Foucault e Deleuze: do poder disciplinar à sociedade de controle

“O controle do corpo e o poder exercido sobre ele pelas sociedades disciplinares foi tema das teses de Foucault, no século XX. Para o filósofo “[...] os mecanismos do poder nunca foram estudados na história. Estudaram -se as pessoas que detiveram o poder. [...] o poder em suas estratégias, ao mesmo tempo gerais e sutis, em seus mecanismos, nunca foi estudado” (FOUCAULT, 1985, p. 80). Assim, o corpo submisso, transformado, docilizado e controlado em face de práticas de poder foi objeto de estudo do filósofo, que mostrou, primeiramente e m Vigiar e Punir (FOUCAULT, 2004 a), que a sociedade moderna, por meio de práticas disciplinares, construiu um sistema de poder baseado no controle e na submissão dos corpos. Nos termos do filósofo, “É pelo estudo dos mecanismos que penetraram nos corpos, nos gestos, nos comportamentos, que é preciso construir a arqueologia das ciências humanas” (Idem, p. 150).

Para Foucault, nos séculos XVII e XVIII inaugurou -se, na sociedade, o momento das disciplinas, que, de forma institucional, se servia da vigilância nas prisões, escolas, hospitais, quartéis e outras organizações, fabricando corpos submissos, por meio de uma sujeição implantada nos indivíduos que se sabiam observados. Era um tipo de poder microfísico que, nos termos de Foucault “[...] se exerce continuamente através da vigilância [...]” (FOUCAULT, idem, p. 187).

O Panóptico, de Geremy Bentham, foi a arquitetura escolhida para a vigilância e tinha como objetivo “[...] assegurar uma vigilância que fosse ao mesmo tempo global e individualizante separando cuidadosamente os indivíduos que deviam ser vigiados.” (FOUCAULT, 2004 a, p.216). Seu modelo, em forma circular, servia para a observação sistemática dos corpos nas várias Instituições. Ao centro, uma torre de vigia, com janelas se abrindo para o lado inte rno, cujo interior mantinha -se invisível às observações externas. Ao redor do panóptico, construíam-se celas, totalmente visíveis do observatório e onde se colocava o indivíduo a ser vigiado.

Na torre poderia haver um vigia ou não. O importante é que o sujeito vigiado jamais tinha a certeza disso. Ele sabia que poderia estar sendo vigiado e isso era suficiente para mantê-lo disciplinado. Foucault (2004 a, p. 218), escreve que o panóptico representava “Um olhar que vigia e que cada um, sentindo o peso sobre si, acabará por interiorizar, a ponto de observar a si mesmo; sendo assim, cada um exercerá esta vigilância sobre e contra si mesmo” (Idem, p. 218). Desse modo, o panóptico representou, até o início do século XX, um modelo de exercício de poder, cuja técnica disciplinar garantia a subordinação e o adestramento espontâneo do sujeito a um poder que agia sobre ele.

O controle do indivíduo no espaço e no tempo também foi objeto dos estudos foucaultianos. Foucault mostrou que a distribuição dos indivíduos no espaço era orientada pela idéia de se ter cada sujeito em um lugar específico. Tal procedimento teria a finalidade de evitar a formação de grupos, facilitaria o controle das freqüências e ausências, assim como determinaria a localização exata de cada um na Instituição. O princípio da ordem, desse modo, estabeleceu cada sujeito em um lugar, hierarquicamente controlado.

Quanto ao tempo, o filósofo observa que o controle também garante a qualidade do tempo utilizado de modo a não ser desperdiçado em atividade s não úteis à Instituição. Esse controle é garantido por meio da presença contínua de fiscais e do afastamento de tudo que pode servir de distração ao vigiado.

A vigilância dos corpos e o controle do indivíduo no espaço e no tempo são, portanto, segundo Foucault, estratégias utilizadas pelo poder para garantir a docilização do indivíduo e torná-lo útil à sociedade.

Treze anos depois Deleuze (1992, p. 219 -26) irá formular a teoria de uma nova ordem social que ele irá denominar de sociedade de controle. Para o teórico, foi na segunda metade do século XX – após a Segunda Guerra Mundial – que as sociedades disciplinares deram lugar às sociedades de controle. Após o término da Segunda Guerra Mundial, surgiram forças na sociedade que estabeleceram uma nova ordem. Essas forças estariam identificadas com mudanças que aconteceram por todo o mundo capitalista, ligadas principalmente às inovações tecnológicas. O uso dessas novas tecnologias para o controle social seria a mais nova expressão do exercício do poder na sociedade moderna.

