Os hospitais de isolamento no Brasil


Imagem: Hospital dos Lázaros (Recife, 1926).

"Na primeira metade do século XIX as condições de higiene dos hospitais no Brasil apresentavam indicações da falta de salubridade. Muitos estudiosos comentavam, desde o final do séc. XVIII, sobre o estado precário da saúde no país, e sobre a ineficácia dos meios até então empregados. Em 1798 o Senado da Câmara do Rio de Janeiro propôs, aos principais médicos da cidade, um questiona rio sobre as condições sanitárias da cidade do Rio de Janeiro. O questionário pedia suas opiniões sobre as possíveis influências do clima, da dieta alimentar e dos hábitos na incidência de moléstias. A elaboração do questionário decorreu, certamente, da constatação das precárias condições sanitárias desta cidade, face a incidência de moléstias. Entre as chamadas moléstias endêmicas estavam sarna, erisipela, empigens, tuberculose, bouba, morféia, elefantíase, bicho dos pés, leucirréia, dispepsia, hemorróida, e edemas de pernas. As moléstias epidêmicas mais presentes eram as febres intermitentes, e a epidemia das bexigas (varíola). Os médicos Bernardino Antonio Gomes, Antonio Joaquim de Medeiros e Manuel Joaquim Marreiros responderam ao questionário.

Um dos primeiros estudos médicos, impresso no Brasil em 1808, intitulado “Reflexões sobre alguns meios propostos para melhorar o clima da cidade do Rio de Janeiro”, de autoria do físico-mor do Reino, o Dr. M.Vieira da Silva, sinalizava a preocupação com as condições sanitárias na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1828 foi realizado um inquérito sobre os hospitais na cidade do Rio de Janeiro, elaborado por uma comissão encarregada pela Câmara Municipal. Em seu relatório destacaram a precária situação dos hospitais, especialmente as condições da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro.

O processo de estruturação e de transformação dos hospitais no Brasil acompanhou, em grande parte, as tendências externas citadas anteriormente. Eliane Villas Bôas de Freitas Penteado (1999), ao comentar sobre a morfologia das construções hospitalares no Brasil, afirma que esta caracterizou-se, desde o período colonial, pela morfologia em “U” ou quadrada, que era um exemplo da influência renascentista européia de arquitetura hospitalar.

Na segunda metade do séc. XIX, as novas construções hospitalares, como o Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, iniciado em 1840 e concluído em 1852, atendiam aos padrões da arquitetura pavilhonar horizontal, de Jacques-René Tenon. Carmo ressalta que “o grande reformador da Santa Casa da Misericórdia, José Clemente Pereira, seguiu fielmente esse esquema francês, com o entusiástico apoio de D. Pedro II” (1984, p.250).

O Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia, construído segundo as exigências da higiene hospitalar da época, tinha modernas salas de operações, com material e estufas para desinfecção, um hydrotherapium, uma enfermaria para infectuosos, outras 28 enfermarias e dispunha de 1.015 leitos.

Nesta época, a Academia Imperial de Medicina havia proposto um programa para o saneamento financeiro da Santa casa, e entre suas medidas dizia da necessidade de extinção do cemitério da Misericórdia e construção de dois cemitérios fora dos limites da cidade, em benefício da salubridade.

Em 1849, temendo o alastramento da epidemia de febre amarela, principalmente no Rio de Janeiro, fato que se confirmou em fins de dezembro, o Governo Imperial viu a necessidade de criar uma comissão para combatê-la, a Comissão Central de Saúde Pública. Esta Comissão decidiu pela instalação de alguns hospitais de emergência, inaugurando em janeiro de 1850 o Lazareto da Ilha do Bom Jesus, em março o Lazareto do Saco de Alferes, e o Hospital de Nossa Senhora do Livramento. Em 1851, Francisco de Paula Cândido, presidente da Junta de Higiene Pública, denominação atribuída à Comissão Central em 1850, alugou um prédio na enseada da Jurujuba, e lá foi instalado, em 20 de janeiro de 1851, um hospital de isolamento, destinado principalmente ao atendimento dos doentes das embarcações que aportavam no Rio de Janeiro, denominado de Lazareto de Jurujuba. Depois batizado como Hospital Marítimo de Santa Izabel (1853) e, ainda Hospital Paula Cândido, funcionou direto até 1861, quando diminuíra bastante a incidência de febre amarela, e foi reaberto em 1870 com o reaparecimento da enfermidade. Carlos Seidl considerava que este fora o primeiro hospital, criado na Capital do Império, para o isolamento de doentes de enfermidades contagiosas. O Hospital Paula Cândido foi reformado, mas acabou sendo fechado em 1899, quando seus pacientes foram transferidos para o Hospital de São Sebastião, de isolamento instalado em 1889 no Caju.

