastam tolices vulgares, extravagâncias jocosas ou escandalosas, e pequeninas infâmias: cortar, como Alcibíades, a cauda de um cão de preço; ou exagerar, á guisa dos bufões de feira, momices e chalaças, originalidades de vestuário ou preciosidades de dizer; ou ainda, como Aretino, armar na praça publica um pelourinho para as reputações alheias, restaurando para espantalho dos timoratos as estatuas de Marforio e Pasquino. E nem tanto! A ascensão para o renome é ainda mais fácil... Esses pobres diabos, a quem chamamos "tipos de rua", que divertem ou incomodam os transeuntes, com a sua bebedeira ou a sua maluquice, são populares sem querer, inconscientes da sua popularidade... Pobres dons, os da fama publica!

Dir-se-á que há exagero nesta objurgatória contra a celebridade, porque não se deve confundir o renome, que se atribui a um horrendo facínora ou a um descarado palhaço, com o que se dá a um nobre estadista, ou a um belo poeta, ou a um admirável homem de ciência. Mas até a esses, até aos mais dignos e puros sacerdotes da Verdade e da Beleza, sempre a celebridade dá uma deturpadora tacha. O vulgo não perdoa nem suporta facilmente superioridades intelectuais ou morais. Quando um homem se realça sobre o comum dos mais, logo nasce contra ele, entre os aplausos, um sentimento hostil, que, se não é de inveja, é ao menos de instintivo despeito e vaga irritação. E começa o trabalho da curiosidade malévola, o inquérito perverso... "É possível que este homem, tão elogiado, não tenha todas as inferioridades, todas as mesquinharias, todas as misérias, que viçam em tantos entes sem talento e sem brilho? Exumemos desta vida gloriosa alguns mistérios, que se mudem em escândalos! catemos caramujos neste rosal! esvurmemos espurcícias deste astro! espiolhemos torpezas na grandeza desta inteligência e na limpidez desta moral! abaixemos esta montanha até o nosso pântano!" E lá vai a malignidade esperta, de olhos furadores e dedos metediços. Este sábio deve ter algum segredo triste; este artista deve possuir algum lastro de materialismo grosseiro; este santo deve disfarçar debaixo da aureola alguma tinha de pecado! E, se não aparece imediatamente alguma verdade, que dê pasto á ansiedade dos inquisidores, a calúnia abre o seu campo imenso, de fértil imaginação. E aí rebenta sobre o tronco da alta arvore humana a lepra da vegetação parasitaria, escamas de podridão, lichens verde-negros, ferrugem voraz, numa pululação de aleives... O grande homem não é tresnoitado jogador, nem temulento borrachão contumaz, nem frequentador de vielas escusas, comensal de tavolagens, de tascas, de prostíbule inclinações mostruosas, vagos desvios, inconcebíveis perversões, em que se não possam estabelecer verificações nem desmentidos; ou o celebre deve ser avarento, ou ganancioso, ou venal, ou seco de alma; ou talvez haja no recesso de sua família, alguma infelicidade, que, assoalhada, respingue vergonha ou ridículo sobre o seu nome. . . Que homem celebre já se livrou deste imposto sobre a celebridade? Sobre o lar doméstico de Vitor Hugo, houve quem despejou o cântaro da lama infecta, maculando a doce mulher que perfumou a casa, a lira e toda a vida do extraordinário poeta; de Goethe, disse-se que o seu coração era árido como uma rocha alpestre, e que o seu desamor infernou todas as mulheres que o amaram, até aquela que lhe deu o ser e o leite; e de Shakespeare inventou-se que acabou os dias, usurário sórdido, emprestando dinheiro a ágio cruel, e desgraçando viúvas e órfãos...

Além do mais, e principalmente, o renome em vida tem esta desvantagem: o cativeiro. O homem renomeado perde a propriedade de si mesmo, e fica escravo da pior das tiranias, que é a tirania exercida pela multidão. Aquele, que é constantemente falado, deificado e difamado pela voz publica, é como o ouro amoedado, que corre de mão em mão, roçando o tapete de todas as távolas, sujando-se no zinco de todos os balcões, perdendo o peso e o brilho. Mais vale para qualquer homem, e sobretudo para um artista, ser como o ouro, que se afeiçoa em custodia e se guarda na velada paz do santuário...

Isto apenas se refere, está claro, á popularidade em vida. Depois da morte, a aura popular muda de nome, e é a gloria. E aqui cabe completar a frase de Teófilo Braga: "E' certo que o povo português só conhece dois poetas pelos seus nomes — Camões e Bocage; não porque repita os seus versos, como os gondoleiros de Veneza as estâncias de Tasso ou os romanos as canções de Salvator Rosa, já que em Portugal se deu uma forte separação entre os escritores e o povo, mas porque Camões sintetiza o amor da pátria, e Bocage o repentismo muitas vezes cínico das suas anedotas picarescas..." Aí aparece, em plena luz, a funda diferença que há entre os dois renomes: o que é granjeado durante a vida, e o que é fruido depois da morte. Camões ficou celebre, de uma celebridade sem macula, porque, depois de ter vivido desconhecido ou quase desconhecido, apareceu, depois da morte, aureolado da gloria de ser o enternecido e puro cantor da sua nacionalidade, e revestido de uma misteriosa penumbra de legenda; as suas aventuras de espadachim e de arruador duraram pouco, em Lisboa, antes das suas campanhas e do seu exílio; os seus 16 anos da Ásia mataram o seu nome; e este nome, depois, fulgiu ao povo, como o de um deus invisível. Ao contrario, Bocage, que apenas viveu quatro anos fora de Portugal, foi sempre uma figura infalível de Lisboa; conhecido (infelizmente conhecido demais!), adulado e difamado, elogiado e injuriado, amado e odiado, celebre em vida, conservou depois da morte a nodoa dessa triste celebridade de rua e botequins, reputação de repentista fácil, equivoco lustre de rimador e contador de historietas imundas...

O pobre Elmano teve a consciência disto, quando escreveu em Macau este admirável soneto:

"Camões! grande Camões! quão semelhante
Acho o teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar com o sacrílego gigante.

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludibrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu és tu. . . Mas, ó tristeza!
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza!"

A diferença não consistiu nos dons da Natureza. Consistiu na disparidade dos destinos. O Destino não se importa muito com os dons da Natureza.. . Bocage nasceu cento e oitenta e cinco anos depois da morte de Camões — quase dois séculos. A época em que Camões viveu era ainda épica; a de Bocage era sensual — e burlesca.

