O que é Cultura


"Desde o final do século XVIII, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. O entendimento francês deu origem a um conceito universalista de cultura e a concepção alemã gerou um conceito mais particularista, em que a cultura constituiria o patrimônio de uma nação.

As duas perspectivas foram sintetizados pelo fundador da antropologia britânica Edward Tylor no vocábulo inglês Culture, que segundo o mesmo significava:

(...) este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade
(TYLOR; LARAIA, 2009:25).

Estudos posteriores iriam ampliar o conceito, incluindo a questão da evolução multilinear, já que Tylor não reconhecia o multiculturalismo alegando uma unidade psíquica da humanidade. Contrário à concepção evolucionista de Tylor, Franz Boas (LARAIA, 2009) foi um dos pesquisadores que mais influenciaram o conceito contemporâneo de cultura na antropologia americana. Em seus estudos, concluiu que a diferença fundamental entre os grupos humanos era de ordem cultural e não racial ou geográfica, reforçando assim a existência de culturas no sentido plural, ou seja, da diversidade cultural.

Uma contribuição importante ao conceito de cultura foi o reforço do aspecto dinâmico da mesma, que estaria em permanente desconstrução e reconstrução. Discussões atuais envolvem as questões da extensão da capacidade humana de superar sua carga genética e gerar cultura, adquirindo novas habilidades e conhecimentos; seu nível de subordinação ao meio cultural e o próprio processo de difusão cultural como elemento-chave das mudanças e manutenção de determinados aspectos culturais.

Marilena Chauí destaca outro aspecto que consideramos essencial para nossa pesquisa: a necessidade de tomarmos o sentido de cultura como uma invenção coletiva de símbolos, valores, id ias e comportamentos, “de modo a afirmar que todos os indivíduos e grupos são seres e sujeitos culturais” (CHAUÍ, 1995: 81).

Isaura Botelho destaca ainda a cultura como aquela dimensão que,

(...) levada às últimas consequências, tem em vista a formação global do indivíduo, a valorização dos seus modos de viver, pensar e fruir, de suas manifestações simbólicas e materiais, e que busca, ao mesmo tempo, ampliar seu repertório de informação cultural, enriquecendo e alargando sua capacidade de agir sobre o mundo. O essencial é a qualidade de vida e cidadania
(BOTELHO, 2001: 110).

A diversidade de enfoques pelos quais este termo é tratado concerne ao próprio caráter de transversalidade da cultura, que evoca interesses multidisciplinares, sendo estudada em áreas como sociologia, antropologia, história, comunicação, administração, economia etc. Albino Rubim chama a atenção para abordagens contemporâneas da cultura, como conseqüência de um fenômeno que ele denomina autonomização da cultura como campo singular (2007 A), que mobiliza mercados consumidores e permite novas atuações políticas, econômicas e sociais.

Para este projeto, iremos adotar um conceito mais contemporâneo de cultura, formulado pela Unesco, órgão que se tornou referência mundial na elaboração de políticas culturais - nosso foco principal. A Unesco destaca a cultura como um reflexo de crenças e valores compartilhados e estreitamente vinculados à identidade nacional e social. Esses valores podem ser estudados através principalmente dos resultados concretos das manifestações e expressões artísticas, na forma de bens e serviços materiais e imateriais.

Destacamos, então, três aspectos centrais do campo cultural: sua relação com modos de vida que caracterizam uma comunidade; sua característica de fator de desenvolvimento humano e seu entendimento como obras e práticas da arte, da atividade intelectual e do entretenimento. Primeiramente, para entendermos arte como cultura, propomos seu conceito antropológico:

A arte só pode ser (...) o homem como um todo único, vivo e concreto transformando a realidade exterior, partindo dela para fazer surgir uma nova realidade, ou obra de arte. (...) A arte só é conhecimento na medida em que é criação. Tão somente assim pode servir à verdade
(VÁSQUEZ; PEIXOTO, 2003: 37).

Desta forma, a arte pode ser considerada como cultura no sentido de transformação, ou seja, de desenvolvimento das atividades de reflexão e contemplação (visão de distanciamento e oposição ao mundo) que ela promove. A sensibilidade artística é resultante do desenvolvimento dos sentidos físicos e espirituais humanos, privilégio da espécie humana.

No entanto, é importante ressaltar que a arte, como todos os demais produtos da criação humana, é imanentemente social. Para Bakhtin, “o estético, como o jurídico ou o cognitivo, apenas uma variedade social” (BAKHTIN, 1976: 2). Ele acrescenta ainda que a comunicação estética e única e “não existe isoladamente, participa do fluxo unitário da vida social, ela reflete a base econômica comum” (BAKHTIN, 1976: 4).