Além deste hospital, a Junta procurou implementar as enfermarias para tratamento de doentes pobres, que haviam sido autorizadas pelo Governo em setembro de 1850. Assim, a primeira enfermaria instalada foi a de São João Baptista da Lagoa, em terreno da Santa Casa da Misericórdia, e outra foi criada na Casa de Saúde do Doutor Peixoto, que atendia os pacientes no bairro da Gamboa. A localização distante do centro, o isolamento, a exposição aos ventos e a vegetação abundante daquela casa de saúde, foram considerados pelo presidente da Junta os fatores determinantes para a inauguração, em 1853, da enfermaria destinada a pacientes de doenças epidêmicas e contagiosas, principalmente coléricos, depois conhecida como Hospital da Gamboa. A terceira enfermaria foi estabelecida, em 1855, na Chácara do Morundú, também da Santa Casa, na praia de São Cristóvão, depois transferida para a rua de São Cristóvão, e chamando-se Enfermaria de Nossa Senhora do Socorro.

Com o surto de cólera, em 1854, era necessário um estabelecimento para atender os passageiros, doentes e suspeitos, dos navios em trânsito, e assim foram criados o Lazareto de Maricá e Lazareto da Várzea, em Jurujuba, que funcionavam agregados ao Hospital Marítimo de Santa Izabel.

Em 1876, o Governo Imperial instalou o Lazareto Flutuante, também em Jurujuba, que era um navio adaptado para o isolamento de passageiros vindos de portos suspeitos. Estes passageiros eram mantidos em observação, e caso se confirmasse seu adoecimento, eram transferidos para o hospital de isolamento.

Apesar de divergências com relação à questão do contágio, em 1880 havia um consenso com relação à necessidade urgente da criação de um grande hospital para infectuosos, aonde estes doentes fossem tratados e onde pudessem ser feitas
pesquisas sobre a etiologia e patogenia das enfermidades epidêmicas. Nos estudos de médicos, como João Vicente Torres Homem e José Pereira Rego, retratava-se as condições de salubridade do Império, e demonstrava-se a necessidade da construção de um nosocômio, “fosse do tipo hospital-monumento, fosse hospital-barraca, ou uma variedade mista” (CARMO, 1984, p.263).

Entretanto, o debate sobre os hospitais, para isolamento das doenças contagiosas, ainda era intenso. Discutia-se, ainda, as características arquitetônicas do estabelecimento hospitalar a ser construído. A necessidade do atendimento às regras de higiene, e da adoção dos pavilhões isolados, não eram pontos questionados. Debatia-se sobre o material da construção e o caráter destes pavilhões, se seriam provisórios, como os hospitais-barracas de Le Fort, ou permanentes, ogivais e com um só pavimento conforme propunha o modelo de Tollet.

O modelo de hospitais-barracas era defendido pelo cirurgião-mor da Armada, Carlos Frederico dos Santos Xavier de Azevedo, entendendo que estes eram melhores e adequavam-se mais aos ditames da ciência moderna, ao passo que as construções permanentes, em função de suas características, eram mais vulneráveis às infecções. Por outro lado, haviam os que questionavam a superioridade dos hospitais-barracas, como Manoel José de Oliveira, que entendia que embora a extinção dos chamados hospitais monumentos fosse algo definido, não existia certeza ainda quanto às condições das hospitalares provisórias:

Posta de lado a questão de edificação dos hospitais em pavilhões isolados, não é de tão pouco valor como parece ao colega [Carlos Frederico dos Santos Xavier de Azevedo] a questão do material ferro ou madeira, porque, se o colega aceita um mefitismo nos hospitais ordinários, a ele não é de certo alheia a madeira, porque não é só o tijolo, o barro etc., que retêm os germes mórbidos, e com o ferro pode prevenir-se essas más condições e ganhar-se a falta de insetos nocivos e as dificuldades de incêndio. (....) As diversas formas de hospitais de que, por assim dizer, são pródigos os americanos, não tem grande influência na sua inocuidade, porque desde que se cumpram à risca os preceitos higiênicos na sua construção, que se atenda à higiene interna, espaçando os pavilhões, disseminando os doentes de certas enfermidades, dando uma boa orientação ao hospital, dispondo os pavilhões de maneira que um não faça sombra aos outros, roubandolhes parte da luz e a livre circulação do ar (...). Se a estes quesitos juntarmos a separação completa das partes administrativas e utilitárias,
se a construção for feita em lugar descoberto, em solo seco e em declive, e dando-se para cada doente 50 metros quadrados de superfície, longe dos grandes povoados (...) cubagem de 50 pés cúbicos de ar para cada doente, de sorte que lhe toque pouco mais ou menos na sala 4 metros de comprimento, 5 metros de altura e 2 ½ de largura, o que não é exagerado, porque em 1788 Tenon já pedia 51 metros para cada doente e 48 para um convalescente, teremos um perfeito hospital”. (OLIVEIRA, 1881, p.101-102)

