A história das doenças

“A história das doenças sempre esteve intimamente ligada ao contexto social, produzindo significados que vão além de suas características biológicas, e são, sobretudo, fruto de um fenômeno cultural. As enfermidades revelam muito sobre as crenças, os costumes, as identidades, as organizações social e política, além da moral, e, por isso, sua compreensão tem sido cada vez mais ampliada para além do discurso médico-científico. “Assim como a história, a doença, como fenômeno social, também é uma construção”.

O vírus da peste negra foi a causa primeira o despovoamento da Europa. Mas a epidemia não se propagou tão rapidamente senão devido a determinadas condições sociais – portanto, na sua natureza profunda, mental – e os efeitos morais explicam-se apenas pelas predisposições particulares da sensibilidade coletiva
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Dilene do Nascimento (2005) , em sua análise comparativa entre a tuberculose e a Aids, concluiu que “as percepções médico-científicas, institucionais e sociais dessas doenças, (...) como representações de um mesmo fenômeno – a doença -, são construções nascidas de suas múltiplas imbricações”.

E esta construção inicia-se a partir do momento em que a doença surge como um problema, e, como tal, exige uma explicação. O doente, juntamente com grupos mais vulneráveis, acaba sendo responsabilizado pela disseminação do “mal” e, portanto, marginalizado pela sociedade. Não casualmente, os mais atingidos costumam ser as populações pobres, seja pela sua condição de higiene precária (fruto da má infraestrutura sanitária, sobretudo), falta de informação ou má alimentação (que deixa o organismo debilitado, predisposto a contrair doenças).

Da mesma forma que essa população carrega a culpa a ela atribuída pela pobreza do país, pela violência, pela ignorância, pela poluição das margens de rios, pela sujeira das cidades, pela má qualidade da programação da TV e por tantas outras que refletem as fraquezas sociais, ela mesma vira símbolo do agente patogênico social que precisa ser combatido.

A cada contexto histórico os significados das doenças são moldados, ganhando novos sentidos. O câncer, por exemplo, antes uma doença estigmatizada, apontada como castigo, vergonha e maldição para os doentes, é hoje reconhecido por acometer pessoas de forma distinta e com causas mais distintas ainda. Os avanços no diagnóstico e no tratamento do câncer e, fundamentalmente, a maior transparência junto aos familiares e amigos ajudaram a humanizar os doentes que agora encontram forças para combater a doença, de maneira democrática e digna. A tuberculose, por sua vez, já foi considerada glamurosa, acometendo apenas os hipersensíveis, talentosos, passionais e poetas, na primeira metade do século XIX, ganhou nova perspectiva quando passou a estar associada ao modo de vida insalubre dos trabalhadores urbanos, tornando seus doentes uma ameaça à ordem social. Na primeira metade do século XX torna-se mais temida que a hanseníase, pelos sanitaristas, e os portadores são vistos como detentores de um estilo de vida desequilibrado, com desordens emocionais. Hoje, com o aumento de casos da doença – o que está relacionado à Aids que enfraquece o sistema imune de seus portadores, deixando-os expostos ao bacilo Mycobacterium tuberculosis, causador da tuberculose - assistimos na televisão à campanha de combate à tuberculose de maneira aberta, tendendo a uma imagem que se restringe ao aspecto biológico.

