A freqüentação árabe nos romances de Jorge Amado


JORGE AMADO E A REPRESENTAÇÃO DO MUNDO ÁRABE
Os turcos descobriram a América, desembarcaram no Brasil e se fizeram brasileiros dos melhores. (Jorge Amado)

A FREQÜENTAÇÃO ÁRABE NOS ROMANCES DE JORGE AMADO
Os anos 30 foram de engajamento político, religioso e social no campo da cultura [...] Os decênios de 1930 e 1940 assistiram à consolidação e difusão da poética modernista, e também à produção madura de alguns de seus próceres, como Manuel Bandeira e Mário de Andrade. (Antonio Candido)

Em seu texto, Menino de engenho: a memória das perdas, Heloísa Toller Gomes procede a uma leitura do Modernismo brasileiro, em especial de suas duas vertentes mais conhecidas e estudadas, a de São Paulo e a do Nordeste, buscando precisar as diferenças que separam essas experimentações modernistas em nosso país:

Delinearam-se, naqueles anos, as duas vertentes principais do modernismo literário brasileiro: a vertente do Sul, com seu nacionalismo irreverente e sua escrita iconoclasta, geradora e herdeira da “Semana”; e o modernismo regionalista do Nordeste, mas carrancudo e introspectivo, desconfiado do humor desbragado da nova literatura paulista e menos explicitamente ousado em termos formais. Esse segundo modernismo desdenhava a “calçada das cidades inacessíveis”, optando pelo cenário das grandes plantações e pelos ermos do agreste e da caatinga. Insistindo no meio físico e antropo-social da seca, do brejo e do sertão, ele também procurou, à sua maneira, sons, gostos e cheiros a partir dos quais modelar espaços, personagens e dramas entranhadamente brasileiros. Surgiu, assim, o chamado “romance de 30”. (GOMES, 2003, p. 646)

Embora ainda marcado por um olhar hierarquizante, através do qual situa essas tendências literárias numa ordem sucessiva, cabendo ao movimento de São Paulo o estatuto de primeiro modernismo e ao do Nordeste o lugar de segundo, o texto de Heloísa Gomes se constitui como uma espécie de inventário crítico do Modernismo brasileiro. Nele, a autora assinalaria tanto as diferenças quanto as similaridades entre essas modalidades literárias. Nesse caminho, chegaria à tese da complementaridade entre essas duas vertentes, vendo no comum esforço de construção (e reconstrução) identitária, o eixo unificador dessas duas tendências modernistas:

O sentido de brasilidade da produção literária nordestina, embora bem diferente daquele exibido pelos modernistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, era também ambicioso em suas propostas estéticas, indo além da manipulação do rico repertório imagístico e temático nacional – este, aliás, já intensamente explorado desde o romantismo e agora coloridamente reinaugurado na novidade das diversas nuanças modernistas. Na verdade, complementavam-se as duas perspectivas, a do Sul e a do Nordeste, em relação a um Brasil que, encaminhando-se de maneira incerta para uma controvertida e avassaladora modernidade, necessariamente dramatizaria e confrontaria, na cena literária de então, e das décadas subseqüentes, a sofisticação e a miséria das metrópoles aos grandes sertões e às decadentes casas-grandes, com sua “senzala dos tempos do cativeiro”. (GOMES, 2003, p. 646)

Na verdade, o Modernismo do Nordeste, denominado também de Romance de Trinta ou de Regionalismo Nordestino, operou uma ruptura de maior porte. Rompeu, como destacaAntonio Candido, com a perspectiva mistificadora do Brasil, com a qual se tecia, em nossos textos literários e culturais, de forma geral, as elaborações de brasilidade, atuante na escritura nacional, desde o Romantismo. Ao se voltarem para a tematização do espaço nordestino, os modernistas do Nordeste além de inaugurarem um novo olhar sobre o Brasil, dotam o romance de uma força desmistificadora, como salienta Antonio Candido:

A consciência do subdesenvolvimento é posterior à Segunda Guerra Mundial e se manifestou claramente a partir dos anos de 1950. Mas desde o decênio de 1930 tinha havido mudança de orientação, sobretudo na ficção regionalista, que pode ser tomada como termômetro, dada a sua generalidade e persistência. Ela abandona, então, a amenidade e a curiosidade, pressentindo ou percebendo o que havia de mascaramento no encanto pitoresco, ou no cavalheirismo ornamental, com que antes se abordava o homem rústico. Não é falso dizer que, sob esse aspecto, o romance adquiriu uma força desmistificadora que precede a tomada de consciência dos economistas e políticos. (CANDIDO, 1987, p. 142)

Não obstante a atitude pessimista e desmistificadora em face das possibilidades brasileiras, os modernistas nordestinos, a exemplo dos modernistas do Sul, também retomariam a tradição romântica em suas apreensões de brasilidade, como aponta Antonio Candido, ao analisar a importância do romântico Franklin Távora, primeiro romancista do Nordeste, na formação da vertente nordestina do Modernismo:

O seu regionalismo parece fundar-se em três elementos, que ainda hoje constituem, em proporções variáveis, a principal argamassa do regionalismo literário do Nordeste. Primeiro o senso da terra, da paisagem que condiciona tão estreitamente a vida de toda a região, marcando o ritmo da sua história pela famosa ‘intercadência’ de Euclides da Cunha. Em seguida, o que se poderia chamar patriotismo regional, orgulhoso das guerras holandesas, do velho patriarcado açucareiro, das rebeldias nativistas. Finalmente, a disposição polêmica de reivindicar a preeminência do Norte [...] Távora foi o primeiro ‘romancista do Nordeste’, no sentido em que ainda hoje entendemos a expressão; e deste modo abriu caminho a uma linhagem ilustre, culminada pela geração de 1930. (CANDIDO, 1981, p. 268 – grifos do autor)

Integrante do Modernismo do Nordeste, movimento oficialmente iniciado por José Américo de Almeida, em 1928, com a publicação de A bagaceira, Jorge Amado, como a maioria de seus pares, traria à sua obra, o senso da terra e da paisagem nordestina, o sentimento de patriotismo regional, o desejo de exprimir a preeminência do Nordeste, como se refere Antonio Candido, ao voltar-se para as linhas do pensamento de Távora, retomadas desde 1921, com a publicação de Senhora de engenho: romance, do pernambucano Mário Sette.