Outro aspecto importante da arte é destacado por Umberto Eco, no seu conceito de obra aberta:

(...) passível de mil interpretações diferentes sem que isso redunde em alteração de sua irreprodutível singularidade. Cada fruição é, assim, uma interpretação e uma execução, pois em cada fruição a obra revive dentro de uma perspectiva original.
(ECO, 1997: 40)

Para Fischer (FISCHER; PEIXOTO, 2003), a grande função da arte é ser um meio de identificação do indivíduo com a humanidade e com a natureza, pois proporciona condições para que o mesmo conviva e divida modos de ver, apreender, compreender e sentir o mundo presente e também futuro, por projeções criadoras.

Aqui é importante ressaltar mais uma vez o caráter criativo da arte, sua função de trazer o novo e de reelaborar conteúdos da realidade material e subjetiva das sociedades, através da representação. É possível, através da mesma, apreender-se uma nova visão de mundo e ampliar-se a consciência da realidade, ou seja, pelo distanciamento e pela reflexão sobre o próprio pensar e sentir, criar-se uma percepção diferenciada de si e do mundo.

A experimentação artística também se estende cada vez mais, segundo Fredric Jameson (2006), atingindo atualmente a produção de mercadorias como vestimentas, mobiliário, edifícios e outros artefatos, além de seus campos mais tradicionais. A propaganda, por exemplo, seria inconcebível sem a mesma, destaca o autor.

Para podermos compreender melhor como a arte e a cultura se inserem na vida social e econômica, podemos considerar três tipos: arte erudita, arte popular e arte para as massas, que equivaleriam às categorias mais conhecidas de cultura erudita, cultura popular e cultura de massa.

Em relação à cultura erudita, encontramos nela uma suposta pureza e um caráter hermético, devido ao fato de que sua compreensão e apreciação exigiriam o domínio de códigos refinados, segundo Coli (2006). Para Gramsci, existe cultura popular na medida em que existe cultura dominante:

(...) ao lado da chamada cultura erudita, transmitida na escola e sancionada pelas instituições, existe a cultura criada pelo povo, que articula uma concepção do mundo e da vida em contraposição aos esquemas oficiais
(GRAMSCI; BOSI, 1977: 54).

Canclini ressalta outro aspecto do que considera arte popular:

(...) põe toda sua tônica no consumo não mercantil, na utilidade prazerosa e produtiva dos objetos que cria, não em sua originalidade ou no lucro que resulte da venda. (...). Seu valor supremo é a representação e a satisfação solidária de desejos coletivos
(CANCLINI, 1984: 49).

Já nas palavras de Ferreira Gullar:

Quando se fala em cultura popular, acentua-se a necessidade de pôr a cultura a serviço do povo, isto é, dos interesses efetivos do país. (...) O que define a cultura popular é a consciência de que a cultura tanto pode ser instrumento de conservação quanto de transformação social
(GULLAR, 1980: 83).

Sintetizando, a cultura popular, segundo esses autores, seria aquela que forma a identidade particular de um grupo, com a representação de suas necessidades coletivas. Para tratarmos como a mesma está representada estatísticas atuais do Nordeste, adotamos a concepção de Mário de Andrade em relação à sua abrangência e significado. Para o autor, a cultura popular envolve características, peculiaridades e legitimidade das experiências da coletividade.

A antropóloga Marisa Veloso Mota Santos lembra que Mário de Andrade em pesquisas de campo, procurou extrair elementos de uma estética nacional, através do que ele denominava sintomas de cultura - manifestações típicas da coletividade.

A meta de Mário de Andrade, e dos modernistas em geral – pesquisa nacional, descoberta da criação e da temática popular e erudita -, sempre se orientou pela busca da compreensão do comportamento e das necessidades brasileiras, além da própria reflexão estética. O que ele propunha era o conhecimento do povo brasileiro em profundidade, ligando-o a um dever-ser social, e mesmo político
(SANTOS, 1992:243).

Mário de Andrade entendia o artista como alguém imerso numa rede de significações históricas, que deve criar e utilizar símbolos e um imaginário a partir de sua realidade a fim de poder se comunicar com a coletividade à qual pertence. Ele percebe, ainda, qualquer identidade como o resultado de uma relação ambígua entre o passado tradicional e o impulso de avançar em direção à modernidade.

Outro aspecto bastante reforçado pelo autor é a reinvenção do popular, através de sua apropriação de elementos da arte erudita, possibilitando a expressão de um povo com suas particularidades e necessidades. Na realidade, será justamente o contato com a fonte popular que dará ao artista a oportunidade de participar ativamente da organização social de que também é parte. Só assim a cultura seria uma representação mais legítima da coletividade. O autor afirma, assim, que a identidade concretiza-se nessa situação de confrontamento.

