A presença de Aristóteles



Aristóteles soube eternizar-se nos seus feitos teóricos. Após a sua morte, em 321 a. C., Teofrasto, que fora aluno de Platão, tendo-se tornado amigo e discípulo de Aristóteles, sucedeu-lhe no comando do Liceu (Laêrtios, 1977: 137 e 138), mantendo as suas célebres atividades. A partir do século III a.C., porém, com o surgimento das chamadas escolas do período helenístico, — das quais as mais importantes são o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo, — que respondiam aos anseios resultantes da nova situação política da Grécia, agora parte do império macedônio, e por isso gozavam de muita popularidade, o aristotelismo foi-se obscurecendo. A partir do século I a.C., porém, renovou-se o interesse pelo pensamento peripatético, que ganhou consideráveis e célebres comentadores, pelos quais grande parte das obras de Aristóteles se conservou até o final da Antigüidade. Daí em diante, novo obscurecimento, mas desta vez em razão do prestígio do platonismo entre os Padres da Igreja, o qual deveria servir de base para o estabelecimento da teologia nos séculos seguintes.

No século XII, muitas obras de Aristóteles esquecidas ou consideradas perdidas começaram a aparecer na Europa, trazidas pelos árabes. Traduções em latim foram feitas e, apesar da proibição da Igreja (em 1211 o concílio de Paris proibiu o ensino do aristotelismo, e, em 1215, foi proibida a leitura da Metafísica e da Física), grande foi o interesse e a sua procura por parte dos intelectuais, que, admirados da riqueza e originalidade daquelas obras, não as puderam desprezar. Dado o entusiasmo geral e a impraticabilidade da proibição, o papa Gregório IX permitiu a propagação dos textos, contanto que fossem purgados das teses contrárias aos dogmas da Igreja. A volta das concepções aristotélicas no cenário europeu promoveu uma revolução intelectual cujos resultados deveriam impor-se até (e preparando) o advento da filosofia e da ciência moderna (Descartes, Galileu e Newton): “Durante uns quatro séculos, a filosofia de Aristóteles e sua ciência governaram o Ocidente virtualmente sem rival.” (Barnes, 1993: 143).

Santo Tomás de Aquino, ainda no século XIII, operou à cristianização da filosofia de Aristóteles. Sua grande capacidade analítica, aliada à sua profunda fé, permitiu-lhe construir uma teologia que aceitasse o arcabouço conceptual do aristotelismo, ainda quando fosse preciso proceder-lhe a alterações de interpretação em pontos importantes, como a doutrina acerca da essência e da existência.

Segundo Enrico Berti, a filosofia de Aristóteles continuou dominante ainda nos séculos XVII e XVIII nas universidades européias, “especialmente no que se refere à lógica, à metafísica (entendida como ontologia e teologia racional), e sobretudo à filosofia prática, isto é, a ética, a política, mas também à retórica e à poética.” (Berti, 1997, 7 e 8) A partir do século XIX, Aristóteles ressurge principalmente na obra de Hegel, e, no século XX, além do grande interesse de eminentes estudiosos como Werner Jaeger e David Ross, aquisições aristotélicas são reabilitadas no interior do pensamento de importantes filósofos, como Martin Heidegger, John Austin e Gilbert Ryle.

Aristóteles é ainda tão presente, continua Berti, porque o seu sistema, embora possa ser visto como um complexo articulado e orgânico, é aberto e tem uma versatilidade tal, que lhe permite ser suscetível de contínuas integrações e de muitas utilizações. Outra razão da sua atualidade consiste no amor que Aristóteles tinha pela experiência, pelos fenômenos em geral e, em particular, pelo fenômeno da vida. Suas obras não contêm intuições arbitrárias ou injustificáveis:

Aristóteles as esclarece, as explica, as argumenta, ele mesmo provavelmente tenha chegado a elas por uma investigação, uma discussão, uma argumentação. Mas são desde sempre os conteúdos do conhecimento, das descobertas, das informações importantes, não dos simples discursos, ou dos formalismos. Por isso freqüentemente, ainda hoje — e não por acaso é assim há dois mil anos —, a leitura de uma página de Aristóteles faz pensar, faz refletir, faz meditar, ensina algo acerca do sentido de certas realidades, algo diferente do que se pode aprender pelas obras de ciência ou de literatura, ou ainda de poesia. (Berti, 1997: 326)

Mas a presença de Aristóteles está para além dos sistemas e das filosofias de pensadores posteriores: a sua sobrevivência consiste sobretudo em ter fornecido conceitos e a terminologia pela qual a ciência e a filosofia se desenvolveram e se desenvolvem, como lembra Barnes:

Hoje, quando falamos de matéria e forma, de espécies e gêneros, de energia e potencialidade, de substância e qualidade, de acidente e essência, sem sabê-lo, estamos falando em linguagem aristotélica e pensando em termos e conceitos que foram forjados na Grécia faz dois milênios. (Barnes, 1993: 143)

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Fonte:
Fernando Coelho: “Uma Tradução Comentada das Categorias de Aristóteles Orientador: Prof. Dr. Mauri Furlan”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Estudos da Tradução: História, Crítica e Teoria da Tradução. Orientador: Prof. Dr. Mauri Furlan). Florianópolis, 2009.

Nota
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