Mostrando postagens com marcador KARL POPPER. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador KARL POPPER. Mostrar todas as postagens

Karl Popper e o Darwinismo como "Programa Metafísico de Pesquisa"


[...] “Quanto à própria teoria darwiniana, devo agora esclarecer que utilizo o termo "darwinismo" para indicar-lhe as versões modernas, que recebem denominações diversas, tais como "neodarwinismo" ou (dada por Julian Huxley) "Nova Síntese". Ela envolve, em essência, os seguintes pressupostos ou conjecturas, a que adiante me referirei:

1. A
grande variedade de formas de vida sobre a Terra origina-se de um número reduzido de formas, talvez de um único organismo: há uma árvore evolutiva, urna história da evolução.

2. Há uma teoria evolucionista que explica isso. Consiste sobretudo nas hipóteses abaixo:
(a) Hereditariedade: o descendente reproduz os organismos-pais, de maneira bastante fiel.
(b) Variação: há (entre outras, talvez) "pequenas" variações. As mais importantes dentre elas são as mutações "acidentais" e hereditárias.
(c) Seleção natural: há vários mecanismos através dos quais, não apenas as variações, mas todo o material hereditário é controlado por eliminação. Entre eles, estão os mecanismos que só permitem a disseminação das "pequenas" mutações; as "grandes" mutações ("monstros possíveis") são, via de regra, letais e, por isso, eliminadas.
(d) Variabilidade: embora, em certo sentido — presença de diferentes competidores —, sejam as variações por motivos óbvios, anteriores à seleção, pode bem ocorrer que a variabilidade — o escopo da variação — seja controlada por seleção natural; com respeito, por exemplo, à frequência e extensão das variações. Uma teoria genética da hereditariedade e da variação pode chegar a admitir genes especiais a controlar a variabilidade dos demais genes. Podemos assim chegar a uma hierarquia ou, talvez, a estruturas de interação ainda mais complexas. (Não devemos recear as complexidades; sabemos que elas estão aí. Exemplificando: do ponto de vista de um adepto da teoria da seleção, somos compelidos a admitir que algo como o método do código genético de controle da hereditariedade é, por si mesmo, um produto inicial da seleção, e um produto altamente sofisticado.)

Os pressupostos (1) e (2) são, a meu ver, essenciais para o darwinismo (de par com alguns pressupostos acerca de um ambiente mutável, dotado de algumas regularidades). O ponto (3), a seguir, é uma reflexão que faço em torno do ponto (2).

(3) Ver-se-á que existe uma estreita analogia entre os princípios "conservadores" (a) e (d) e aquilo que denominei de pensamento dogmático; e, de modo semelhante, uma analogia entre os pontos (b) e (c) e aquilo que denominei pensamento crítico.

Quero agora apresentar algumas das razões que me levam a ver o darwinismo em termos de metafísica e de programa de pesquisa.

É metafísico por não ser suscetível de prova. Poder-se-ia pensar o contrário. Parece que ele assevera que, se algum dia encontrarmos nalgum planeta vida que satisfaça às condições (a) e (b), então (c) surgirá e trará, com o correr do tempo, uma rica variedade de formas distintas. O darwinismo, porém, não assevera tanto. Com efeito, admitamos que em Marte haja uma vida que consista em exatamente três espécies de bactérias com equipamento genético semelhante ao de três espécies terrestres. Estaria refutado o darwinismo? De modo algum. Diremos que essas três espécies, dentre as muitas formas de mutação, eram as únicas suficientemente bem ajustadas para sobreviver. E asseveraríamos o mesmo, se houvesse apenas uma espécie (ou nenhuma). Desse modo, ocorre que o darwinismo realmente não prevê a evolução da variedade. E, portanto, não pode explicá-la. Quando muito, pode prever a evolução da variedade "sob condições favoráveis". Entretanto, dificilmente se poderá descrever, em termos gerais, o que sejam condições favoráveis — só se poderá dizer que, estando elas presentes, surgirão formas várias.

Entendo, todavia, que focalizei a teoria por seu melhor aspecto — quase pelo aspecto em que ela é mais suscetível de prova. Poder-se-ia dizer que ela "quase prevê" uma grande variedade de formas de vida. Em outros campos, seu poder preditivo ou explicativo é ainda mais desapontador. Concentremo-nos na "adaptação" À primeira vista, a seleção natural parece explicá-la e, em certo sentido, isso realmente ocorre; mas não de maneira que se possa considerar científica. Dizer que uma espécie hoje viva está adaptada a seu meio é, em verdade, quase tautológico. Com efeito, empregamos os termos "adaptação" é "seleção" de modo tal que se torna cabível afirmar que, se a espécie não se houvesse adaptado, ela teria sido eliminada por seleção natural. De outra parte, se uma espécie foi eliminada, isso deverá ter ocorrido pelo fato de ela se adaptar mal às condições. A adaptação (ou aptidão) é definida pêlos modernos evolucionistas como um valor de sobrevivência, e pode ser medida em termos de êxito efetivo quanto à sobrevivência: dificilmente haveria possibilidade de submeter a prova uma teoria tão frágil quanto essa” [...]


---
Fonte:
Karl Popper: "Autobiografia Intelectual". Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Motta. Editora Culturix. São Paulo, 1977, p.
179-181.

Algumas críticas ao realismo popperiano

“O’Hear (1992, p. 90-123) discute a posição realista de Popper, afirmando que seu falseacionismo o deixa muito próximo ao instrumentalismo, não obstante toda a ênfase que ele dá ao realismo. Para o autor, Popper faz concessões demais ao instrumentalismo, ao negar a crença essencialista da possibilidade de uma explicação última, além da qual não seria necessária nenhuma outra explanação. Está certo que Popper se afasta do instrumentalismo ao dirigir-se para formulações de caráter universal, mas, para O’Hear, ao tratar essa universalidade em termos de testabilidade, a teoria popperiana passa a ter as “desejáveis propriedades de uma ferramenta” (O’HEAR, 1992, p. 92), o que o aproxima perigosamente do instrumentalismo que tenta refutar. Este perigo seria amenizado com uma maior concessão ao essencialismo e às “explicações últimas”.

O’Hear sustenta ainda que, para o realista, é fundamental mostrar que as teorias não são meros instrumentos, mas que realmente podem nos dar um conhecimento do mundo real, enquanto Popper se limita a dizer que as teorias terão sobrevivido a alguns testes. Critica também a idéia de que teorias falseadas são descartadas e considera que uma teoria refutada é incorporada a teorias mais novas como aproximações.

Segundo este autor, a idéia de Popper de submeter as teorias a severos testes e criar teorias de maior grau de universalidade e profundidade pode simplesmente ser reinterpretada como uma perspectiva instrumentalista, com o objetivo prático de conseguir instrumentos melhores e mais largamente aplicáveis (O’HEAR, 1992, p. 93). Assim, a ênfase nos testes enfatiza apenas “os pontos de contato entre teorias e experiência”, não muito além do que faz o instrumentalismo (O’HEAR, 1992, p. 94). Um instrumentalista, afirma O’Hear, poderia replicar a Popper que está interessado em testar suas teorias precisamente para determinar até onde elas podem ser aplicadas.

Early (1999) levanta uma outra questão. Explanando o uso que Popper faz da teoria de Tarski, afirma que, ao aceitar a teoria da verdade como correspondência, o uso que Popper faz dessa teoria envolve claramente uma idéia de verdade absoluta. No entanto, ao falar de enunciados básicos e corroboração, Popper deixaria implícito que verdade não é relativa a um sistema de enunciados básicos que devem ser testados intersubjetivamente através da observação e falseáveis desse mesmo modo. Mas isso indica que o teste possui caráter convencional e não lógico, porque nós simplesmente tomaríamos a decisão de aceitar certos enunciados básicos, o que não está de acordo com uma idéia de verdade absoluta (EARLY, 1999, p. 21).

Early afirma ainda que, em Popper, podem ser distintos dois tipos de realismo. O primeiro seria uma “versão fraca”, de acordo com a qual há uma verdade absoluta e uma realidade objetiva, um mundo que existe independente de nossas mentes. A segunda, a “versão forte”, diz que as teorias científicas são explanações causais. Deste modo, segundo Popper, não deveríamos abandonar a busca por leis universais e pela explicação causal de qualquer tipo de evento. Este segundo realismo, essencial para o combate ao instrumentalismo, é metafísico, pois, para Popper, nem o idealismo nem o realismo podem ser irrefutavelmente demonstrados, pois não são científicos, a saber, falseáveis. Aliás, o falseacionismo proíbe que uma afirmação do tipo que implique relações causais seja considerada, de fato, real, já que não pode ser nem mesmo falseada.