Já a conceito de cultura de massas é originário do termo “indústria cultural” surge em meados dos anos 40, nos estudos de Adorno e Horkheimer (1985), fundadores da Escola de Frankfurt. A produção industrial dos bens culturais é caracterizada como um movimento global de produção da cultura como mercadoria.

Adorno e Horkheimer fazem uma crítica a esse movimento, que reduziria a experiência cultural como uma expressão social autêntica e crítica ao resultado de uma indústria padronizada, que se baseia no gosto das massas. A intrusão das leis do mercado na esfera cultural é vista por esses pesquisadores de maneira negativa, porque traz um “empobrecimento cultural” e a “fragmentação da consciência cotidiana” (1985).

Estudos mais atuais, como os de Pierre Bourdieu (1999), ressaltam a preocupação com as relações de dependência espiritual e material entre artistas e mercado, comprometendo-se assim a relativa autonomia do campo cultural. O autor destaca a necessidade de que os “profetas do novo evangelho neoliberal” não se esqueçam das especificidades dos bens culturais, quais sejam, aquelas relacionadas à formação intelectual e subjetiva dos cidadãos e o desenvolvimento de sua sensibilidade.

Friedrich Jameson (2006) ressalta, por exemplo, o fato do caráter marginal ou exótico das culturas minoritárias terem uma tendência a ser comercializado como novidade, como artigos da moda, o que não implica, no entanto, numa ruptura dos laços de dominação e das hierarquias de poder.

As indústrias audiovisuais, por exemplo, por suas próprias características e formas de expressão e comunicação, se converteram no mais poderoso recurso de promoção e publicidade direta e indireta da maior parte das indústrias de bens de consumo e serviços, assim como da economia em geral, impulsionadoras de pautas e comportamentos culturais que estimulam o consumo de todos os tipos de bens e serviços.

O capitalismo monopolista atrela ao desenvolvimento da indústria cultural a sua lógica de expansão. Para Bolaño,

(...) o espaço da cultura é fundamental na concorrência oligopólica que se estabelece em âmbito mundial em setores da indústria, do comércio e das finanças, seja cumprindo uma complexa função ideológica (...) seja porque se constitui um espaço de acumulação para certos blocos de capital, seja porque se vale (...) do feixe de canais utilizados para a circulação dos diferentes fluxos que irrigam a economia mundial: os fluxos de mercadorias, dinheiro, informação e trabalho
(BOLAÑO, 2000: 56).

No capitalismo contemporâneo, o consumo torna-se o elo entre economia e cultura. Aparentemente democrática, esta informação de massa oculta determinações de classe e seu acesso depende de fatores como tecnologia e modelos regulatórios, determinados na luta pela hegemonia cultural. A produção hegemônica se organizará no sentido de permitir os movimentos de massificação e individuação; fragmentação e integração social.

Como afirma o autor, o papel produtivo das comunicações, da informação e da cultura seria principalmente o de “eficazes instâncias de mediação entre as necessidades de acumulação capital e a reprodução simbólica do mundo vivido” (BOLAÑO, 2000: 56).

Nesse sentido, pode-se afirmar que produtos culturais seriam na realidade fruto da interação entre as chamadas culturas de resistência e a cultura padronizada de massas. Isto se dá, para o autor, por meio da subsunção do trabalho cultural no capital. O trabalhador cultural necessita para comunicar-se com o público enquadrar-se no modelo de produção das indústrias culturais, e, assim, tornar-se fundamentalmente uma ferramenta de mediação social a serviço do capital.

Isto significa, contraditoriamente, uma ampliação sem precedentes da capacidade de democratização da cultura, conforme explicitado por autores clássicos como Brecht e Benjamin (BOLAÑO, 2000), os quais enfatizam o caráter emancipatório dos meios de comunicação de massa.

Além disso, lembra Bolaño, as relações entre trabalhadores e sociedade são complexas, pois limites à subsunção do trabalho cultual, que não pode ser completamente superado ao ponto de supressão do trabalho na automatização do processo criativo. Throsby (2001) acrescenta que o valor cultural é caracterizado pelo fator criatividade, atributo incorporado aos produtos artístico-culturais.

Nos termos da economia da comunicação e da cultura, esses limites estão relacionados com o caráter aleatório do produto cultural e a necessidade de manutenção de uma certa unicidade ligada ao valor de uso da mercadoria cultural."

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Fonte:
LUCIANE DIAS DE AZEVEDO: “ESTATÍSTICAS CULTURAIS NO NORDESTE: CULTURA POPULAR E POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO”. ( Dissertação de Mestrado apresentada ao Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Economia da Universidade Federal de Sergipe, como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Regional e Gestão de Empreendimentos Locais. ORIENTADOR: DR. CÉSAR RICARDO SIQUEIRA BOLAÑO). São Cristóvão – Sergipe, 2010.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

Disponível digitalmente no site: Domínio Público

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