A Primeira Guerra Mundial: 1914-1918


Em 1914 inicia-se a Primeira Guerra Mundial, que terminaria em 1918. O conflito, que envolveu praticamente o mundo inteiro, foi o grande marco do início do século XX, o qual, além de gerar grandes transformações territoriais, trouxe também a descrença nos sistemas políticos, sociais e filosóficos, além de aniquilar o clima otimista da burguesia advindo do século XIX, algo muito bem tipificado naquilo que ficou conhecido como a Belle Époque.

Mediante alguns textos de caráter didático e outros de natureza acadêmica, o “Arquivo Vivo” discorrerá exaustivamente acerca deste acontecimento que mudou a história mundial. Seguem também a reboque uma boa quantidade de imagens, todas diretamente ligadas à Grande Guerra, extraídas da revista “A Cigarra”, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Vamos lá...

Crônica publicada na revista "A Cigarra" (1917), em protesto contra o torpedeamento pela Alemanha do navio brasileiro "Paraná": "A alma brasileira, solidária e unida, vibra de indignação e patriotismo, diante da selvageria alemã, torpedeando um navio nosso e atirando contra a tripulação indefesa. Houve , no Brasil inteiro, um movimento de surpresa, logo substituído pela mais pronta e mais formidável repulsa de um povo ofendido nos seus brios..."

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TEXTO ACADÊMICO

A entrada do Brasil na guerra
"Enquanto a guerra castigava a economia dos países beligerantes, favorecia a economia norte-americana. O conflito afetou a produção industrial na Europa, reduziu as trocas comerciais e o fluxo de divisas, drenando altas somas e recursos para o esforço de guerra. Os Estados Unidos passaram, então, à condição de grandes fornecedores para a Europa e para os países com os quais esta outrora comercializava. Em pouco tempo converteram-se de devedores em credores mundiais.

O presidente norte-americano Woodrow Wilson, apesar de idealista em seus esforços para restabelecer a paz na Europa e para conservar a neutralidade dos Estados Unidos na guerra, era bastante pragmático no tocante aos interesses envolvidos no conflito. Intensificou as relações comerciais e diplomáticas com países beligerantes e neutros, somente rompendo relações com a Alemanha quando esta declarou guerra submarina irrestrita ao comércio aliado. Diante do prejuízo que esta medida traria ao comércio norte-americano, dos riscos de perda de seus investimentos na Europa e de inadimplência dos empréstimos concedidos aos Aliados, os Estados Unidos declararam beligerância ao Império Alemão.

O Brasil seguiu os passos adotados pelos Estados Unidos na Guerra Européia. valendo-se dos mesmos argumentos, ainda que dentro de razoável defasagem no tempo. Para sair da situação de neutralidade e alcançar a de beligerância, o Brasil passou antes pelo estágio de rompimento de relações diplomáticas com a Alemanha, pela quebra de neutralidade em favor dos Estados Unidos, seguida da quebra de neutralidade em favor dos Aliados. Em cada uma destas fases, destacam-se alguns fatores como determinantes para a mudança à etapa seguinte.

A versão oficial assevera que o Brasil ingressou na guerra devido ao afundamento de seus navios mercantes por submarinos alemães. Porém, tal motivo não teria sido forte o bastante para justificar decisão de tal magnitude. A tonelagem e o valor das mercadorias brasileiras afundadas por submarinos alemães eram de pequena monta, relativamente ao volume e valor totais comercializados anualmente pelo Brasil, que já havia tido grandes volumes de cargas e valores apreendidos em portos da Inglaterra e da França pelo War Trade Deparhnent, sem que tais ações tivessem sido motivo para declaração de beligerância O número de três navios mercantes afundados (Paraná, Tijuca e Lapa) também não teria sido motivo justo para o ingresso do Brasil numa guerra européia A Argentina, em decorrência do afundamento de idêntico número de seus mercantes, suspendeu as viagens à Europa. A Noruega, país eminentemente marítimo, decidiu, a despeito dos riscos, manter em operação suas linhas de navegação. Veio a perder mais da metade de sua frota mercante, afundada por submarinos alemães, mas conservou sua neutralidade, preferindo recorrer à diplomacia para reaver seus prejuízos ao final do conflito. A quantidade de navios brasileiros afundados era pouco expressiva, se comparada ao total da frota mercante nacional. Estas perdas poderiam ter sido negociadas sem o recurso à guerra, mormente quando nossa diplomacia já havia adquirido tradição e reconhecimento de eficiência na solução pacífica de crises, e a Alemanha oficialmente se prontificara a negociar as reparações dos danos decorrentes destes sinistros.

Ao governo brasileiro, portanto, pode-se imputar ao menos imprudência por estes acidentes marítimos ao permitir que navios mercantes nacionais navegassem por regiões sabidamente sob bloqueio naval, nas quais havia grandes riscos de torpedeamento por submarinos. Ainda que discordante da declaração de bloqueio alemão quanto à sua extensão, à sua duração, meios a empregar e à ausência de restrições, teria sido recomendável, além de apresentar veementes protestos diplomáticos, deixar ao pais importador o ônus do transporte da mercadoria adquirida ou adotar rotas de navegação alternativas comprovadamente seguras.

Nesse aspecto, o Ártico despontou como importante por suas rotas comerciais interligando o continente americano à Europa, através dos portos de Arkhangeslsk e Murmansk, na Rússia. A partir desta época, cresceu a importância estratégica da região tornando-se intensas ali as explorações científicas, com instalações de bases de pesquisas para estudos geográficos e meteorológicos, de topografia costeira e prospecção mineral, com construções de campos de pouso e ancoradouros. A rota marítima do norte se transformou numa via segura para a navegação mercantil.

Estando a guerra na Europa estagnada em terra, buscou-se sua definição pelo desequilíbrio de forças no mar. Depois da Batalha Naval da Jutlândia, a Marinha Alemã, que obteve uma vitória tática (pelas perdas materiais e humanas infligidas à Inglaterra), mas sofreu uma derrota estratégica (pela incapacidade de doravante enfrentar a Marinha Britânica num combate franco), recolheu-se a seus portos e limitou-se a operar no Mar Báltico. Recorreu à arma submarina, como inovação tática e surpresa estratégica.

As demais marinhas revelaram perplexidade e despreparo em se adaptar à nova modalidade de guerra no mar, onde as normas para emprego bélico de navio de superfície não eram aplicáveis aos submarinos. A iniciativa dos ingleses, seguidos pelos demais Aliados, consistiu em intensificar campanha publicitária contra a guerra submarina condenando-a perante a opinião pública, ao mesmo tempo em que determinava a seus mercantes atacarem incontinenti todo submarino alemão. Com isto, a Inglaterra desejava incutir na população leiga a ideia errônea de que os submarinos alemães deviam se comportar como navios de superfície durante um bloqueio naval, o que anulava seu valor como arma de ataque.

A Alemanha já havia decretado bloqueio submarino em duas oportunidades em resposta ao bloqueio aliado, decretado desde o início do conflito. O clamor da opinião pública e os protestos diplomáticos, no entanto, a levaram a flexibilizar as restrições tornando o bloqueio permeável e ineficaz. Tendo frustrada sua tentativa de encetar negociações de paz com seus beligerantes, em dezembro de 1916, a Alemanha viu-se forçada a lançar um bloqueio submarino irrestrito no começo do ano seguinte (31 de janeiro de 1917), O governo alemão, em telegrama ao Presidente do Brasil, Wenceslau Brás, lamentava os prejuízos e transtornos por ventura causados aos interesses brasileiros em decorrência do bloqueio submarino. Antecipava que, em ocorrendo algum sinistro a navios brasileiros por ações da marinha alemã, aquele governo se disporia a discutir diplomaticamente as medidas reparadoras, conforme já vinha procedendo com outros países. Alertava ainda para a necessidade de avaliar as causas dos futuros sinistros, não se atribuindo a culpa antecipadamente à Alemanha, porque também os Aliados haviam lançado minas em profusão no Mar do Norte. O embaixador alemão concluía a nota justificando ser o bloqueio a alternativa indispensável à sobrevivência de seu país, cuja população civil já amargava fome e miséria.

Recebida a nota do governo alemão, o chanceler Lauro Müller primeiro confabulou com o senhor Alexander Benson, Encarregado de Negócios dos Estados Unidos da América no Brasil. Este remeteu nota ao governo brasileiro em 05 de fevereiro de 1917, que respondeu à nota do governo americano em 08 de fevereiro de 1917:

‘(..) devo, por minha vez, confirmar pela presente a participação verbal que tive ocasião de fazer a VS, de que o Governo Brasileiro, em resposta à nota que recebeu do da Alemanha, anunciando o bloqueio do litoral dos paízes [sic] inimigos, declarou não reconhecer por várias razões semelhante bloqueio como effectivo [sic] e protestar contra cite [sic] e suas conseqüências.

A resposta do governo brasileiro à nota do governo alemão foi assinada no dia seguinte, a 09 de fevereiro de 1917.

Mesmo ciente dos riscos que corriam os navios que trafegassem pelas áreas sob bloqueio, o Governo do Brasil permitiu a partida do vapor Paraná, conduzindo café com destino ao porto de Havre, na França. Este navio sofreu explosão por volta das 23 horas e 30 minutos do dia 03 de fevereiro de 1917, a 10 milhas de Barfleur, litoral da França, soçobrando na madrugada do dia 04 de fevereiro de 1917, quando pereceram três marinheiros.

Com base em alguns indícios, sem evidências concretas, o comandante do navio assegurou ter sido um submarino alemão o causador do afundamento. O governo brasileiro preveniu que qualquer outro incidente envolvendo mercantes nacionais agravaria as relações entre os dois países. Insistiu junto ao governo alemão para que houvesse para o Brasil a concessão de “que nenhum navio brasileiro fosse atacado em qualquer mar, sob pretexto algum, mesmo o de conduzir contrabando de guerra”. Tal imunidade, além de impraticável, era inaceitável. Era impraticável porque a Inglaterra há muito se valia da perfídia de usar bandeira neutra em seus navios como artifício para burlar o bloqueio alemão; inaceitável porque esta exceção, se concedida ao Brasil, abriria precedente a que outros países também a reivindicassem, o que tomaria o bloqueio novamente ineficaz. Diante destas circunstâncias, as tentativas de furar o bloqueio submarino alemão fatalmente levariam a outros sinistros.