Assim, a crença popperiana na realidade das leis naturais, embora seja um ponto de partida para o falseacionismo, não pode ser sustentada por ele, o que, segundo Early, introduz uma tensão entre realismo e falseacionismo que Popper não consegue resolver, deixando a conexão entre realismo e falseacionismo muito fraca. Como O’Hear, Early conclui que Popper está mais próximo do instrumentalismo que do realismo (EARLY, 1999, p. 26-27).

No caso da crítica de O’Hear, consideramos que a rejeição ao essencialismo não represente tanto perigo ao realismo popperiano. A recusa de uma explicação última ou de algum tipo de verdade suprema poderia indicar apenas a nossa dificuldade ou impossibilidade de chegar a esse ponto, tendo em vista o indeterminismo que Popper também defende. Este tipo de relação não aparece de modo tão explícito em Popper, mas acreditamos ser mais razoável argumentar a seu favor, recorrendo à sua idéia indeterminista, que se aproveita da negação do essencialismo.

O indeterminismo em Popper é objeto do nosso terceiro capítulo e não nos alongaremos nesse ponto. Ademais, a “interpretação instrumentalista” do falseacionismo pode ser refutada se considerarmos a afirmação de Popper de que a verdade é o ideal regulador da ciência, aspecto enfatizado em
R.A.Sc. para realçar o viés realista de sua tese. Se o realismo de Popper não consegue construir suficientemente bem o “pano de fundo” do falseacionismo – o que se pode conjecturar –, não podemos, daí, simplesmente considerá-lo um instrumentalista. Cabe ponderar que o fato de que uma teoria falseada pode ser incorporada a outra, mais ampla, não parece, de modo algum, refutar o falseacionismo. Popper discutiu esse tipo de argumento em R.A.Sc., o que já apresentamos anteriormente quando tratamos de demarcação e corroboração.

A crítica de Early quanto ao caráter convencional dos testes de hipóteses faz sentido enquanto a própria origem das hipóteses não deixa de ser puramente convencional, já que Popper se recusa a considerar o modo como formulamos nossas hipóteses e julga resolver a questão pela crítica consciente das hipóteses que levaria a refutá-las no confronto com a realidade. Além do mais, a idéia de verdade como ideal regulador parece suprir aqui, mais uma vez, o apelo à verdade absoluta. Neste ponto, parece-nos que tanto Early quanto O’Hear se esquecem que Popper foge o tempo todo do modelo de ciência de chamou “Ciência com ‘C’ maiúsculo”, cujo objetivo era a busca da certeza e da verdade absoluta. O fato de ser este um empreendimento impossível para a ciência (com “c” minúsculo) não implica o abandono da idéia de verdade, à qual a crítica racional, segundo Popper, tenderá a nos levar.

No caso da “versão forte” do realismo, acreditamos que as críticas de Early são, pelo menos em parte, bastante pertinentes. De fato, a demarcação entre ciência e metafísica, para além do valor indispensável que Popper dá a esta última, torna o realismo popperiano, de fato, um mero “pano de fundo” que o realista metafísico terá como “crença inabalável”. Também consideramos que a realidade das leis naturais é fundamental para o falseacionismo, pelo menos enquanto este pretende ser “realista”. No entanto, Popper não desenvolve suficientemente esta questão, afirmando, em
R.A.Sc., que a unidade estrutural do mundo é apenas uma metáfora, um “mistério impenetrável” (POPPER, 1992, p. 150).

Destarte, não nos interessa, no âmbito deste trabalho, uma discussão exaustiva acerca de considerações como as levantadas pelos autores citados. Seu uso aqui tem o condão apenas de reforçar as fraquezas do realismo popperiano, às quais retornamos no último capítulo, quando comparamos o realismo de Popper com o de Peirce.

---
É isso!

Fonte:
JOSÉ FRANCISCO DOS SANTOS: “REALISMO E FALIBILISMO: “UM CONTRAPONTO ENTRE PEIRCE E POPPER”. (Tese apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Filosofia pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Ivo Assad Ibri). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo . São Paulo, 2006.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

A crítica de Popper ao determinismo científico

“Conforme observamos nas seções anteriores, Popper argumenta em defesa do indeterminismo metafísico. Em O Universo Aberto aparecem diversos argumentos favoráveis a esta doutrina, mas grande parte da estratégia do autor é a defesa do indeterminismo de um modo negativo: a refutação do determinismo científico, que por sua vez levaria ao enfraquecimento do determinismo metafísico. Para que recordemos, a versão metafísica do determinismo sustenta que todos os eventos, em seus mínimos detalhes, estão precisamente pré-ordenados pelas condições que os antecedem (todo evento tem uma causa ou combinações de causas que são condições suficientes de sua ocorrência). Assim sendo, há uma simetria entre o passado e o futuro; ambos estão rigidamente fixados. Por outro lado, o determinismo científico preserva as idéias acima mencionadas, mas acrescenta que os eventos podem ser, em princípio, preditos com precisão ilimitada (não por um ser sobrenatural, mas pelos métodos científicos humanos). Pois para a ciência determinista, a imprecisão dos dados empíricos pode ser constantemente reduzida, seja pelo avanço de novas teorias, seja pelo aprimoramento de novas técnicas matemáticas e experimentais. Contra este posicionamento, a perspectiva indeterminista metafísica de Popper defende que há exceções quanto à predeterminação precisa dos eventos. Alguns eventos podem ser predeterminados fisicamente (por exemplo: o rompimento de um fio ao sustentar um peso maior do que possa sustentar), enquanto outros certamente não são predeterminados (por exemplo: os ruídos provenientes da comunicação de uma palestra).

No entanto, a proposta popperiana de abalar a doutrina metafísica do determinismo através de um ataque ao determinismo científico é demasiadamente ousada. Este último não é uma conseqüência necessária do primeiro, de modo que é sempre possível objetar que a falsidade do determinismo científico (seja por razões lógicas ou seja pela falibilidade do empreendimento científico) não se transmite para o determinismo metafísico. Mas Popper utiliza a situação lógica (conforme vimos na seção 3.1) de modo diferente: o determinismo científico é uma asserção sobre o mundo e sobre o conhecimento humano (é uma asserção cosmológica e epistemológica); seu conteúdo informativo é mais vasto do que o conteúdo da versão metafísica (que é apenas uma asserção cosmológica). Assim, por ser mais informativa, a versão científica está sujeita a uma melhor apreciação crítica. Apesar de que uma refutação conclusiva do determinismo certamente não possa ser alcançada, pois os argumentos sempre podem ser revistos, ainda assim Popper leva sua estratégia adiante por acreditar que pouco resta em defesa do determinismo se algum argumento puder mostrar que predições científicas com grau ilimitado de precisão a respeito dos eventos são, de modo geral, inatingíveis.

Em O Universo Aberto Popper não evita – tal como procurou evitar na Lógica da Investigação Científica – a discussão crítica de certas teorias metafísicas. Tal como observa David Miller, o polêmico debate do problema do determinismo e do indeterminismo “pode ser visto como um proeminente caso de teste para a concepção contrapositivista de que as teorias metafísicas, se claramente formuladas, podem ser racionalmente discutidas e criticadas; de que os modos de discussão racional não se limitam à pesquisa empírica e à análise lógica e matemática” (Miller, 1997, p.153). Para Popper, nem toda discussão de asserções metafísicas leva a pseudoproblemas, isto é, a questões indecidíveis ou sem sentido – ou dito de um modo carnapiano: sentenças sem conteúdo empírico definido devem ser excluídas da linguagem da ciência (cf. Carnap, 1969). Do ponto de vista popperiano, a partir da análise dos problemas para os quais as teorias metafísicas foram originalmente empregadas é possível uma discussão crítica, pois tais teorias podem falhar em resolvê-los.