Susan Sontag aponta algumas metáforas que estão freqüentemente associadas às patologias. A principal delas é a da peste, que enxerga as doenças coletivas como forma de castigo (divino) à comunidade (pecadora). O desconhecimento do agente patogênico favorece essa interpretação, embora, muitas vezes, o seu conhecimento não a anule completamente. Talvez o imaginário religioso esteja tão arraigado nas sociedades ocidentais e na brasileira, em especial, que mesmo com explicações científicas disponíveis, que se atêm ao mecanismo de ação da doença, permanece a necessidade de compreender o porquê, mais do que o como, fugindo do alcance científico. Essa metáfora pode ser ilustrada através da epidemia de sífilis que causava repulsa daqueles que transgrediam a moral e conduta desejadas socialmente - leia-se comportamentos sexuais -, uma vez que se trata de uma doença sexualmente transmissível (DST), assim como a Aids. Outra metáfora muito presente segundo Sontag é a do estrangeiro, que atribui ao outro a origem do “mal”, dando ao doente o status de algoz, alimentando a xenofobia ou o racismo. Não raras vezes as enfermidades têm seus nomes atrelados ao local da possível origem: foi assim com a gripe espanhola, a cólera asiática, o mal-francês (sífilis) e, mais recentemente, a pneumonia asiática. Tronca (2000) lembra que as doenças chinesas eram percebidas na América (e também na Europa) como mais letais e, acima de tudo, incuráveis. Uma delas foi a hanseníase, em 1870, atribuída aos chineses. A doença apareceria como pano de fundo de um perigo amarelo econômico que ameaçava o mundo ocidental. A antipropaganda contra os chineses e sua desmoralização eram estratégias, na verdade, para inibir o contínuo fluxo migratório chinês para os EUA, a partir de 1870. Sontag também enfatiza a metáfora militar generalizada em relação às doenças, que teria ganhado força, literalmente, a partir da Primeira Guerra Mundial, quando se alastram a gripe espanhola, a sífilis e o cólera, e na Segunda Guerra Mundial, com a tuberculose. Essa metáfora é até hoje bastante presente nos meios de comunicação para explicar os mecanismos de ação de um agente patogênico no corpo humano.

As doenças representariam o desequilíbrio social e nesta condição a sociedade procura identificar suas origens. No caso da epidemia de febre amarela, por exemplo, os negros foram condenados por serem responsáveis por levar a doença ao Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, no momento em que o governo atraía a mão-de-obra imigrante branca, para favorecer o embraquecimento da população. Os imigrantes eram mais suscetíveis às enfermidades, o que provocou um problema de ordem econômica e disseminou ainda mais preconceito contra os negros. Inúmeros sanitaristas e políticos apontavam a abolição da escravidão como um dos caminhos possíveis para diminuir o contágio da população branca. Neste caso, é interessante notar que, ao invés de serem apontados como culpados pelas epidemias, os imigrantes são vistos como vítimas, uma vez que faziam parte dos interesses políticos da nação.

Com a sífilis, os perseguidos foram as prostitutas, que eram responsabilizadas pela transmissão não apenas da doença mas também de comportamentos sexuais desviantes e promíscuos dentro da sociedade. Como uma justificativa divina, as doenças serviriam como uma punição para comportamentos à margem dos preceitos morais estabelecidos. “É como se punindo os culpados a sociedade pudesse se livrar daqueles que a corrompem. Foi assim, por exemplo, nas epidemias de hanseníase (século XIX, principalmente), sífilis (1920) e, finalmente, da Aids (a partir dos anos 1980).

Conseqüentemente, a tomada de medidas rígidas de controle de epidemias era uma medida comumente adotada pelas autoridades sanitárias sob o aval da maioria da população. Entre elas estavam a vigilância sanitária de moradias e estabelecimentos comerciais, o isolamento (quarentenas) e o seqüestro dos doentes. Os leprosários e os sanatórios de tuberculosos eram instituições destinadas a este fim que, com o pretexto de oferecer tratamento diferencial para os doentes, acabavam livrando a família e a sociedade da responsabilidade de conviver com eles.

Entre as soluções encontradas pelo Império estava a transferência de cortiços da região central para a periferia, uma vez que eles eram tidos como risco imediato à sanidade social, foco de sujeira e de germes. O sentimento de que o lixo, hábitos pouco higiênicos, a proximidade de cemitérios e a pobreza causavam doenças era a linha mestra da teoria dos miasmas. A urbanização ganha novo status e influência a partir do final do século XIX, quando há a construção de cidades como Belo Horizonte, que tirou de Ouro Preto o título de capital do Estado, ou a própria capital do Império, Rio de Janeiro, que sofre uma reforma profunda, aos moldes das capitais européias, como Paris – de ruas largas, calçadas e limpas, com casas ventiladas.