Por sua vez Carlos Frederico dos Santos Xavier de Azevedo aifrmava categoricamente os benefícios, já constatados em outros países, do triunfo dos hospitais-barracas:

“Se dirijo-me ao terreno da medicina, vejo a cada passo o triumfo dos hospitais provisórios, demonstrado pela imunidade total para o tifo, ena nosocomial. (...). Por toda a parte se erguem vozes condenando os hospitais monumentais, e Carlos Sarrazin não hesita em declarar que o hospital permanente é o hospital sepulcro, incapaz de realizar resultados favoráveis, (...) e que o hospital-barraca, note o colega, renovado em quase sua totalidade de 10 em 10, ou de 15 em 15 anos, é o único que pode apresentar as condições higiênicas necessárias aos estabelecimentos hospitalares, permitindo realizar notáveis economias.” (AZEVEDO, 1881, p.117)

Em 1889, Fernando Francisco da Costa Ferraz, redator dos Annaes da Academia de Medicina, em seu trabalho “O novo hospital de Jurujuba”, caracterizou este estabelecimento e o Hospital de São Sebastião, em construção na época como “monstruosidades científicas” e “artefatos anti-científicos”
. Costa Ferraz também defendeu a eficácia dos hospitais-barracas, pois entendia que mesmo os mais renomados hospitais monumentais, como o Lariboisière, em Paris, e o St. Thomas, em Londres, apresentavam condições tão favoráveis quanto as adotadas pelo sistema Le Fort . Entre estas vantagens apontava a facilidade de remoção quando fosse necessário, e de destruição no caso de um foco de infecção.

Em 11 de novembro de 1882 foi inaugurado o Lazareto na Ilha de Santa Bárbara, mas não funcionou bem devido às dificuldades com o transporte dos doentes.

Ainda eram comuns as críticas com relação às condições de salubridade do Rio de Janeiro, vindas principalmente dos médicos membros das sociedades de medicina, como Fernando Francisco da Costa Ferraz, da Academia Imperial de Medicina, que apresentou um estudo no qual destacava a existência de 1294 cortiços na cidade, que eram verdadeiros focos de infecção, de febre amarela e de
outras moléstias.

Face ao impacto do surto de varíola, em 1882, foi instalada uma enfermaria provisória para acolher pacientes de varíola, o Hospital de Santa Bárbara, na ilha do mesmo nome, depois conhecido como Hospital de Bexiguentos. A ameaça da
epidemia de cólera, que se alastrava na Europa, levou o Governo a estabelecer, em 1884, na enseada do Abraão (Ilha Grande), o Lazareto da Ilha Grande, com condições para o regime de quarentenas, como um hospital de isolamento. Em 1884 foi construída uma Enfermaria de Marinha, na Ilha das Cobras, seguindo o sistema Le Fort, de enfermaria-barraca, que já tinha sido usado na Guerra do Paraguai (1864-1870).

O Ministro do Império, Antonio Leitão da Cunha, propôs, em 1886, uma programa de saúde pública, que incluía o saneamento de áreas da cidade, aterro dos pântanos, desmonte do Morro de Santo Antonio, combate aos cortiços, esgotos, água potável e a construção de um grande hospital de isolamento. Nas discussões que se seguiram José Pereira Rego (Barão do Lavradio) concordou com as idéias ministeriais, mas discordou com relação ao tipo de hospital, e João Batista dos Santos, presidente da Junta Central de Higiene Pública, defendeu o tipo do hospital barraca.

Somente na sessão da Academia Imperial de Medicina, que viria a ocorrer em 30 de junho de 1889, quando o programa para o saneamento da cidade, proposto antes pela Academia, foi retomado por seu presidente, Agostinho José de Souza Lima, é que foi definida aquela situação.