Porém, conforme Miller (1997, p.153), as teorias metafísicas mais procuram fugir dos problemas do que solucioná-los. O determinismo concede que os casos particulares de eventos vivenciados de maneira regular sejam generalizados, assim, aceita-se a existência de regularidades como uma asserção universal e verdadeira. Mas o problema das irregularidades que possam vir a surgir e perturbar a uniformidade da natureza é ignorado sem maior avaliação crítica. Com relação ao indeterminismo a situação é diferente. Esta doutrina afirma que não há somente eventos regulares e precisos na natureza (tais como os relógios de altíssima precisão), mas também eventos imprevisíveis (tais como as nuvens gasosas). Tais eventos irregulares não encontram explicação através da perspectiva determinista, ao passo que numa perspectiva indeterminista poder-se-ia explicá-los como sendo regularidades estatísticas. Mas o fato da ciência indeterminista poder resolver certos problemas através de explicações e predições estatísticas ainda não é suficiente. O problema que permanece insolúvel é: os fenômenos são, afinal de contas, determinados, parcialmente determinados ou completamente indeterminados? Não se pode provar nada a respeito, pois não importa quão significativo seja o número de argumentos a favor de uma ou de outra teoria metafísica.

Popper não pretende responder de forma conclusiva à questão apresentada acima, mas pretende ao menos apresentar argumentos racionais contra o principal argumento que tem sido colocado a favor do determinismo: o determinismo científico. Para Popper, os poderes de previsão do conhecimento humano são limitados, mas com relação à crítica do conhecimento são ilimitados. As teorias metafísicas são criticáveis, principalmente se incorporadas em uma forma supostamente científica. Este é o caso do determinismo científico, que depende principalmente do sucesso de uma teoria empírica, “(...) como no caso da teoria newtoniana: o determinismo ‘científico’ deve aparecer como resultado do sucesso da ciência empírica, ou, pelo menos, como sendo apoiado por ela. Parece basear-se na experiência humana” (Popper, 1992c, p.50). Certamente, nenhum outro programa científico apoiou tanto a idéia do determinismo como a física clássica. Segundo Popper (1992c, p.47), o matemático Pierre Laplace ofereceu a melhor descrição do que seria uma teoria determinista, ou melhor, uma teoria determinista prima facie (Popper utiliza esta expressão para colocar em dúvida se tal teoria de fato implica o determinismo). A famosa descrição de Laplace é a seguinte:

Devemos considerar o estado presente do universo como o efeito de seu estado anterior e como a causa do estado que o sucede. Uma inteligência que conhecesse todas as forças que atuam na natureza em um instante dado e as posições momentâneas de todas as coisas do universo, seria capaz de abarcar em uma só fórmula os movimentos dos corpos maiores e dos átomos mais leves do mundo, sempre que seu intelecto fosse suficientemente poderoso para submeter à análise todos os dados; para ela nada seria incerto, e tanto o futuro quanto o passado estariam presentes diante de seus olhos. A perfeição que a mente humana tem conseguido dar à astronomia proporciona um débil indício do que seria tal inteligência. Os descobrimentos da mecânica e da geometria, junto com os da gravitação universal, têm colocado a mente em condições de abarcar na mesma fórmula analítica o estado passado e futuro do sistema do mundo. Todos os esforços da mente na busca da verdade tendem a aproximar-se da inteligência que acabamos de imaginar, embora permanecerá sempre infinitamente distante dela. (Laplace, in Nagel, 1978, p.262)

A Inteligência (ou como prefere Popper: “demônio laplaciano”) imaginada por Laplace é a ficção de um cientista sobre-humano que teria capacidades ilimitadas para a solução de problemas científicos e para a predição de quaisquer eventos que fossem regidos pelas leis newtonianas (certamente por leis mais avançadas do que imaginou Laplace, pois os eventos também possuem propriedades químicas, térmicas, eletromagnéticas etc.). Bastaria que o demônio conhecesse com precisão suficiente as posições e as forças que atuam sobre os corpos materiais e a partir das equações da mecânica clássica poderia então calcular com a precisão que desejasse o estado mecânico passado ou futuro de tais corpos. Laplace faz com que o determinismo se torne realizável nos domínios da ciência, independentemente da crença metafísica no determinismo. Embora os cientistas humanos sempre se deparem com imperfeições na identificação das condições iniciais relevantes para levar adiante uma tarefa específica de predição, com o demônio laplaciano o grau de precisão das condições iniciais pode ser constantemente aumentado, não havendo impossibilidades de princípio com respeito ao melhoramento das medições e dos cálculos. Mesmo que se depare com um problema que possa parecer insolúvel, ainda assim o demônio imaginado por Laplace pode chegar a soluções cada vez mais próximas de um resultado satisfatório. Para Popper (1992c,p.48-9), o interessante na perspectiva de Laplace é a suposição de que o demônio deva operar com condições iniciais e com teorias, tal como um cientista humano. O demônio laplaciano não é uma ficção extremamente vaga, mas um cientista idealizado que trabalha de acordo com os métodos humanos de se fazer ciência. Por conseguinte, para ser bem-sucedido em uma particular tarefa de predição, o habilidoso cientista laplaciano deve ter à disposição certas teorias deterministas fundamentais. Isto nos conduz à questão de esclarecer o sentido no qual uma teoria é considerada determinista.

Uma teoria é considerada determinista, de acordo com Nagel, quando “a análise de sua estrutura interna revela que o estado teórico de um sistema em um instante determina logicamente um estado único deste sistema em qualquer outro instante” (Nagel, 1978, p. 265). Em outras palavras, uma teoria é determinista se nos permite realizar predições precisas a respeito do estado teórico (a descrição das coordenadas espaço-temporais exigida pela teoria) de um certo objeto ou sistema de objetos para qualquer instante estipulado. A descrição do estado teórico é considerada completa se contém toda a informação relevante (magnitudes e propriedades físicas, tais como a posição, a velocidade, a massa, etc.) acerca do objeto ou do sistema de objetos. Assim, a partir de um estado teórico e de um instante preciso, uma teoria é considerada determinista se, para qualquer outro instante, ela nos permite deduzir um estado teórico específico.

O exemplo ordinariamente reconhecido de teoria determinista é a mecânica newtoniana. Segundo Nagel (1978, p.259 e ss), a mecânica clássica é formalizada em um sistema de equações que nos permite deduzir a variação no tempo de certos estados físicos a partir de outros estados específicos. Na dinâmica newtoniana, o estado mecânico, por exemplo, de certas partículas, é constituído pelas coordenadas de posição e quantidade de movimento em um determinado instante. As diversas variações que o estado mecânico das partículas podem apresentar são denominadas variáveis de estado. Além das variáveis de estado, as equações do movimento de Newton contêm uma função denominada função força. Quando é fornecida a função força em um instante inicial, assim como as posições e velocidades iniciais, as equações determinam um estado específico do sistema físico em questão para qualquer outro instante. Esta peculiaridade faz da dinâmica newtoniana uma teoria determinista.

Porém, adverte Nagel (1978, p.262) a teoria newtoniana é determinista apenas com relação às propriedades mecânicas dos sistemas físicos; ela não nos permite predizer variações de estado de natureza diferente (químicas e elétricas, entre outras). Além disso, o determinismo da mecânica clássica tem relação somente com os estados teóricos de um sistema físico, pois utiliza conceitos ideais, tais como a posição e a velocidade instantâneas. Isso não significa que as variáveis de estado são obtidas por medição real. Afinal, as medições experimentais não são quantidades instantâneas, mas médias estatísticas efetuadas em um período de tempo; são, no máximo, aproximações do estado teórico. Assim sendo, para Nagel (1978, p.264-5), deve ser separada a questão da estrutura lógica da teoria da questão empírica a respeito da adequação das predições com a experiência. É correto afirmar que a mecânica clássica é determinista devido à dependência lógica interna de seus elementos, mas é incorreto afirmar que a mesma é indeterminista em função da discrepância daquilo que é medido com relação ao que é predito.

A definição formal apresentada por Popper do que vem a ser uma teoria determinista apresenta poucas variações em relação à definição de Nagel. No entanto, Popper não está preocupado apenas com o sentido lógico e matemático no qual poderse-ia considerar uma teoria determinista, mas também com a questão epistemológica vinculada ao problema. Pois a questão central que ocupa Popper é a possibilidade de tal teoria, no caso de ser bem-sucedida, servir de apoio empírico ao determinismo científico. Para ele, uma teoria é prima facie determinista “(...) se e só se nos permitir deduzir, a partir de uma descrição matematicamente exata do estado inicial de um sistema físico fechado que é descrito em termos da teoria, a descrição, com qualquer grau de precisão finito estipulado, do estado do sistema em qualquer dado instante futuro do tempo.” (Popper, 1992c, p.49). A definição acima conserva as características lógicas delineadas por Nagel. No entanto, Popper acrescenta que o sistema físico levado em conta por uma teoria determinista é um sistema fechado (cf. seção 3.2), isto é, um sistema onde nenhum objeto pode interagir a partir do seu exterior, pois de outra forma, esse sistema sofreria interferências não desprezíveis, o que acarretaria a possibilidade de predições cada vez mais precárias. Além disso, Popper fala de uma versão finita do determinismo: o grau de precisão das condições iniciais necessárias para efetuar predições não é infinitamente computável. Os próprios métodos de cálculo podem apresentar limitações, mas além disso, também há o problema experimental concernente ao fato de que o aparato de medição utilizado para realizar a leitura do estado do sistema pode provocar a mencionada interferência externa. O determinista procura passar por alto destas dificuldades. Contudo, Popper (1992c, p.49) está disposto a conceder que sua definição de teoria determinista não exija predições com absoluta precisão matemática (embora supõe condições iniciais exatas), como também sugere enfraquecêla, limitando os sistemas a serem investigados aos sistemas físicos que não sejam demasiadamente complexos. Se Popper exigisse uma definição mais rigorosa da mencionada teoria, uma teoria física, tal como a física newtoniana, trivialmente seria considerada indeterminista....”