Bocage, nasceu em 1765, e nasceu poeta, pela influencia do sangue e pela da atmosfera de poesia que lhe cercou o berço. O pai era poeta; poeta era o tio-avô, Pierre Joseph Fiquet du Bocage, casado com uma poetisa francesa, Marie Anne Lepage; e poetisa era a irmã mais nova de Manuel Maria, dona Maria Francisca, nobre e carinhosa senhora, que acompanhou sempre o infeliz poeta na gloria, na miséria, na enfermidade e na morte. Manuel Maria nasceu poeta:

"Das faixas infantis despido apenas,
Senti o sacro fogo arder na mente:
Meu tenro coração inda inocente
Iam ganhando as plácidas Camenas.

Faces gentis, angélicas, serenas,
De olhos suaves o volver fulgente
Da idéa me extrairiam de repente
Mil simples, maviosas cantilenas.

O Tempo me soprou fervor divino,
E as Musas me fizeram desgraçado,
Desgraçado me fez o deus menino:

A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado;
Mas vendo no meu gênio o meu destino,
Que havia de fazer? cedi ao fado."

Cresceu o menino, a ouvir e fazer versos; fez-se rapaz, assentou praça no exercito, obteve baixa, matriculou-se na Academia de Marinha; e veio cair em Lisboa, no ano de 1781, aos 16 anos de idade. Que era Lisboa, que era Portugal, naquele tempo? Já não era governo o grande Pombal, que morreu no ano seguinte. Corria, para a historia de Portugal, uma fase triste, em que é difícil dizer o que mais dominava: o fanatismo ou a luxuria, a intolerância política e religiosa ou a depravação dos costumes.

No paço, Lisboa era isto, segundo Oliveira Martins: "O palácio era um convento. O rei esposo, feíssimo, com um aspecto de idiota, o olhar esgazeado, a peruca desgrenhada, parecendo bêbedo, era um sacristão, ou coisa nenhuma. . . Por toda parte, se murmuravam terços, e havia santos por todos os cantos, em oratórios e nichos, com velas e lâmpadas acesas. E o exercito era uma confraria." Nas ruas, era isto: "A capital do reino recordava aos viajantes sábios, que tinham visto mundo, Fez ou Mequinez em Marrocos. Mas sobre a Lisboa africana havia uma outra Lisboa afrancesada; e a reunião das duas produzia contrastes extravagantes. O janota odiava os costumes nacionais, falava em francês ou italiano. Meneando-se ostentosamente nas ruas, recebendo algum recado, que os criados lhe davam de joelhos, o fidalgo janota era chamado por varias ocupações. Estacionava nas esquinas e nos adros das igrejas, namorando ele estafermo, fazendo sinais com o lenço ("alcoviteiro das distancias"), ou partia escudeirando a dama. Corria apressado, de uma missa a uma "grade", a um "outeiro"... As meninas, das janelas, faziam-lhe momices e acenos, chamando-o ás vezes, á escada, para cochicharem; e pela noite a fora ia aos conventos das freiras, onde mais de uma vez a policia deu assaltos, para expulsar as ternuras. Por essas horas perdidas, nas ruas da mal cheirosa Lisboa, despenhavam-se das janelas as cataratas das imundícies... Os mendigos iam esmolando, como fakirs; os andadores dos conventos vendiam piedosamente uvas, rape, e muitas coisas mais, pelas almas do purgatório ... " E nos conventos o requinte devoto reunia-se ao apuro do namoro: "a sala da "grade", deliciosamente fresca, perfumada de jasmins, com uma luz tépida, era ao mesmo tempo a doirada gaiola das salesias e das pombas, dos papagaios e dos canários, que voejavam soltos, dos poleiros para o seio das meigas freiras; e nesta deliciosa mansão as visitas comiam doces, ouvindo os discursos seráficos do confessor..." E nas salas: "Os "peraltas" e as "franças" ou "secias" falavam agitadamente, com grande mobilidade, agudeza e repentes, em coisas preciosas. Esta era "Sol-entre-nuvens"; os olhos de outra eram "Figas-de-Cupido" por serem pretos; "Ciúmes-da-vista" os azuis, "Traições-á-beata" os pardos. Os pés chamavam-se "Onças-de-neve", as mãos "Jasmins-de-carne". As mães sisudas eram "Vênus-maduras".. . A modinha brasileira era o encanto doce da sociedade licenciosa. Havia mulatos celebres, autênticos, aplaudidos nos salões, por darem ao lundu um acento libidinoso como ninguém... Depois do lundu, alguma velha marquesa, alta, com o rosário de pérolas e topázios enrolados no pulso, dizia, lembrando-se de outros tempos: "lá vai!" — era um mote, que os peraltas orates glosavam. E as meninas, derretidas, aplaudiam com afeição: belo ! sublime ! precioso!...

Foi nesta cidade e nesta sociedade que o mancebo caiu de chofre, ávido ele amores e de glorias. E começou logo a perverter o seu talento nos improvisos, e o seu coração no desregramento geral. E habituou-se á triste existência de parasita, vivendo ás sopas de gente rica, retribuindo com repentes e glosas a ceia que lhe davam, ou, como ele disse, num verso que escreveu pouco antes de morrer: "Pagando em metro o que devia em ouro..."

Esta fase da vida de Bocage, que poderei chamar "a sua iniciação na calaçaria lisboeta", durou até 1786, ano em que o poeta, despachado com o posto de guarda marinha, partiu para a índia, com escala pelo Rio de Janeiro. Como Camões, Bocage vai ver os grandes mares e o Oriente. E' com um acento de grande melancolia, mas também de grande esperança, que ele se despede de Lisboa:

"Antiga pátria minha, e lar paterno,
Penates, a quem rendo culto interno,
Lacrimosos parentes,
Que inda na ausência me estareis presentes,
Adeus! um vivo amor de nome e fama
A nova região me atrai e chama.

Os mares vou talhar, cujos furores
Descreve o grande Camões, por quem de amores
Inda as Musas suspiram;
Aqueles mares, onde os Gamas viram
Do rebelde horrendíssimo gigante
Os negros lábios, o feroz semblante.

Quer a Sorte, propicia a meu desejo,
Manda-me a honra, cujas aras beijo,
Que com fervido brio
Contemple os muros da invencível Diu,
De onde, ó Silveiras, Mascarenhas, Castros,
Foi soar vossa fama além dos astros!

Nos climas, onde mais do que na Historia
Vive dos Albuquerques a memória,
Nos climas, onde a guerra
Heróis eternizou da lísia terra,
Vou ver se acaso ao meu destino agrada
Dar-me vida feliz ou morte honrada..."