Em 1889, logo que o conselheiro Antônio Ferreira Vianna assumiu o cargo de Ministro de Estado dos Negócios do Império, procurou promover reformas no serviço sanitário e na saúde pública. O decreto de 9 de fevereiro daquele ano disponibilizava um crédito extraordinário para o saneamento de despesas urgentes, como auxílio às populações vitimadas pela seca, e para melhoria do estado sanitário da capital do Império e obras de saneamento. Pelo mesmo decreto autorizou a Inspetoria Geral de Higiene:

“1o Para criar hospitais que fossem necessários para isolamento e tratamento das pessoas acometidas de febre amarela no perímetro da cidade; 2o Para organizar o serviço de pronta remoção dos doentes para os mencionados hospitais, que ficariam sob sua imediata direção; 3º Para aumentar o número de desinfetadores na proporção das necessidades do serviço; 4o Para criar desinfectórios, utilizando-se das estufas de Geneste e Hercher adquiridas pelo Ministério do Império, enquanto não se pudesse obter maior número de tais aparelhos.” (BRASIL, Decreto nº 10.181)

Em 1889, ano em que também ocorreu uma grande epidemia de febre amarela, foram criadas as condições para que ao lado do antigo edifício do Hospital Marítimo de Santa Izabel fosse construído um novo.

Diante do novo avanço da epidemia de febre amarela, foi retomada, já nos últimos dias do Império, a idéia da construção de um hospital de isolamento, determinada pelo próprio Imperador D. Pedro II, e adquirido um terreno na rua Retiro Saudoso, no Caju, com este objetivo. Surgiria assim o Hospital de São Sebastião, inaugurado, como indicam as inscrições da placa de bronze existente na sede, uma semana antes da proclamação da República.

Um dos trabalhos pioneiros sobre os hospitais de isolamento no Rio de Janeiro, foi o de Carlos Seidl, um dos primeiros diretores do Hospital de São Sebastião, intitulado “Do Isolamento Nosocomial”, e que foi apresentado à Academia Imperial de Medicina em 1897. Neste trabalho destacou a importância do isolamento nosocomial:

“Ninguém, sem dúvida hoje, depois das descobertas científicas indubitáveis do microscópio, depois das conhecidas verificações clínicas, depois das estatísticas acuradamente organizadas pelos higienistas, poderá em boa fé contestar que o isolamento nosocomial de certas e conhecidas moléstias seja uma questão de suma importância, que figure salientemente entre as que constituem a profilaxia de defesa.” (SEIDL, 1897, p.5)

Desta forma, o estabelecimento de um hospital de isolamento era um objetivo
extremamente importante, o qual fora concretizado com o plano apresentado por Antonio da Rocha Faria, inspetor geral de higiene pública, e implementado na administração de Antonio Ferreira Vianna, Ministro do Império, a criação do Hospital de São Sebastião.

Recapitulando a história da saúde pública em outras regiões do país, Carlos
Seild ressaltou que na época da reorganização do serviço sanitário de São Paulo, realizada com a administração de Cesario Motta, Secretário do Interior, em 1893, foi instalado um estabelecimento de isolamento nosocomial :

“Além do hospital de variolosos que já existia (...); foi construído um moderno hospital de isolamento em terreno preparado, com pavilhões isolados e com todos os elementos indispensáveis a construções dessa natureza. Não faltará a esse hospital nem a luz elétrica, nem o crematório, duas modernices de grande alcance, desconhecidas nos hospitais da Capital do Brasil.” (SEIDL, 1897, p.17)

Entre os estudos contemporâneos sobre os hospitais de isolamento podemos citar o de Rodolpho Telarolli Junior (1996), que trata sobre os hospitais de isolamento em São Paulo. Telarolli Junior afirma que os hospitais de isolamento e o serviço de desinfecções, em São Paulo, configuravam a estrutura institucional para a implantação das medidas de polícia sanitária destinadas à profilaxia do contágio. O isolamento hospitalar, segundo o autor, era destinado principalmente ao controle de da febre amarela e da varíola, mas foi adotado também para o combate de outras doenças como a difteria, escarlatina e febre tifóide. A prática de isolar os doentes nas instituições hospitalares, criadas para tal, na realidade promovia somente a desinfecção dos objetos e dos domicílios dos doentes, mas não tratava especificamente dos doentes e de suas doenças, pois ainda inexistiam terapêuticas eficientes para cada uma dessas doenças. Desta forma, acrescenta Telarolli Junior, os hospitais no Brasil naquela época apresentavam semelhanças aos antigos lazaretos coloniais, nos quais também os pacientes eram isolados, e não a enfermidade.

Nas regiões onde não existiam hospitais de isolamento, os prédios das Santas Casas da Misericórdia eram utilizados como tal. No Estado de São Paulo a maioria dos hospitais de isolamento foram inaugurados, segundo Telarolli Junior, depois de 1896, em decorrência da epidemia de febre amarela que atacou o interior paulista, especialmente a região cafeeira. Outras cidades paulistas como Santos, Campinas e a própria capital do Estado tiveram suas instituições criadas em datas anteriores.