Assim como os Estados Unidos, o Brasil também procurou, a princípio, manter-se neutro com relação ao conflito na Europa. Porém, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com a Alemanha em face dos prejuízos que a guerra submarina irrestrita causaria aos seus negócios. O presidente Wenceslau Brás, em conferência com o ministro Lauro Müller, expressou que o Brasil, “em qualquer evento” relativo ao conflito europeu. apoiaria a ação dos Estados Unidos”. Lauro Müller retrucava:

“O argumento dos oradores nas praças públicas é sempre o mesmo: o Brasil tem de seguir o exemplo dos Estados Unidos. Isto significa tornarmos nossas as opiniões dos Estados Unidos. Mas um povo independente governa-se por si. (..)Muito e preciosamente vale a força extrínseca que vem do apoio amigo; ela, porém, não se fixa duradouramente sobre (..)as nações que se subalternizam na dobrez pasmada de um culto subserviente por alheias grandezas.

Na opinião de Domício da Gama, encarregado da embaixada brasileira em Washington. o Brasil passaria à História como um país que abandonou sua neutralidade para seguir os ditames dos interesses norte-americanos, o que seria diplomaticamente injustificável, politicamente inconveniente e ainda uma leviandade, em vista da precipitação com que se procedia sob influências sentimentais.

Os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha no dia 06 de abril de 1917, ao perceberem que a saída da Rússia da guerra estava liberando tropas alemãs do front oriental para reforço do front ocidental, o que desequilibrava o quadro de forças na Europa alterando o rumo dos acontecimentos com a vantagem na guerra pendendo notoriamente para a Alemanha, cuja vitória significava incerteza quanto ao pagamento das dívidas contraídas pelos Aliados junto aos norte-americanos.

Em vista do afundamento do vapor Tijuca, a 04 de abril de 1917, o Brasil rompeu relações comerciais e diplomáticas com a Alemanha, em 11 de abril de 1917. A imprensa norte-americana divulgou que o Brasil seguiria “os passos” dos Estados Unidos numa declaração de guerra à Alemanha, o que de fato ocorreu, porém com certo lapso de tempo. Lauro Müller remeteu nota ao Sr. A. Pauli, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário (E.E.M.P.) de sua Majestade o Imperador da Alemanha e Rei da Prússia, participando o grande pesar com que o presidente da República do Brasil reconhecia sentir- se compelido a suspender as relações comerciais e diplomáticas com a Alemanha. O governo brasileiro se dizia aberto às negociações com vistas ao bom entendimento e à paz com o Império Alemão, todavia reconheceu a perda de objeto na presença de autoridades diplomáticas de um Estado noutro e promoveu o regresso destes a seus países de origem. Paradoxalmente, o Brasil se pronunciava acessível ao entendimento e às negociações ao mesmo tempo em que excluía o canal diplomático, o mais tradicional e eficiente meio de comunicação entre os governos.

Alvo de críticas por parte da imprensa, pressionado pela opinião pública e posto sob suspeição por sua ascendência germânica, Lauro Müller renunciou ao cargo de ministro das Relações exteriores a 03 de maio de 1917. Dois dias após sua renúncia foi empossado no cargo o Doutor Nilo Peçanha, representante da política fluminense na Convenção de Taubaté (1906). Nilo Peçanha era adepto da causa aliada e admirador de Rui Barbosa, com quem confabulou antes de assumir a nova função. O novo ministro fez de Rui seu conselheiro supremo, a quem homenageou com a inauguração de um busto na galeria do Palácio do Itamaraty. Com Nilo Peçanha o Brasil adotou radical mudança de postura face à guerra européia.

Nilo Peçanha logo evidenciou sua intenção de dar novos rumos à política externa brasileira. Menos de uma semana após sua posse, a 10 de maio de 1917, enviou telegrama a Washington declarando a intenção de aproximação estreita entre o Brasil e os Estados Unidos, inclusive com a quebra de neutralidade, desde que o Brasil recebesse certas garantias e compensações em troca de seu apoio à causa aliada. Ao mesmo tempo Nilo Peçanha negociou com a Inglaterra a exclusão do café da “lista negra”, o que traria divisas para o país e lucros para a oligarquia cafeicultora.

Aproximando-se da potência que melhor atendesse seus interesses, o governo brasileiro revogou sua neutralidade no conflito europeu em favor dos Estados Unidos da América a 10 de junho de 1917, com justificativa na “solidariedade continental”, na soberania que a Doutrina Monroe conferia às nações do continente americano, fundamentada na “tradicional amizade” reinante entre os dois países. Com a revogação da neutralidade, o governo brasileiro abriu seus portos aos navios de guerra das nações aliadas, recebendo com festas uma esquadra americana na cidade do Rio de Janeiro, onde se promoveu um desfile militar a 04 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, quando foi decretado feriado nacional: para a opinião pública, uma demonstração de amizade; no campo diplomático, cordial acolhida; e na esfera política, subserviência.

O Brasil tornou a intensificar seu tráfego marítimo para a Europa em outubro de 1917, ocasião em que teve o vapor Macau torpedeado, a 18 daquele mês. O governo brasileiro tinha agora motivo para justificar, perante a opinião pública nacional e a História, seu ingresso na guerra. Uma semana depois, a 25 de outubro, o Presidente da República solicitou e, na noite seguinte, em sessão secreta, o Congresso Nacional decretou sanção presidencial com “reconhecimento do estado de guerra iniciado pelo Império Alemão contra o Brasil”. A imprensa; contudo, já pela manhã divulgava o resultado dos trabalhos dos congressistas onde se registrou um único voto discordante, o do senador Joaquim Pires, do Estado do Piauí. que advogava a inconstitucionalidade daquela decisão, afirmando haver outros parlamentares de pensamento idêntico ao seu, mas que se eximiam de pronunciar-se para preservar suas imagens perante a opinião pública; naquela ocasião vivamente influenciada pela imprensa’°’ Note-se a inexistência de declaração formal de guerra entre Brasil e Alemanha O documento foi redigido segundo artifício retórico de Rui de Barbosa, pelo qual se reconhecia que as ações da Marinha Alemã eram atos típicos de guerra aos quais o Brasil se dava o direito de responder à altura.

O Governo Brasileiro firmou acordo com os governos dos países Aliados adotando. em decorrência, a resolução de colaborar efetivamente no esforço de guerra. A 03 de novembro de 1917 o Presidente Wenceslau Braz expediu mensagem ao Presidente dos Estados Unidos na qual declarava ter o Brasil a honra de cooperar, em completa solidariedade e perfeito acordo com a República irmã, ao lado de outros aliados, na guerra contra a Alemanha, para garantir os altos interesses da humanidade.

O Brasil não era parte ativa nas disputas imperialistas entre as potências européias. Também não tinha interesses estratégicos ou geopolíticos no continente europeu. As sucessivas crises por que passava o país levava o povo a se preocupar prioritariamente com sua política interna. Porém, a influência cultural francesa na formação da intelectualidade brasileira despertou simpatias pela causa aliada e a imprensa nacional movimentou a opinião pública As pressões diplomáticas e econômicas da França e da Inglaterra conduziram a classe dirigente brasileira à adoção de posicionamento parcial no conflito. As vantagens e garantias políticas, econômicas, diplomáticas e militares com que o governo norte-americano acenou às lideranças brasileiras, a opinião pública favorável à causa aliada e a ideologia da solidariedade pan-americana foram decisivas para que o governo brasileiro se declarasse aliado dos Estados Unidos, em associação aos países da Tríplice Entente, na guerra contra a Alemanha. As “forças profundas” pressionaram as classes dirigentes a uma suposta “decisão boa”, geradora de resultados produtivos e duradouros para o país. contra a Alemanha, para garantir os altos interesses da humanidade.

O Brasil não era parte ativa nas disputas imperialistas entre as potências européias. Também não tinha interesses estratégicos ou geopolíticos no continente europeu. As sucessivas crises por que passava o país levava o povo a se preocupar prioritariamente com sua política interna. Porém, a influência cultural francesa na formação da intelectualidade brasileira despertou simpatias pela causa aliada e a imprensa nacional movimentou a opinião pública As pressões diplomáticas e econômicas da França e da Inglaterra conduziram a classe dirigente brasileira à adoção de posicionamento parcial no conflito. As vantagens e garantias políticas, econômicas, diplomáticas e militares com que o governo norte-americano acenou às lideranças brasileiras, a opinião pública favorável à causa aliada e a ideologia da solidariedade pan-americana foram decisivas para que o governo brasileiro se declarasse aliado dos Estados Unidos, em associação aos países da Tríplice Entente, na guerra contra a Alemanha. As “forças profundas” pressionaram as classes dirigentes a uma suposta “decisão boa”, geradora de resultados produtivos e duradouros para o país.”

Fonte:
Valterian Braga Mendonça: “A experiência estratégica brasileira na Primeira Guerra Mundial, 1914-1918. (Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Ciência Política, da Universidade Federal Fluminense (UFF), como requisito parcial à obtenção do título de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Eurico de Lima Figueiredo). Niterói, 2008.
Nota:
As imagens inseridas no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

Grande protesto no centro de São Paulo, contra o torpedeamento do navio "Paraná", por parte dos alemães, em 1917

Outra vista do protesto realizado na capital paulista contra a Alemanha, que torpedeou o navio "Paraná", em 1917

Outra fotografia da multidão em protesto no centro de São Paulo contra o torpedeamento do "Paraná" pela Alemanha, em 1917

Estudantes reunidos no Largo São Francisco, no centro de São Paulo, em protesto contra a Alemanha, que torpedeou o navio brasileiro "Paraná", em 1917

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TEXTO DIDÁTICO

O Brasil e a Primeira Guerra Mundial
"Ao assumir a Presidência em 1914, Venceslau Brás deparou com uma situação econômica instável, pois no governo de Hermes da Fonseca havia caído o saldo das exportações cafeeiras e aumentado as emissões de papel-moeda. Os problemas financeiros haviam obrigado o presidente Hermes a fazer um novo Funding Loan, com empréstimos de 15 milhões de libras, para saldar compromissos externos antes assumidos.
Contudo a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que coincidiu com o período de seu mandato, possibilitou aos industriais brasileiros a criação de novas indústrias e a ampliação da produção para suprir os mercados nacionais, devido à queda das importações de produtos industrializados externos.
O século XX nasceu sob a ameaça da eclosão de um conflito de proporções mundiais, e esta expectativa sombria era motivada principalmente pelas disputas entre as grandes potências capitalistas pela posse dos mercados mundiais.
O pretexto para iniciar a guerra foi o assassinato, em junho de 1914, de Francisco Fernando, irmão do imperador do Império Austro-Húngaro, em Serajevo, capital da Bósnia.
Em outubro de 1917, pouco depois da entrada dos Estados Unidos no conflito, o Brasil declarou guerra à Alemanha e seus aliados, motivado pelo afundamento, por submarinos alemães, dos navios mercantes brasileiros Tijuca, Paraná, Lapa e Macau.
A Marinha brasileira colaborou ativamente para o policiamento do Atlântico, o país forneceu alimentos e matérias-primas aos aliados e enviou um grupo de médicos e aviadores para a Europa."

