A figura do LOUCO na literatura grega





“Foi com os gregos que a literatura inaugurou seu interesse pelo tema da loucura. Com esse interesse, problematizava-se, pela primeira vez, a questão de dar sentido a ela, consistindo o que poderíamos considerar como o início da discussão que até hoje não encontrou um termo de consenso na nossa sociedade.

Na epopéia grega, os heróis enlouquecem, mas sempre devido a fatores externos a si próprios. Alguns são tomados pelas paixões, outros ficam fora de si em função de fúria, vingança ou dor. Estes aspectos não são os mesmos descritos pelos pioneiros da medicina e da filosofia gregas como causas da loucura, pois o épico antigo não dá a seus personagens um "eu" reflexivo, uma mente própria, não lhes confere opções perante as situações as quais são expostas.

Na antigüidade grega não existe uma concepção estruturada da "natureza humana"
. O homem não se conhece, não se chegou ainda ao "conhece-te a ti mesmo". Desse modo, as distorções ou aberrações dessa "natureza" são concebidas vagamente e atribuídas, na ausência de qualquer vislumbre de psicologia, às forças e entidades conhecidas.

Os heróis épicos estão sempre à mercê de forças que vêm do além e que estão fora de sua alçada, forças essas responsáveis por seu enlouquecimento. Inúmeras vezes essas personagens são amaldiçoadas e perseguidas por poderes terríveis, que punem, vingam e destroem, levando-as, em certos momentos, à loucura. "Mas a vida interior, com seus dilemas de razão e consciência e com as tormentas do sofrimento mental, ainda não constitui aí o centro da atenção."
. É claro, aqui falamos unicamente de literatura.

Essas questões, entretanto, já fazem parte de um cenário mental mais moderno, que surge com o apogeu da civilização grega. Inclusive há historiadores que argumentam ser o pensamento ateniense sobre a psique a base para todo o posterior pensamento ocidental sobre mente e loucura
.

Os filósofos gregos sujeitaram a natureza, a sociedade e a consciência à razão, fazendo desta a mais nobre faculdade do homem. Ao fazer isso, os gregos, contudo, não negaram a existência de tudo o que não era racional, mas colocaram o irracional - paixão, destino, acaso - como um problema, uma ameaça, um escândalo que a razão devia combater. A
filosofia, então, permitiu aos gregos pensar a respeito da loucura diferentemente do que era colocado nas narrativas épicas que, por sua vez, também se diferenciavam da concepção de loucura trabalhada nas tragédias.

Havia, portanto, na Antigüidade Clássica, excetuando-se as epopéias, nas quais a loucura era algo externo ao homem, duas maneiras de pensar e dar sentido à loucura: uma, calcada na arte e no teatro, e outra, fundamentada na teoria médica.

A primeira, baseada mais especificamente na tragédia, negava a loucura exterior das epopéias e a caracterizava como resultado de conflitos interiores, da luta entre vontade individual e destino, da rivalidade no amor e outros.

Os poderes que destruíam os indivíduos não eram mais o destino exterior, os deuses e as fúrias malévolas, mas eram agora impostos a eles por eles próprios: vergonha, culpa, dor. Os novos heróis traziam em si a loucura ou os elementos que a faziam aflorar, possuíam um "eu" reflexivo, diferentemente dos heróis épicos, que eram essencialmente "ação", confiando aos deuses a "reflexão".

O teatro, então, funciona como uma espécie de terapia, na medida em que era catalisador das emoções do espectador. Através dos conflitos de suas personagens, trazia-se ensinamento à platéia, uma sabedoria mais elevada. A representação pública do drama provoca, assim, a catarse coletiva. No espetáculo teatral, portanto, a loucura era uma doença da alma que se expressava por meio da arte.

Na tragédia
Ajax, de Sófocles, o protagonista, instigado por Atena, é tomado por uma fúria insana que o leva a matar todo o rebanho dos Aqueus, convicto de estar matando os Átridas. Tornado à razão e tendo sido escarnecido pela deusa, dirige-se a um lugar solitário junto à praia e lança-se sobre a espada que Heitor lhe dera em presente, suicidando-se.

Encontramos com freqüência o tema da loucura em Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.

Nenhum dos trágicos pretendeu, em sua obra poética, propor uma teoria da loucura, obviamente. Mas os personagens loucos das tragédias retratam diferentes formas da loucura; os diálogos discorrem sobre ela, os personagens apontam causas ou origens da alienação, relatam delírios, mudanças emocionais, estados de desordem afetiva, episódios de desajustamento social, de
descontrole passional. Em suma, a atuação e as características dos personagens retratam, aos olhos de hoje, perfeitos quadros clínicos da loucura. Mais ainda, é freqüente na tragédia grega a designação de falas e ações com termos como loucura, mania, delírio, desvario, furor louco, etc.

É evidente, portanto, a constatação de que, nas tragédias gregas, se abordava loucura sob a influência do pensamento científico acerca da mesma, seja através da descrição de conjuntos de sintomas de desequilíbrio mental, seja pelo uso de palavras pertinentes ao tema, palavras estas utilizadas no âmbito médico. Ainda nesta passagem:

Assim, parece legítimo falar-se de uma concepção de loucura, segundo Eurípedes, ou Sófocles ou Ésquilo, mesmo admitindo-se que nenhum deles pretendeu explicar a psicopatologia humana mas, sim,
retratar a vida humana com seus dramas e aberrações.

Logo, os trágicos gregos consideravam a loucura como parte da natureza humana, estando esta sujeita à influência de situações adversas como “dramas e aberrações”. Na obra de Eurípedes, principalmente, encontraremos uma concepção da loucura como resultado da força e dos conflitos das paixões humanas.”

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É isso!

Fonte:
Andrea Czarnobay Perrot: “DO REAL AO FICCIONAL - A loucura e suas representações em Machado de Assis”. (Dissertação de Mestrado apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientadora: Profª Drª Ana Maria Lisboa de Mello). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2001.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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