Como exemplo dessa organização hospitalar, no Estado de São Paulo, podemos mencionar o Hospital de Isolamento de São Paulo, que em 1932 passou a chamar-se Hospital Emílio Ribas, e atualmente denomina-se Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

O Hospital de Isolamento de São Paulo foi instalado nos terrenos da fazenda Araçá, situada na estrada do Araçá, atual avenida Arnaldo Vieira de Carvalho, na
cidade de São Paulo. Foi inaugurado, em 8 de janeiro 1880, pelo vice-presidente da província de São Paulo, Joaquim Egydio de Sousa Aranha, Marquês de Três Rios, tendo também comparecido à inauguração J.W.G. Cochrane, engenheiro responsável pelo projeto do edifício. O Hospital, que completava a estrutura da saúde publica daquele estado, destinava-se ao isolamento de pacientes, especialmente os imigrantes e os sem recursos, que tinham sido acometidos por doenças infectocontagiosas como tifo, varíola, febre amarela, peste bubônica e outras. Marta de Almeida destaca o perfil dos pacientes abrigados nesse estabelecimento:

O hospital de isolamento era concebido como espaço destinado, sobretudo àqueles que não tinham recursos ou condições salubres para tratar-se em casa. Nesse sentido, Ribas recomendava às pessoas abastadas que tivessem um cômodo preparado com todo rigor de higiene em suas casa, para tratamento dos membros da família atacados de moléstias transmissíveis. Ao mesmo tempo, para aqueles que residissem em habitações consideradas não higiênicas, em aglomerados humanos , não era permitido serem tratados em casa. As autoridades sanitárias deveriam remover os doentes para o hospital ou para outro lugar apropriado.” (ALMEIDA, 2003, p.111)

O Hospital de Isolamento de São Paulo, da mesma forma que o Hospital de São Sebastião, no Rio de Janeiro, estava inserido no contexto da teoria dos miasmas,
e assim instalou-se em local afastado do centro, para evitar a disseminação das doenças.

Foi construído seguindo as orientações de arquitetura e organização hospitalar do período, tendo como padrão o projeto de Jacques-René Tenon. Desta forma apresentava o estilo pavilhonar, com seus pavilhões projetados de forma a propiciar uma boa ventilação e iluminação no seu interior. Cada um de seus pavilhões destinava-se a uma das enfermidades, tendo um pavilhão para a febre amarela, outro para a varíola, e assim sucessivamente. Cada pavilhão possuía enfermarias divididas por gêneros, masculino e feminino.

É interessante notar que o corpo médico, de enfermeiras, além dos pacientes do hospital, para poderem percorrer aquele recinto, também passavam pelos procedimentos de desinfecção. Antunes (1992) destaca que esta rotina era orientada pela idéia do cordão hospitalar, que buscava isolar dentro do próprio
estabelecimento os enfermos e aqueles que os atenderiam.

Nos primeiros anos da República teve novos pavilhões, construídos em 1892 e 1894, pelo engenheiro Teodoro Sampaio, e inaugurados pelo Presidente do Estado, Bernardino de Campos, e pelo Secretário do Interior, Cesário Motta Junior. Em 1896 foi iniciada a construção da sede do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo no terreno do hospital. Destacaram-se em sua história seus primeiros diretores, Victor Godinho e Cândido Espinheira, além de dirigentes de outras instituições que colaboraram com o hospital como Adolfo Lutz, Vital Brasil, e Emilio Ribas entre outros. Este estabelecimento foi de grande importância para o estudo e empenho para erradicação do cólera na Capital e da peste bubônica em Santos.

Ao compararmos a história do Hospital de Isolamento de São Paulo percebemos claramente pontos de semelhança com o Hospital de São Sebastião já que ambos eram hospitais de isolamento, fundados em meio à crise epidêmicas, os terrenos onde foram feitas suas edificações eram chácaras e suas estruturas arquitetônicas pertenciam ao modelo pavilhonar.”

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Fonte:
PAULA MARIA DE OLIVEIRA: “HOSPITAL DE SÃO SEBASTIÃO – 1889/1905: um lugar para a ciência e um lazareto contra as epidemias”. (Dissertação de mestrado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História das Ciências da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz-FIOCRUZ, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre. Área de Concentração: História das Ciências. Orientador: Profa. Dra. Maria Rachel Fróes da Fonseca). Rio de Janeiro, 2005.

Nota
:
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As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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