---
É isso!


Fonte:
WILLIAN RODRIGO STUBERT: EXPLICAÇÃO CAUSAL E INDETERMINISMO NA FILOSOFIA DE KARL POPPER”. (Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre do Curso de Mestrado em Filosofia do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Eduardo Salles de Oliveira Barra). Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2007.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Karl Popper e o problema do psicologismo

“Segundo Popper (1979, p. 107), a epistemologia tradicional ou clássica (positivismo e empirismo), baseada em crenças subjetivas, procura a certeza do conhecimento dentro da mente humana ou na psicologia humana. Essa tradição está relacionada com os filósofos da crença, tais como Rene Descartes, John Locke, George Berkeley, David Hume, Immanuel Kant e Bertrand Russell. Para Popper, essa tradição está conectada também à situação histórica de separação religião vs. não-religião ou crença religiosa: “this explains why knowledge is throughout regarded as a kind of belief – belief justified by evidence, especially by perceptual evidence, by the evidence of our senses” (ibid., p. 127). Popper critica tal tradição com os seguintes argumentos: (i) a origem subjetiva da explicação, com seu caráter privado, é irrelevante para o desenvolvimento do conhecimento científico e (ii) a crença subjetiva se torna a única autoridade do pensamento, restringindo o debate crítico e público, o que denota a diferença entre um pensamento crítico e um pensamento dogmático.

Popper (1979, p. 60 ff.) chamou essa epistemologia clássica de “teoria da mentebalde” (bucket theory of the mind). O sujeito conhecedor, segundo tal visão, justifica seu conhecimento nas acumulações pela mente de percepções (ou impressões) recebidas através dos órgãos do sentido, isto é, pela experiência. No nascimento, a mente-balde estaria perfeitamente vazia (a tábula rasa de Aristóteles e de Francis Bacon), mas o contato com os objetos externos, o ato de perceber, imprimiria conhecimento (enchendo o balde). Então, o sujeito conhecedor justifica sua crença em “razões subjetivas suficientes”, isto é, “kinds of personal experience or belief or opinion which, though subjective, are certainly and unfailingly true, and can therefore pass as knowledge” (ibid., p. 76). Ou seja, obtém justificativa na força da crença (Hume), no pensamento claro e distinto (Descartes), ou ainda, no que é detectado ou dado pelos órgãos de sentidos (sense-given, sense datum), pela sensação imediata ou intuitiva (ibid., p. 77).

Popper (1979, p. 63) sugere, contudo, a conjectura de que o conhecimento subjetivo é parte de um aparato ou mecanismo biológico. Nossa mente não é perfeitamente vazia ao nascermos, nem existe o ato de colecionar dados ou elementos. Possuímos disposições inatas para decodificar parte do ambiente, ignoramos a maioria, e amadurecemos essas disposições ao longo de nossas vidas “by the method of trial and elimination of error, or by conjecture, refutation, and self-correction” (ibid., p. 77).

Segundo a epistemologia clássica, as percepções acumuladas habilitam-nos a perceber novas informações. Os seres humanos percebem uma conexão entre objetos ou eventos devido à sucessão regular (Hume).11 A regularidade na sucessão dos eventos indica uma conexão (ou causação) entre causa e efeito. Para Hume, contudo, a inexistência de certeza para essa conexão poderia ocorrer indefinidamente. Isso caracteriza o problema psicológico da indução – isto é, a associação de idéias é um mecanismo biológico e útil para o ser humano, mas não teria qualquer base racional. A solução de Hume, baseada na associação por costume ou hábito, é irracional (Popper, 1979, p. 90). Para Popper, Hume enfraqueceu o empirismo e subjugou o racionalismo, desde que ele não encontrou uma explicação racional para a associação de idéias.

Segundo Popper, as conjecturas ousadas (bold conjectures) explicam a associação entre as idéias. A ligação entre causa e efeito é uma conjectura de certa regularidade como uma lei natural. Impomos a conjectura, nossa lei, sobre a natureza. Mas tal conjectura não é uma certeza absoluta; ela deve ser criticada e, talvez, refutada. A solução de Kant é, no entanto, assegurar que as regularidades são válidas a priori, uma certeza irrefutável.

When Kant said that our intellect imposes its laws upon nature, he was right – except that he did not notice how often our intellect fails in attempt: the regularities we try impose are psychologically a priori, but there is not the slightest reason to assume that they are a priori valid, as Kant thought. The need to try to impose such regularities upon our environment is, clearly, inborn, and based on drives, or instincts. There is the general need for a world that conforms to our expectations; and there are many more specific needs, for example the need for regular social response, or the need for learning a language with rules for descriptive (and other) statements. This led me first to the conclusion that expectations may arise without, or before, any repetition; and later to a logical analysis which showed that they could not arise otherwise because repetition presupposes similarity, and similarity presupposes a point of view – a theory, or an expectation
(Popper, 1979, p. 24).

Popper insiste que a psicologia empírica usada para resolver a causação humeana seria insustentável; antes de nossas percepções se tornarem dados, usamos nossas teorias. Tentamos impor certa regularidade sobre a natureza, o que é um comportamento biológico ou geneticamente a priori, mas nós podemos falhar. Nosso conhecimento subjetivo consiste em ajustar ou adaptar disposições inatas ao ambiente (Popper, 1979, p. 63). Isso exige, conseqüentemente, revisão que significa aprendizagem por seleção (Darwin) ao invés de por repetição (Lamarck) (ibid., p. 149).

Popper não elimina o psicologismo, o qual é, também, uma conjectura. Porém, a epistemologia tradicional tem requerido a escolha de um ponto de partida certo e verdadeiro para o conhecimento, o qual é encontrado em nós mesmos ou em nossas experiências perceptuais. Esse subjetivismo inicia com a experiência externa (realismo), mas é compelido a terminar com uma teoria intrincada sobre nossas experiências internas (idealismo). Para Popper, a conjectura de um aparato biológico de ajustamento (sua teoria subjetiva) e o racionalismo crítico de conjecturas (sua teoria objetiva) permitem superar as dificuldades com a posição pessoal incerta. Em resumo, Popper enfatiza a irrelevância das diversas formas de psicologismo epistemológico, substituindo as mesmas por uma teoria epistêmica objetiva, ou seja, uma teoria da crítica de nossas conjecturas, tendo como base nosso conhecimento limitado e incerto. Popper inicia, portanto, com o realismo das conjecturas ousadas, o que, por sua vez, é uma suposição mais adequada para alguém que está interessado no crescimento do conhecimento do que a busca idealista por pontos de partida psicológicos.

Em filosofia política, o psicologismo é a teoria que declara a sociedade como dependente da “natureza humana” de seus membros (Popper, 1957, p. 84). Para Popper (1966, nota 19, p. 323), o perigo está na tendência de tornar a psicologia a base fundamental de outras ciências Uma certa visão microscópica do funcionamento do mercado pode ser um exemplo do psicologismo atacado por Popper (1966, p. 91). Segundo John Stuart Mill (1806 - 1873), o mercado está baseado na psicologia do homem econômico que busca a riqueza. Mill, procurando uma explicação para a origem e desenvolvimento do “mercado”, sugere uma versão psicológica do contrato social. Para Popper (1966, p. 93), Mill explora a causa psicológica; sendo então obrigado a operar com a idéia de origem da sociedade. Se a epistemologia tradicional trabalha com a especulação psicológica sobre origens, é possível conjecturar que a teoria econômica tradicional tem estudado a psicologia do homem econômico principalmente na sua definição de racionalidade.