Fonte:
Francisco de Assis Silva: “História do Brasil: Colônia, Império e República”. Editora Moderna. São Paulo, 1994, p. 219-220.

Vista da Estação da Luz, em São Paulo, na manhã da partida dos reservistas italianos que seguiram para sua pátria, a bordo do "Princesa Mafalda" (fotografia tirada pelo repórter da revista "A Cigarra", o senhor Pedro Ravizza, em 1915)

A embarcação que transportou os reservistas italianos de São Paulo para bordo do navio "Regina Helena", de onde seguiriam para a Europa, para lutar por sua pátria, em 1915

Reservistas italianos posando para a revista "A Cigarra", no cais das Docas de Santos, um pouco antes de embarcarem no "Princesa Mafalda"

Os reservistas italianos no cais das Docas de Santos, momentos antes de seguiram para sua pátria, na Europa, em 1915

Os reservistas italianos de São Paulo, acompanhados de uma grande multidão, diante do consulado francês em Santos, em 1915

O "Regina Helena" no porto de Santos, momentos antes de partir, levando a bordo os reservistas italianos, em 1915

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TEXTO ACADÊMICO

A Grande Guerra vista pelos historiadores.
"Hobsbawm, na sua obra intitulada, A Era dos Impérios (1988), analisa o desencadeamento da Grande Guerra a partir principalmente do seu contexto político. Neste sentido, as políticas externas e as alianças diplomáticas das principais potências exerceram grande influência na deflagração do conflito, isto porque

gradualmente a Europa foi se dividindo em dois blocos opostos de grandes nações. Tais blocos, fora de uma guerra, eram novos em si mesmos e derivavam, essencialmente, do surgimento no cenário europeu de um Império Alemão unificado, constituído entre 1864 e 1871 por meio da diplomacia e da guerra, às custas dos outros, e procurava se proteger contra seu principal perdedor, a França através de alianças em tempos de paz, que geraram contra-alianças. As alianças, em si, embora implicassem a possibilidade da guerra, não a tornavam nem certa nem mesmo provável (HOSBAWM, 1988: 431).

Neste cenário de ‘defesa contra o perdedor’, o Império Alemão e a França encontravam-se em lados opostos. A Alemanha firmou o primeiro bloco de aliança diplomática, em 1882, denominado de Tríplice Aliança, com o Império Austro-Húngaro e a Itália. Os vínculos entre os Impérios Alemão e Austro-Húngaro eram bastante estreitos entre os dois países e, de acordo com o autor, havia um grande interesse alemão pela conservação do império multinacional que era o austro-húngaro para a estabilidade ou relativa estabilidade da Europa centro-oriental (Cf. Hobsbawm, 1988:432).

A contra-aliança francesa foi engendrada em dois momentos distintos: com a Rússia, em 1892 e, com o Império Britânico em 1907. Assim, a partir deste ano, a contra-aliança ou a Tríplice Entente, passou a ser formada pela França, Rússia e Grã-Bretanha. A aliança franco-russa foi forjada mediante a impossibilidade de um acordo estável entre a Alemanha e a Rússia. Isto porque, Rússia e Áustria-Hungria disputavam territórios e áreas de influência na região dos Balcãs. Na medida em que ocorre a consolidação da Tríplice Aliança e a escolha alemã pelos Habsburgos em detrimento dos Hohenzollerns se efetiva, “era lógico que a Rússia e a França se unissem – como de fato o fizeram em 1891.” (HOBSBAWM, 1988:432). Já o acordo firmado entre França e Inglaterra, a Entente Cordiale (1904), “entendimento cordial” foi assinado com vistas ao apoio mútuo no que concerne aos interesses ingleses e franceses: estes apoiavam o domínio inglês no Egito e aqueles, a reivindicação francesa sobre o Marrocos (Cf. Hobsbawm, 1988:439).

Na constituição dessas alianças diplomáticas, Hobsbawm (1988:435) destaca com especial ênfase as modificações ocorridas no “jogo de poder internacional” e o ingresso da Grã-Bretanha na Tríplice Entente. Para o autor, ao longo da segunda metade do século XIX e início do século XX, as relações diplomáticas entre os diversos países sofreram um processo de ampliação e de incorporação. As rivalidades entre as potências se acirraram na medida em que seus interesses tornaram-se globais: os novos membros deste “jogo”, como, por exemplo, Estados Unidos, Japão e o Império Alemão, uma vez que desejavam se afirmar como “jogadores” poderosos, pressionavam a geopolítica vigente a uma reorganização, por meio de acordos ou de guerras. Nesta perspectiva, talvez a Grã-Bretanha fosse a nação a se sentir mais pressionada, já que “a globalização do jogo de poder internacional transformou automaticamente a situação do país, que fora até então a única das grandes potências com objetivos políticos realmente mundiais.” (HOBSBAWM, 1988:435). Vale salientar, também, que estes objetivos estavam assentados no imenso poderio marítimo exercido pela marinha britânica, a maior e melhor equipada marinha do mundo.

Neste contexto, o desenvolvimento do capitalismo e o “surgimento de uma economia capitalista mundial” (HOBSBAWM, 1988:435) exacerbaram ainda mais a concorrência econômica e contribuíram para a fusão entre política estatal e economia:

do ponto de vista do capital, o apoio político passaria a ser essencial para manter a concorrência estrangeira a distância, e talvez também essencial em regiões do mundo onde as empresas de economias industriais nacionais competiam umas com as outras. Do ponto de vista dos Estados a economia passou a ser desde então tanto a base mesma do poder internacional como seu critério. Agora era impossível conceber uma ‘grande nação’ que não fosse ao mesmo tempo uma ‘grande economia’ (...) (HOBSBAWM, 1988:438).

A aceitação tácita do entrelaçamento destas duas esferas e a enorme possibilidade de crescimento e dinamismo econômico concorreram para a modificação das relações diplomáticas internacionais entre os países. O ingresso do Império Britânico na Tríplice Entente se concretiza como um meio necessário a essas novas relações político-econômicas nas quais a Alemanha vai se figurando como a sua principal rival. Deu-se, com isso, a necessidade de construção de uma esquadra de guerra alemã que refletisse não só o desenvolvimento econômico pelo qual passava o país após a unificação, mas também o seu poderio político. Isso colaborou para a dedução inglesa de que “seu objetivo não podia ser outro senão o conflito com a marinha britânica” (HOBSBAWM, 1988:441). A localização da marinha alemã, concentrada no litoral do mar do norte, de frente para a ilha inglesa, contribuía para estes pensamentos. Ainda segundo o autor, mesmo que um confronto com a Inglaterra não fosse o intuito alemão, ainda assim o projeto marítimo alemão se caracterizou como o cerne da rivalidade anglo-alemã, engendrando, neste momento, a principal preocupação britânica, porque

mesmo se a esquadra de guerra alemã não fizesse absolutamente nada, inevitavelmente imobilizaria navios britânicos, dificultando, ou até impossibilitando, o controle naval britânico sobre águas consideradas vitais – como o Mediterrâneo, o Oceano Índico e a orla do Atlântico. O que para a Alemanha era símbolo de status internacional e de ambições mundiais indefinidas, para o Império Britânico era uma questão de vida ou morte (HOBSBAWM, 1988:441).

Assim, em meio a esta conjuntura político-econômica, os blocos de alianças diplomáticas foram sendo forjados, tornando-se permanentes (Cf. Hobsbawm, 1988:431) ainda que não fossem beligerantes por excelência. Assim, na eventualidade de uma guerra, o apoio mútuo dos países alinhados era essencial, tanto que os planos de guerra das potências européias reforçam esses vínculos, seja através de auxílio financeiro, industrial, bélico, entre outros.

A política internacional foi se deteriorando cada vez mais, já que através do sistema de alianças diplomáticas e dos interesses econômicos aos quais estavam atrelados, uma questão envolvendo dois países pertencentes a lados distintos no “jogo” diplomático implicava no apoio e na oposição de seus respectivos aliados. Considerando-se que uma guerra era uma contingência normal (Cf. Hobsbawm, 1988), os desentendimentos diplomáticos, que foram se avolumando ao longo dos primeiros anos do século XX, tais como as disputas alemães e francesas pelo Marrocos, a anexação formal da Bósnia-Herzegovina ao território Austro-Húngaro, indispondo-a com a Rússia, entre outros, foram demonstrando que o panorama se tornava mais perigoso, ou seja, existia a possibilidade de uma guerra, mas ela não era em hipótese alguma necessária (Cf. Hobsbawm, 1988:433), ou seja, esses conflitos não possuíam como única opção de resolução um conflito armado.

Kennedy (1988), em sua análise sobre o conflito, corrobora os argumentos apresentados por Hobsbawm (1988) sobre as modificações no “jogo” diplomático internacional, principalmente, entre as grandes potências européias, bem como a importância e o enrijecimento do sistema de alianças diplomáticas. A Grande Guerra foi caracterizada pelo autor como uma guerra de coalizão na qual a possibilidade de um rápido desfecho – este era, pelo menos, o intento de todos os Estados-Maiores dos países beligerantes – era improvável, já que “essas coalizões significavam que mesmo que um beligerante fosse severamente castigado numa campanha, ou percebesse a inadequação de seus recursos para manter a luta, era estimulado a continuar na guerra pela esperança - e promessa - de ajuda de seus aliados” (KENNEDY, 1988:249). Assim, o conflito atrelado a esse “sistema de alianças praticamente assegurava que a guerra não teria uma decisão rápida, e significava por sua vez que a vitória nesse prolongado duelo caberia (...) ao lado cuja combinação de recursos militares/navais e também financeiros/industriais/tecnológicos fosse maior” (KENNEDY, 1988:249. Grifos no original).

Analisando os recursos militares e industriais das duas coalizões que se enfrentaram durante a Grande Guerra, Kennedy evidencia a superioridade dos Aliados, principalmente de países como a Inglaterra, a França, a Rússia e, posteriormente, os Estados Unidos da América, mas também não deixa de destacar a enorme capacidade produtiva e estratégica das Potências Centrais, principalmente da Alemanha. A superioridade dos Aliados em relação às Potências Centrais estava baseada nos índices dos recursos militares e dos recursos industriais e tecnológicos. No que se refere aos primeiros, as categorias utilizadas para a análise foram as despesas de guerra (pelos preços de 1913) e o total das forças mobilizadas, no período compreendido entre os anos de 1914 e 1919: 57,7 milhões de dólares e 40 milhões do soldados, e 24,7 milhões de dólares e 25,10 milhões respectivamente. Quanto aos recursos industriais e tecnológicos, os critérios são: porcentagem da produção mundial de manufaturados, consumo de energia elétrica, produção de aço e potencial industrial total. No tocante aos três primeiros critérios o ano base considerado na comparação é o ano de 1913, enquanto ao último, a relação é fundamentada na capacidade industrial do Reino Unido no ano de 1900 e que equivale a 100. As Potências Aliadas possuíam os seguintes índices: 27,9%, 311,8%, 17,1% e 216,1%, enquanto as Potências Centrais, 19,2%, 236,4%, 20,2% e 178,4%, respectivamente. (Cf. Kennedy, 1988:251-265).