Surgida na década de 30, com a publicação de O país do carnaval (1931), a obra de Jorge Amado, pela importância e pela freqüentação da presença árabe, representa uma curiosa especificidade, tanto no conjunto de obras elaboradas pelos romancistas modernistas do Nordeste, como também no universo de nossa própria literatura, como comprova o dicionário biográfico das personagens de Jorge Amado, Criaturas de Jorge Amado (1985), elaborado por Paulo Tavares.

Procurando, confessadamente, seguir o exemplo de Fernand Lotte, responsável pela identificação e relação dos personagens anônimos da Comédia Humana, de Honoré de Balzac, Paulo Tavares relaciona todas as personagens, reais ou imaginárias, das narrativas de Jorge Amado, se voltando, ainda, para a discussão dos títulos das obras amadianas, como afirma a seguir:

Seguindo o exemplo de Fernand Lotte, que relacionou os personagens anônimos da Comédie Humaine – publicado em suplemento ao seu Dicionnaire, quatro anos mais tarde – organizou-se também idêntico repertório de personagens sem nome encontrados nas páginas do romancista patrício. Tal relação, em separado, acompanha a lista alfabética dos nominativos, complementando o recenseamento das criaturas de Jorge Amado. Mas a pesquisa não se ateve somente às criaturas – prossegui na garimpagem através do rico manancial que são os vinte e sete títulos de ficção de Jorge Amado e deles recolheu as informações agrupadas nos três apêndices anexados a este trabalho. (TAVARES, 1985, não paginado)

Pioneiro em nosso mundo editorial, o recenseamento das criaturas de Jorge Amado, procedido por Paulo Tavares, terminaria por nos apresentar uma variedade de perfis árabes no universo narrativo amadiano que, mesmo confirmando as nossas leituras, nos surpreenderia pela explícita assiduidade e pela diversidade que emolduram os perfis árabes, na obra do escritor baiano.

Mais tarde, num outro caminho, o romancista, contista e poeta Jorge Medauar, objetivando a identificação das marcas árabes nas várias culturas do mundo, ratificaria a pesquisa precedida por Paulo Tavares. Em seu artigo, “Introdução: aspectos gerais da cultura árabe”, publicado originalmente pela Revista de Estudos Árabes – DLO-FFLCHUSP, em 1993, Medauar veria, com naturalidade, a ostensiva presença árabe nos textos de Amado, resultante, segundo ele, do caráter popular da obra de Jorge Amado, como se apreende nessa passagem do seu discurso:

É mais do que natural que um escritor, com raízes tão populares quanto Jorge Amado, traga, no bojo de sua tão extensa obra, a presença marcante dessa influência não apenas na língua, seu preponderante instrumento de expressão, como nos personagens árabes ou de origem árabe que se misturam. (MEDAUAR, 1993, não paginado)

Em relação à influência do popular na obra de Jorge Amado, traço importantíssimo às elaborações românticas, sua presença seria reconhecida pelo próprio autor baiano, em entrevista a Eduardo de Assis Duarte, em dezembro de 1988, na qual também se refere ao contexto de atraso e de injustiça social no qual o Brasil estava inserido:

Na minha primeira juventude, minha quase meninice, quando comecei a trabalhar na imprensa e a ter contato com outros jovens ‘subliteratos retados’, nós vivíamos intensamente a vida popular baiana e nos revoltávamos contra as condições existentes de atraso e injustiça social, mas de uma forma muito vaga. Não havia nenhuma idéia mais precisa de ordem revolucionária, era uma rebeldia natural da juventude e muito literária, no sentido de fora da realidade. (AMADO, apud DUARTE, 1995, p. 339 – grifos nossos)

Na verdade, nascido em 1912, período do grande boom do cacau, que se iniciara na virada do século XIX, Jorge Amado assistiria à chegada dos imigrantes árabes, testemunhando seus esforços e suas estratégias de acomodação e sobrevivência na nova terra. Convivendo com os árabes desde a sua infância, o escritor baiano alimenta as suas narrativas com as lembranças dessa convivência amigável e duradoura, tornando-os importantes e significativos personagens de suas obras, como testemunha o poeta Jorge Medauar:

Quem poderá dizer que Jorge Amado não conviveu, no Vesúvio, na cidade de Ilhéus, com Nacib e Gabriela, por exemplo, já que a casa do grande romancista (hoje Fundação Cultural de Ilhéus) era vizinha daquele bar? Os Nazal, Medauar, Maron, Daneu, Chalub, eram famílias de Ilhéus, portanto pessoas de seu convívio. Daí a matéria prima. O retrato. A matriz. (MEDAUAR, 1993, não paginado)