Pobre! nem vida feliz, nem morte honrada... Lá se foi o desventurado para a Ásia, e veio, primeiro, ao Brasil, onde a sua nau devia vir buscar o novo governador nomeado para a índia. No Rio de Janeiro, Bocage, que morou na velha rua das Violas, foi feliz: recebeu assistência e carinho do então governador elo Brasil, Luiz de Vasconcelos, literato, que foi amigo dos nossos José Basílio da Gama e padre Conceição Veloso. E teve amores cariocas, e relembrou em versos gratos o encanto da cidade,

" .. .......... onde murmura
O plácido JANEIRO, em cuja areia
Jazia entre delicias a ternura..."

O poeta quis ficar no Brasil. Mas não ficou, e seguiu para Goa, onde encontrou uma sociedade insuportável, enfatuada, ridícula, corrompida, — viveiro de viciosos. Bocage, pervertido por um famoso jogador, alferes José Dionísio, caiu nessa existência desregrada, encalacrou-se em tavolagens, desertou, fugiu, esteve em Damão e Surrate, naufragou em Cantão, e foi para Macau a pé, esfarrapado, faminto, mendigando. E aí padeceu miséria negra e vida vergonhosa...

Ao cabo de 4 anos deste ignominioso martírio, Manuel Maria voltou a Portugal. Tinha então 24 ou 25 anos de idade, e vinha encontrar Lisboa, como a deixara, entregue ao beatério, á devassidão e ao despotismo. Camões, no Oriente, sofrera, e exaltara a sua alma, e cristalizara os seus sofrimentos num poema imortal; Bocage, no Oriente, sofrera, e rebaixara a sua alma, e aprendera o amor da ociosidade e do vicio, e adquirira o gosto da sátira mordaz, que é a expressão comum do descontentamento, da desesperação e da impotência. E' que diferentes eram as épocas, em Portugal, como na Ásia. No Oriente e no Ocidente, no decaído Império e na decrépita Metrópole, a pompa e o fulgor da conquista, os troféus e a coroa, a vitória nos mares e o entusiasmo na terra atolavam-se num pântano... Filhos de dois períodos opostos, Camões e Bocage foram o que tinham de ser. O primeiro foi da era da aventura e da força; o segundo foi da era da carolice ridícula, da hipocrisia e da libidinagem.

Depois do regresso ao reino, os quinze anos de vida, que Elmano ainda teve, foram tristes como os outros, cheios de vã gloria e de deplorável celebridade: a improvisação nos botequins, nas salas e nas grades dos conventos; os lampejos de independência, logo sufocados na estreiteza do meio e do habito; os louvores exagerados, excitando ainda mais a imensa vaidade natural do poeta; a animosidade dos rivais medíocres, as injurias, a inveja, a calúnia, a pobreza, precipitando-o no furor e no desregramento. Como todos os grandes espíritos do tempo, Elmano quis reagir contra a tirania política e religiosa. Estes assomos de dignidade levaram-no aos cárceres da policia de Pina Manique e do Santo Ofício. Quando saiu da prisão, voltou aos botequins, fez escola, chegou ao fastígio da popularidade e da desgraça, e teve a sua famosa e feroz campanha com o invejosíssimo padre José Agostinho de Macedo, que também invejara Camões, pretendendo desbancar "Os Lusíadas" com o seu "Oriente". Consumiu-se assim, em lutas, a vida de Bocage, que envelheceu prematuramente, adoeceu, e morreu miseravelmente em 1805, num quarto andar da travessa de André Valente, pouco depois de escrever este soneto:

"Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel das paixões, que me arrastava;
Ah! cego, eu cria, ah! mísero, eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros soes a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mais eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dama

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:

Deus, ó Deus! Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube!"

Morto Bocage, a triste e perigosa vulgarização, que se chama a popularidade, deveria, para o seu nome e para a sua imensa e radiante obra lírica, transformar-se em pura gloria. Mas a gloria, que lhe está .sendo dada, está maculada. Um século de vergonha pesa sobre a alma de Elmano. O que aconteceu á sua memória é doloroso e revoltante. Em torno do seu nome, chegou a formar-se uma atmosfera de depravação e de escândalo. "Versos bocageanos", na boca do povo, querem dizer: versos que se não podem dizer, literatura de sal grosso e bafio nauseante, florilégio, de lama. Como se não bastassem para difamar a memória do poeta, as rimas de erotismo baixo, que ele infelizmente deixou, suas, bem suas, autenticadas pelo cunho inconfundível do seu estilo e da sua incomparável técnica, — ainda todas as gerações, que se seguiram á sua, têm inventado sujas trovas, tolas quadrinhas, inomináveis sonetos, que a ignorância alvar e sacrílega do populacho vai atribuindo á autoria do mais limpo versificador, que jamais praticou a nossa língua.

Duas injurias: a agravação dos verdadeiros pecados do homem, e a falsa imputação, aleive infamante ao credito do artista.

Sobre a primeira injuria, podemos passar sem reparo demorado. Para honrar a memória de Bocage, e reabilita-lo, dando ao poeta o lugar que lhe compete, não é necessário negar os vícios do homem, transformando-o num anjo. Carlile escreveu que os grandes homens não podem, nem devem ser julgados pelos seus defeitos, senão pelas suas qualidades... E Manuel Maria não foi melhor nem pior do que os homens do seu meio e da sua época. Naquele tempo, e naquela Lisboa de Dona Maria Primeira, não havia anjos. Bocage foi realmente um vaidoso, um boêmio, um desordenado, um brigão, um homem de alma fraca e de linguagem desenvolta. Mas que eram os seus contemporâneos? Ele foi bem um filho da sua época. A cidade e o reino enchiam-se de libertinos e desbocados. Salões e conventos, palácios e ruas tinham a mesma gente sem moral. Os costumes eram soltos, e o falar desbragado. Foi então que começou a florescer o medonho calão, que ainda hoje desonra o idioma português, a gíria abjeta que suja a do Brasil, essa horrenda geringonça, de que Eça de Queiroz estereotipou o modelo n'"Os Maias", no artigo asqueroso de Palma Cavalão, na "Cometa do Diabo". Todos os poetas do tempo de Bocage rimavam coisas fesceninas e sátiras atrozes, e assim se sujeitavam á moda, lisonjeando o gosto da gente que os rodeava...