Quanto às Potências Aliadas, o autor ressalta a inicial fragilidade nos índices industriais franceses e russos, que posteriormente foram amenizados com apoio de países aliados e o empenho na produção de artigos necessários à manutenção do esforço de guerra, e o importante papel representado pelo Império Britânico ao longo conflito. Apesar de possuir uma força militar exígua, - crescendo com o prosseguimento da guerra -, a Grã-Bretanha continuava a dispor da maior frota marítima do mundo, capaz de bloquear ou neutralizar a frota alemã, dificultando o abastecimento de produtos que advinham destas rotas de transporte para as Potências Centrais, ao mesmo tempo em que garantia o controle e o acesso das mesmas a seus aliados, ainda que os mesmos sofressem interrupções ocasionais, como no caso das campanhas submarinas inimigas. Um outro aspecto que atesta a importância inglesa para os Aliados provinha da influência e das relações comerciais que mantinha com diversos países, bem como os seus recursos industriais e financeiros que foram usados no levantamento de empréstimos e na fabricação de produtos (Cf. Kennedy, 1988:250).

No tocante às Potências Centrais, ainda que formando uma coligação de países numericamente inferior em comparação à sua oponente, seu desempenho, principalmente o alemão, foi considerado surpreendente. O Império Alemão conseguiu associar e coordenar produção industrial, estratégia militar e utilização dos recursos de regiões ocupadas de tal forma que durante parte do conflito a vitória esteve muito próxima (Cf. Kennedy, 1988:260). A indústria foi reestruturada para contribuir com o esforço de guerra concomitantemente à política administrativa estatal que planejava e distribuía os produtos e suprimentos, inclusive para os seus aliados. A Alemanha dispunha ainda de vantagens militares como a movimentação livre entre as suas frentes internas e as de seu principal aliado, a Áustria-Hungria, posições mais facilmente defensáveis em solo inimigo8, numerosos oficiais comandantes, que eram mais imaginativos e flexíveis às novas possibilidades de luta do que os de qualquer outro exército e a exploração de recursos como, por exemplo, os minérios luxemburgueses e trigo e petróleo romenos, que contribuíram para suportar o longo conflito (Cf. Kennedy, 1988:251).

De acordo com Kennedy, a superioridade industrial, militar e financeira significativa dos Aliados, em comparação com as Potências Centrais, foi impondo sua força no decorrer do conflito e, ainda assim, a entrada dos Estados Unidos foi essencial para a vitória Aliada em 1918. Os anos de 1914 a 1917, repletos de combates, destruições e milhões de baixas, deixaram os dois blocos beligerantes bastante debilitados, e a saída da Rússia do conflito apresentava-se como uma grande possibilidade e incentivo para os Impérios Centrais. Assim, a inclusão dos Estados Unidos ao lado dos Aliados significou não só o aumento do número de combatentes, mas, principalmente, apoio financeiro e produtivo considerável. Os norte-americanos contribuíram com uma grande produção de manufaturados, material bélico e alimentos, além de servir como credor para os aliados: “seu potencial industrial e sua parcela de produção mundial de manufaturados era duas vezes e meia a da economia alemã, agora submetida a um esforço excessivo (...)” (KENNEDY, 1988:262) e seu “exército podia ser ampliado e transformado numa vasta força de milhões de soldados descansados, confiantes, bem alimentados, a serem jogados na balança de forças européia” (KENNEDY, 1988:263).

As transformações na economia e na política internacionais, analisadas por Hobsbawm (1988) e Kennedy (1988), estão contidas no universo burguês que predominava nas principais sociedades européias desde o século XIX. De acordo com Eksteins9 (1991:238), a burguesia estava fundamentada, conjuntamente, no interesse por questões de ordem prática, como emprego e estudo, por exemplo, mas também num código de valores que evidenciava a coesão social:

o bem-estar material, a educação, a carreira e as afiliações sociais fossem determinantes ponderáveis de status e respeito, a adesão voluntária a um código de valores e a anuência a certas formas de comportamento eram a chave para o ingresso na sociedade burguesa. Os valores eram a cola que mantinha a classe e a sociedade unidas (EKSTEINS, 1991:238).

Ademais, a utilização desse código caracterizava-se como uma “adesão voluntária” e os seus desdobramentos institucionais apresentavam-se igualmente consolidados, tanto que

à medida que as instituições e os instrumentos do Estado se desenvolviam no século XIX e caíam gradativamente sob controle público, a classe média passou a fornecer os funcionários e os diretores de escolas, hospitais, tesourarias, empresas de serviços públicos, repartições coloniais, sem falar na participação cada vez maior no próprio governo. No setor privado, bancos, companhias de seguro e corporações industriais também tiravam proveito da iniciativa e da ambição da classe média. Até os exércitos vieram a ser, no fim do século, instituições predominantemente de classe média, da oficialidade à tropa (EKSTEINS, 1991:229).

Assim, valores como o culto ao trabalho, à perseverança e veneração por serviços socialmente motivados, entre outros, faziam parte desse universo mental e institucional burguês propagado e consolidado na Europa (Cf. Eksteins, 1991:239).

Neste contexto burguês, a Grã-Bretanha encerrava o status quo da sociedade burguesa tradicional; ela constituía “a principal potência conservadora do mundo fin-desiècle [século XIX]. Primeira nação industrial, agente da Pax Britannica, símbolo de uma ética da iniciativa e do progresso baseada no parlamento e na lei (...)” (EKSTEINS, 1991:13). Ainda segundo o referido autor, a missão britânica, tanto interna quanto externamente, consistia principalmente em aumentar o senso da virtude cívica, ensinar ao estrangeiro e também ao britânico ignorante as regras da conduta social civilizada, as regras para “jogar o jogo”, isto porque

civilização e lei (...) eram praticamente sinônimos. A civilização só se tornava possível quando se praticava o jogo segundo as regras estabelecidas pelo tempo, pela história, pelos precedentes, o que em conjunto equivalia à lei. A civilização era uma questão de valores objetivos, de forma externa, de comportamento e não de sentimento, de dever, e não de capricho (EKSTEINS, 1991:157).

Assim, como principal baluarte dessa conduta social, era compreensível a idéia de uma missão com o intuito de preservar e propagar este modelo, ou seja, a continuação da ordem vigente, incluindo-se também a manutenção de seus poderios econômico e militar (marinha). Contudo, neste universo burguês constituído, existiam opiniões divergentes, cujo principal representante era, de acordo com o citado autor, a Alemanha.

A partir da unificação e do “aparecimento de certo espírito empreendedor” (EKSTEINS, 1991:93) da sua classe média, a Alemanha passou por um grande processo de industrialização e urbanização de tal magnitude que

em um período pouco maior do que o de uma geração, menor que o de uma vida prolongada, a Alemanha tinha deixado de ser um agrupamento geográfico, com elos econômicos limitados entre suas partes, para se tornar a mais formidável potência industrial da Europa, sem falar de seu poderio militar (EKSTEINS, 1991:107).

Este potencial foi revertido em produção como, por exemplo, no caso do aço, em que sua produção superou as produções totais da Grã-Bretanha, França e Rússia em 1914. As indústrias alemãs de produtos químicos e elétricos passaram a se desenvolver como em nenhum outro país. A urbanização também alcançou níveis impressionantes: se em 1870, dois terços da população alemã viviam em zonas rurais, em 1914, essa relação se invertera (Cf. Eksteins, 1991:106). Estas rápidas mudanças na estrutura social contribuíram para

O culto do tecnicismo e suas conotações vitalistas tiveram reverberações em grande parte da sociedade alemã nos últimos anos do século XIX. Em quase todos os setores era evidente um interesse pela novidade e pela mudança inevitável, até na antiga aristocracia fundiária, onde no passado a mudança fora usualmente considerada com ceticismo e contrariedade (EKSTEINS,1991:101).

A inspiradora onda de mudanças e novidades não se limitava aos bens materiais, ela devia transcendê-los, compor o coração e a alma da nação, espiritualizar-se, inovar os padrões estabelecidos e alcançar a verdadeira liberdade (Eksteins, 1991:114). Os alemães viam-se em luta contra a ordem vigente representada pela Inglaterra e pela França

que desde o século XVI havia estabelecido gradativamente uma hegemonia política e cultural no mundo, fundamentava-se em racionalismo, empirismo e utilidade; em outras palavras, em exterioridades. Era este um mundo da forma, destituído de valores espirituais: era uma cultura não da honestidade e verdadeira liberdade, mas de maneiras, superficialidade e dissimulação. As noções de liberalismo e igualdade não passavam no etos anglo-francês de slogans hipócritas – Lug und Trug, mentira e trapaça. Mascaravam a ditadura da forma, óbvia na preocupação francesa com o bom goût e no envolvimento britânico com o comércio. Num tal contexto, não era possível a verdadeira liberdade (EKSTEINS, 1991:107).

A partir disso, a forma não deveria existir sem o espírito e os crescimentos político-econômico e militar alemães deviam refletir esta união. Quando, em 1914, o acirramento das disputas políticas e econômicas chegou ao auge e somou-se ao assassinato do herdeiro do trono Austro-Húngaro, a Alemanha e a Grã-Bretanha representavam as principais forças burguesas em luta, e

se as guerras anteriores tinham sido guerras de dinastias, de interesses feudais e aristocráticos, de rivalidades principescas, a Primeira Guerra Mundial foi a primeira grande guerra da burguesia. Não é, portanto, surpreendente que os valores desta classe média tenham se tornado os valores dominantes da guerra, (...) a organização e até a estratégia e as táticas da guerra. Sua própria extensão – foi naturalmente chamada de a Grande Guerra – refletia a preocupação da classe média do século XIX com crescimento, ganho, realização e tamanho. Máquinas, impérios, exércitos, burocracias, pontes, navios, tudo aumentou de tamanho no século XIX, este século maximalista (...) (EKSTEINS, 1991:229).

A Grande Guerra foi engendrada em meio à diversidade burguesa e seus interesses maximalistas: para os alemães representava a possibilidade de mudar o mundo, afirmando seu poderio político, econômico e militar e seu ímpeto rumo ao futuro, enquanto para os britânicos representava a conservação da ordem vigente e, conseqüentemente, de sua missão civilizadora, ou seja, lutaram pelo passado e o seu legado (Cf. Eksteins, 1991:160).