Elemento recorrente na obra do escritor nordestino, a presença árabe encontra-se desde as suas primeiras narrativas, O país do carnaval, de 1931; Cacau, de 1933 e Suor, de 1934. Primeiras manifestações da escrita amadiana, esses primeiros textos seriam denominados, pelo próprio Jorge Amado, como cadernos de aprendiz de romancista, segundo afirma Assis Eduardo Duarte, estudioso da obra amadiana:

Jorge Amado costuma demarcar o início efetivo de sua obra romanesca a partir da publicação de Jubiabá em 1935. Os livros anteriores, País do Carnaval (1931), Cacau (1933) e Suor (1934), considera-os como experiência da juventude, simples ‘cadernos de aprendiz de romancista’, opinião de resto semelhante à boa parte da crítica. (DUARTE, 1995, p. 45)

Desses cadernos de aprendizagem romanesca, vítimas de desqualificação crítica do próprio autor, se iniciaria um modelo narrativo, marcado, acintosamente, pela presença árabe, em íntimo contato e solidariedade com o mundo brasileiro. Ironicamente, essas obras, responsáveis por um modelo narrativo incomum, tanto no conjunto de obras do Modernismo do Nordeste, quanto no acervo dos modernistas de São Paulo, seriam descartadas por Jorge Amado, apesar de desenharem, originalmente, as feições-mestras da maioria dos personagens de Jorge Amado, como se confere abaixo:

(Dona Maria era uma árabe muito magra que alugava todo o sótão e realugava os quartos. “Ganhava fortuna...” cochichavam pelos cantos os inquilinos) [...] Tão pequeno aquele sótão... E morava tanta gente nele! Na sala da frente D. Maria, a árabe, com dois filhos pequenos, chorões e sujos que punham o sótão e a escada em polvorosa com as suas brincadeiras [...] No quarto defronte morava outra árabe, que tinha um nome complicado que se reduzira a Fifi. D. Fifi, mãe de um filho malandrão, já homem (seus dezessete anos), que só vinha em casa buscar dinheiro para a farra. Vivia no meio de moleques da pior espécie, a calotear mulheres nojentas da Ladeira do Tabuão. Quando dormia em casa vez por outra, ficava nu no mesmo quarto com a mãe que, deitada [...] não cansava de reclamar o seu modo de vida. Ele a xingava muito em árabe. Às vezes, escapava alguma palavra em português que as vizinhas atentas percebiam. (AMADO, 1979 1, p. 70-71)
A casa acordava aos poucos. Na pia do sótão lavavam os rostos. A venda de Fernandes abria as portas, homens apareciam no pé da escada. Toufik juntou-se à negra: – Bom dia, sinhá Maria. – Bom dia meu branco. – Não vai descer? Ela esticou o dedo apontando o embrulho de papel de jornal. Toufik assobiou. – Um feitiço, puxa! Pra quem será? O árabe também acreditava. E quem não era dominado pela religião bárbara dos negros? (AMADO, 1980, p. 69)

Inaugurando, no Modernismo do Nordeste, uma recorrência que chegaria à literatura de nossos dias, como comprova a obra de Milton Hatoum, Jorge Amado inunda suas narrativas de criaturas árabes, tematizando, dessa forma, a nossa própria constituição cultural, que se vai configurando pelas tintas da mestiçagem, da interação cultural.

Nesse patriotismo regional, como classifica Antonio Candido, Jorge Amado cria um mundo ficcional habitado pelos imigrantes árabes, tornados, em suas ficções, elementos de nossa própria identidade cultural, numa configuração de suas personagens árabes, como membros do corpo brasileiro, posto que íntima e indissoluvelmente entranhadas ao Brasil.

Nesse entranhamento, circulam na obra de Amado, apesar do sotaque árabe, os mais variados tipos nacionais, do malandro ao capitão da areia, atendendo ora por nomeações brasileiras, como é o caso de Dona Maria e de Dona Fifi, personagens árabes femininas d’O país do carnaval, primeiro romance amadiano, ora por nomes e sobrenomes árabes, como é o caso do próprio Nacib que, representado, ao longo da narrativa, continuadamente como bom brasileiro, se manifesta, em momentos de emoção, na língua árabe:

E por mais espantoso que pareça, naqueles dias vibrantes do comício, no maior deles, quando dr. Ezequiel bateu todos os recordes anteriores de cachaça e inspiração, Nacib pronunciou um discurso. Deu-lhe uma coisa por dentro, depois de ouvir Ezequiel. Não agüentou, pediu a palavra. Foi um sucesso sem precedentes sobretudo porque, tendo começado em português e faltando-lhe as palavras bonitas, pescadas dificilmente na memória, ele terminou em árabe, num rolar de vocábulos sucedendo-se em impressionante rapidez. Os aplausos não findavam. – Foi o discurso mais sincero e mais inspirado de toda a campanha – classificou João Fulgêncio. (AMADO, 1979 1, p. 327)

Nessa transfiguração do imigrante em tipo nacional, Jorge Amado consegue não apenas naturalizá-lo, mas inseri-lo em todas as esferas da vida brasileira, sejam elas públicas ou privadas. Nesse intento, desfilam pela obra de Jorge Amado o brasileiro-árabe mascate, o comerciante, seja proprietário de bares (como Nacib) seja proprietário de loja de calçados ou de outros tipos de comércio; o fazendeiro, o vagabundo, o contrabandista, o intelectual, o poeta, o alfaiate, a prostituta, a dançarina, o revolucionário, o estudante, o cirurgião-dentista, o advogado, o menor abandonado, o conquistador da terra baiana, em meio aos diversos tipos étnicos que formam o nosso mosaico cultural, como já percebera Jorge Medauar ao se voltar para a movimentação árabe no tecido romanesco de Jorge Amado:

Movimentando-se entre negros, crioulos, espanhóis ou portugueses criados para viverem o drama, a tragédia ou o amor que palpita nos romances desse autor que é o mais expressivo escritor da ‘nação grapiúna’ definida por Adonias Filho, outra não menos significativa expressão daquela ‘civilização’ tão particular. (MEDAUAR, 1993, não paginado)

Na realidade, ao privilegiar a presença árabe, em meio à sua construção identitária do sul da Bahia, Jorge Amado inauguraria um caminho estético, marcado pela ausência de estranhamento e por uma perspectiva de mão dupla, que ora realça o agudo sentimento árabe de pertencimento à nossa terra, com a correspondente e efusiva aprovação das personagens brasileiras, o que só é possível graças ao apagamento das diferenças e ao realce das similaridades culturais entre nós e os árabes; ora o caminho em que, numa estratégia claramente mais complementar, tanto o árabe quanto o brasileiro reconstroem, solidariamente, o espaço nacional, como se verifica, hoje, em Milton Hatoum.

Nesse itinerário narrativo, Jorge Amado tematiza o abrasileiramento árabe no interior da Bahia, enquanto põe e repõe em circulação um assimilacionismo de correspondência, o mesmo do qual se nutririam Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, mais ambiguamente, e Milton Hatoum, no século atual.

Ignorada e ocultada, ainda hoje, pelas mais variadas perspectivas acadêmicas que, ao renegarem a perspectiva do Naturalismo adotada por Jorge Amado, e por outros importantes autores de nossa literatura, condenam a obra do autor baiano a uma quase esterilidade crítica, ou a uma leitura de depreciação, a significativa contribuição estética do escritor grapiúna é, geralmente, encoberta por essas interpretações que a rebaixam à categoria de expressão menor, como exemplifica as observações críticas de Alfredo Bosi:

Cronista de tensão mínima, [Jorge Amado] soube esboçar largos painéis coloridos e facilmente comunicáveis que lhe franqueariam um grande e nunca desmentido êxito junto ao público. Ao leitor curioso e glutão a sua obra tem dado de tudo um pouco; pieguice e volúpia em vez de paixão, estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez de captação estética do meio, tipos ‘folclóricos’ em vez de pessoas, descuido formal a pretexto de oralidade... [...] O populismo literário deu uma mistura de equívocos, e o maior deles será por certo o de passar por arte revolucionária. (BOSI, 1980, p. 456-457)

Considerando Jorge Amado como cronista de tensão mínima e a sua obra como uma mistura de equívocos, Alfredo Bosi procede a uma dura crítica às narrativas amadianas. Assim, ressalta como caracteres dos romances amadianos o descuido formal, a orientação populista, a pieguice e a velha perspectiva pitoresca, comum às nossas primeiras elaborações identitárias. Nessa visão, procede a uma classificação, ou mais precisamente a uma desclassificação, das narrativas de Jorge Amado:

Na sua obra podem-se distinguir: a) um primeiro momento de águas-fortes da vida baiana, rural e citadina (Cacau, Suor) que lhe deram a fórmula do “romance proletário”; b) depoimentos líricos, isto é, sentimentais, espraiados em torno de rixas e amores marinheiros (Jubiabá, Mar Morto, Capitães da Areia); c) um grupo de escritos de pregação partidária (O Cavaleiro da Esperança, O Mundo da Paz); d) alguns grandes afrescos da região do cacau, certamente suas invenções mais felizes, que animam de tom épico as lutas entre coronéis e exportadores (Terras do Sem-Fim, São Jorge dos Ilhéus); e) mais recentemente, crônicas amaneiradas de costumes provincianos (Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos) [...] Na última fase abandonam-se os esquemas de literatura ideológica que nortearam os romances de 30 e 40; e tudo se dissolve no pitoresco, no “saboroso”, no “gorduroso”, no apimentado do regional. (BOSI, 1980, p. 457)

Longe de se constituir como uma visão particular e isolada, a leitura de Alfredo Bosi é paradigmática da recepção acadêmica à obra de Jorge Amado, como demonstram as observações da ensaísta Walnice Nogueira Galvão e as de Tânia Pellegrini, professoras de Literatura de importantes centros acadêmicos. Nessas observações, abaixo descritas, essas duas intérpretes assinalam, à maneira de Bosi, a ausência do trabalho e do rigor formal na obra amadiana, enquanto apontam a perspectiva mercadológica como norteadora da produção do escritor baiano:

Quanto nós, entra ano sai ano, aguarda-nos mais um romance de Jorge Amado, reiterando seu amaneiramento, apenas aguçando seus instrumentos para pior. Os livros são cada vez mais volumosos, o que lhes aumenta o preço e a decorrente quantia para o autor sobre o total da venda. Há, cada vez mais, trechos obviamente repetidos; percebe-se que são três ou quatro versões de um mesmo episódio [...] Cada vez mais, há menor elaboração artística [...] A bandeira progressista de Jorge Amado é o populismo. (GALVÃO, 1976, p. 15-16)
Tomando o conjunto da obra de Jorge Amado, o que na verdade se percebe é uma acentuação gradativa daquilo que era apontado como fragilidade ou deslize, na mesma proporção em que se dilui seu traço de força maior, a saber, a fusão harmoniosa entre documento e poesia, espécie de chave de sua fórmula estética, nos primeiros romances. O que prevaleceu parece ter sido o “mínimo de literatura” como compromisso estético, enquanto o “máximo de honestidade”, como compromisso ético, foi aos poucos adquirindo conotações mais ligadas à lógica da mercadoria. (PELLEGRINI, 1999, p. 128)
Leitor atento de Jorge Amado, Paulo Bezerra, estudioso e tradutor da literatura e da teoria russa entre nós, se contrapõe, com indignação, a essa corrente do pensamento crítico-acadêmico, reconhecendo-a como absurda, responsável por uma lacuna injustificável em nossas interpretações do acervo literário nacional, segundo denuncia em seu prefácio à obra de Eduardo Assis Duarte, Jorge Amado: romance em tempo de utopia, publicada em 1995:

Entre os absurdos que a universidade brasileira comete, há um que certamente chega ao paroxismo: a ausência de estudos sistemáticos e abrangentes sobre a obra de Jorge Amado, o nosso escritor mais lido dentro e fora do país. Essa lacuna, injustificável sob qualquer motivo, deve-se a vários fatores, um dos quais ligado ao falacioso argumento de que a obra do romancista baiano seria de baixa qualidade estética, o que a tornaria desmerecida de integrar o Olimpo das obras pesquisáveis. Daí a ausência ou o número ridiculamente irrisório de teses sobre Jorge Amado nas nossas universidades. (BEZERRA, 1995, não paginado)

Nesse entendimento. Paulo Bezerra afirma que essa posição teórico-acadêmica seria decorrente do preconceito estético, em face da convenção estética adotada por Amado, mascarador, por sua vez, do preconceito ideológico, que vitima, freqüentemente, a obra amadiana. Em sua interpretação da recepção crítica a Jorge Amado, acusaria também o despreparo teórico dessa postura crítica que a incapacitaria, segundo Bezerra, à compreensão das convenções que sedimentam o projeto amadiano:

Por sua vez, a crítica da obra amadiana tem-se caracterizado, com raras exceções, pela falta de abrangência e profundidade, por um preconceito estético que freqüentemente mascara o preconceito ideológico e, principalmente, pelo despreparo teórico para compreender o real significado da obra, além do desconhecimento das matrizes populares que a alimentam. Em vista disso, mantém-se quase sempre alheia à natureza do projeto amadiano, passando à margem ou simplesmente ignorando as convenções de que o autor lançou mão para concretizá-lo. (BEZERRA, 1995, não paginado)

De forma similar, Eduardo de Assis Duarte se debruçaria sobre a questão da recepção crítica a Jorge Amado. Numa clara demonstração de confluência entre a sua perspectiva e a do prefaciador de sua obra, Assis Duarte acentuaria na “Apresentação” de sua obra o alheamento crítico em face da natureza do projeto amadiano e das convenções adotadas pelo autor baiano para concretizá-lo. Esse alheamento, somado a uma perspectiva critica que privilegia os parâmetros estéticos do modernismo, seria, segundo Assis Duarte e Paulo Bezerra, a razão da reserva crítico-acadêmica e da incompreensão do discurso romanesco de Jorge Amado:

A crítica brasileira, salvo raras exceções, poucas vezes dedicou-se a uma leitura do romance amadiano que levasse em conta a natureza de seu projeto ou as convenções adotadas para a sua concretização. Marcada pelas balizas estéticas do modernismo, dedicou-se em grande parte ora uma crítica dos defeitos, ora a uma crítica das belezas, para ficarmos com as expressões de Agripino Grieco. No primeiro caso, buscando ressaltar tão somente as fragilidades, no segundo, apenas os méritos e, em ambos, não conseguindo uma compreensão mais profunda e global desses escritos. (DUARTE, 1995, p. 37 – grifos do autor)

Nesse caminho interpretativo, Assis Duarte procederia a uma leitura dos textos críticos acerca de Amado, em especial dos ensaios de Álvaro Lins, depreciador da obra amadiana, e do texto de Roger Bastide que, levando em conta a convenção naturalista de Jorge Amado, acentua a inovadora contribuição efetuada pelo escritor nordestino, na transformação dessa herança estética entre nós. A partir dessa leitura de revisão, Eduardo Duarte se voltaria para o projeto amadiano e dos recursos utilizados para a sua concretização. Em sua apreciação do projeto amadiano, problematizaria, novamente, as pesquisas elaboradas acerca do conjunto da obra de Jorge Amado:

Tal projeto tem como premissa básica a ampliação do horizonte recepcional da obra. ‘Escrever para o povo’ constitui-se como meta primordial e ponto de partida para a adoção de uma linguagem marcada pela oralidade, com o uso do coloquial configurando-se grande traço distintivo da expressão amadiana. No plano do enredo, essa busca do popular leva à absorção dos esquemas de aventura e heroísmo amplamente disseminados, seja no cordel ou no romance de folhetim, seja no melodrama, na novela radiofônica ou no cinema popular da época. Ao lado disso, há um inconfundível acento emotivo, de origem melodramática, perpassando os enredos. Ao invés de pesquisar o porquê desses recursos, alguns críticos preferiram o caminho mais cômodo de apontar a ‘pieguice’ ou o ‘romantismo’ de determinadas soluções, pouco contribuindo para o entendimento da questão. (DUARTE, 1995, p. 39)