Mas a segunda injuria, — e, mais do que injuria, calúnia, — essa é que deve ser dolorosa para nós; essa é que deve ser combatida por todos os poetas, e por todos os homens de cultura intelectual e moral. Bocage, autor de versos tolos e errados! Pobre poeta... Os recitadores das salas — gente daminha!— e os rapsodistas das ruas — raça abjeta! — torturam, desarticulam, destroncam, escorcham, escarnificam, aspam, desossam, mutilam, desgraçam a metrificação de Elmano. Até o seu mais erudito biógrafo, o sr. Teófilo Braga, que deveria ter a obrigação de saber o que é um verso bom e um verso mau, é cúmplice no crime. Este critico, nas paginas do seu alentado volume de biografia e análise literária, tranquilamente aceita a autenticidade desta quadrinha enfezada, mole e torta, com que, no dizer das crônicas, Bocage respondeu ás perguntas dos "noturnos" da guarda real da policia, quando o prenderam á saída do botequim do Nicola:

Eu sou Bocage,
Venho do Nicola,
Vou p'r'o outro mundo
Se dispara a pistola...

Como se porventura esta prodigiosa imbecilidade pudesse sair da inteligência e da boca de Elmano, por mais que lhe tivessem embrulhado as idéias e a língua os carrascões da tasca!

Urge reabilitar o formoso lírico, que compôs tantos sonetos de ardente amor e triste filosofia, e tantos idílios, e tantas elegias, e tantas canções, que honraram a nossa raça. E urge, sobretudo, reabilitar o grande arquiteto da expressão verbal, o admirável artista da palavra, o inexcedível metrificador, que foi o desventurado Manuel Maria.

Não consintamos permaneça vilipendiada a reputação do lírico, que escreveu estes quatorze versos:

" Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores
Mole e queixoso deslizar-se o rio:

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio

Se é doce mares, céus ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida...”

Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage, e depois dele decaiu. Da sua geração, e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia do ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário; o jogo sábio e ás vezes inesperado das vogais e das consoantes dentro da harmonia da frase; a variação maravilhosa da cadência; a sobriedade das figuras; a precisão e o colorido dos epítetos; todos estes difíceis e complicados segredos da arte poética, cuja beleza e raridade ás vezes escapam até aos mais cultos amadores da poesia e aos mais argutos críticos literários, e que somente os iniciados podem ver, compreender e avaliar; esta consciência, este gosto, esta medida, este dom de adivinhação e de tato, de que os artistas natos têm o privilegio, — tudo isto coube a Elmano, tudo isto se entreteceu no seu talento. Depois dele, Portugal teve talvez poetas mais fortes, de surto mais alto, de mais fecunda imaginação. Mas nenhum o excedeu, nem o igualou no brilho da expressão. O romantismo veio renovar a poesia portuguesa, deu frescura e brilho 'á idealização dos assuntos, deu força e graça ao movimento da expressão, — e benéfica foi aquela rebeldia contra a secura e dureza dos moldes clássicos. Mas, depois de Garrett e Castilho, os últimos renovadores exageraram e deturparam a escola saneadora. Implantou-se nos arraiais da Poesia o desleixo, a correção da linguagem foi desprezada, e a métrica arrastou-se por longos anos, pobre enferma, aleijada misera, em vão suplicando cuidados de desvelado ortopedista a... Houve, depois, felizmente, reação; mas esta reação não se manifestou em Portugal, senão aqui, no Brasil, com a geração dos chamados poetas parnasianos, erradamente parnasianos, porque, como tão belamente escreveu o meu querido mestre Alberto de Oliveira, "entre nós nunca houve parnasianismo; houve, sim, por influxo deste, um desvio da corrente poética, que, engrossada a principio dos melhores cabedais românticos, rolava ultimamente rasa e desfalecida; houve substituição e melhoria de alguns ideais, a dos elementos de elocução, linguagem, e tudo o mais tocante ao meneio do verso; tomou-se então mais a sério o ofício de lidar com a palavra, o que não foi senão repor em seu lugar este ofício ou arte, sempre reverenciada dos bons espíritos; e não direi o "culto da fôrma", mas o empenho de bem escrever, aprimorando esta ou expurgando-a de vícios que a desfeiam, tornou-se mira principal dos poetas de então. "

Pois bem, devem os nossos poetas modernos ter Bocage como orago e mentor. Devem amá-lo e estuda-lo, sem o imitar, porque não podemos pensar e escrever exatamente hoje como se pensava e escrevia em 1801), mas aprendendo com ele o respeito do idioma e da versificação.

E congreguem-se iodos os bons amigos da Poesia no piedoso trabalho ela reabilitação de tão alto cantor e adorável artista! Não fiquem sobre o seu nome tantas crustas de lodo! Esqueçam-se nas tristes paginas de amargo rancor e feia licenciosidade, que o descontentamento, a má educação do tempo, a miséria, o desamparo moral inspiraram a Elmano; rasguem-se, queimem-se, com asco e horror, todas essas invenções impressas, com que descarados escrevinhadores procuram, sob a capa da fama do grande poeta, explorar a algibeira e depravar o gosto do povo; leiam-se e releiam-se os perfeitos versos em que ele cantou os seus amores e as suas desgraças; e alvoreça para ele a verdadeira e definitiva gloria.

E possa ele, libertado do desdouro que tanto tempo lhe infamou a memória, repetir:

"Eia Os ódios cevai, cevai a infâmia,
Fúrias, que evaporais tartareas sombras
Contra o olímpio fulgor que envolve o gênio!
Entre essa escuridão, reluz meu nome.
Versos balbuciei com a voz da infância;
Vate nasci, fui vate, inda na quadra
Em que o rosto viril macio e tenro
Semelha o mimo de virgínea face...

Se ás Musas não pertenço, eu, que a Virtude,
Filosofia, Amor cultivo, adoro;
Eu, que cem vezes, concebendo o Olimpo,
Absorto com Platão num mundo estranho,
Ou de olhos divinais divinizado,
Sinto no coração, na voz, na mente
Tropel de afetos, borbotões de idéas,
E: "Eis o Deus! eis o Deus!" exclamo, e vôo
De repente onde mil nem vão de espaço;
Pertencereis ás Musas, vós, sem fama,
Sem alma, sem ternura? Ah! longe, longe
De meus cândidos sons, que se enxovalham,
Peçonhentos dragões, na peste vossa!
Graças, ó Febo! ó nume! ó Lísia! ó Pátria!
Vossos dons, vosso aplauso alteiam, firmam
Sobre a cerviz da inveja o meu triunfo!"