É interessante salientar que a análise realizada por Eksteins (1991), corrobora as interpretações de Hobsbawm (1988) e Kennedy (1988), na medida em que para estes três autores as principais potências européias, desde o século XIX, já se apresentavam como sociedades plenamente burguesas, assim, caracterizando a Grande Guerra como um conflito de natureza sócio-cultural burguesa. Uma vertente historiográfica contrária a este análise é a apresentada pelo historiador Arno Mayer (1987), na obra intitulada, A Força da Tradição: a persistência do Antigo Regime11. Na sua perspectiva, a vertente burguesa acerca da natureza sócio-cultural do conflito privilegia demasiadamente as forças inovadoras do capitalismo em detrimento das forças de inércia e resistência que retardaram o declínio da antiga ordem (Cf. Mayer, 1987:14).

De acordo com o referido autor, mesmo durante os primeiros anos do século XX, os diversos setores sociais das principais potências européias estavam alicerçados em estruturas pré-industriais e pré-burguesas, sobre os quais o universo aristocrático exercia grande predomínio:

a sociedade civil da antiga ordem consistia, sobretudo em uma economia camponesa e uma sociedade rural dominadas por nobrezas hereditárias e privilegiadas. À exceção de uns poucos banqueiros, negociantes e armadores, as grandes fortunas e rendas se baseavam na terra. Por toda a Europa, as nobrezas fundiárias ocupavam o primeiro plano não só em termos econômicos, sociais e culturais, mas também políticos (MAYER, 1987:16).

A influência aristocrática marcante existia devido à coerência e coesão internas do seu modelo e da sua exímia habilidade em exercê-la das mais diversas formas e situações. O ápice dessa antiga ordem, formada pela nobreza nobiliárquica, possuía também considerável poder de adaptação e cooptação, o que contribuiu para sua própria longevidade através da conservação do seu poder e status (Cf. Mayer, 1987:23). Considerando-se este argumento do autor, as monarquias alemã, russa, austro-húngara, italiana e inglesa e a república francesa não constituíam sociedades civis e políticas industrial-capitalistas e burguesas quando do início da Grande Guerra, como nem a sua ocorrência teve como cerne seus interesses.

A esfera econômica destes países, conforme a proposição do autor, tinha como alicerce a propriedade fundiária, uma vez que ela constituía a principal forma de riqueza pessoal e a maior fonte de renda. Os seus setores agrícolas, com exceção da Inglaterra, geravam as maiores proporções de renda nacional e empregavam a maior parcela de mão-de-obra: na Rússia esses índices chegavam 35% e 66%, enquanto na Inglaterra, - apesar da manufatura sobrepujar os setores agrários nestes índices -, correspondia a 15% e 12%, respectivamente (Cf. Mayer, 1987:33). As propriedades eram, em sua maioria, grandes extensões de terra pertencentes à elite nobiliárquica, e cultivada por uma massa de camponeses que geralmente “permanecia silenciosa”.

Na verdade, os grandes proprietários rurais, inclusive os comerciantes de produtos agrícolas, eram os principais suportes econômicos e sociais dos anciens régimes. A grande propriedade fundiária constituía a principal fonte não só das extravagantes rendas e riquezas das elites agrárias, como também de desmedido prestígio social, predomínio cultural e influência política. Em todos os aspectos, incluindo número e riqueza, os senhores rurais continuavam a superar os magnatas dos negócios e das profissões liberais (MAYER, 1987:33).

No setor industrial, havia a predominância das manufaturas em detrimento dos produtos de bens de capital. As primeiras se caracterizavam por empresas de pequeno e médio portes, de propriedade familiar, com grande utilização de mão-de-obra e baixo consumo de energia, devido à utilização de maquinário simples. Elas agrupavam os têxteis, os gêneros alimentícios, os couros e sapatos, e as madeiras e móveis e depois do setor agrário, exceto na Inglaterra, onde representava a principal força econômica, constituía o segundo setor econômico mais importante nas monarquias européias e na república francesa (Cf. Mayer, 1987:43). Já as indústrias de bens de capital giravam em torno da produção de metais, maquinaria, veículos e química, e se organizavam em grandes fábricas com maquinaria especializada, operando com grande consumo de energia e uma força de proletários e artesãos fabris. Na medida em que requeriam maiores investimentos, ultrapassavam a categoria de empresa familiar e se convertiam em postos avançados do capitalismo gerencial de corporações (Cf. Mayer, 1987:30).

Esses dois tipos de indústria ocupavam, na principal economia industrial, a inglesa, 38% de sua população ativa, com a maior concentração dessa mão-de-obra vinculados às manufaturas, enquanto na Alemanha esse índice chegava a 30%, com igual predomínio da mão-de-obra nas manufaturas. Apesar de, geralmente, a Alemanha ser apresentada como o principal expoente das indústrias de bens de capital (Cf. Eksteins, 1991:96), de acordo com Mayer (1987:61), elas continuavam ocupando um lugar subordinado na economia alemã, atrás da agricultura e da manufatura, em termos de participação de capital, produto líquido e força de trabalho.

A participação industrial na economia das demais potências européias era menor que a da agrária e, internamente, as manufaturas superavam os produtos de bens de capital. Para Mayer,

o perfil econômico europeu se distorce não só ao se atenuar o papel da grande propriedade rural na agricultura, como também ao se subestimar a manufatura de bens de consumo em relação à produção de bens de capital. Em todos os aspectos importantes, até 1914 a manufatura de bens de consumo superou a indústria de bens de capital no setor não-agrário de todas as economias nacionais e, ainda, no comércio internacional (MAYER, 1987:43).

A esfera política, por sua vez, traduzia o poder e o status da nobreza obiliárquica fundiária e do serviço público nos quadros das burocracias estatais ao mesmo tempo em que constituía a sua armadura política protetora:

de fato, eram as burguesias nacionais emergentes que se viam forçadas a se adaptar às nobrezas, da mesma forma que o capitalismo industrial e financeiro em avanço se via obrigado a se inserir em sociedades civis e políticas pré-industriais. As nobrezas compreendiam não só os maiores proprietários rurais, incluindo muitos capitalistas agrários prósperos, mas também os mais altos e mais elevados funcionários civis e militares do Estado (MAYER,1987:88).

As monarquias contribuíam e preservavam esta influência, pois os soberanos, além de serem o ápice na escala administrativa, eram também os maiores proprietários rurais e a eles estavam atreladas as possibilidades de enobrecimento, uma vez que eram eles que concediam os títulos nobiliárquicos. Mesmo nas primeiras décadas do século XX, a figura do rei continuava atrelada à ‘graça de Deus’: nos impérios austro-húngaro, alemão e russo eles eram dirigentes autocratas, enquanto na Inglaterra e na Itália seus poderes eram mais limitados. Porém, quaisquer que fossem as diferenças entre os poderes e prerrogativas reais nestes impérios, ainda assim os reis exerciam funções representativas e cerimoniais impressionantes que exaltavam e legitimavam o poder da aristocracia (Cf. Mayer, 1987:139).

A França, mesmo sendo a única república entre as principais potências européias, continuou reconhecendo oficialmente os títulos de nobreza e reservando-lhe altos cargos dentro da burocracia republicana. Para Mayer, mesmo de sob a Terceira República, os nobres franceses continuavam ocupando muitas posições de destaque na sociedade, de tal forma que mesmo os grandes burgueses nunca deixaram de reverenciá-los e imitá-los. Assim, a França republicana resistia “como um país sem rei, mas com aristocracia” (Cf. MAYER, 1987:133).

As burocracias estatais não eram preenchidas exclusivamente pelos membros das nobrezas, muito mais em razão da sua incapacidade de montar equipes para o aparelho de Estado em rápida expansão do que pela vontade em compartilhar com membros dos outros grupos sociais um sentimento de eqüidade. Mesmo sendo classificados a partir de suas qualificações e competências, geralmente esses novos burocratas passavam por processos de assimilação dos preceitos aristocráticos: a tendência a demonstrarem sua fidelidade social e política à antiga ordem era muito maior do que uma contrária que a questionasse (Cf. Mayer, 1987:177). De acordo com o autor, por mais que estivesse ocorrendo um crescimento das forças capitalistas vinculadas às indústrias de bens de capital e de instituições financeiras que lhes apoiava, ainda assim, estes grupos

de negociantes e profissionais liberais emergentes não estavam em posição de desafiar as elites agrárias e do serviço público pela paridade ou predomínio entre as classes dominantes, para não dizer governantes, da Europa. À parte a sua desvantagem numérica e econômica, as burguesias emergentes estavam enfraquecidas pelas divisões internas entre a indústria pesada e a manufatura de bens de consumo em grande escala e seus respectivos associados bancários. Também estavam separadas da pequena manufatura e comércio, o que as desprovia de uma ampla base popular. Mas o mais relevante é que as burguesias industrial e financeira recentes, assim como as profissões liberais subalternas, não dispunham de um firme e coerente terreno social e cultural próprio. Inseguras em relação a si mesmas, mantinham-se servis em suas relações com os aristocráticos notáveis da terra e dos gabinetes (MAYER, 1987:87).

Assim, neste contexto, o processo de enobrecimento que consistia na incorporação dos valores aristocráticos pelas classes médias e o desejo de ser assimilado por esta ordem era maior do que o de “aburguesamento”, que se caracterizava pela absorção dos valores burgueses por membros das nobrezas. Vale salientar que estes processos não eram fixos, ou seja, nenhum dos grupos estava imune às novas influências, porém, “a balança se inclinava a favor da elite pomposa” (MAYER, 1987:91). Ainda de acordo com o autor, a influência aristocrática na esfera política e sua forma tradicional de organizá-la - regrando-a e submetendo-a a seus interesses - fez com que na Inglaterra, única exceção entre as potências européias na qual a manufatura constituía o principal setor econômico, a aristocracia continuasse a ter supremacia e a terra permanecesse como a mais importante fonte de riqueza e renda. Ou seja, “a monarquia e a elite fundiária domaram a industrialização da Inglaterra, sem sucumbir a ela”. (MAYER, 1987:20).

As instituições militares e a Igreja caracterizam outros pilares da ordem vigente, sobre os quais a aristocracia exercia grande poder e preservava sua primazia. As primeiras, na medida em que estas instituições refletiam o crescimento da burocracia estatal e aumentavam os seus contingentes - as forças armadas trabalham com cifras cada vez maiores de soldados -, sentem a necessidade de aumentar o oficialato. Este era formado majoritariamente por nobres e as poucas exceções exigiam do candidato a adesão aos seus princípios, uma vez que

dentro dessas instituições militares duradouras, todos os oficiais, independentemente de sua origem social e identidade de classe, comungavam da mesma perspectiva social, religiosa e cultural tradicional. À medida que subiam na hierarquia, os oficiais também reconheciam seus valores políticos conservadores e reacionários, de modo mais explícito em épocas de tensão. Pouca oportunidade havia, se é que havia alguma, para que os funcionários de convicções liberais ou democráticas declaradas alcançassem um grau elevado, visto que os desviantes da norma conservadora eram discretamente afastados (MAYER, 1987:179).