The adepts of psychologism need to explain the individual behavior and actions with the idea of a psychological origin of society. They fail to understand the main task of the explanatory social sciences. It is not the prophecy of the future from psychological motive extracted from individuals’ behavior or action. … it is the discovery and explanation of the less obvious dependences within the social sphere. It is the discovery of the difficulties which stand in the way of social action – the study, as it were, of the unwieldiness, the resilience or the brittleness of the social stuff, of its resistance to our attempts to mould it and to work with it
(Popper, 1966, p. 94).

O estudo dos motivos psicológicos ou comportamentais pode ser usado na explicação, mas o ambiente social, bem como as instituições e seu funcionamento, complementam tal explicação.

Uma teoria subjetiva implica em adotar a nossa psicologia – nossa intuição privada –, enquanto uma teoria objetiva requer que as nossas hipóteses sejam publicadas – caráter público – e expostas ao debate crítico. Para Popper (1966, p. 325), é possível desenvolver uma teoria da subjetividade, sem que a mesma seja subjetiva no sentido de pertencer única e exclusivamente ao autor. Ou seja, Popper não exclui os fatores subjetivos, porém eles não podem ser tomados como os principais elementos na busca do conhecimento. Popper está preocupado com a consideração de idéias privadas (teorias subjetivas) sem que as mesmas sejam tornadas públicas (teorias objetivas) e passem por um debate público e crítico. Tudo isso porque “nosso” conhecimento é limitado e incerto, isto é, falível. Essa é a diferença entre a teoria de valores subjetivos (caráter subjetivo) e a teoria de atos de escolha (hipóteses públicas). Essa é a diferença entre um pensamento dogmático que privilegia a posição pessoal e um pensamento crítico que privilegia o debate público. Essa é a diferença entre alguém que tenta impor sua lei (psicológica) aos outros, sem possibilidade de crítica, e alguém que admite a falibilidade (o caráter falível) de suas hipóteses e teorias.

Essa seção apresenta a luta de Popper contra a possibilidade de se buscar o conhecimento dentro das mentes humanas – o psicologismo. Popper alega a necessidade das idéias privadas tornarem-se públicas no sentido de incentivar a discussão pública e crítica. Para ele, não seria possível o crescimento do conhecimento se este originasse de uma determinada disposição psicológica assumida de forma dogmática. Ele não exclui as motivações humanas nas várias explicações dos fenômenos sociais, mas apenas ressalta que além das motivações existem também as instituições e os ambientes sociais das pessoas. Diante da limitação do nosso conhecimento e da importância das instituições e dos ambientes sociais das pessoas, discuto a seguir a terceira epistemologia criticada por Popper: o dogmatismo.”

---
É isso!

Fonte:
Solange Regina Marin: “Karl Popper e Amartya Sen: Temas para Pensar em Intervenção Social e Desenvolvimento Humano”. (Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Desenvolvimento Econômico como requisito para a obtenção do título de doutora em Desenvolvimento Econômico. Orientador: Ramón García Fernández; Co-orientador: John Bryan Davis). Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2005.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

As críticas de Popper ao socialismo e ao pensamento de Marx

“Popper ao discutir o socialismo o faz quase que todo o tempo considerando a forma como Marx desenvolveu suas concepções. Desse modo é difícil fazer uma separação entre as considerações feitas pelo autor sobre o socialismo em geral e o pensamento de Marx em particular. Assim, será feita uma discussão conjunta dos dois temas.

A análise do socialismo por Popper inicia com um resumo do que seriam as principais idéias de Marx sobre o advento do socialismo. A explicação de Marx seria realizada em três passos, sendo o primeiro a análise econômica do capitalismo e a influência que ele produz sobre uma sociedade de classes, o segundo passo apresentaria o processo que leva a uma inevitável revolução social e o terceiro passo seria a predição do surgimento de uma sociedade sem classes ao final deste processo. O autor realça que Marx passou praticamente quase que todo seu tempo elaborando a explicação do primeiro passo, ou seja, a análise do funcionamento do capitalismo que levaria inexoravelmente em direção ao socialismo apresentada em O Capital. Por último o autor nos diz que acredita ser mais claro inverter a ordem de apresentação dos três passos iniciando pelo terceiro. Vamos segui-lo nesta ordem de análise.

“O desenvolvimento do capitalismo conduziu à eliminação de todas as classes, exceto duas, uma pequena burguesia e um imenso proletariado; e o crescimento da miséria forçou esta última a revoltar-se contra seus exploradores. As conclusões são: primeira, a de que os trabalhadores devem ganhar a luta; e segundo que, eliminando a burguesia, devem estabelecer uma sociedade sem classes , visto só uma classe restar”; resume assim Popper a situação inicial de análise. O autor argumenta que considera lógica a primeira dedução aceitando-se as premissas adotadas por Marx, uma classe é exploradora e dependente da outra que é explorada e independe da existência da burguesia em sua sobrevivência. Já a segunda dedução não é certa pelo fato de que só é razoável adotar que as classes terão um comportamento próximo ao comportamento de um indivíduo quando estão muito reduzidas em número, como no caso de burgueses e proletários, e quando estão em luta entre si. A consciência de classe para o próprio Marx é resultado da luta de classes e não seria razoável supor que irá se manter ao termino da luta. Popper acredita que é muito mais razoável considerar que o proletariado se fragmentará e novos conflitos se sucederão do que apontar para uma síntese dialética em que não existam mais classes. Com isso Popper não quer afirmar que o socialismo através de uma sociedade sem classes não acontecerá, mas sim procura alertar para o desenrolar mais provável no qual o surgimento de novos interesses de classe e, portanto, de novas classes depois de uma vitoriosa revolução proletária, aconteceriam.

O autor também coloca em questão a afirmação central em Marx de que o socialismo é uma decorrência inerente do capitalismo. Inicialmente Popper lembra que o capitalismo ao qual Marx se refere é a situação sócio-econômica enfrentada pela Inglaterra entre o último quarto do século XVIII e 1870. A idéia apresentada pelo autor é que dentro do quadro de inúmeras reformas que foram realizadas nas sociedades ocidentais, que poderíamos resumir sob a idéia da construção do Estado de Bem Estar Social, não podemos mais identificar as sociedades atuais com o capitalismo britânico do século XIX. Os desdobramentos do quadro de reformas e mudanças são tão amplos que eles foram, em alguns sentidos, muito além de qualquer uma da poucas formulações concretas que Marx apresentou como programa para mudanças da sociedade após a revolução. Assim, teríamos uma situação social atual na qual não mais é encontrado o capitalismo segundo os moldes apresentados por Marx para identificá-lo e na qual não é possível afirmar que surgiu o socialismo segundo estes mesmos moldes; ou seja, ao capitalismo britânico do século XIX não se seguiu o socialismo como idealizado por Marx, mas sim um novo tipo de arranjo sócio-econômico que muitas vezes busca responder a problemas sequer imaginados por Marx.

Um terceiro argumento levantado por Popper aparece ao se discutir algumas conseqüências de profecias históricas de caráter científico e suas influências no próprio decorrer da história. Deve-se aceitar uma situação na qual não exista qualquer influência de fatores morais ou ideológicos no decorrer da profecia histórica realizada por Marx, ou aceitar que é possível agir de alguma forma movido por fatores morais ou ideológicos que teriam, desse modo, influência sobre o curso da história para, ao menos, minorar as dores do parto e, por isso, se mostrariam com certa independência e capacidade de alterar os rumos da história. Popper nos apresenta dois resultados possíveis a partir destas formas alternativas de abordar o tema. Ou se acredita na inevitabilidade e na imutabilidade do decurso histórico e qualquer forma de ação visando alterar a situação concreta seria inócua, ou se acredita em certa capacidade de transformação do presente que é resultado de um decurso histórico aberto a mudança. Assim, ou surgiria uma situação mais racional no mundo através da ação humana utilizando-se de instituições planejadas para alterar a realidade em que vivemos, ainda que estas instituições operem em uma situação de incerteza e impossibilidade de saber-se quais serão todas as conseqüências de nossas ações; ou se espera que um mundo mais racional nasça da ação de forças irracionais da história. Popper ainda alerta para quanto pode ser perigoso apostar na inevitabilidade das predições históricas com o exemplo da influência dos partidos comunistas e social-democratas na Europa central e oriental frente aos problemas políticos do entre guerras, como por exemplo, o que realmente fazer ao se chegar ao poder ou como enfrentar o fascismo em ascensão.