Durante epidemias, os jornais, assim como as autoridades de saúde e o governo aproveitam para difundir comportamentos e atitudes esperadas, como única forma de combater o “mal”, culpabilizando o cidadão pelas tragédias que ocorrem, muito mais do que tornando-o co-responsável.

Como dito acima, a ausência de explicações científicas para as doenças alimentava – e continua alimentando – crenças e mitos ao redor das doenças. Um dos meios mais eficientes de disseminação destes sentidos é através da imprensa, que com a justificativa de prestar serviços e ser porta-voz dos cidadãos, desempenha papel chave na construção junto à sociedade dos sentidos por trás de cada patologia. No livro Uma História Brasileira das Doenças (2004) estão presentes exemplos de críticas à atuação do governo durante epidemias, explicações sobre meios de prevenção (a limpeza é sempre enfatizada), receitas para o tratamento e, como não podia deixar de ser, a perpetuação de crenças através da imprensa: “Virá, pois, o cólera reformar-nos. Quem não vê que o Brasil ainda na infância tem a corrupção das outras nações na velhice? E quando essas nações sofrem a peste, a fome e a guerra poderia Deus na sua justiça poupar-nos?” (O Commercial, de Fortaleza, de 20 de setembro de 1855, retirado do capítulo de Francisco Carlos Jacinto Barbosa, p. 84).

A exemplo das conclusões a que chegou Susan Sontag em relação às metáforas das enfermidades, é comum na história das doenças que as epidemias do passado sejam recuperadas como analogias do presente, simplesmente de forma a relativizar os eventos de seu contexto. Charles Rosenberg, citado por Nascimento e Carvalho (pp. 25-26, 2004), por exemplo, acredita que as epidemias compartilham de padrões que se iniciam pela negação do surto, a necessidade posterior de explicá-las via moral, religião ou razão, seguidos pela tomada de medidas coletivas para o controle da crise e, finalmente, por um olhar retrospectivo sobre o episódio para dele extrair lições. Negar o fato de que, a cada episódio, construímos respostas a partir de experiências passadas e vividas, seria negar a importância da história em cada acontecimento. Portanto, tomarei o padrão proposto por Rosenberg como parâmetro para a investigação que se segue. No entanto, é preciso olhar além da repetição do passado e considerar os contextos históricos que permitiram, neste caso, que a Aids fosse construída de uma e não de outra maneira, respondendo aos padrões de comportamento pessoal e institucional vigentes na contemporaneidade. Mais ainda, verificar quais foram as condições sociais que beneficiaram o surgimento e a disseminação da Aids nos anos 1980.

Entre as epidemias mais importantes que assolaram o Brasil desde o final do século XIX, estão a de febre amarela nos anos 1850 e 1870, a varíola de 1834 a 1839, a gripe espanhola entre os anos de 1918 e 1919, de sífilis em 1920, e a dengue nos anos 1930 e, mais recentemente, de 1987-1990 e de 2000-2002. Nenhuma delas, porém, era recente ou desconhecida da humanidade, pelo contrário. A maioria delas, como é o caso da febre amarela e sífilis, já eram consideradas doenças centenárias, embora continuem matando, como a primeira, e infectando pacientes. Dessas todas, apenas a varíola foi considerada oficialmente erradicada em 1977.”

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É isso!

Fonte:
Germana Fernandes Barata: “A PRIMEIRA DÉCADA DA AIDS NO BRASIL: O FANTÁSTICO APRESENTA A DOENÇA AO PÚBLICO - 1983-1992. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História. Orientador: Prof. Dr. Gildo Magalhães dos Santos Filho). Universidade de São Paulo – USP. São Paulo, 2006.

Nota:
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