---
Fonte:
Ultimas conferencias e discursos. Bilac, Olavo, 1865-1918, disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.

Imagem (a segunda):
Revista "A Cigarra", edição de 1922, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Casimiro de Abreu na análise de José Veríssimo


O texto postado, a seguir, está incluso na obra “História da Literatura Brasileira”, de José Veríssimo, e se refere a uma ligeira análise do poeta romântico brasileiro Casimiro de Abreu, que morreu com apenas 21 anos de idade, em 1860.
O poeta do Romantismo brasileiro Casimiro de Abreu

CASIMIRO DE ABREU
Tem-na também própria e notável Casimiro de Abreu. Poetando desde 1855, havendo mesmo publicado em Portugal desde 1856, na Ilustração Luso-Brasileira, alguns poemas, só em 1859 deu à luz as suas Primaveras, porventura o mais lido dos nossos livros de versos.

Casimiro José Marques de Abreu era natural da Barra de São João, na província do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1837 e morreu em 1860. Seu pai, português como o de Gonçalves Dias, como esse o destinava ao comércio. Menos tratável, porém, que aquele, quis obrigar o filho a ficar numa profissão a que este era de todo avesso. Dos poetas da sua geração é Casimiro de Abreu, talvez mais que outro qualquer, o poeta do amor e da saudade. Os dois sentimentos são a alma da sua poesia. Este pobre rapaz fraco e enfermiço nascera poeta, com a sensação viva, dolorosa do que o grande poeta latino chamara as lágrimas das cousas, cujo mortal encanto lhe penetrou cedo a alma melancólica. O drama íntimo da sua vida, o desconhecimento do seu talento, a contrariedade oposta à sua vocação e, acaso, as imperfeições do lar paterno, tudo teria sido exagerado até ao trágico pela sua sensibilidade doentia. É grande a mágoa que de tudo lhe vem; grande, real e sincera. Da sua vida amorosa nada de certo sabemos. Os seus biógrafos, mesmo aqueles que mais intimamente, parece, o conheceram e trataram, como Reinaldo Montoro e Teixeira de Melo, divagam e amplificam, segundo tem sido aqui o mau vezo dos biógrafos, em vez de lhe investigarem a vida e de a contarem sem impertinentes recatos.127 Nos seus versos, porém, há a impressão pungente de um amor infeliz que lhe deixou a alma malferida e para sempre dolorosa. O afastamento, a ausência da terra natal, o exílio, como, imitando a Gonçalves Dias, lhe chamou, completaria a exacerbação da sua sensibilidade orgânica e lhe daria ao estro o tom nostálgico que, sem igualar a simplicidade genial do seu inspirador, não lhe ficará somenos em emoção.

É sob a influência da nostalgia e do amor, ambos de fato nele uma doença, que se põe a cantar o Brasil. Mas o Brasil, que canta em seus sentidos versos, a pátria por quem chora e que celebra, é principalmente a terra em que lhe ficaram as cousas amadas e mormente a desconhecida a quem dedicou o seu livro e que, segundo a meia confidência de um daqueles biógrafos, teria encontrado morta quando voltou à terra natal. A saudade desta com os encantos que a saudade empresta aos seus motivos é que o faz patriota, se mesmo com esta restrição se lhe pode aplicar o epíteto, que não vai aqui como elogio. A sua nostalgia é sobretudo o amor, não só à mulher querida, mas a quanto este amoroso amava, o torrão natal, a casa paterna, a vida campestre, que para as almas sensíveis como a sua se enche de prestígio ignorados do vulgo.

Lá de longe cantou a sua terra, os sítios da sua infância, as suas recordações de toda a ordem, avivadas pela saudade, com sentida e comovedora emoção. As penas de amor e de saudade fizeram-no o poeta que foi. Toda a sua curta vida, ainda depois de restituído à sua terra, uma saudade incerta, uma indefinida nostalgia ficar-lhe-ia na alma como um ferrete daquelas penas. E o nosso povo, que do português herdou o senso desses dois sentimentos, em a nossa raça irmanados na mesma emoção, achou porventura em Casimiro de Abreu o mais fiel intérprete das suas próprias comoções elementares, primárias, do amor do torrão e da mulher querida. Pelo que é Casimiro de Abreu o poeta brasileiro que o nosso povo mais entende e a quem mais quer. Ama-o, recita-o, canta-o, fazendo-o um poeta popular, em certos meios quase anônimo. Comprova este asserto o fato de ser Casimiro de Abreu, de todos os nossos poetas, excetuando Gonzaga, certamente o que tem sido mais vezes reimpresso, total ou parcialmente. As suas Primaveras têm, pelo menos, oito edições.

Voltando doente e abatido à terra natal, a vista daquelas cousas tão choradas no exílio põe-lhe na alma dolente acentos raros atingidos pela nossa poesia. E dele se haviam de inspirar Luís Guimarães Júnior, Lúcio de Mendonça e outros que cantaram iguais estados d’alma:

Eis meu lar, minha casa, meus amores,
A terra onde nasci, meu teto amigo,
A gruta, a sombra, a solidão, o rio
Onde o amor me nasceu, cresceu comigo.

Os mesmos campos que eu deixei criança,
Árvores novas, tanta flor no prado!...
Oh! como és linda, minha terra d’alma,
—Noiva enfeitada para o seu noivado.

Foi aqui, foi ali, além... mais longe,
Que eu sentei-me a chorar no fim do dia,
—Lá vejo o atalho que vai dar na várzea...
Lá o barranco por onde eu subia!...

Acho agora mais seca a cachoeira
Onde banhei meu infantil cansaço,
—Como está velho o laranjal tamanho
Onde eu caçava o sanhaçu a laço!...

Como eu me lembro dos meus dias puros!
Nada me esquece!... Esquecer quem há de?
—Cada pedra que eu palpo ou tronco ou folha
Fala-me ainda dessa doce idade.

E a casa?... as salas, estes móveis, tudo,
O crucifixo pendurado ao muro...
O quarto do oratório, a sala grande
Onde eu temia penetrar no escuro!...

É da melhor, da mais alta, da mais profunda poesia. Como poeta do amor, não é demais dizer que Casimiro de Abreu deu à nossa língua, tão rica sob este aspecto, algum dos seus mais comovidos senão mais formosos cantos. A uns destes os prejudicou, no conceito da geração imediata ao poeta, a mesma popularidade que os vulgarizou nos recitativos de salão, como foram de moda. Não obsta que poemas como Amor e medo e Minha alma é triste sejam, sem encarecimento, apesar da sua toada que nos é hoje menos agradável, dos mais belos da nossa poesia.