Mais recentemente, Lúcia Lippi Oliveira (2002), numa leitura orientada pelo recorte étnico-identitário, se aproximaria das perspectivas de Eduardo de Assis Duarte e de Paulo Bezerra. Ao se deter sobre Jorge Amado, especialmente sobre as suas representações das gentes baianas, reconhece a importância de Jorge Amado, tanto como romancista, quanto como intelectual. Observando a constituição do povo baiano, na qual se verifica a ostensiva presença de negros e mestiços, e os preconceitos que, historicamente, cercam essas populações, Lúcia Lippi veria a obra amadiana como signos literários responsáveis pela redefinição e pela reinterpretação dos traços culturais baianos, ao mesmo tempo em que assinala a ruptura amadiana com as idéias que alimentaram a escola Baiana de Medicina, especialmente com a visão de Nina Rodrigues:

Não por acaso é na Bahia, profundamente impregnada de preconceitos raciais, que se desenvolve a Escola Baiana de Medicina, com Nina Rodrigues à frente, absorvendo da Europa a ciência racialista que classifica os povos a partir de traços raciais! É também na Bahia, pela obra de Jorge Amado, que se reconstrói nova versão da mistura das três raças originais e se produz a imagem do paraíso racial. Os personagens de seus romances, na maioria figuras populares, mestiças, falam da alegria, da sensualidade, da sexualidade, do sincretismo religioso. Jorge Amado, entre outros, pode ser tomado como romancista, como intelectual, que produziu uma mudança de sinal interpretação dos traços da cultura baiana. (OLIVEIRA, 2002, p. 44)

Escritor engajado, atento às vicissitudes de seu tempo, Jorge Amado entranha, à sua tessitura narrativa, as suas perspectivas e anseios políticos. Nesse entranhamento, nos legaria um conjunto textual no qual se pode aferir, simultaneamente, as suas opções estéticas e as suas reivindicações políticas, num comportamento pouco raro entre os nossos literatos, como assinala Eduardo de Assis Duarte ao se voltar para o contexto escritural brasileiro, dos fins do século dezenove e inícios do século vinte:

No Brasil, em cuja história a literatura e a política andaram quase sempre de mãos dadas, este é o momento em que muitos escritores começaram a querer dar as mãos aos operários. A onda de agitações e greves do período 1917-1920, encabeçada pelos anarquistas e anarco-sindicalistas, funciona como reflexo, embora longínquo, dos acontecimentos russos, e dá oportunidades a intervenções como as de Lima Barreto [...] Avançando um pouco o retrospecto histórico, pode-se notar que o ano de 1922 enseja três acontecimentos de importância decisiva na carreira de Jorge Amado: a Semana de Arte Moderna, o levante do Forte de Copacabana e a fundação do PCB [...] No caso específico de Jorge Amado, modernismo, tenentismo e comunismo funcionarão como referenciais muito precisos numa trajetória em que política e literatura vão caminhar lado a lado. (DUARTE, 1995, p. 22-23)

Na verdade, não obstante as diversidades, de objetivos e de organização textual, verificadas entre o discurso literário e o discurso científico da sociedade, essas modalidades discursivas apresentam um contínuo diálogo que acirra o debate sobre o contraponto entre o discurso artístico e o discurso sociológico, principalmente quando a temática trabalhada, a exemplo da de Jorge Amado, diz respeito às questões nacionais, como ressaltam o filósofo Octávio Ianni, ao discorrer sobre as afinidades entre a literatura e a sociologia e o crítico Antonio Candido, ao ressaltar o caráter empenhado de nossa literatura:

É mais do que evidente que a sociologia e a literatura nascem e desenvolvem-se desafiadas, influenciadas ou fascinadas pela questão nacional. Colaboram decisivamente na elaboração do mapa da nação, ajudando a estabelecer o território e a fronteira, a história e a tradição, a língua e os dialetos, a religião e as seitas, os símbolos e as façanhas, os santos e os heróis, os monumentos e as ruínas. (IANNI, 1999, p. 14)

Tanto no caso da literatura messiânica e idealista dos românticos, quanto no caso da literatura realista, na qual a crítica assume o cunho de verdadeira investigação orientada da sociedade estamos em face de exemplos de literatura empenhada numa tarefa ligada aos direitos humanos. No Brasil isto foi claro nalguns momentos do Naturalismo, mas ganhou força real sobretudo no decênio de 1930, quando o homem do povo com todos os seus problemas passou a primeiro plano e os escritores deram grande intensidade ao tratamento literário do pobre. Isso foi devido sobretudo ao fato do romance de tonalidade social ter passado da denúncia retórica, ou da mera descrição, a uma espécie de crítica corrosiva, que podia ser explícita, como em Jorge Amado, ou implícita, como em Graciliano Ramos [...] mas que contribuíram para formar o batalhão de escritores empenhados em expor e denunciar a miséria, a exploração econômica, a marginalização, o que os torna [...] figurantes de uma luta virtual pelos direitos humanos. (CANDIDO, 1995, p. 255-256)

Voltado para as questões identitárias no Brasil, em cujas representações deixa as marcas de sua trajetória literária e política em nossa vida contemporânea, no Brasil e no exterior, Jorge Amado vai impregnar a sua obra de um realismo manifesto, que o filiará ao naturalismo francês, em especial ao de Émile Zola, autor de sua admiração e de sua predileção sentimental, segundo afirma, em 1992, em entrevista à Folha de São Paulo:

Divido os escritores franceses entre os que amo e admiro e aqueles a quem simplesmente admiro. Flaubert não é do meu amor. Mesmo Balzac, um imenso escritor, não é dos meus preferidos. Entre os franceses, o que me diz mais mesmo é Zola. (AMADO, 9.8.1992)

As escolhas ou preferências de Jorge Amado, no que diz respeito à perspectiva literária do Naturalismo e a Zola, longe de serem gratuitas se adéquam ao seu projeto e aos seus intentos literários, como se apreende da leitura de suas obras e da observação das linhas norteadoras da vertente naturalista. Para essa compreensão, concorre a obra de Flora Süssekind, Tal Brasil, qual romance?: uma ideologia estética e sua história: o naturalismo, publicada em 1984.