O segundo passo na teoria de Marx é então discutido, relembrando, que uma revolução social é o resultado inevitável do funcionamento do capitalismo. Aqui Popper argumenta que não necessariamente se chegará a uma situação revolucionária ainda que se aceite a hipótese de que o capitalismo leva ao aumento crescente da riqueza da burguesia que é cada vez menor em número e ao aumento crescente da pobreza do proletariado que é cada vez maior em número. São feitas por Marx duas hipóteses a partir desta constatação, a de que todas as classes diferentes da burguesia e do proletariado desaparecerão; e de que a tensão entre burguesia e proletariado não poderá ser resolvida de outro modo que não seja uma revolução social comandada pelo proletariado.

Popper argumenta que não existe certeza aceitável de que a estrutura de classes será simplificada com o avanço do capitalismo como previa Marx. O autor oferece uma lista de novas e velhas classes que se mantém na sociedade capitalista, segundo as próprias suposições de Marx, apresentando a coexistência de burgueses, grandes e pequenos proprietários de terras, trabalhadores rurais, nova classe média, trabalhadores industriais, proletariado ralé e ainda ressalta que combinações entre estas classes poderiam fazer surgir outras estruturas diferentes. Novamente é destacado pelo autor que não é possível negar que a predição de Marx sobre a sobrevivência apenas de burgueses e proletários é possível, mas ela seria apenas uma possibilidade entre outras e essa incerteza inviabilizaria a certeza histórica de Marx afetando as predições a respeito da inevitabilidade da revolução.

Logo em seguida Popper passa a discussão a respeito da revolução social em si. Procura caracterizá-la com algo que possa ser apresentado de forma definível e não apenas como a tautológica afirmação de que a revolução social é aquela que institui o socialismo e enquanto este não advém, as revoluções que ocorrem na sociedade não são a revolução social do proletariado. O autor oferece a seguinte definição para procurar escapar da tautologia no conceito de revolução social: “a revolução social é uma tentativa de um proletariado amplamente unido para conquistar completo poder político, empreendida com firme resolução de não hesitar ante a violência, se a violência for necessária para alcançar esse alvo, e de resistir a qualquer esforço de seus adversários para reconquista da influência política”. Destaca que sua definição de revolução social possibilita que se diferencie esta de qualquer outro tipo de revolução e é razoavelmente indefinida sobre o uso ou não da violência na revolução social seguindo o modo utilizado na predição de Marx. Popper atribui grande importância à discussão sobre o uso da violência na revolução e suas conseqüências para a democracia.

Existiria uma ala radical e uma ala moderada entre os marxistas a respeito do uso da violência na revolução social. A ala radical claramente parte da idéia de que é impossível reformar o capitalismo porque a democracia seria uma mera fachada para a ditadura de classe e a superação do caos gerado pelo aprofundamento da sociedade capitalista só pode acontecer de maneira violenta. Já a ala moderada acredita que é possível utilizar os mecanismos democráticos da sociedade burguesa para reformar o capitalismo construindo instituições que, paulatinamente, caminham na direção do socialismo. As reformas seriam, para os moderados, o caminho da revolução social. Popper afirma que Marx apresenta argumentos em seus escritos que sustentam radicais e moderados em suas opiniões. Todo o problema gira em torno da hipótese de Marx de que a miséria será crescente no desenvolvimento da sociedade capitalista. Como essa hipótese é central para Marx e para ambas as alas de seu seguidores porque ela garante a inevitabilidade da revolução social, surge uma contradição entre aceitar a possibilidade de reformas sociais que caminhem na direção da solução da miséria e acreditar na inevitabilidade da revolução. O problema está no fato de que o proletariado não mais se tornaria a maioria esmagadora da população se for possível realizar reformas sociais bem sucedidas no combate à miséria.

Além da ambigüidade existente sobre o uso da violência no pensamento de Marx e na interpretação de seus seguidores existe a ambigüidade da conquista do poder. Na maioria dos casos em que partidos de orientação marxista moderada alcançam o poder através do voto, isso ocorre devido a suas posições humanitárias, a defesa da liberdade e a luta contra a opressão; o que leva segmentos de classe média a apoiá-los. Porém, como estes partidos sustentam opiniões ambíguas sobre o uso da violência, ao obterem o controle democrático do governo existe a dúvida se eles aceitarão as regras democráticas que envolvem respeito às minorias e aceitação da alternância no poder. As dúvidas derivam do fato de que a conquista do poder político pelo proletariado, como é descrita por Marx, pode envolver ou a aceitação das regras democráticas e a busca por formar governos, objetivo comum a qualquer partido dentro do regime democrático, ou a idéia de que os marxistas irão se entrincheirar no poder e utilizarão métodos violentos ou “legais” contra as minorias que façam oposição, o que destrói qualquer possibilidade de funcionamento da democracia.

Segundo Popper, a democracia depende da adesão dos principais partidos políticos a algumas regras como:

“1) a democracia não pode ser plenamente caracterizada como o governo da maioria, embora a instituição das eleições gerais seja da maior importância, pois uma maioria pode governar de modo tirânico [...] numa democracia os poderes dos governantes devem ser limitados; e o critério de uma democracia é este: [...] os dirigentes – isto é, o governo – podem ser mudados pelos dirigidos sem derramamento de sangue [...]
2) basta distinguir apenas entre duas formas de governo, vale dizer, as que possuem instituições da espécie citada e todas as outras, isto é, democracias e tiranias.
3) uma constituição democrática consistente excluiria apenas um tipo de mudança no sistema legal, a saber, uma mudança que pudesse colocar em perigo seu caráter democrático.
4) numa democracia a ampla proteção às minorias não deve estender-se aos que violam a lei, nem, especialmente, aos que incitam os demais à derrubada violenta da democracia.
5) a política de formar instituições para salvaguardar a democracia deve sempre proceder na suposição de que pode haver tendência antidemocráticas latentes entre os governados como entre os governantes.
6) se a democracia for destruída todos os direitos serão destruídos. E ainda que persistissem certas vantagens econômicas gozadas pelos governados, só persistiriam à custa de seu sofrimento.
7) a democracia oferece campo da maior valia a qualquer reforma razoável, visto como permite as reformas sem violência. Se, porém, a preservação da democracia não se tornar a preocupação principal de qualquer batalha travada nesse campo, então as tendências antidemocráticas latentes, que estão sempre presentes, pode produzir uma derrocada da democracia. Se ainda não se achar desenvolvida a compreensão desses princípios, devemos lutar por seu desenvolvimento. A política oposta pode mostrar-se fatal; pode provocar a perda da batalha mais importante, a batalha da própria democracia”.

Já a forma de agir dos marxistas pode ser caracterizada como a de fazer com que os trabalhadores suspeitem da democracia, pois o Estado é apresentado como uma máquina para a opressão de uma classe sobre outra. Segundo Popper, tal concepção resulta em:

“a) uma política de culpar a democracia por todos os males que ela não impedir, em vez de reconhecer que os democratas é que devem ser censurados, e não menos, normalmente, os da oposição que os da maioria (Toda oposição tem a maioria que merece).
b) uma política de educar os governados a considerarem o estado como não seu, mas como pertencente aos governantes.
c) uma política de dizer-lhes que só há um meio de melhorar as coisas, o da completa conquista do poder. Mas isto esquece a única coisa realmente importante relativa à democracia, o fato de que ela controla e equilibra o poder”.

Popper lembra que este modo é o caminho mais rápido para auxiliar aos inimigos da democracia e ressalta que toda essa forma de agir dos marxistas está ligada a uma questão muito anterior relacionada a tradição instaurada por Platão de analisar o problema da política perguntando: quem deve governar? Para o autor as questões realmente importantes são: como é exercido o poder do estado e quanto poder é exercido?