Os mecanismos de vigilância aprimoraram -se e passaram de um caráter institucional para o de uma vigilância geral. A proliferação de câmeras de vídeo em muitos espaços sociais, o uso de transponders, de aparelhos celulares, cartões de crédito e da comunicação pela Internet facilitaram o exercício de mecanismos de vigilância e controle cada vez mais eficientes.

Embora esse paradigma de sociedade possa ser compreendido como uma derivação da sociedade disciplinar foucaultiana, dela se diferencia quando o controle passa de uma esfera local, dos espaços fechados das instituições, para todos os campos da vida social.

Nas sociedades disciplinares o poder disciplinador, simbolizado pela arquitetura do panóptico, presentificava-se no interior das Instituições, como as prisões, os hospitais, as escolas, os quartéis, com o objetivo de instaurar a disciplina e, conseqüentemente, um padrão comportamental rotineiro. No modelo social de Deleuze, o controle passa do âmbito local – restrito à extensão dos olhos e do ouvido humanos – para um âmbito supra-local, estendendo-se para todos os espaços da vida pública. Não há mais um espaço restrito para que o poder se faça sentir; pelo contrário, ele se faz presente em todos os lugares. Por conseguinte, é mais perverso, mais controlador, porque se sustenta no aparato das novas tecnologias de informação. O símbolo do controle agora não é mais o panóptico, mas a web, a rede digital de comunicação mundial, que concentra toda a informação dos indivíduos em bancos de dados. O princípio da docilidade continua, no entanto, o mesmo, pois os indivíduos entregam voluntariamente seus dados à vigilância.

Perpetua-se, dessa forma, modernamente, o princípio do panóptico como instrumento de subordinação ideológica. O exercício do controle, agora aperfeiçoado pelo auxílio da tecnologia e pelo uso de equipamentos minúsculos, quase imperceptíveis ao olhar humano, torna -se habitual no cotidiano das sociedades. O controle acaba sendo interiorizado pelos indivíduos, como necessário e absolutamente vital. É o biopoder que organiza e controla a vida em todos os campos sociais.

A rede de comunicação mundial – web nessa nova perspectiva, acaba exercendo a função de um superpanóptico (BAUMAN, 1999), controlando todo o ciberespaço, a informação e o conhecimento, elementos estratégicos para a manutenção do poder nessa nova sociedade informacional.

As estratégias desse poder controlador organizam-se em torno da importância que o conhecimento e a informação ocupam na sociedade mundial. O suc esso de quaisquer atividades, sejam de natureza econômica ou política, na atualidade depende muito da capacidade do uso de informações e dos conhecimentos que as sociedades conseguem aglutinar.

Esse processo de distribuição de informações pela rede de comunicação é mais um elemento estruturador da globalização, pois acaba interligando mercados e países, que se comunicam permanentemente pela rede.

Negri e Hardt (2001, p. 42 –3) assim definem os dois paradigmas sociais:

[...] a sociedade disciplinar é aquela na qual o comando social é construído mediante uma rede difusa de dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam os costumes, os hábitos e as práticas produtivas. [Na sociedade de controle] os mecanismos de comando [são] distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos. Os comportamentos de integração e de exclusão próprios do mando são, assim, cada vez mais interiorizados nos próprios súditos. O poder agora é exercido mediante máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de bem -estar, atividades monitoradas, etc.) no objetivo de um estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo de criatividade.

Estabelecem-se, portanto, novos mecanismos de vigilância e controle, amparados na tecnologia da informação. Os muros que caracterizavam a sociedade disciplinar caem e o poder controlador se dissolve em todos os espaços, operando agora de maneira mais sutil, porque é quase imperceptível ao olhar comum. O poder disciplinador continua impositivo, embora não implique práticas de adestramento físico, mas faz-se presente na sociedade por meio da necessidade de se dominar a comunicação e a informação nas relações sociais e em todos os campos de trabalho, estruturando inclusive as condutas e os horários a serem seguidos.

Inauguram-se novos mecanismos de regulagem da vida, vinculados às máquinas de informação. O domínio de tecnologias cada vez mais complexas e a capacidade de utilizá-las de maneira útil tornam -se condição para a obtenção e manutenção do próprio trabalho, cuja característica cada vez mais imaterial, está vinculada ao domínio das modernas tecnologias.

Quando se fala que, nas sociedades de controle, os muros declinaram, dá-se uma falsa idéia de que a ideologia do confinamento entrou em colapso com a queda destes. Para Deleuze (1992, p. 224), entretanto, o homem confinado da sociedade disciplinar passou a ser o homem endividado, na sociedade de controle. Para o teórico, do confinamento ao endividamento, os mecanismos de sujeição permaneceram os mesmos. O endividamento do trabalhador, na contemporaneidade, caracteriza -se como a mais nova forma de internamento dos sujeitos, agora controlados pelo poder de forma mais sutil.