Longe de ver a gratuidade e/ou o mero prestígio das idéias européias como elementos motivadores da calorosa e duradoura recepção ao Naturalismo entre nós, Flora Süssekind procede a um verdadeiro inventário crítico acerca do Naturalismo, utilizando-se das mais variadas fontes críticas. Em sua leitura, ressalta a filiação de Jorge Amado a essa tradição estética, aproximando-a a Aluísio Azevedo, a José Lins do Rego e a Zola:

Em O Cortiço
, romance exemplar da virada do século, usa Aluísio Azevedo como uma de suas epígrafes um dos mais conhecidos enunciados do Direito Criminal: ‘La vérité, toute la vérité, rien que la vérité’. Na nota introdutória de 1933 a Cacau, avisa, por sua vez, Jorge Amado: ‘Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia’ [...] Diante da ênfase nos ciclos se poderia perguntar [...] Por que Cacau se desdobra em Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus? Por que Menino de Engenho continua em Doidinho, Bangüê, Moleque Ricardo e Usina? Por que um ‘ciclo’ do cacau e um ‘ciclo’ da cana-de-açúcar? A idéia do ciclo não chega a ser exclusiva dos anos Trinta. Basta lembrar o ciclo dos Rougon-Macquart de Zola. Ou o esboço de um ciclo romanesco que Aluísio Azevedo apresentara num artigo de 1885, publicado em A Semana. (SÜSSEKIND, 1984, p. 36; 162-163)

Apoiada em Adonias Filho, Antonio Candido, José Guilherme Merquior, Nelson Werneck Sodré, Otto Maria Carpeaux, entre outros, Flora Süssekind reconhece os vínculos de afinidades entre o discurso literário brasileiro, recorrente na incessante busca de nossas identidades, e as linhas norteadoras da estética naturalista, em especial as da busca da referencialidade, do documental, apropriadas às construções de nacionalidade, como se lê em seu discurso abaixo, no qual insere a leitura de Adonias Filho:

Normalmente, procura-se uma literatura que, ao documentar o país, pareça acreditar na existência de uma identidade nacional. Uma literatura que, não se indagando como linguagem, funcione no sentido de exterminar quaisquer dúvidas, digam elas respeito à ficção ou ao país. O que corrobora algumas observações de Adonias Filho a respeito da vinculação do romance brasileiro ao documentário: “O país nele pode encontrar a sua identidade. E pode encontrá-la sobretudo porque, em estado de testemunho, guardando as imagens como em um espelho, não anula em sua fixação as percepções dos romancistas”. A estética naturalista funciona, portanto, no sentido de representar uma identidade para o país, de apagar, via ficção, as divisões e dúvidas [...] É em sentido literalmente oposto a essa fragmentação que se constroem os textos pautados numa estética naturalista. (SÜSSEKIND, 1984, p. 43-44 – grifos da autora)

Em relação à preferência brasileira por Émile Zola, como a manifesta explicitamente Jorge Amado, Flora Süssekind, utilizando-se das ponderações de Merquior, ressalta o caráter pragmático da acolhida dos nossos escritores à estética de Zola, descartando, mais uma vez, o simples prestígio das idéias européias como fator determinante das escolhas brasileiras:

Não se procura observar por que justamente o naturalismo entrou em moda e que vínculos orgânicos mantinha com o sistema intelectual brasileiro para que adquirisse tão grande repercussão. Não é qualquer “idéia estrangeira” que recebe acolhida tão boa. Em meio às diversas sementes intelectuais lançadas à terra nem sempre tudo “dá”. Em meio a Flaubert e Zola, escolheu-se o último. Coisa de que o próprio Merquior se dá conta na sua Breve História da Literatura Brasileira: “Foi o romance naturalista à Zola, que trocou a objetividade esteticista de Flaubert pela análise de pretensões científicas, que constituiu, entre nós, a primeira manifestação de peso de um estilo pós-romântico”. Prefere-se Zola a Flaubert, como entre Marx, Comte e Spencer, escolhem-se os dois últimos. Não é muito difícil perceber o que se repete nas escolhas. Não se trata de “plágio” ou de “imitação” indiscriminados. A preferência é sempre por qualquer pensamento que ajude a estabelecer um conjunto de identidades, leis e semelhanças. (SÜSSEKIND, 1984, p. 53)

A perspectiva estético-ideológica adotada e o seu compromisso seriam, recorrentemente, tematizados por Jorge Amado, em seus escritos. Essa insistente tematização se efetivaria das mais variadas formas discursivas. Seja através de entrevistas, seja como elemento de seu próprio discurso romanesco, como se observa em São Jorge dos Ilhéus (1940), ou como elementos paratextuais, como se verifica em Cacau:

Joaquim trata Sérgio com mostras de grande respeito, dá importância ao que o poeta faz e durante muito tempo negou-se a opinar sobre os seus poemas. Porém, certa vez, muito instado pelo poeta, perguntou-lhe por que ele escrevia poesia revolucionária numa forma que nenhum operário poderia ler. Sérgio levara semanas preocupado com o problema e foi devido a essa observação que mudara seus ritmos e procurava, agora, numa busca por vezes frutífera, os ritmos populares. (AMADO, 1981 2, p. 140 – grifos nossos)

Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário? (AMADO, 1980, p. 8)

Se, no fragmento de São Jorge dos Ilhéus, é o narrador amadiano quem expressa, através do personagem Joaquim, seu projeto escritural, estruturado em dois eixos solidários, o militante e o popular; na epígrafe de Cacau, seria o próprio Jorge Amado quem, revestido do poder autoral, revelaria a sua perspectiva estético-ideológica.