O passo seguinte da análise das idéias de Marx por Popper é a discussão sobre a interpretação marxista do capitalismo. O autor procura esmiuçar quais seriam as verdadeiras conseqüências dos estudos sobre economia realizados por Marx e se esses estudos sobre economia podem sustentar as opiniões que Marx emite sobre os destinos do capitalismo. Para Popper, as críticas feitas por Marx à situação econômica da Europa de meados do século XIX são totalmente justificáveis, sendo quase que impossível discordar do repúdio que Marx exprimiu àquela situação. O grande problema da argumentação marxista, porém, encontra-se no fato de que as condições materiais foram melhorando continuamente para os trabalhadores e para a população em geral. Longe de ocorrer um aumento progressivo da miséria, como é necessário para que a argumentação marxista se mantenha, a riqueza foi mais bem distribuída dentro da sociedade européia. Popper procura realizar uma crítica às principais idéias de O capital realizando análise similar a feita das idéias políticas de Marx, ou seja, mostrando que os resultados apontados como inevitáveis conseqüências do funcionamento da sociedade capitalista não são inevitáveis. Essa situação acontece porque o capitalismo que Marx analisou mudou e as mudanças ocorridas não sustentam os argumentos econômicos que indicariam a inevitabilidade da revolução social. A linha de argumento popperiana parte para apresentar que a concentração do capital nas mãos de um número cada vez maior de capitalistas é inconclusiva e não oferece suporte a suas afirmações de caráter profético. De modo semelhante, Popper também procura apresentar erros e inexatidões na teoria do valor, na teoria do mais-valia e assim sucessivamente. Ao invés de procurar apresentar os argumento de Popper, creio ser mais interessante considerar que todos eles apontam para a mesma direção indicando que os fatos não precisam se desenvolver como Marx supunha que se desenvolveriam e, na realidade, não se desenvolveram do modo que Marx supôs.

Como é fácil de aduzir, dada a concepção de Popper a respeito de como se produz conhecimento científico e sobre o modo como o conhecimento científico aumenta, é descartada toda e qualquer possibilidade de realizar profecias como as feitas por Marx. Esse é o teor das considerações desenvolvidas por Popper sobre historicismo em A miséria do historicismo. Como as predições de caráter científico são refutáveis e o conhecimento científico provisório e em contínuo aperfeiçoamento, qualquer tentativa de indicar quais serão os destinos da sociedade é anticientífica. Além de ser anticientífico, também acaba sendo antidemocrática as tentativas de construir profecias. Isto porque, como foi discutido acima, o profetismo de caráter historicista acaba se tornando justificativa para ações antidemicráticas."

---
É isso!


Fonte:
Luiz Gustavo Martins Serpa: “A SOCIEDADE ABERTA E SEUS AMIGOS: O CONCEITO DE SOCIEDADE ABERTA NO PENSAMENTO POLÍTICO DE POPPER, SCHUMPETER, HAYEK E VON MISES”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Ciência Política. Orientador: Prof. Dr. Cláudio Vouga). Universidade de São Paulo. São Paulo , 2007.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Popper condenado por radicalismo

"Se há antiindutivismo e antipsicologismo extremos em Popper, Susan Haack terá tido sucesso em condenar sua proposta epistemológica, bem como a tentativa de complementaridade que Watkins elaborou para tal proposta; se não há, Haack terá errado o alvo por ela mesma armado no horizonte teórico.

Susan Haack filia sua análise ao que chama “epistemologia dominante”, acusa Popper de ter atitude desdenhosa ao tratar tal epistemologia como crença filosófica e salienta que a divergência teórica “é menor, e muito menos simples, que parece”. Enquanto Popper procura focar o conhecimento científico como alvo e, assim, distinguir ciência e não-ciência, a epistemologia de Haack tem um recorte que inclui o conhecimento empírico em geral e, por isso, abre mão da demarcação popperiana, apesar de considerar o conhecimento científico parte do conhecimento empírico em geral. A demarcação de Popper ocorre em relação à ciência/pseudo-ciência e não à filosofia/ciência. Para ele, estes têm o mesmo método; Haack, contudo, parece, como veremos a seguir, negligenciar o objeto da demarcação popperiana.

Ela reconhece que o falibilismo, na filosofia da ciência de Popper, ao sustentar que teorias científicas não podem ser verificadas, confirmadas ou justificadas, mas somente falsificadas ou refutadas, estabeleceu um sentido distintivo que é objetivista, preocupado somente com o conteúdo objetivo das teorias e suas relações lógicas. Segundo essa visão, “cientistas não crêem, nem devem crer em suas teorias; o que importa não é os cientistas acreditarem – isso é uma matéria subjetiva – mas teorias abstratas, proposições, problemas. Isso é, algo ‘objetivo, conhecimento científico’, como Popper usa a frase, para referir”.

Haack toma Popper por cético sigiloso que, ao não aceitar crenças verdadeiras, nega também o conhecimento. O que ele chama de conhecimento objetivo, científico, não é nunca justificado, não deve ser objeto de crença e pode não ser verdadeiro. Segundo Haack, ele não se interessou pelo conceito por pensar que não há crença justificada, e isso por sustentar que ciência é um empreendimento crítico racional, na qual, sempre as teorias estão sujeitas a contestação racional. A crítica negativa demonstra não que a teoria científica verdadeira é verdadeira, mas que a falsa é falsa; e na primeira parte da epistemologia de Popper, “depende da solução ao ‘problema da base empírica’, isto é, o problema do papel da experiência na falsificação”.

Haack argumenta que o problema da base empírica tem solução na proposta funderentista como um estágio adiante do fundacionalismo e que uma meta-epistemologia implica a proposta de uma epistemologia com um sujeito conhecedor. Também pretende traçar as linhas “de uma contribuição relevante para a epistemologia das ciências cognitivas”. Deste modo, apresenta um “naturalismo modesto” que articula uma “concepção gradualista da relação entre filosofia e ciência”. Esta proposta, contudo, terá sua apresentação subordinada a nossa pretensão de debater o problema da base empírica.

Embora Popper tenha deixado margem para o entendimento de que The logic of scientific discovery
propunha que teorias científicas são testadas contra a experiência, depois ele esclareceu ter sustentado a tese de que teorias científicas são testadas, não contra a experiência, mas contra as “proposições básicas”. No contexto da epistemologia popperiana, estas proposições são singulares e reportam à ocorrência de um evento observável em um lugar e tempo específicos. Até aqui Haack descreve Popper, mas sua divergência está na seqüência do argumento, quando este afirma que:

a decisão para aceitar uma proposição básica (...) é causalmente conectada com nossa experiência (...) Mas nós não tentamos justificar proposições básicas com suas experiências. Experiências podem motivar uma decisão e, por isso, uma aceitação ou rejeição de uma proposição, mas uma proposição básica não pode ser justificada por ela – não mais do que batendo na mesa
.

Haack estranha e contesta a afirmação de que proposições básicas não podem ser justificadas ou sustentadas com a experiência, uma vez que Popper afirmou que elas possuem conteúdo observacional e que a decisão científica de aceitá-las pode ser causada pela experiência. É possível, segundo Haack, identificar dois argumentos no texto de Popper, que pretendem sustentar a tese de que “a experiência não pode justificar a aceitação de proposições básicas”. O primeiro afirma que proposições básicas são impregnadas de teorias e que, portanto, o conteúdo da proposição não se esgota na observação, pois sempre há termos universais em relações circunstanciais e hipotéticas. Ex: “aqui está um copo de água”. A justificação de tal proposição implicaria inferências ampliativas com caráter observável para seu futuro; portanto, incorrer-se-ia em indução, condenada por Popper. Tal formulação Haack chama de argumento anti-indutivista por entender que Popper reconhece a existência de evidências não dedutivamente conclusivas. O segundo argumento é identificado, por Haack, como “uma versão da familiar irrelevância do argumento causacional”. A relação causal ocorre entre uma experiência e a aceitação ou rejeição de uma proposição básica, mas não entre a experiência e a proposição básica. Assim, ao vermos um cisne negro, rejeitamos a proposição, mas não faz sentido afirmar que há uma relação de incompatibilidade lógica entre a experiência de ver um cisne negro e a proposição “todos os cisnes são brancos”. Se “a justificação não é uma noção causal ou psicológica, mas lógica”, então, “proposições básicas não podem ser justificadas pela experiência”. Haack nomeará esta defesa como “argumento antipsicologista”.

Apesar de reconhecer que os argumentos são válidos, Haack afirma que “sua conclusão, contudo, é simplesmente inacreditável”. Ela defende que uma proposição do tipo “o homem está com o cachimbo na boca” é aceita no universo científico como sustentada por todos aqueles que vêem o cachimbo na boca do homem. Entretanto, em uma análise epistemologicamente relevante, ela afirma que as experiências perceptuais científicas são consideradas completamente irrelevantes. E isso é um problema. Se uma teoria científica é considerada refutada ou falsificada ao se demonstrar ser incompatível com uma proposição básica aceita, seria o caso de considerar que a aceitação de uma proposição básica no universo científico apoiada em experiências científicas, refuta a epistemologia incompatível. A relevância dessa defesa de Haack é reforçada pela proposição “não existe razão para supor que proposições básicas aceitas são verdadeiras, nem, conseqüentemente, que uma teoria ‘refutada’... é falsa. A ciência não é, afinal de contas, nivelada negativamente sob o controle da experiência”.