Com incorreções de forma poética, a que somos depois do parnasianismo demasiadamente sensíveis, têm eles em alto grau, sentimento, idealização, emoção da melhor espécie poética, e até, em mais de um passo, peregrinas excelências de expressão. Há em Amor e medo notadamente um ardor de volúpia ao mesmo tempo contida e exuberante, que lhe realça sobremodo a beleza, e formosuras de sensação e de expressão que não teriam o direito de desdenhar os mais reputados sequazes de Baudelaire. É forte a sua tradução das tentações amorosas da carne, como o diriam estes poetas, e, mais, de todo nova na nossa poesia, senão também na da língua portuguesa:

Ai! Se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Solto o cabelo nas espáduas nuas...

Ai! Se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos, palpitante o seio!...

Ai! Se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho,
Vermelha a boca soluçando um beijo!...

Desprezados, como necessariamente sucederá dentro em pouco, os preconceitos que a vulgarização de tais versos contra eles criou, eles nos aparecerão em toda a sua novidade e beleza de sensação e expressão. Ver-se-a o seu realismo de idéias e estilo, nem sequer suspeitado então como fórmula ou processo de escola, do mesmo passo que se lhes sentirá o ardor e a intensidade que desafia quanto a paixão à cola daquele poeta francês e dos seus discípulos pôs nos versos dos nossos ulteriores poetas. Em que lhes pese ao estúpido desdém pelo verdadeiro e notável poeta que é Casimiro de Abreu, facilmente se verifica que eles lhe sofreram a influência e freqüentemente o imitaram, raro o igualando e nunca o excedendo na realidade da emoção nem no sublime da expressão. Pela profundeza e sinceridade do seu sentimento poético, tem ele mais razão de viver do que estes; já vive de fato mais do que eles viverão, e o futuro, não duvido vaticinar, o desforrará cabalmente dos seus tolos desdéns.

Tristeza ingênita, melancolia amorosa, acerba nostalgia, angustioso sofrimento de uma alma rica de ingênuas e ardentes aspirações de glória e de amor, tudo deu a este delicioso poeta a feição dolorosa que ainda no meio dos poetas dolentes da sua geração o distingue. Tinha também, como os outros, o pressentimento da morte prematura. Mais de um poema seu o declara ou o revê.

A um amigo recém-morto dizia:

Dorme tranqüilo à sombra do cipreste...
—Não tarda a minha vez;

Com efeito, dois anos depois, finava-se com vinte e três de idade, na sua fazenda ou sítio de Indaiaçu, no torrão natal, às cinco horas e vinte e cinco minutos da tarde do dia 18 de outubro de 1860.

---
Fonte:
José Veríssimo: “História da Literatura Brasileira”. Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional - Departamento Nacional do Livro, disponível digitalmente no site: Domínio Público

João do Rio entrevista Olavo Bilac

O texto, a seguir, faz parte de uma série de entrevistas realizadas pelo escritor João do Rio, que as publicou em "Momentos Literários". Selecionamos aquela com o grande poeta do Parnasianismo brasileiro Olavo Bilac. Sem dúvida, raridades da nossa história literária!

O poeta Olavo Bilac ao desembarcar na Central do Brasil, sendo carinhosamente recebido por jornalistas e homens das letras (Bilac é o que está de chapéu no meio)

BILAC
A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor. Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas.

— Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem outra alma, à luz dos bicos de gás.

Quando, porém, ia tocar o timbre de um velho bronze, o meu receio desapareceu.

Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.

— Pode-se importunar?
— Ó ave madrugadora! Tu por aqui?
Ergueu-se com a sua aristocrática distinção. Estava todo vestido de linho branco, a camisa alva com punhos e colarinhos duros.
— Aposto que vens ver os meus cartões postais?

Eu olhava a sala onde há tanto tempo mora a Musa perfeita. As paredes desaparecem cheias de telas assinadas por grandes nomes, caquemonos de Japão, colchas de seda cor d'ouro velho. As janelas deixam ver o céu, a rua e as árvores entre cortinas cor de leite e sanefas de veludo cor de mosto. Do teto pende uma antiga tapeçaria francesa, a um canto um paravento de laca parece guardar mistérios no bric-à-brac do mobiliário — cadeiras de várias épocas, poltronas, estantes de rodízios, guéridons, divãs, dois vastos divãs turcos, largos como alcovas... Ao centro a mesa em que escreve o poeta, muito limpa e quase muito pequena, de canela preta, encimada por um ventilador. Os meus olhos repousam nos bibelots, nas jarras de porcelana cheias de flores frescas; a alma sente uma alegre impressão de confortável. O poeta faz-me sentar.

— Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.
— Versos?
— Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto.
Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo o entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável.
— Basta o entusiasmo pelo irrealizável para que um homem seja perfeito, já disse Barrès.
Bilac sorriu.
— Mas então não queres ler decididamente os pensamentos dos quarenta membros da Academia Francesa?
— Eu venho para coisas muito mais graves.
— Tenho que há na vida coisas que se dizem mas não se escrevem, coisas que só se escrevem e outras que nem se escrevem nem se dizem mas apenas se pensam. Seria feliz se me viesses perguntar aquela, que sem me entristecer aos outros, pudesse ser pensada, falada e escrita. É entretanto difícil...

Eu ouvia-o embevecido. A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível. Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes.

É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente."

E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.

Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução.

Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. Eu o ia interromper na composição de um livro para perguntar a sua opinião sobre o estado da literatura brasileira e o papel do jornalismo para com essa mesma literatura. Ele falou-me com uma certa amargura, ligando as minhas perguntas ao seu ideal.

— Que queres tu, meu amigo? Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio. Há de resto explicações para o fato. Somos uma raça em formação, na qual lutam pela supremacia diversos elementos étnicos. Não pode haver uma literatura original, sem que a raça esteja formada, e já é prodigiosa a nossa inteligência, que consegue ser esse reflexo superior e se faz representativa do espírito latino na América. Ah! A nossa inteligência! É possível atacar, espezinhar, pulverizar de ridículo tudo o que constitui o Brasil, a sua civilização e o esforço dos seus filhos. Esses ataques são em geral feitos por brasileiros. Duas coisas porém ficam acima dos maus conceitos: a beleza da terra e o espírito que a habita, o encanto da natureza e a clara inteligência assimiladora dos homens. Os comerciantes, os artistas em tournée, os humildes e os notáveis levam daqui a impressão imorredoura de que não há país mais aberto a todas as idéias generosas, mais espiritualmente irônico. Poderíamos acrescentar:

nem mais indolente. Mas não basta haver talentos e belos livros para que haja uma literatura. Esta opinião talvez não seja uma grande novidade, mas é verdadeira. Nós nos regulamos pela França. A França não tem agora lutas de escola, nós também não; a França tem alguns moços extravagantes, nós também; há uma tendência mais forte, a tendência humanitária, nós começamos a fazer livros socialistas. Esta última corrente arrasta, no mundo, todos quantos se apercebem da angústia dos pobres e do sofrimento dos humildes. Um artista sente mais as dores terrenas que cem homens vulgares, os poetas são como o eco sonoro do verso de Hugo, entre o céu e a terra, para transmitir aos deuses os queixumes dos mortais...