As igrejas, de modo geral, mantinham laços estreitos com as nobrezas agrárias e nobiliárquicas, já que os seus mais altos cargos provinham de suas entranhas. Assim, legitimavam a ordem vigente representada pelas nobrezas: consagravam honras aos bens nascidos que tinham suas fortunas encaradas como um sinal externo de alto valor e posição social, ao mesmo tempo em que pregavam a desconfiança em relação aos capitalistas “inescrupulosos”, em sua ânsia desmedida pelos lucros cada vez mais elevados.

Assim como sofria de uma falta de consagração religiosa e temporal vinda de cima, a burguesia insegura também não contava com uma adesão de massa que reconhecesse sua superioridade e proporcionasse uma garantia de apoio ou fúria popular. E por último, mas de modo algum menos importante por mais sólidos que fossem seus alicerces econômicos, a burguesia amorfa, a não ser em termos locais, continuava a ser politicamente impotente. Por conseguinte, teve de se manter sem a força aglutinadora do ritual, da mística e do prestígio concomitantes ao exercício do poder de Estado (MAYER, 1987:94).

O sistema educacional igualmente seguia a tendência de preservar o ensino tradicional e não de inovar, incorporando novas perspectivas de educação ou novas disciplinas. Nas potências européias, o ensino primário estava essencialmente vinculado à estrutura eclesiástica que como vimos, conservava e legitimava o status quo. Este trabalho realizado, na maioria das vezes por professores que eram também clérigos, não era de forma alguma despretensioso: “continuando a consagrar o trono [ou seus representantes, no caso da França], a espada a bandeira e a ordem social estabelecida, as igrejas recebiam em troca um auxílio governamental” (MAYER, 1987:241) através de subsídios. O ensino superior, por sua vez, alinhava-se ao primário em sua missão de solidificar a hegemonia nobiliárquica, estando seu conservadorismo impregnado não só nos seus currículos como também nos valores sociais, políticos e econômicos de suas instituições. Ainda de acordo com o autor, as instituições educacionais que reduziam o peso dos estudos clássicos, predominantes no ensino superior, em favor dos modernos (ciências teóricas e práticas), não eram hegemônicas e nem atribuía a seus formandos o mesmo nível de prestígio das escolas superioras clássicas.

É interessante salientar que as proposições explicitadas por Mayer (1987), de forma alguma desconsideram as transformações econômicas, políticas, sociais, analisadas por Hobsbawm (1988), Kennedy (1988) ou Eksteins (1991) que vinham acontecendo nas principais potências européias, principalmente a partir da segunda metade do século XIX e início do século XX. Porém, de acordo com Mayer, estas transformações não se desenrolavam na velocidade proposta pelos referidos autores e, nem seria a burguesia o grupo social que estaria à sua frente, detentora de um aparato social, econômico, político e cultural hegemônico. A Grande Guerra teria sido desencadeada antes pelo interesse das aristocracias, essencialmente agrárias e préburguesas, de conservar o seu poder e status, “lutando para prolongar sua vida, que do explosivo crescimento do capitalismo industrial, resolvido a impor sua primazia” (MAYER, 1987:14). Ou seja, as motivações que engendraram a Grande Guerra possuíam um vínculo maior com a aristocracia do que com a burguesia."

Fonte:
Luciana de Lima Martins: “História, Literatura e Memória: Reflexões sobre a Grande Guerra – 1914/1918”. Orientador: Prof. Dr. Raimundo Barroso Cordeiro Júnior Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, em cumprimento às exigências para obtenção do título de Mestre em História, Área de Concentração em História e Cultura Histórica). João Pessoa/PB, 2008.

Nota
:
As imagens inseridas no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

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Marinheiros do cruzador alemão "Kaiser II", por ocasião de sua última passagem pelo Porto de Santos, em 1914

O general Moltke, chefe do estado-maior do exército alemão, em diálogo com o Kaiser, um pouco antes de ser deflagrada a guerra na Europa, em 1914

Soldados alemães recebendo porção de água em Vizé, na Bélgica, em 1914

Prisioneiros aliados em Zossen, na Alemanha, tecendo sapatos de palha, em 1915

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TEXTO DIDÁTICO

A primeira guerra (1914-1918)
"A guerra foi resultado da grande expansão colonial-imperialista do século XIX. Foi sobretudo uma luta por colônias e áreas de influência entre as grandes potências européias: Alemanha de um lado, França, Inglaterra e Rússia de outro.
A Alemanha havia desenvolvido seu capitalismo de forma extremamente rápida a partir de 1870, passando a ameaçar a hegemonia comercial e marítima da Inglaterra no final do século XIX, quando os produtos e capitais alemães concorriam com os ingleses em todas as partes do mundo. Através do Império Austro-húngaro, o imperialismo alemão tratava de estabelecer sua influência na região dos Bálcãs e no Oriente Médio, entrando em conflito com ingleses e russos também presentes naquelas áreas. Com a França, os alemães tinham velhos problemas que se agravaram a partir da guerra de 1870, quando os franceses, derr&ados, perderam para o Segundo Reich a Alsácia e a Lorena. Os dois países também entraram em atritos disputando o Marrocos, território ao norte da África.
Os problemas internacionais tenderam a agravar-se e fizeram surgir dois blocos de países em confronto: a Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália). Durante anos os dois blocos realizaram intensa corrida armamentista e terminaram por ir à guerra em agosto de 1914, depois do atentado de Sarajevo.
Os combates travaram-se principalmente em solo europeu e no mar. A Alemanha lutou em duas frentes, enfrentando franceses e ingleses no Ocidente e russos na região oriental.
Os Estados Unidos permaneceram neutros até 1917, posição que lhes deu inúmeras vantagens: venderam armas e víveres aos países da Entente e ocuparam mercados da América Latina e da Ásia abandonados pelos europeus. A penetração ianque na América Latina datava do século XIX, mas acentuou-se com a guerra e com a abertura do Canal do Panamá, também em 1914. Especialmente contra o México e a América Central os Estados Unidos desenvolveram uma política de intervenções armadas, a Big Stick Policy “, visando defender os interesses de seus bancos e empresas na região.
O afundamento de navios norte-americanos por submarinos alemães levaram os Estados Unidos à guerra ao lado da Entente, em 1917. A Alemanha foi derrotada em 1918 e teve de aceitar o Tratado de Versalhes, pelo qual perdia territórios e era condenada ao pagamento de gigantescas indenizações de guerra.
As conseqüências da guerra foram inúmeras. Além dos 37 milhões de mortos e das destruições o conflito gerou uma crise econômica, social e política especialmente na Europa, com repercussões em várias partes do mundo. Ao mesmo tempo em que o capitalismo entrava em crise, o socialismo obtinha sua primeira grande vitória: a Revolução Soviética de 1917. A crise do capitalismo liberal e o medo do socialismo contribuíram para o surgimento de movimentos fascistas que tomaram o poder em vários países no período entre-guerras."

Fonte:
Raymundo Campos: “História do Brasil”. Atual Editora. São Paulo, 1983, p. 172-173.

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O avanço dos soldados canadenses contra os alemães, na região do Somme, na França, em 1917

Soldados da cavaleria portuguesa transportando montes para reconhecimento da região, em Angola, que, na época, era sua possessão, em 1915

As tropas de infantaria argelina com baionetas em luta feroz contra os alemães, em 1914

Cenas da guerra, em 1915

Atiradores argelinos enviados para combater os alemães, na França, em 1914

Ilustração das tropas da infantaria colonial francesa, procedentes da Argélia, durante combate com os alemães, na região de Aisne, em 1914

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TEXTO ACADÊMICO

As expectativas e a eclosão da Primeira Guerra Mundial
"O historiador Carlos Henrique Armani refletiu sobre a experiência do tempo no front, a partir da crise da civilização e da falência representacional da alteridade. Neste estudo, ele demonstrou que era fácil acusar as massas de indiferença frente às atividades literárias e artísticas e censurá-los pelo alegado abismo entre a cultura e a civilização. Mas era também importante indagar se os artistas e escritores tinham algo a dizer que fosse relevante para este público, ou se teriam perdido contato, em seu idioma e valores, com as novas realidades sociais estabelecidas pela oposição Kultur/civilização. Assim, para Armani, a Grande Guerra, como ficou conhecida entre seus contemporâneos, surgiu

em um contexto romântico de entendimento da guerra, bem como num mundo que acreditava, em termos geopolíticos e darwinistas, de que ela era inevitável como forma de luta pela vida das nações. Nesse sentido, aquilo que parecia ser mais uma guerra entre outras – em uma Europa profundamente marcada pela realidade heraclitiana que afirma a guerra como o pai de todas as coisas –, se transformou na Grande Guerra, a qual alcançou contornos mundiais e se transformou num confronto bélico de trincheiras onde o sentimento de nadificação e de finitude, enquanto enfrentamento com a alteridade da morte, andava lado a lado com os homens cujos rostos enlameados desapareciam na tenebrosa impessoalidade do front.

Antes de tal conflito se iniciar, existiram vozes de exaltação da guerra, que criaram expectativas de que, se ela viesse, salvaria o mundo da monotonia e incompletude que se encontrava. Peter Gay mostrou que alguns daqueles intelectuais europeus (referidos no tópico 2.1) acreditavam que a guerra viria para enterrar nas trincheiras o século burguês singularmente sem graça, pouco viril, materialista e conformista. Assim, ele demonstrou que no período relativamente pacífico que antecedeu a guerra, apesar de fazerem parte de uma minoria, “existiram militares que pregavam a guerra, generais que a planejavam, profetas da desgraça que a prediziam”. Peter Gay lembra ainda que, a partir de 1900, era comum chamar a região dos Bálcãs98 de “barril de pólvora”. Tendemos a acompanhá-lo na afirmativa de que, apesar do aparente clima otimista da Belle Époque, a Europa antes de 1914 era um mundo ameaçado e nervoso.

Neste período, como vimos, o nacionalismo (expresso, aqui, pelo viés do par antitético civilização/Kultur) suplantou todos os demais sentimentos de lealdade existentes. Os sentimentos nacionalistas vinham sendo uma força política considerável por mais de um século antes de 1914, e, neste momento, o amor à pátria foi igualado ao ódio pelo inimigo estrangeiro, e todas as nações tentaram se afirmar nesta luta ideológica. Para Peter Gay, o que unia tais nações em seus anseios era o fato de que “em cada um deles o álibi para um comportamento agressivo era fornecido por uma ofendida busca de direitos negados havia muito tempo, ou um alarme não menos ofendido com respeito a vizinhos ameaçadores”.