Mecanismos como o sistema de venda a crédito, utilizados pelo comércio, a exigência do pagamento antecipado do aluguel (que condiciona a mudança de residência), o sistema de poupança, de assistência médico-hospitalar, de aposentadoria, de Imposto de Renda, as modernas formas de empréstimos bancários, e a construção de vilas militares e operárias próximas aos locais de trabalho, são formas de endividamento e de controle do operariado. O controle é aí exercido de maneira branda, assumindo uma roupagem libertária. Desse modo, o indivíduo assume uma hipoteca permanente com o mercado e com as Instituições, permanecendo igualmente confinado no interior delas.

Nas sociedades contemporâneas, o biopoder envolve todo o corpo social, valendo-se de uma tecnologia que funciona a partir da sedução. A intenção não é mais explicar ou convencer, mas seduzir ou conquistar . Dessa forma, mesmo distante do ambiente de trabalho, os sujeitos seduzidos pelos aparatos tecnológicos, acabam levando o controle para dentro de suas casas. É o princípio da sedução do controle opondo-se à coerção das sociedades disciplinares.

Todavia, mesmo reconhecendo os mecanismos que regulam as relações entre os sujeitos e o poder, Foucault (2004 a, p. 136) alerta que os sujeitos não são passivos às suas determinações: “Jamais somos aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua dominação e m condições determinadas e segundo uma estratégia precisa”. Assim, segundo o filósofo, nenhum poder é permanente. E exatamente pelo seu caráter transitório, é sujeito a falhas, por “[...]onde é possível a substituição da docilidade pela meta contínua e infindável da libertação dos corpos.” (GREGOLIN, 2003, p. 101).

Pensando nessa meta de libertação dos corpos, contemporaneamente identificamos na sociedade diversas formas de resistência, articuladas em torno de ações criativas, de enfrentamento contra todas as formas de dominação social. Essas lutas acontecem por todo o espaço da vida cotidiana, em uma tarefa política incessante, na qual todos estão envolvidos. O objetivo maior é a construção de novas relações sociais e o desaparecimento de determinada forma de poder, normalmente opressiva. A resistência é, nesse sentido, a recusa do homem a permanecer em uma condição humilhante ou degradante e a esperança na construção de uma sociedade nova onde os saberes e os poderes estejam voltados para o bem comum."

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Fonte
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Rosemere de Almeida Aguero: “A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO SOBRE O TRABALHO INFANTIL: MÍDIA, IMAGENS E PODER”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras, área de concentração Estudos Lingüísticos, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – Câmpus de Três Lagoas, como requisito parcial para obtenção de título de Mestre em Letras. Orientadora: Profª Drª Vânia Maria Lescano Guerra). Três Lagoas – MS, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

11 comentários:

  1. tem que ter mais sobre sociedade de controle

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  2. Recomendo a leitura da tese em sua totalidade. Voce a encontrará no site Dominio Publico.

    Um abraço!

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    1. Não encontrei! Gostaria de ler!

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  3. Parabéns, texto claro e objetivo!

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  4. Esclarecedor, brilhante!
    Texto conciso e poderoso.
    Parabéns!

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  5. Hum... então tá, até parece que estes dois "filósofos" comunistas, esqueceram das "práticas" de controle dos facínoras , Mao, Fidel , Stálin, e outros porcos comunistas criados pela conspiração Talmudista...o sionismo, manda nas cabeças vazias desta nossa sociedade cristã.

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    1. Nossa, mano, tem doido pra tudo... Vem cá o cristãozão: em que o fato do controle exercido nos países comunistas (que de fato ocorreu) muda a argumentação dos autores? Seu exemplo só generaliza a teoria, não a refuta, como parece ser sua intenção. E, cá entre nós, esses dois autores (que de 'comunistas' não têm nada, ambos criticam o Partido Comunista Francês, por exemplo) concordariam que nessas sociedades que você citou a sociedade disciplinar/do controle também está em vigência, pois é uma característica do mundo moderno. Larga um pouquinho a Bíblia e vai estudar pra não passar vergonha, tá?

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  6. Há duas formas de indivíduos, e estas formas estão diretamente ligadas á maneira como se interpreta o mundo: Há os que vêem o mundo como apenas natureza física sem contradições (que não físicas), esses são os satisfeitos. Há também aqueles que interpretam o mundo como eterna contradição na relação sujeito - objeto, interpretando o mundo de diferentes formas a partir dessa relação. São para os segundos que os dois filósofos escreveram, caso contrário, se os primeiros se identificassem com essas ideias, estaríamos diante de uma aberração em acto.

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