Agostinho e o Maniqueísmo



“Aos dezenove anos, Agostinho abraçou o maniqueísmo. Os maniqueístas se gabavam de ensinar uma explicação puramente racional do mundo, de justificar a existência do mal e de conduzir finalmente seus discípulos à fé unicamente por meio da razão. Agostinho acreditou por alguns anos que essa era a sabedoria que ele cobiçava. Foi, portanto, como maniqueísta e inimigo do cristianismo que voltou para ensinar Letras em Tagaste e em seguida a Cartago.

O maniqueísmo, uma religião herética fundada pelo persa Mani no século III, apresentava um vivo racionalismo marcado pelo materialismo e um dualismo radical na concepção do bem e do mal, entendidos não apenas como princípios morais, mas também como princípios ontológicos e cósmicos. Agostinho, mais tarde em suas confissões, comenta aspectos da religião dos maniqueus.

Não conhecem o caminho pelo qual, deixando o orgulho, iriam até o Salvador e por ele, subiriam novamente a ele; ignoram este caminho e se consideram tão elevados e cintilantes quanto os astros; e tombaram por terra, com o coração coberto pelas trevas da ignorância. Dizem muitas verdades sobre as criaturas, e não buscam devotamente a verdade, artífice da criação; assim, não a encontram, ou, se a encontram, embora conhecendo a Deus, não lhe prestam honra como a Deus, nem lhe rendem graças. Perde-se em vãs reflexões. Proclamam-se sábios, atribuindo a si dons que são teus; e se empenham, cegos e perversos, em atribuir-te o que propriamente pertence a eles: transferem suas falsidades a ti, que é a Verdade, e assim “trocam a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis, trocam a verdade de Deus pela mentira, e adoram e servem a criatura em lugar do Criador. ···”.

Ele abandona esta seita após um diálogo com Fausto, bispo dos maniqueístas, por não encontrar a verdade sobre algumas coisas, cujas explicações não o convenciam e também por perceber que ele mesmo tinha mais conhecimento que o próprio bispo.

A avidez, com que durante tanto tempo esperei por aquele homem, era satisfeita agora pelo calor e animação de sua dialética, e por suas palavras tão bem escolhidas e que lhe ocorriam com facilidade para revestir seu pensamento. [...] Descobri logo que ele nada entendia das disciplinas liberais, com exceção da gramática, da qual conhecia apenas o corriqueiro. Tinha lido alguns discursos de Cícero, pouquíssimas obras de Sêneca, algumas
obras de poetas, e umas poucas, de seus correligionários, escritas em latim mais cuidado.

Algumas das dúvidas maniquéias que lhe consumiam eram: qual a origem do mal? Deus era limitado por forma corpórea, tinha cabelo e unhas? Mas levava ainda consigo alguns princípios metodológicos dos maniqueístas como o racionalismo, o materialismo e o dualismo (corpo e alma). Para os maniqueus Deus é luz, um ente corpóreo e as almas são partículas desta luz divina. E Cristo é somente revestido de carne aparente e, portanto, também foram aparentes a sua morte e ressurreição. Moisés não foi inspirado por Deus, mas era um dos príncipes das trevas, razão pela qual se devia rejeitar o Antigo Testamento. A promessa do Espírito Santo feita por Cristo ter-se-ia realizado em Mani. Em seu dualismo extremo, os maniqueístas chegavam até mesmo a não atribuir o pecado ao livre-arbítrio humano, mas sim ao princípio universal do mal que atua também em nós. Manes falava tanto e tão desatinadamente sobre esses assuntos, que era facilmente confundido pelos verdadeiramente instruídos na matéria, de onde se concluía claramente qual a sua competência em outras questões mais recônditas.

Não querendo ser desconsiderado pelos homens, tentou provar que o Espírito Santo, consolo e riqueza de teus fiéis, nele habitava pessoalmente e com a plenitude de sua autoridade. Portanto era apanhado em flagrante erro nas teorias ensinadas sobre o céu, as estrelas, os movimentos do sol e a lua, assuntos estranhos à doutrina religiosa, tornava-se evidente sua sacrílega temeridade: transmitia noções não só por ele ignoradas, como também falsas, como tão insensato orgulho, que não hesitava em atribuí-las a si próprio, como se fosse pessoa divina.

Agostinho começa a duvidar da verdade pregada pelos maniqueus e não se satisfaz com as explicações, “resolvi manter relações baseadas apenas no grande interesse que mantinha pela literatura, que eu, como professor de retórica, ensinava aos jovens de Cartago”.

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Fonte:
NEUZA DE FATIMA BRANDELLERO: “DE BEATA VITA DE SANTO AGOSTINHO: UMA REFLEXÃO SOBRE A FELICIDADE”. (Trabalho apresentado ao departamento de Pós-Graduação Stricto Sensu mestrado em Filosofia da Pontifica Universidade Católica do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Jamil Ibrahim Iskandar). Curitiba, 2006.

Nota
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Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

Disponível digitalmente no site: Domínio Público

4 comentários:

  1. oo que causa espanto é o fato de uma heresia deixar seu rastro deletério, mesmo apos aparentemente rejeitada, como no caso de Santo Agostinho criador do pecado original que tanto mal tem feito à cristandade

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  2. QUIS DIZER O que causa espanto...

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  3. QUIS DIZER O que causa espanto...

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  4. oo que causa espanto é o fato de uma heresia deixar seu rastro deletério, mesmo apos aparentemente rejeitada, como no caso de Santo Agostinho criador do pecado original que tanto mal tem feito à cristandade

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