Uma análise dos dizeres göethianos



O “Fausto”, de Göethe é um dos grandes textos clássicos da literatura, é uma obra atemporal na qual realidade e ficção se interpenetraram para dar vida ao personagem que já retratava em si a crise pós-moderna do individualismo humano. A obra está situada no limite entre a mitologia e a história, podendo então ser esta a razão do poema de Göethe ter se transformado num clássico.

Na obra, conforme apontamos anteriormente, Fausto é o velho cientista, filho de um médico. O fato de ser ele Fausto, um cientista e curador, nos remete à questão da paternidade, o que poderia nos levar a inferir que os interesses e os conhecimentos adquiridos na área da medicina poderiam ter sido transmitidos de pai para filho.

Quanto à questão da paternidade, é importante acrescentar que em alguns momentos Fausto considerava que Deus, por tê-lo criado à sua imagem e semelhança, era seu pai.

Na cena em que Fausto se dirige a Deus-pai, ele se lamenta de seu infortúnio pelas quinquilharias inúteis e empoeiradas herdadas de seu pai:

Olha a roldana, como está do candeeiro enfumaçada!
Pudera! um lucubrar de tantos anos!
Melhor eu me tivera descartado
de tão reles herança, encargo e carga
que me faz suar tanto! O que homem herda só o pode chamar seu quando o utiliza.
Haver que nos não presta é simples ônus.
Só no uso consiste a propriedade. (Quadro I Cena V)

Podemos perceber que ele se refere ao fato de que o que herdamos de nossos antepassados somente será efetivamente nosso se nos apropriarmos, não apenas dos bens materiais como também e principalmente do que nos é inato.

Adiante, na seqüência da obra, Fausto, em seu gabinete de estudo pretendia traduzir o Novo Testamento para o alemão, língua que lhe era tão cara. Ao ler No princípio era o Verbo , ele se detém e questiona: Quem o sustentaria mais longe? Não lhe é possível avaliar bastante a palavra ‘o Verbo’. Se o seu espírito lhe me esclarecer, ele a traduzirá de outra maneira.

Podemos notar, no interdiscurso, um jogo no interior deste discurso, em que Göethe, por meio de sua personagem Fausto, promove uma diversificação de níveis no próprio discurso.

O uso de aspas não somente demarca a fala na qual o locutor se refere, que não é sua, e sim da Bíblia, como marca sua tradução enfaticamente: A inspiração desce sobre mim e escrevo; consolado: “No princípio era o ato”.

No princípio era o Verbo
. É esta a letra expressa; aqui está... No sentido é que a razão tropeça.

Como hei-de progredir? há ’í quem tal me aclare?
O Verbo!! Mas o Verbo é coisa inacessível.
Se apurar a razão, talvez se me depare
para o lugar de Verbo um termo inteligível... Ponho isto: No princípio era o
Senso... Cautela nessa primeira linha; às vezes se atropela
a verdade e a razão co’a rapidez da pena;
pois o Senso faz tudo, e tudo cria e ordena?...
É melhor No princípio era a Potência... Nada!
Contra isto que pus interna voz me brada.
(Sempre a almejar por luz, e sempre escuridão!)
... Agora é que atinei: No princípio era a ação. (Quadro IV Cena I)

Verificamos aqui uma intertextualidade entre Göethe e a Bíblia, especificamente no primeiro versículo do Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo” (1980, p. 1353). O autor, através de sua personagem, Fausto, resgata o discurso bíblico e o transforma, deslocando os sentidos da origem do universo, incorporando um novo sentido: [...] no princípio foi o ato.

Voltando à obra “Fausto”, vale esclarecer que esta possui uma estrutura formal dramática, seqüência de cenas curtas e rápidas, porém, coerentes, outra característica típica do “Sturm und Drang” e nela podemos perceber também o ambiente gótico da Alemanha antiga, as efusões filosóficas, os elementos ocultísticos, bem como o humorismo demoníaco de Mefistófeles. Segundo sua etimologia grega, Mefistófeles significa "inimigo da luz", ou seja, Göethe traz para sua obra o anjo caído, Lúcifer (literalmente: o que dá a luz) com seu nome trocado racionalmente. Quem quisesse entendê-los, a Fausto e ao seu guia, [...] deveria conhecer as profundezas do espírito humano, isso, para Carpeaux (1964) faz de "Fausto" uma obra atemporal.

A obra é permeada pela mais profunda inquietação espiritual, angústias que ora têm cunho sexual, ora religioso, retratando uma eterna insatisfação do homem em sua busca pelo desejo. Isto porque em “Fausto” percebemos a presença do autor falando através de um sentimento que não seria exclusivo de si próprio, mas de um sentimento de sofrimento inerente a toda humanidade.