Vimos a partir do estudo de João Carlos Zuin que a “geração de 1914” insistia na idéia de que a Kultur germânica era o melhor caminho para a humanidade cultivar seus ideais e suas conquistas. Por isso, segundo Zuin, para muitos intelectuais alemães a guerra de 1914 era concebida como um acontecimento absoluto que possibilitava o retorno dos valores alemães autênticos:

Na valorização e justificação da guerra mundial promovida pelos ideólogos da “geração de 1914”, o que estava em questão era o imperativo desejo por uma alteração completa da realidade. Sentimento esse expresso nas diversas sentenças endereçadas ao surgimento de um novo homem, de uma nova alma, de um novo ethos, de uma nova Kultur, de uma nova Alemanha, de um novo mundo. No ideário da “geração de 1914 estava presente o imperativo desejo pelo “novo” que, todavia, somente poderia ser encontrado através da experiência da guerra, fonte na qual se libertaria o autêntico seroutro, que se encontrava latente até então.

Nesta Era dos Impérios, enquanto a Europa burguesa, em crescente conforto material, rumava para a catástrofe, observamos o estranho fenômeno de uma burguesia, ou pelo menos de parte significativa de sua juventude e de seus intelectuais, mergulhar de bom grado e até com entusiasmo no abismo. Entretanto, ninguém, nem sequer o melhor dos profetas, entendeu realmente que tipo de guerra seria. E quando o mundo, por fim, chegou à beira do abismo, os responsáveis pelas tomadas das decisões, incrédulos, se lançaram a ele. Eis alguns exemplos demonstrados por Hobsbawm:

Todos conhecem o caso dos rapazes – antes de 1914 havia poucas provas relativas às perspectivas belicosas das moças – que saudaram a irrupção da Primeira Guerra Mundial como se fosse amor à primeira vista. “Agora, graças sejam dadas a Deus, que nos colocou à altura de tal hora”, escreveu um socialista fabiano, normalmente racional e apóstolo de Cambridge, o poeta Rupert Brooke. “Só a guerra”, escreveu o futurista italiano Marinetti, “sabe rejuvenescer, acelerar e afiar a inteligência humana, alegrar e arejar os nervos, libertando-nos do peso do fardo cotidiano e dando sabor à vida e talento aos imbecis”. “Na vida dos acampamentos e debaixo do fogo”, escreveu um estudante francês, “...experimentamos a suprema expansão da força francesa que trazemos dentro de nós”.

Não faltaram, porém, intelectuais mais velhos que, também eles, saudaram a guerra com manifestos de regozijo e orgulho que, aliás, alguns deles viveram o bastante para lamentar. Foi com freqüência observada, durante os anos precedentes a 1914, a moda de rejeitar o ideal de paz, da razão e do progresso por outro, de violência, instinto e explosão. Na contramão desta tendência, Sigmund Freud tinha uma opinião sobre o modo como alguns intelectuais e cientistas estavam se empenhando para dar uma justificativa racional para a guerra (como os intelectuais da “geração de 1914” estavam fazendo). Em seu texto sobre a decepção gerada a partir da eclosão da guerra, Freud ressalta que:

Parece-nos que jamais acontecimento algum aniquilou tantos bens e valores da Humanidade, ofuscou tantas das mais lúcidas inteligências, denegriu tão completamente o que existe de sublime. Até a ciência perdeu sua confortável imparcialidade; seus servidores, exasperados em seus íntimos, tratam de produzir e guarnecer armas para contribuir com a luta contra o inimigo. O antropólogo se vê obrigado a declarar inferior e degenerado o adversário; o psiquiatra, a anunciar o diagnóstico de suas anomalias mentais e psíquicas. Mas talvez nós sintamos com excessiva intensidade a maldade desta época e não tenhamos direito a compará-la com as calamidades de outros tempos que não conhecemos.

Modris Eksteins lembrou que as enormes demonstrações de sentimento público a favor da guerra, também desempenharam um papel crucial na definição do destino da Europa em 1914. Os primeiros capítulos de seu livro foram dedicados a provar que as cenas de multidões chauvinistas em Berlim, São Petersburgo, Viena, Paris e Londres, nos últimos dias de julho e nos primeiros de agosto, impeliram os lideres políticos e militares da Europa ao confronto. Obviamente que existiram, segundo ele, manifestações contra a guerra, entretanto eram rapidamente dispersadas. Resumindo tal situação, Eksteins afirmou:

O monarca e o governo não foram os únicos influenciados pelas efusões de sentimento público, mas virtualmente todas as forças da oposição também se deixaram arrastar pela corrente (...). As multidões, de fato, tomaram a iniciativa política na Alemanha. A cautela foi jogada ao vento. O instante alcançou a supremacia. Horas, anos, na verdade séculos, foram reduzidos a momentos. A história se tornara vida.

Como vimos, se as nações suportaram o investimento da Guerra, foi porque todas continham imensas expectativas positivas. Expectativas de um mundo melhor, de uma nova etapa da civilização humana, expectativas que explicam o envolvimento de milhões de homens no conflito. Aliado a tudo isso, a propaganda de guerra, a disciplina militar, o senso de pertencer a uma organização, respondem pelo número reduzido de combatentes que desertaram ou se recusaram a cumprir ordens no front.

Assim, em meio a todo este contexto da Grande Guerra de 1914, existia uma nação que não podia senão apostar sua existência no jogo militar, porque sem ele parecia condenada: “a Áustria-Hungria, dilacerada desde meados da década de 1890 por problemas nacionais cada vez mais inadmissíveis, dos quais os dos eslavos do sul pareciam ser os mais recalcitrantes e perigosos”. Numa época de nacionalismos extremados, o imperador habsburgo Francisco José mal conseguia administrar os interesses políticos que se colidiam, ou situações de grupos étnicos hostis. Em âmbito europeu, também, a paz só conseguia ser preservada através da sutil manipulação do equilibro de poder entre os Estados ou entre sistemas de alianças."

Fonte
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Rafael Dias de Castro: “A Historicidade do Pensamento Freudiano: a questão da felicidade numa civilização sob os efeitos da Guerra - 1914/1932”. (Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de São João Del Rei, como requisito para obtenção do Grau de Mestre). São João Del Rei, 2010.
Nota:
As imagens inseridas no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

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O povo de Paris ansiosos em busca de notícias sobre a guerra num local onde estas eram afixadas

Oficiais da Missão francesa, que treinaram a Força Pública de São Paulo, os quais embarcaram para a Europa, a fim de tomar parte da Guerra, em 1914

O general Joffre (comandante do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial) no trabalho a óleo executado por um comerciante paulista, o senhor Antônio Rodrigues da Silva, em 1915

A bandeira do regimento de infantaria, comandado pelo general Joffre, em 1916

O general francês Joffre passando em revista a um regimento de infantaria que ia se unir às tropas que combatiam em Verdun, em 1916

Prisioneiros franceses num acampamento, em 1915

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TEXTO DIDÁTICO

A guerra de 1914-1918: causas e conseqüências
"Causas da guerra de 1914-1918. — Os anos que precederam a Primeira Guerra Mundial constituíram sobretudo urna época de imperialismo econômico. Se bem que as reformas sociais e o desenvolvimento das ciências e das idéias democráticas tivessem dado ao século XIX uma posição de destaque na história do desenvolvimento social e cultural da humanidade, as competições de ordem econômica, apoiadas num nacionalismo belicoso e apaixonado, conduziram o mundo a uma catástrofe: a guerra de 1914-1918.
A “paz armada” era o resultado das soluções parciais dadas aos choques de interesses entre os diversos Estados europeus. E para que a “paz armada” se transformasse em um conflito geral contribuíram várias causas:
a) a rivalidade industrial entre a Alemanha e a Inglaterra. Em 1914 as estatísticas apontavam a Alemanha como maior produtora de ferro do que a Inglaterra e a França reunidas. Seus produtos manufaturados circulavam em mercados que tradicionalmente pertenciam à Inglaterra;
b) o imperialismo russo que pretendia dominar a região balcânica, a fim de obter o domínio de Constantinopla, chocando-se com os planos alemães e austríacos de estabelecerem uma estrada de ferro de Berlim a Bagdá, para dominar economicamente os Bálcãs;
c) ressentimento da França por ter perdido para a Alemanha em 1870 as minas de carvão e ferro da Lorena;
d) a questão marroquina.
A guerra balcânica e o pan-eslavismo. - Um incidente balcânico surgiu quando a Áustria anexou as províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina, cobiçadas pela Sérvia.
A Alemanha declarou apoiar os austríacos. A Rússia, ainda não refeita dos prejuízos da guerra russo-japonesa, procurou uma aliança com a França e encorajou ‘a Sérvia, a Bulgária, a Grécia e o Montenegro a vingarem as atrocidades cometidas pelos otomanos contra os eslavos da Macedônia, com uma invasão militar na qual já estava previamente resolvido que, após a derrota dos turcos, a Albânia seria dada à Sérvia.
A vitória daqueles pequenos países balcânicos contra os turcos impressionou o mundo e alarmou a Áustria. Quando os vencedores desentenderam-se quanto à partilha, a Áustria, receosa da expansão sérvia no Ocidente, forçou diplomaticamente o reconhecimento da Albânia como Estado independente. Sem uma saída para o mar e frustrados nas suas pretensões, os sérvios aguçaram seu ódio aos austríacos.
O nacionalismo sérvio relacionou-se com o pan-eslavismo que se baseava na idéia de que todos os eslavos da Europa Oriental constituíam uma grande família, tendo a Rússia como guia e protetora. Ao mesmo tempo um movimento de “revanche” envenenou o espírito francês, recordando- lhe a derrota de 1870. Foi nesse clima de insegurança, de militarismo e de nacionalismo, de acordos secretos e de alianças políticas nem sempre respeitadas, que um estudante sérvio assassinou em 28 de junho de 1914, em Serajevo, capital da Bósnia, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro da coroa austríaca."

Fonte:
A. Souto Maior: “História Geral”. Companhia Editora Nacional. São Paulo, 1976, p. 388-389.

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O submarino "E-8" que levou a pique um cruzador alemão no mar do Norte, em 1914

Ilustração da Esquadra Francesa no Mediterrâneo, de 1914

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TEXTO DIDÁTICO

Fatores que levaram à guerra
"Durante o século XIX, as nações da Europa Centro-Ocidental realizaram um rápido processo de industrialização, passando do capitalismo concorrencial ao capitalismo monopolista e imperialista. Em países como Inglaterra, França, Bélgica, Itália e Alemanha, formaram-se, pela concorrência, empresas gigantescas, produzindo em larga escala, sob a forma de trustes e cartéis.
Esse foi também o tempo das primeiras grandes crises marcadas pela superprodução, que resultaram em falências generalizadas, desemprego e baixa de salários. Nessas condições, o capitalismo monopolista dos países da Europa Ocidental lançou-se à busca de colônias e áreas de influência para conseguir mercados para os seus produtos, matérias-primas e áreas para investir capitais que não podiam ser aplicados na Europa, por causa da tendência à superprodução.
A competição por colônias e áreas de influência, a concorrência comercial e os problemas territoriais na própria Europa, foram os principais fatores da formação de dois blocos antagônicos de nações: a Tríplice Entente, formada por Inglaterra, França e Rússia, e a Tríplice Aliança, que agrupava Alemanha, Áustria e Itália."

