Pe. Cícero, Capelão de Juazeiro



“No dia 11 de abril de 1872 o Pe. Cícero fixou residência em Juazeiro. Com ele vieram sua mãe, suas duas irmãs e uma escrava forra chamada Tereza. Cinco meses depois, precisamente no dia 26 de setembro daquele ano Dom Luís o nomeou capelão da Capela de Nossa Senhora das Dores.

Durante aproximadamente vinte anos ininterruptos ele fora o capelão de Juazeiro, exercendo ali de forma plena seu sacerdócio. Os seus primeiros dezoito anos como presbítero naquele lugar foram objeto de elogios de muitos. Habitantes do povoado, gente do Cariri que o conhecia ou já ouvira falar dele, o primeiro e o segundo bispo do Ceará, seus companheiros de batina que nutriam por ele certa amizade, era expressivo o número de pessoas que o admiravam.

Pode-se dizer que durante aquele período ele havia construído uma fama de padre virtuoso e que seu trabalho pastoral em Juazeiro foi um sucesso, a ponto de mudar positivamente a reputação do povoado no Cariri. Diferentes registros, como cartas suas ou escritas pelos seus bispos, outras escritas a amigos seus ou deles recebidas, atestam que, de fato, ele era muito querido e admirado dentro desse seu amplo círculo de relacionamentos.

Portanto, reafirmar que ele era tomado por tantos como um padre virtuoso não é aqui um circunlóquio, mas uma forma de frisar que de alguma maneira os vinte primeiros anos de seu ministério em Juazeiro construíram a imagem de um sacerdote cujo empenho, eficácia e zelo pastoral podiam ser tomados como exemplares aos olhos de seus contemporâneos.

Mas, se os registros se encarregam de indicar este virtuosismo, o tempo e a admiração de muitos se encarregaram de dar contornos hagiográficos a estas primeiras décadas de presbiterado em Juazeiro. Daí que muitas vezes tornam-se tênues as fronteiras que separam o padre do santo. Nem sempre é possível saber com precisão até onde os relatos estão sendo hagiográficos, ou até de que maneira sustentam-se os fatos e percepções que foram produzidas de forma sincrônica pelos agentes neles envolvidos.

Considerando a possibilidade de que podemos nos perder dentro desse espaço onde são tênues as fronteiras do hagiográfico e do biográfico, cremos que uma boa proteção é procurarmos entender como o julgaram aqueles que com ele se relacionaram e viram seu modo de ser presbítero; saber se, de fato, ele fora tomado por um padre virtuoso por aqueles com quem conviveu ou pelos que, à sua época, tomaram conhecimento de como exerceu seu ministério.

Seguramente, o Padre Cícero que foi capelão de Juazeiro, entre 1872 e 1890, construiu uma reputação muito boa em torno de seu sacerdócio, sendo admirado e respeitado por muitos.

Como testemunho dessa sua reputação e do sucesso de seu trabalho pastoral em Juazeiro podemos invocar, por exemplo, as insuspeitas palavras do segundo bispo do Ceará, Dom Joaquim. Este bispo, quando em 1884 foi ao povoado para benzer a nova capela de Nossa Senhora das Dores, fez o seguinte comentário:

“A capela de Juazeiro, começada no princípio do ano de 1875 pelo Padre Cícero Romão Batista, sacerdote inteligente, modesto e virtuoso, é um monumento que atesta, eloqüentemente, o poder da fé e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, pois é admirável que um sacerdote pobre tenha podido construir um templo vasto e arquitetônico em tempos anormais, quais aqueles que atravessa esta diocese,
assolada pela seca, fome e peste”. (apud Barros, 1988: p. 138).

Dom Joaquim fora mesmo generoso na hora de avaliar e endossar as virtudes sacerdotais de Pe. Cícero, como mostra um trecho de uma sua carta, dirigida ao Tenente-Coronel Segundo, em 12 de julho de 1888, aproximadamente um ano antes da ocorrência do milagre de 1889:

“Desagradou-me, sobretudo a notícia do agravamento da enfermidade que acometeu o virtuoso sacerdote (Pe. Cícero); pois sei quão grande é a falta dos serviços dele nessas paragens... Deus queira que se realize o restabelecimento dentro de pouco tempo para que ele continue no efusivo apostolado... além disso, prevejo quanto serão dolorosos os seus padecimentos, posto que esteja convencido da resignação do seu grande coração”. (Guimarães, Dumoulin, 1983: p. 12).

Mas não era só esse bispo que depositava estima e admiração em Pe. Cícero. Com o tempo, ele lograra também ser admirado e querido por muitos colegas de batina, como atestam essas palavras do seu biógrafo Azarias Sobreira:

“Houve dias, antes de 1890, em que se podiam contar quatro, seis padres, procedentes de todas as direções, sentados à mesa do paupérrimo capelão de Juazeiro. Alguns deles, com o volver dos anos iam até lá com o propósito de se confessar a ele, que acabou sendo o modelador de sua conduta, menos pelo conselho e fraterna admoestação do que pelo atrativo do exemplo firmado em convicções profundas”. (Sobreira, Pe. A., “O patriarca de Juazeiro”, 1968, p. 44; apud Barros, 1988, p. 120).

Há aqui, nas palavras de Sobreira, um detalhe interessante que converge com a admiração e confiança do bispo no que diz respeito à admiração dos seus colegas padres. De fato, o bispo lhe dera autorização para confessar seus colegas sacerdotes, de tal forma que com o passar do tempo ele se tornou confessor e conselheiro para muitos clérigos, o que atesta o respeito e prestígio que havia alcançado como presbítero.

Mas além da admiração que os dois primeiros bispos do Ceará e os seus pares tinham por ele, sem dúvida o respaldo ao seu status de sacerdote virtuoso sustentava-se, principalmente no prestígio e autoridade que Pe. Cícero detinha junto à população de Juazeiro. Tanto que fora principalmente ali, entre eles, que teve início o tom hagiográfico alcançado pelos relatos da sua biografia e de seu sacerdócio.

A imagem de sacerdote probo, pastor capaz e exemplar que ele havia adquirido se sustentava por diferentes lados, por diferentes percepções e por diferentes agentes. São os seus contemporâneos que sustentam esse seu prestígio e status de padre virtuoso.

Entretanto, não podemos perder de vista que as virtudes não são necessariamente absolutas. Elas podem variar no tempo e no espaço. Ter sido um padre virtuoso no Ceará do final do século XIX não é exatamente o mesmo que ser um padre virtuoso no Brasil do início século XXI. É necessário, portanto, pensar essas suas “virtudes” vinculando-as e contrastando-as com o tempo e lugar dentro do qual elas existiram. Além disso, é preciso também considerar que as virtudes que lhe são atribuídas vinculam-se igualmente à sua prática sacerdotal. Afinal, o juízo dos seus contemporâneos, muito provavelmente, baseou-se numa avaliação dessa sua prática, na qual, em última instância, estavam expressas as concepções sacerdotais do Pe. Cícero."


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Fonte:
Antônio Mendes da Costa Braga: "Padre Cícero Sociologia de um Padre Antropologia de um Santo". (Programa de Pós-graduação em Antropologia Social Nível do trabalho: doutorado Área: Antropologia Social Orientador: Carlos Alberto Steil. Tese apresentada como requisito parcial à obtenção do título de doutor em Antropologia Social Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH). Porto Alegre, 2007.

Nota
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Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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