No enunciado göethiano, a presença do Outro se faz sentir também como presenças outras, pois a inquietude do ser humano que resulta num possível pacto demoníaco, nada mais é que a busca pelo desejo.

Voltando ao poema, logo no início, Deus conversa com Mefistófeles. O diabo pede a Deus a permissão para tentar o cientista, porém, Deus apresenta uma restrição: a de que não poderá ficar com sua alma. Mefistófeles aceita essa condição e responde que a ele, como a um felino, só interessa o rato enquanto estiver vivo. Assim temos, na verdade, dois contratos, um entre Deus e Mefistófeles e outro entre este e Fausto, mas Fausto não tem conhecimento do primeiro.

Diferentemente do pintor Haizmann, que pactua sem pedir nada em troca, a personagem göethiana, aqui o sujeito de seu dizer, é o homem que pactua com o demônio em favor de todas as possibilidades de prazer e de realização tais como: o conhecimento, o sucesso, a riqueza, a satisfação amorosa e sexual. Fausto, desta forma, abre mão de sua alma eterna e de sua ligação com Deus, para se desfazer de tudo aquilo que poderíamos chamar simplesmente de possibilidades humanas.

Pobre diabo,
que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
como eu sou, foi jamais compreensível
aos da tua relé? Tens iguarias
que não matam a fome; ouro que fulge,
mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
jogo em que é certa a perda; uma beldade
que até nos braços meus soltando arrulhos,
já está piscando o olho ao meu vizinho;
pompas de glória, um fumo! (Quadro V Cena I)

Podemos dizer que o sujeito do dizer também realiza a mesma trajetória que Fausto, pois o sujeito também faz o seu pacto secreto com Mefistófeles. Persegue, contudo, avidamente o conhecimento para, a partir dele, desfrutar os prazeres da vida.

Notamos que neste fragmento do poema “Fausto”, Göethe parece tomar emprestada a voz por meio de sua personagem para externar um sentimento que lhe pertencia. A vida de Göethe, como vimos anteriormente, foi uma vida em busca do saber, do conhecimento e, sobretudo, dos prazeres da vida, ou seja, uma vida em busca do desejo.

Quanto mais obscuro e difícil de alcançar o desejo, maior o caminho a ser percorrido, maior a força que o impulsiona para a realização do desejo. O que o sujeito julga ser inacessível , inatingível, o atrai não somente pelo grau de dificuldade, como pela necessidade de se provar que se é capaz.

O sujeito vive em constante busca, ele é marcado por uma incompletude que anseia por uma completude, pois é o sujeito desejante que de certo modo busca pela consciência iluminada. A consciência iluminada seria o conhecimento e o poder supremos, algo inatingível para os simples mortais.

A libertação do homem é interior, esta libertação rompe com seu ego, tornando-se livre e obtendo a redenção dos problemas. No remorso de Fausto encontra-se o simbolismo da redenção. Tudo que Fausto buscou não era real, e sim ilusório, daí seu reconhecimento interior descrito pelo seu remorso. O reconhecimento de si perante os arquétipos da humanidade rompendo com modelos convencionais de sociedade, isto é liberdade.

No Romantismo, vimos que o reconhecimento dos desejos traz a libertação do homem. O desejo, para o sujeito romântico, não está nas formas que são limitantes, é o que se cria liberdade por meio de um psiquismo moldado por forças supressoras do ego. O sujeito, porém, reconhece que desejo é ilusão. Ao buscar sua completude na satisfação de seu desejo, percebe que o real não pode ser simbolizado.

Voltando para o campo literário, “Fausto” é o que se pode chamar de exemplo máximo do Romantismo, que encontrou o sentido da literatura na livre expressão da personalidade humana , ou seja, na liberdade absoluta do pensar. Todas essas conquistas provocaram no homem uma nova postura, fazendo-o perceber que certos valores, antes julgados perenes eram na verdade efêmeros, mutáveis, ou seja, a questão de se criar uma postura mental pela postura de vida.

O homem romântico conquistou a liberdade de se expressar quando rompeu com os padrões já estabelecidos. Ele mergulhou em si próprio, numa viagem ao seu interior, numa introspecção que o fez evadir-se do mundo real, porém, emergiu daí com um lirismo próprio, fantasioso, que o fez explicitar através de suas emoções, a memória dos seus sentimentos.

O romântico é o homem que tomou consciência de si mesmo e, tendo esta consciência, projetou-se. Saiu de dentro de si próprio, revolucionando regras e padrões numa "guerra ao contrário”. Tanta liberdade o fez voltar para si mesmo. Dentro de si descobriu que a revolução é o descobrir do pensar, isto é, o caráter revolucionário se deve à introspecção individualista. O homem se preocupou com suas potencialidades, descobriu que valores não são absolutos. O homem viveu a experiência de destruir o velho e construir o novo. Fausto é a prova disso, e também sua libertação.