Mas Popper sustenta que a aceitação ou rejeição de sentenças básicas não ocorre por elas estarem sustentadas em experiências, mas sim por “decisão” ou “convenção”, da qual participam os membros da comunidade científica. Isso, contudo, não é plausível com a posição popperiana de que o convencionalismo é observacional e não-arbitrário, mesmo tratando a aceitação ou rejeição de sentença básica como conjectural e reversível, de tal forma que, em havendo desacordo, a proposição em questão pode ser testada contra outra proposição básica. Haack acha que, quando Popper apela ao ‘testável’ como relevante para decisão de que são tanto injustificadas quanto injustificáveis, ele é tendencioso, tanto que “Ayer protesta [dizendo] que a tese de Popper é difícil de acreditar, e insiste (...) que a aceitação de proposições básicas pode ser justificada, talvez não por inteiro ou incorrigivelmente, pela experiência.

Segundo Haack, a resposta de Popper a Ayer, asseverando sua negação de que a decisão para aceitar ou rejeitar uma sentença básica é arbitrária ou imotivada permite interpretar que as experiências não oferecem só motivos, mas também a razão inconclusiva para aceitar ou rejeitar proposições de base. Então Haack avança. E, se conforme a resposta a Ayer, Popper entende que a confiança caracteriza nossas observações, ela afirma: “Isso não é defender, mas abandonar a posição radical adotada em A lógica da pesquisa científica; Popper admite que experiências possam constituir razão para, não só causas, da aceitação ou rejeição de proposições básicas, e que podem ser razões inferidas de dedução conclusiva”. A incongruência agora está, segundo Haack, no fato de Popper ter respondido à objeção de Ayer fazendo o uso do termo “motivação” que se menciona “causalidade pontual” e contrasta com “justificação”, não responde às objeções de Ayer; se menciona “justificação” ou “sustentado com razões”, “constitui a capitulação à objeção” de Ayer.

Poder-se-ia dizer, contudo, como alguém que não entende o debate teórico como cabo-de-guerra, que Popper se deu conta, no debate com Ayer, de certas implicações de sua epistemologia que até então ele não havia percebido, precisamente, que as motivações fornecidas pela experiência são razões para a decisão convencionalista. Mas Haack extrai daí um ponto de acordo entre a posição de Ayer, que não ofereceu resposta aos argumentos contra a justificação, e a de Popper: as conclusões dos dois argumentos popperianos de que a experiência não pode justificar a aceitação de proposições básicas são falsas. Para serem válidos, como foi asseverado por ela, eles devem ter, cada um, pelo menos uma premissa falsa. Segundo Haack,

as premissas do argumento antipsicologista são: [1] que pode ser somente causal, não-lógica, a relação entre uma experiência subjetiva e a aceitação ou rejeição de uma sentença básica e [2] que somente a relação lógica é relevante para a racionalidade da aceitação/rejeição de proposições. A primeira é verdadeira; a segunda é falsa; [enquanto] as premissas do argumento anti-indutivista são: [1] que proposições básicas são carregadas de teoria e [2] que não existe relação de sustentação não-dedutiva, ampliativa. A primeira é verdadeira; a segunda é falsa
.

Essa configuração, contudo, somente aparece porque Haack distinguiu o que Popper tinha tratado como indistinto. Ela supõe que a causa para Popper não ter distinguido os argumentos contra o psicologismo e contra o indutivismo estaria no fato de tal procedimento fragilizá-los. No entanto, devemos lembrar que Popper afirmou a irrelevância da observação para a justificação, ele não afirmou que a convenção não observa logicidade no procedimento de aceitação ou rejeição de uma sentença. Haack, entretanto, parece considerar toda justificação como sendo lógica e toda lógica justificacionista, o que perturba a análise. Mesmo assim, os argumentos que apresenta, parece, devem ser avaliados. Ocorre que as segundas premissas, tanto do primeiro como do segundo argumentos não condizem com a proposta popperiana. Corretamente, Haack identifica-as como falsas, mas elas não representam uma síntese adequada da epistemologia de Popper e, assim, ela está distante de impor o pretensioso xeque-mate ao autor.

Popper teria preferido tratar psicologismo e indutivismo como “dois lados da mesma moeda (verificacionista)”, o que redundou no seguinte raciocínio: “a suposição antipsicologista considera que somente relações lógicas são epistemologicamente relevantes, a suposição antiindutivista considera que somente relações dedutivas são lógicas; juntamente, portanto, isso implica que somente relações logicamente dedutivas são epistemologicamente relevantes”.

A formulação do argumento é válida e, também corretamente, Haack lembra que o antipsicologismo e o antiindutivismo são a condição de sustentabilidade de todo o discurso epistemológico do falibilismo de Popper. Segundo ela, a distinção entre descoberta e justificação e a difamação do contexto da descoberta como envolvendo questões que podem interessar à psicologia ou à sociologia, mas não à filosofia da ciência, bem como sua proposta de “Epistemologia sem um sujeito conhecedor”, evolucionária, em um mundo três, habitado unicamente por proposições e suas relações lógicas, confirmam essa posição.

Ao considerarmos válido o argumento de Haack, cujas premissas do antipsicologismo e antiindutivismo permitem inferir legitimamente que “somente relações logicamente dedutivas são epistemologicamente relevantes”, nos colocamos na obrigação de aceitar sua conclusão; pelo menos, se aceitarmos que suas premissas são verdadeiras. Temos um silogismo categórico que afirma: 1a premissa: Toda relevância epistemológica é lógica; 2ª premissa: Toda lógica é dedutiva; Conclusão: Toda relevância epistemológica é dedutiva. Representada em conjuntos, mais claramente se demonstra a impossibilidade de duvidar da conclusão.

Permanece, porém, a possibilidade de questionar a verdade das premissas, eis o que tentaremos agora, sob pena de concordarmos com Haack de que não há solução ao problema da base empírica nos limites popperianos. A proposta epistemológica de Popper, estando suscetível ao ceticismo profundo, para o qual a ciência não está “nivelada negativamente” ao “controle da experiência” conduz, segundo ela, “a que teorias científicas não podem mais ser demonstradas falsas do que demonstradas verdadeiras”, o que significa um “profundo fracasso” dessa filosofia.

Ocorre que a primeira premissa do argumento de Haack é falsa, ela foi extraída da inadequada formulação do primeiro argumento, e agora o erro se aprofunda. Popper não trabalha com absolutos, suas conjecturas não pretendem totalidades e sua consciência da fragilidade de qualquer proposição não pode ser compreendida senão como um apelo à modéstia. Ele não concordaria com a formulação da primeira premissa do argumento anterior.”

---
É isso!


Fonte:
REMI SCHORN: “O PROBLEMA DA VERDADE DO CONHECIMENTO NO RACIONALISMO CRÍTICO”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul como requisito para a obtenção do grau de Doutor em Filosofia. Área: Filosofia do Conhecimento e da Linguagem Orientador: Prof. Dr. Eduardo Luft). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Teoria da Evolução: um enunciado histórico

MAYR:
"A Biologia evolutiva, ao contrário da física e da química, é uma ciência histórica - o evolucionismo tenta explicar eventos e processos que já ocorreram. Leis e experimentos não são técnicas apropriadas para a explicação de tais eventos e processos. Em vez disso, é preciso construir uma narrativa histórica, que consista numa reconstrução experimental de um cenário em particular que tenha levado aos eventos que se está tentando explicar” (MAYR, E. O impacto de Darwin no pensamento moderno. Scientific American Brasil. Edição Especial (17):92-98. 2006).

POPPER:
Em seu livro “A Miséria do Historicismo”, Karl Popper, refutando a ingênua pretensão de T. H. Huxley em atribuir à Evolução o status de “lei”, reduz o darwinismo a seu único papel verdadeiramente merecido: "A hipótese tem, melhor dizendo, o caráter de um enunciado histórico particular (singular ou específico)". Sendo assim, para Popper tal hipótese (a hipótese evolutiva) tem a rigor, o mesmo status do enunciado histórico do tipo: "Charles Darwin e Francis Galton possuíam um mesmo ancestral – ambos eram netos de uma dada pessoa”. Já em sua “Autobiografia Intelectual”, ele denomina o darwinismo de “Programa Metafísico de Pesquisa”. E explica o motivo: “É metafísico por não ser suscetível de prova” (p. 180).
É isso!