Fonte:
Raymundo Campos: “História da América”. Atual Editora. São Paulo, 1991, p. 136-137

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Oficiais do exército brasileiro fotografados no Forte de Douamont, em 1919
Outro grupo de oficiais brasileiros, em visita às posições do Argones, durante a última ofensiva, em 1919

Grupo de crianças posando para a revista "A Cigarra" no Teatro Municipal de São Paulo, em festa realizada em benefício da Cruz Vermelha e dos Aliados, em 1915

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TEXTO DIDÁTICO

O isolacionismo e a neutralidade norte- americana
"No fim de seu segundo mandato presidencial, ao proferir o seu discurso de despedida (17 de setembro de 1794), George Washington defendeu a “neutralidade” dos Estados Unidos em relação às rivalidades entre as potências européias, nos seguintes termos: “Por que abandonar nosso próprio domínio para determo-nos em solo estrangeiro? Por que (...) enredar nossa paz e prosperidade nas teias da ambição, rivalidade, interesse ou capricho da Europa?”
Com essas palavras, nascia o isolacionismo. Essa atitude prudente do governo norte-americano em relação à Europa vigorou até o dia 2 de abril de 1917, quando o então presidente Woodrow Wilson discursou no Congresso propondo a declaração de guerra contra a Alemanha. A aprovação foi por unanimidade.
Claro que essa neutralidade dava-se apenas em nível político, pois os Estados Unidos não faziam parte de nenhuma das tríplices em luta. Em nível econômico, porém, a situação era bem diversa. A guerra tinha sido planejada para poucos meses. Os países, portanto, prepararam-se para uma guerra curta. O sistema de alianças aumentara o número de países beligerantes, que precisavam cada vez mais de alimentos, roupas, armas e dinheiro. Assim, a duração da guerra trouxe o problema do abastecimento. O único país que, na época, tinha condições de fornecer o que a Europa necessitava eram os Estados Unidos — cujo volume comercial cresceu assustadoramente entre 1914 e 1916. Além disso, esse rendoso comércio era feito com ambos os lados, isto é, com as duas tríplices inimigas.
Assim sendo, neutros politicamente, os Estados Unidos enriqueceram muito, tornando-se os credores da Europa. A neutralidade política quebrou-se em abril de 1917, quando os Estados Unidos declararam guerra ao Império alemão alegando como motivos a guerra submarina, isto é, o afundamento de navios norte-americanos pelos submarinos alemães, e a defesa da paz e da democracia. E preciso lembrar que em 1914, quando a guerra começou, os Estados Unidos tinham tropas estacionadas no México, a fim de impedir o aprofundamento de uma revolução popular que limitaria os lucros dos capitalistas interessados no petróleo.

A participação dos Estados Unidos
Os motivos da entrada dos Estados Unidos na guerra não se resumiam àqueles mencionados na declaração oficial e nem eram tão simples. A simpatia norte-americana parecia pender para o lado dos Aliados (nome usado para designar os países membros da Tríplice Entente), porém havia atritos com a Inglaterra e com a França, que insistiam em vasculhar todos os navios neutros. Por outro lado, as relações econômicas com os Aliados (Tríplice Entente) intensificavam-se, aumentando a dívida desses países com os Estados Unidos, enquanto que com a Tríplice Aliança tendiam a reduzir-se. A Alemanha iniciou a guerra submarina e, desrespeitando disposições internacionais, afundou navios de passageiros de países neutros, como o Lusitânia, de bandeira norte-americana. A morte de 128 americanos que viajavam no navio abalou a opinião pública do país. Os protestos contra os alemães cresceram com a publicação de um documento contendo informações secretas sobre um possível acordo entre Alemanha e México: foi derrubado pela revolução de fevereiro de 1917 (março no calendário ocidental). O país continuou na guerra, porém cada vez mais enfraquecido. A derrota da Entente para a Alemanha provocaria um desastre nos Estados Unidos; como declarou o jornal americano Commerce and Finance: “a consciência coletiva norte-americana interpretará tudo que favoreça a derrota da Alemanha como favorável aos negócios dos Estados Unidos e vice-versa”.
A Rússia saiu da guerra em março de 1918 depois de assinar o tratado de Brest Litovsk com o Império alemão. Os termos dessa paz em separado determinaram a perda da Finlândia, Polônia russa, Ucrânia, Lituânia, Letônia e Estônia. Para a Alemanha era uma frente a menos na guerra (frente oriental). Essas anexações territoriais trouxeram também outras vantagens, como impostos, mão-de-obra, riquezas minerais, suprimentos adicionais. Entretanto, isso não foi suficiente para fazer frente ao peso da entrada dos Estados Unidos na guerra; sua participação foi decisiva para o resultado final em favor da Entente. Foram empréstimos maciços em termos de capital, além de armas, munição e homens. Os soldados norte-americanos, bem armados, bem alimentados, foram uma injeção de ânimo aos Aliados.
Por outro lado, já estava em andamento o colapso dos membros da Tríplice Aliança desde 1917. Até essa data, tanto caso apoiasse o governo alemão, o México poderia receber de volta o que havia perdido com o imperialismo norte-americano, isto é, o Texas, o Arizona, o Novo México e a Califórnia.
Na Rússia, país-membro da Tríplice Entente, o governo do czar Alexandre II o Império Otomano como a Áustria-Hungria conseguiram suportar a guerra. Eram impérios velhos (inclusive a Rússia), com uma estrutura arcaica, aquém do ritmo exigido pelas condições econômicas de uma guerra que, inicialmente planejada para quatro meses, durou cinqüenta e dois meses. Houve, ainda, a questão das inúmeras nacionalidades, como os tchecos, os croatas, os húngaros, os eslovacos, os poloneses e tantos outros que faziam parte desses impérios velhos excessivamente centralizadores que só os mantinham sob o domínio da força. A perda da Tríplice Aliança revitalizou os movimentos nacionalistas, fragmentando ainda mais o mapa da Europa e da Ásia.
Em 8 de janeiro de 1918, quando a vitória militar já parecia assegurada aos Aliados, Wilson remeteu uma mensagem ao Congresso, um plano de paz conhecido como “14 pontos”, que deveria servir de base para a construção da paz mundial."

Fonte:
Luis Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira: “Américas: uma introdução histórica”. Atual Editora. São Paulo, 1995 , p. 178-180.

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O vigário geral Benedito de Sousa, em missa realizada no cemitério do Araçá (São Paulo) pelas almas dos soldados italianos mortos na guerra (ano: 1917)

Colônia italiana no cemitério do Araçá, durante evento cívico, em 1919

Cemitério do Araçá, em São Paulo, em festa cívica promovida pela colônia italiana, em homenagem aos mortos na guerra, em 1919

Coroa de bronze que o Circolo Italiano ofereceu numa capela no cemitério do Araçá, em homenagem aos soldados mortos na guerra

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TEXTO DIDÁTICO

As conseqüências da Primeira Guerra Mundial
"A guerra de 1914 a 1918 trouxe para a Europa uma grande catástrofe demográfica e econômica, debilitou consideravelmente as potências colonialistas e desgastou seu prestígio; os Estados Unidos, teoricamente anticolonialistas, assumiram o papel de dirigente da economia mundial e pressionaram para que fossem abolidas as barreiras protecionistas criadas pelos impérios coloniais.
Esta grande guerra foi, acima de tudo, um conflito imperialista originado pelos antagonismos e a concorrência industrial e comercial entre por um lado a Grã-Bretanha e a França e por outro a Alemanha. Os alemães, convertidos à ideologia da expansão ultramarina a fim de obterem matérias--primas baratas e novos mercados para os produtos da sua indústria em rápida expansão, ameaçavam o poderio dos britânicos; antes, tinham-na obtido em conseqüência do seu avanço na industrialização e de sua supremacia marítima.
Os antagonismos imperialistas e nacionalistas, habilmente explorados pelas classes dirigentes européias, serviram para atenuar as tensões internas e desmobilizar o proletariado revolucionário; a maioria dos socialistas, como Jaurès em França, acabaram encorporando-se na «União Sagrada», criada para defender os interesses da pátria ameaçada... A expansão imperialista, ao transportar para as colônias as formas agudas de exploração, travou os impulsos revolucionários na Europa, o que explica parcialmente que a revolução estalasse na Rússia, não participante na divisão colonial.
A guerra não só debilitou a Europa, mas também mostrou claramente a grande contradição do. domínio colonial: qualquer passo para a autonomia ameaçava os alicerces do império. O apoio que as colônias deram às metrópoles e a mobilização e reivindicações que começaram a manifestar as elites indígenas minavam a superioridade européia. Por esta razão, todo o processo descolonizador pode esquematizar-se nos seguintes termos: as reformas nas colônias tinham como obstáculo principal o medo destes perderem a soberania, o que prejudicava os interesses econômicos representados pelos colonos e administradores; mas essa impossibilidade de levar a cabo reformas importantes agudizou as contradições e acabou por constituir uma das principais armas na luta dos colonizados pela sua emancipação.
A expansão européia terminou com a guerra. A divisão tinha acabado, o mundo estava definitivamente partilhado e submetido na sua maior parte ao domínio de duas grandes potências: o império britânico, com 30 milhões de quilômetros quadrados e 400 milhões de habitantes; o império francês, com 10 milhões de quilômetros quadrados e 48 milhões de habitantes.
A partir de 1919 entram na liça as forças sociais, políticas e econômicas chamadas a mudar a face do mundo, mas que demoraram três decênios para conseguirem alguns dos seus principais objetivos."

Fonte:
"Colonialismo e Neocolonialismo”. Biblioteca Salvat de Grandes Temas. Texto: Mateo Madridejos. Tradução: Filipe Rosas e Irineu Garcia. Salvat Editora do Brasil. Rio de Janeiro, 1979, p. 45-46.

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Capa da revista "A Cigarra", com charge sobre a Alemanha, em 1917

Uma das capas da revista "A Cigarra", com a temática da paz: "Que seja a Paz o seu anjo da guarda", em 1917

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Fonte das imagens:
Revista "A Cigarra", edições de 1914 a 1919,
disponíveis digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

5 comentários:

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