Tornada num leitmotiv crítico de realce da “pouca literatura” amadiana, a epígrafe de Cacau revela, antes de tudo, uma faceta do Modernismo brasileiro que, em suas várias vertentes complementares, busca novas formas de expressão, de redefinição do papel da literatura e do escritor, de reinterpretação da cultura e do homem brasileiro, numa continuidade que se processa via desvio, via descontínuo, ou pelo endosso das velhas soluções propostas, como observa Wilma Mendonça (2002, p. 20). Na realidade, “o mínimo de literatura” e o “máximo de honestidade” amadianos indiciam a busca literária do escritor nordestino em resolver a contradição que caracteriza nossa cultura, como afirma Antonio Candido, como também o seu engajamento ao contexto escritural e social de sua época, como se apreende das palavras de Luiz Lafetá, em seu estudo sobre o projeto estético e ideológico do Modernismo e da análise de Eduardo Assis Duarte sobre a narrativa Cacau:

Talvez se possa dizer que os romancistas da geração de Trinta, de certo modo, inauguraram o romance brasileiro, porque tentaram resolver a grande contradição que caracteriza a nossa cultura, a saber, a oposição entre as estruturas civilizadas do litoral e as camadas humanas que povoam o interior [...] a massa começou a ser tomada como fator de arte, os escritores procurando opor à literatura e à mentalidade litorâneas a verdade [...] No trabalho de revelação do povo como criador, que assinalei atrás, nenhum escritor se apresenta de maneira mais característica do que o Sr. Jorge Amado. (CANDIDO, 1992, p. 45-49 – grifos do autor)

Decorre daí que qualquer nova proposição estética deverá ser encarada em suas duas faces (complementares e, aliás, intimamente conjugadas; não obstante às vezes relacionadas em forte tensão): enquanto projeto estético, diretamente ligada às modificações operadas na linguagem, e enquanto projeto ideológico, diretamente atada ao pensamento (visão de mundo) de sua época. [...] na verdade o projeto estético, que é a crítica da velha linguagem pela confrontação com uma nova linguagem, já contém o seu projeto ideológico. O ataque às maneiras de dizer se identifica ao ataque às maneiras de ver (ser, conhecer) de uma época; se é na (e pela) linguagem que os homens externam sua visão-de-mundo (justificando, desvelando, simbolizando ou encobrindo suas relações reais com a natureza e a sociedade) investir contra o falar de um tempo será investir contra o ser desse tempo [...] Tal coincidência entre o estético e o ideológico se deve em parte à própria natureza da poética modernista. (LAFETÁ, 1974, p. 11-13 – grifos do autor)

O “mínimo de literatura” expressa, antes de tudo, oposição à retórica da pompa e circunstância, ao “falar difícil das classes dominantes e da tradição bacharelesca herdada do Império. Acoplado ao “máximo de honestidade”, soa como declaração de guerra à tradição ficcional idealizadora da vida no campo e porta-voz da ideologia do latifúndio. Uma literatura que propagava as imagens do bom senhor e do escravo contente, vivendo num ”paraíso” de fartura e inocência, livre de sofrimentos, longe das contradições. (DUARTE, 1995, p. 58 – grifos do autor)

Na verdade, em sua proposição modernista, Jorge Amado assenhora-se das linguagens populares da Bahia através das quais organiza a sua visão de mundo, em face dos problemas sociais do cenário nordestino. Nessa conjunção, se tornaria num dos escritores de maior repercussão popular entre nós, na mesma medida em que sofre restrições da crítica acadêmica.

Reconhecidamente um dos autores brasileiros mais conhecidos e festejados no Brasil e no exterior, Jorge Amado tinha ciência de que, não obstante o inegável sucesso editorial de sua obra, esta se movia com dificuldades entre os teóricos da literatura no Brasil, como revela em O sumiço da Santa: uma história de feitiçaria: romance baiano, publicada em 1988:

Inegável audácia de um Autor, velho de idade e de batalhas perdidas, que ainda não conseguiu levar a crítica literária a se esporrar de gozo com a leitura de seus tapácios, de linguagem escassa, vazios de idéias, populacheiros. Quem não estiver de acordo com a inovação não é obrigado a ler. (AMADO, 1992, p. 409-410)

Levando em consideração o projeto literário de Jorge Amado, e as soluções estéticas por ele utilizadas para concretização de seu intento, nos voltaremos, através de um recorte étnico-identitário, à maneira, embora noutra direção, de Lúcia Lippi de Oliveira, para a leitura da narrativa amadiana, Gabriela cravo e canela: crônica de uma cidade do interior, na qual se verifica, através do intercurso amoroso entre o árabe Nacib Saad e a sertaneja mestiça do Nordeste, Gabriela, a representação do imigrante árabe no interior da Bahia.

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Fonte:
VALTER LUCIANO GONÇALVES VILLAR: “A PRESENÇA ÁRABE NA LITERATURA BRASILEIRA: JORGE AMADO E MILTON HATOUM”. (Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Letras da Universidade Federal da Paraíba, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Literatura Brasileira. Orientadora: Profa. Dra. Wilma Martins de Mendonça). João Pessoa, 2008.

Nota
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