A Arte não é, como ainda querem alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência. Todas as preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável. As torres de ouro e marfim, em que os artistas se fechavam, ruíram desmoronadas. A Arte de hoje é aberta e sujeita a todas as influências do meio e do tempo: para ser a mais bela representação da vida, ela tem de ouvir e guardar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Somente um louco, — ou um egoísta monstruoso —, poderá viver e trabalhar consigo mesmo, trancado a sete chaves dentro do seu sonho, indiferente a quanto se passa, cá fora, no campo vasto em que as paixões lutam e morrem, em que anseiam as ambições e choram os desesperos, em que se decidem os destinos dos povos e das raças...

Uma revista, que se fundasse, no Brasil, para exclusivamente cuidar de cousas de Arte, seria absurda. A Arte é a cúpula que coroa o edifício da civilização: e só pode ter arte o povo que já é "povo", que já saiu triunfante de todas as provações em que se apura e define o caráter das nacionalidades.

O que urge é compreender isso, e é aproveitar a lição dos fatos. Nós não temos unicamente, diante de nós, o problema do saneamento e do povoamento. Com o saneamento apenas, livrar-nos-emos das epidemias que os mosquitos, os ratos, os micróbios transmitem de corpo a corpo, mas deixaremos, intacta e tremenda, pairando sobre nós, a ameaça das epidemias morais, que depauperam o organismo social, e o conduzem à indisciplina, à inconsciência e à escravidão. Tratando apenas do povoamento, feito ao acaso das levas de imigração, sem fundar uma escola em cada novo núcleo de povoadores, conseguiremos somente aumentar e dilatar o império da ignorância e da irresponsabilidade.

O problema que tem de ser resolvido, juntamente com esses dois, é o da instrução. E o que dói, o que desespera, é que toda a gente culta do Brasil tem a consciência disto, e que, há mais de um século, esta verdade, anunciada, proclamada, escrita, em todas as tribunas, em todos os livros, em todos os jornais, ainda não achou governo que a servisse em terreno prático.

Houve um silêncio. O poeta falava como um filósofo e no seu lábio a verdade vibrava. Timidamente comecei uma frase, que não chegava a ser pergunta:

— Os Estados procuram criar literaturas à parte. Ainda há pouco, logo após a publicação das minhas primeiras entrevistas sobre o momento literário, todos os Estados agitaram-se, S. Paulo, Rio Grande, Pernambuco...
— É dividir o que não se pode dividir. Não há talentos do Norte nem do Sul. Há talentos brasileiros. Não posso compreender, para não citar senão um exemplo, em que os versos de Francisca Júlia possam ser paulistas. Quanto à separação da nossa futura literatura, ela se fará lentamente, como se vão formando a nossa raça e o nosso gosto, conforme as correntes mais ou menos fortes dos povos colonizadores. Talvez em 2500 existam literaturas diversas no vasto território que hoje forma o Brasil.
— E o jornalismo?

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, tão poeta que o seu nome é um alexandrino, limpou os vidros do binóculo e disse praticamente:

— O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; os proprietários de jornal vêem limitada, pela falta de instrução, a tiragem das suas empresas. Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! Tenho estatísticas aterrorizadoras, fenomenais. Era natural que decrescesse a lista dos analfabetos à medida que a população aumentasse em número e civilização. Pois dá-se o contrário. Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler. Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem.

Parou, foi até a janela, olhou o céu, que escurecera prenunciando chuva. Toda a sua figura transpirava simpatia harmoniosa. E, de entre as cortinas cor de leite, uma outra voz grave vibrou, cheia de melancolia: "Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!"

---
Fonte:
João do Rio: "O Momento Literário" (Palestras com Olavo Bilac, Coelho Neto, Júlia Lopes de Almeida, Filinto de Almeida, Padre Severiano de Resende, Félix Pacheco, João Luso, Guimarães Passos, Lima Campos; cartas de João Ribeiro, Clóvis Beviláqua, Sílvio Romero, Raimundo Correia, Medeiros e Albuquerque, Garcia Redondo, Frota Pessoa, Mário Pederneiras, Luís Edmundo, Curvelo de Mendonça, Nestor Vítor, Silva Ramos, Artur Orlando, Sousa Bandeira, Inglês de Sousa, Afonso Celso, Elísio de Carvalho, etc. etc. Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional - Departamento Nacional do Livro, disponível digitalmente no site: Domínio Público

Imagem:
Revista "A Cigarra", edição de 1914, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Nota:
As imagens inseridas no texto não se incluem na referida obra.

Machado de Assis por seus contemporâneos: Euclides da Cunha


EUCLIDES DA CUNHA (1866-1909)
Euclides da Cunha nasceu nasceu em Cantagalo, Rio de janeiro, no dia 20 de janeiro de 1866, e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 15 de agosto de 1909. Foi jornalista, engenheiro, professor, ensaísta, historiador, sociólogo e poeta, autor da famosa obra “Os Sertões”, escrita por ocasião da Guerra de Canudos, no fim do século XIX. O site daAcademia Brasileira de Letras,em sua Biografia, discorre sobre a questão: “Quando irrompeu o movimento de Canudos, São Paulo colaborou com o país na repressão do conflito, mandando para o teatro da luta o Batalhão Paulista. Euclides foi encarregado pelo jornal Estado de S. Paulo para acompanhar como observador de guerra o movimento rebelde chefiado por Antônio Conselheiro no arraial de Canudos, em pleno sertão baiano. Estava ele no teatro de operações de 1o a 5 de outubro de 1897 e ali assistiu aos últimos dias da luta do Exército com os fanáticos de Antonio Conselheiro. Em Salvador, havia procedido a um profundo estudo prévio da situação no que respeita aos aspectos geográfico, botânico e zoológico da região, bem como aos antecedentes sociológicos do conflito. Documentou-se de modo exaustivo e exato, formando sobre o caso um juízo imparcial e objetivo. Enviou então para o jornal as suas reportagens, que iriam transformar-se no seu grande livro, Os sertões.”