Fausto é o arquétipo do ser desejante e, nas implicações que seu pacto denotam, vimos que o desejo é uma força aprisionada. Assim, nos escritos göethianos, podemos perceber que os fatos que constituem os enredos, muitas vezes são resultados de uma combinação de uma realidade vivida com seus anseios e expectativas, expressando a busca pelo desejo e a paixão como se ambos fossem um sustentáculo vital.

Além da busca pelo desejo, a angústia de amores não correspondidos, como o de Göethe por Charlotte, com quem se envolvia mais como poeta do que como homem. Poderia, também, estar se remetendo amor de Fausto por Margarida, Gretchen em alemão, conforme apontamos anteriormente. Parece ser uma alusão ao primeiro amor, Margarida, a primeira amada de Göethe e esse amor não-resolvido seria a fonte de seus problemas de relacionamentos amorosos. Percebe-se tal dualidade em Fausto, pois ao mesmo tempo em que este queria ser um deus, amava uma mulher.

Além do sentimento de culpa por haver abandonado a pobre moça, podemos perceber também outras semelhanças entre o autor e sua obra; quem lê atentamente sobre sua vida nota a semelhança com Fausto: sede insaciável de sabedoria; tendência inata para o maravilhoso; para o misticismo e também para o ceticismo; (suas incursões para a medicina, dentre as quais descobre o osso do maxilar, e a elaboração de um método científico o comprovam) para o ocultismo (em Fausto, orgulho e sede de sabedoria), e, além de um orgulho ilimitado, uma volúpia em amar belas mulheres.

Voltando à obra, nos deteremos mais uma vez na questão bakhtiniana de que o autor e o herói surgem como elementos da obra constituída por sua referencialidade psicológica e social, evidentemente, tanto Freud quanto Göethe são os sujeitos de seus dizeres e se constituem como sujeitos-autores.

Tanto a respeito do psicanalista, como a respeito de Göethe, percebemos que os mesmos mantiveram silenciados alguns aspectos referentes às suas intimidades. Por mais que sejam inúmeras as biografias de ambos, mais especificamente no caso de Göethe, alguns ‘silêncios’ foram respeitados. Neste caso, percebemos a voz de Goethe na voz do locutor, Mefistófeles, que, dialogando com Fausto convida o colega a sair de seu tedioso gabinete e resguardar, para si, o seu conhecimento:

Vamo-nos primeiro
pôr já já daqui fora, que em tal sítio
só mártires. E chama-se isto vida!
uma eterna moedeira dos rapazes
e de si próprio! Deixe-me esse inferno
ao seu vizinho Pança! Há quantos anos
anda aí como o boi no calcadoiro!
e inda assim o mais fino do que sabe
não lhe é dado ensiná-lo aos estudantes. (Quadro V Cena I)

Notamos, neste fragmento, que a interdiscursividade se manifesta através de uma heterogeneidade constitutiva, pois, apesar de não revelar a presença do Outro na superfície do discurso, como é o caso da heterogeneidade marcada, podemos perceber que este Outro se encontra inserido no discurso. Ainda podemos notar, no fragmento do poema, que por mais que o autor seja ausente em sua obra, o seu texto aponta para ele. Desta forma, nos remetemos à Foucault (1992), para quem esse ‘sujeito do discurso’ se encontra circunscrito na materialidade do texto.

É importante acrescentar que Gay (1989) aponta para o fato de que os poetas e filósofos sempre especularam sobre as noções das atividades mentais para além do alcance do inconsciente, da inconsciência, um século antes de Freud, Göethe [...] achara extremamente atraente a idéia das profundezas na psique (Gay,1989, p. 337). Göethe, como Schiller, havia procurado as raízes da criação poética no inconsciente. Ele previu, um século antes, o que a psicanálise faria, posteriormente, assim, sua introspecção humana o levou a caminhos nunca antes percorridos.

Há que se ressaltar que consideramos as matrizes de análise aqui apresentadas, enquadradas tanto na categoria de ordem sujeitudinal, pois se referem a sujeitos em busca de suas identidades, quanto na categoria de ordem sentidural, uma vez que as seqüências discursivas analisadas também revelam processos de busca de sentidos."

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Fonte:
ANA VALÉRIA ZELANTE MENEGASSO: “OS SENTIDOS DA INTERTEXTUALIDADE E DO INTERDISCURSO DE GÖETHE EM SIGMUND FREUD”. (Dissertação apresentada ao Curso de Pós-graduação, Mestrado em Lingüística, da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito parcial para a obtenção de título de Mestre em Lingüística. Área de Concentração: Estudos em Lingüística e Lingüística Aplicada. Linha de Pesquisa: Estudos sobre Texto e Discurso. Orientador: Prof. Dr. João Bosco Cabral dos Santos). Uberlândia – MG, 2005.

Nota
:
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As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
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