Machado de Assis aos 25 anos

---
A última visita

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o triste desenlace da sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de famílias comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a palidez completa no recinto onde a saudade glorificava uma existência, além da morte.

No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranqüilos.

E compreendia-se desde logo a antilogia de corações tão ao parecer tranqüilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incompatível e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, Apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbravam em sua primeira e última dissimualação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Desapontamento. Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Octavio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento. De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas –, que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de uma existência complexa – quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem 40 anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao anunciar-se esse juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 ou 18 anos, no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dize-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus Livros, que o encantavam. Por isso, ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo, tivera o pensamento de visita-lo. Relutara contra essa idéia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograva vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se lhe não era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas de seu estado.

E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre, beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.

A porta, José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.

Ele saiu – e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizam-se às vezes as maiores idealizações.

Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade...

---
Fonte:
Publicado no Jornal do Commercio em 30 de setembro de 1908 (também a imagem) estão
disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil

Machado de Assis por seus contemporâneos: Araripe Júnior



ARARIPE JÚNIOR (1848-1911)
Araripe Júnior nasceu na cidade de Fortaleza, no Estado do ceará, no ano de 27 de junho de 1848, e faleceu na capital do Rio de Janeiro, em 29 de outubro de 1911. Foi um conhecido crítico literário. Segundo consta em sua Biografia publicada no site da Academia Brasileira de Letras: “Não é o ficcionista, mas o crítico literário que constitui a importância de Araripe Júnior na literatura brasileira. Dotado de grande sensibilidade para o fato estético e de grande acuidade para a análise; dono de vasta cultura geral e literária, aplicou-se a estudar a literatura brasileira na obra de seus autores representativos: José de Alencar, Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Raul Pompéia, Aluísio Azevedo, e outros. Assim, deixou vasta obra crítica, formando com Sílvio Romero e José Veríssimo a trindade crítica da época positivista e naturalista. Sua obra crítica, dispersa pelos periódicos, desde os tempos do Ceará, só em parte foi publicada em livro, durante sua vida. No último livro, Ibsen e o espírito da tragédia (1911), sem abandonar a preocupação nacionalista, alçou-se a um plano de universalidade, buscando a razão de ser da tragédia humana, através da obra dos grandes trágicos, da Grécia ao século XIX. Como crítico, era um conselheiro amável e cheio de compreensão, sobretudo pelos estreantes.”



Escultura de Machado de Assis

---
Sobre Machado de Assis, de Sílvio Romero

O último trabalho de tomo, dado aos prelos por Sílvio Romero, foi um estudo sobre Machado de Assis.

Um fenômeno curioso é o que se nota nesse estudo. Sílvio Romero, a cada instante, declara que mudou de temperamento, amainou as velas e acha-se predisposto a uma grande complacência. Machado de Assis não lhe parece ser o homem impossível que ele atacava em 1872 e 1880. Tem qualidades e representa um bom esforço literário. Todas estas declarações, porém, são ilusórias; e o crítico, que, segundo me parece, não quis concentrar o seu espírito na obra, já bastante extensa, do autor de Brás Cubas, faz ressurgir suas antigas antipatias, recorrendo ao seu processo predileto de esbordoar os outros com essa clava de Hércules chamada Tobias Barreto.

Com justa razão, geralmente se achou extravagante que o crítico escolhesse o falecido lente de criminologia do Recife para confrontar com o nosso, pode-se dizer, único humorista. Se ainda o fizesse para mostrar o contraste dessas duas naturezas, vá; mas não se deu isto: o autor da História da Literatura Brasileira pretendeu, antes de tudo, mostrar que Tobias era um humorista valente e incomparável, diante das deliqüescências de Machado de Assis.

Não sei se deva dizer que o que ali se expende, a respeito do autor de Dias e Noites, causou a impressão de um corpo estranho metido à força numa garrafa de azeite. O livro, na sua maior parte, repete o que Sílvio Romero já disse vinte vezes sobre o talento indisputável do grande sergipano; apenas acrescenta algumas novas considerações relativas ao seu temperamento alegre. Tobias, porém, podia ser tudo, menos um humorista; e nem ao crítico apadrinham as opiniões de Schérer e Taine, quando definem esse gênero de literatura.

Que pode haver de comum entre esse excentricismo ou humorismo anglosaxônio e a alegria ruidosa de Tobias? Conheci o ilustre morto nos seus melhores tempos; e posso garantir, pelo que observei e tenho lido desse autor, que nunca, sobre a Terra, pisou homem de alma menos tristonha. Tobias era um boêmio incorrigível, genial, talvez, para cujo temperamento maligno nada havia superior, em deleite, ao exercício do espírito de tropa. Nas questões mais intricadas e sérias, raro era que ele não desse largas ao seu gênio e, de súbito, não irrompesse em verdadeiras molecagens para fazer encavacar os seus antagonistas. Ainda tenho presente uma dessas troças. Examinavam um estudante em direito eclesiástico, e Tobias, no impedimento de um dos catedráticos, fazia parte da mesa-examinadora. Perguntara o lente da cadeira, ao examinando, o que era cardeal. "Cardeal", disse o rapaz, "é uma dignidade da igreja que fica metida entre o Papa e o bispo". Como era natural, o examinador irritou-se com a resposta e começou a invectivar a ignorância do estudante. Tobias ouvira tudo isto sorrindo e puxando um bigode hirsuto. De súbito, brilharam-lhe os olhos! Dirigiu-se, então, ao colega, e, interrompendo-o: "Perdão; agora, eu..." E virou-se para o argüido: "Diga, Sr. estudante, que o seu professor não lhe quer revelar a verdade verdadeira. Respondeu bem. Cardeal é uma espécie de intruso na igreja, que lambe os pés do Papa, enquanto não lhe chega a vez de ser lambido, e que olha de esguelha para o bispo, cuja autoridade não exerce, por ser eunuco, nem respeita, por ser safado. E há outras coisas mais que essa dignidade acumula; mas que só no compêndio de Bocácio o senhor terá ocasião de aprender, logo que se liberte desse direito espoliástico."

---
Fonte:
Fragmento de “Sílvio Romero Polemista”. In: ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. Araripe Júnior: teoria, crítica e história. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp, 1978, (também a imagem), estão
disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil