Um evolucionismo à brasileira: o “neolamarckismo social”
"A seleção natural é um dos legados mais complexos do século XIX. Foi muito difícil compreendê-la e aceitá-la como um fato objetivo, tamanha a ruptura que implicava em relação aos modos anteriores de se representar a natureza e sua dinâmica, quase todos dependentes de uma potência finalística ou um Criador. A idéia revolucionária era que o mecanismo da seleção natural, puramente material, determinasse o surgimento das novas espécies desde a origem da vida sobre a Terra e, na medida em que fosse uma “lei” comprovada, seria também um princípio imutável de transformação dos seres vivos. Desse modo, a evolução é o resultado natural do processo no qual - Darwin mostrou - jogavam papel determinante, o passado ou herança dos organismos e a sua interação com o meio de modo que, na luta pela vida, a seleção resultante significava a “preservação das variações favoráveis e a eliminação das variações desfavoráveis” para o indivíduo de modo a constituir prole e transmitir seus caractéres aos seus descendentes. De modo esquemático, a transformação das espécies pode ser assim representada:No diagrama, a espécie (“tipo” numa nomenclatura anterior) é formada por várias sub-espécies (também ditas “raças” à época), cada uma com seus caractéres que expressam pequenas variações em relação aos caractéres herdáveis (depois chamados “genética”) que, no enfrentamento com as condições exteriores de vida (habitat), mostram-se adequadas e permitem a reprodução dos indivíduos, podendo também surgir novas variações. No caso de não-reprodução dos indivíduos portadores de certos caractéres (eliminados os caractéres desfavoráveis) e através do aparecimento de outros caractéres, a velha espécie se extinge e uma nova surgirá. Na seqüência temporal, as espécies vão se ramificando, mantendo atrás de si ancestrais comuns extintos. Assim se dá a evolução por especiação ou modificação.

Darwin formulou a seleção natural como uma hipótese, e entendeu que só na medida em que ela pudesse explicar um número muito grande de ocorrências ela poderia ser tomada como “teoria”. Nesse nível, como um princípio, a explicação da evolução dependia também da verificação de outros princípios, relacionados com a hereditariedade, a adaptação, a variabilidade e descendência com modificação. Cada um desses aspectos implicava em enormes dificuldades probatórias. Numa carta a Asa Gray, ele lembra que a “seleção age apenas através da acumulação de pequenas ou grandes variações, causadas por condições externas, ou pelo simples fato que numa geração a prole não é absolutamente igual aos pais”347. Essa noção de acumulação é importante em sua teoria, independente de que compreendamos exatamente como ela se dá. Assim, versões que adotam a noção de mudança gradual, ou abrupta, por saltos, não afetam a noção básica de acumulação, embora Darwin, até mesmo seguindo Lamarck, entenda que isso se dê por um processo lento e gradual. Mas as discussões sobre o modo como se dá essa acumulação ficou restrita a especialistas, dando margem a compreensões vulgares nem sempre condizentes com o estágio do debate científico. Em resumo e para os nossos fins, pode-se dizer que o evolucionismo darwinista é aquele que relacionou, num mesmo processo, a hereditariedade – com caráter determinante – a adaptação e a seleção natural como fator de lenta seleção e acumulação dos caracteres úteis para a vida do indivíduo, resultando em transformação da espécie.

Se comparado com os evolucionistas que vieram antes dele, como observa Mayr, a sua teoria se diferencia também pela ordem dos fatores determinantes do processo de transformação.

No fundamental para o nosso estudo, a teoria de Darwin significou a superação de várias concepções aninhadas em visões deístas do mundo que, contudo, perduraram por bom tempo graças ao apego à idéia de um mundo onde a harmonia da criação desepenhava ainda um papel crucial, expressando-se no equilíbrio da natureza349. Em especial vale registrar que a teoria de Darwin superou a concepção fixista de Cuvier, segundo quem as espécies existentes correspondiam a formas fixas ou tipos cujo conjunto representava a construção harmônica do mundo por um Criador. Nessa visão, a transformação era compreendida como um processo de degradação do tipo , sendo que ela não engendrava formas viáveis e, pois, a sua eliminação restaurava a pureza do tipo.

Já em relação à teoria de Lamarck a percepção das diferenças é bem mais difícil para o leigo, visto que praticamente todos os elementos do lamarckismo estão presentes na teoria de Darwin, embora com feição e significado absolutamente distintos. Lamarck foi pioneiro em perceber que o mundo vivo está em permanente mudança evolucionária. Esta percepção é a base da sua “teoria de progressão dos animais”350. Do ponto de vista dos mecanismos da evolução, também não se percebe grandes diferenças, exceto a grande ênfase de Lamarck sobre os efeitos do uso e desuso – elemento considerado de forma modesta por Darwin. Onde ambos mais se afastam é no interesse primário pela diversidade ou pela adaptação.

Como observa Mayr, existe uma diferença fundamental entre enfatizar a diversidade (ou especiação) e a adaptação (evolução filética). Darwin chega ao estudo da evolução ao constatar a multiplicação das espécies e a origem dessa diversificação é o seu interesse básico. Já para Lamarck as mudanças são o resultado inevitável da adaptação produzida por meios naturais, isto é, como um processo fisiológico – no qual se combinam herança e caractéres adquiridos – onde as necessidades do organismo moldam-no às mudanças do ambiente. Para Darwin, ao contrário, a adaptação será resultado da seleção natural de tal sorte que, no essencial, o que os diferencia é que, para Lamarck, a adaptação ao ambiente comanda o processo de evolução, ao passo que para Darwin a variação aleatória é anterior a qualquer adaptação, não sendo causada pelo ambiente, seja de modo direto ou indireto.

No vasto universo evolucionista pré-darwinista, a teoria de Lamarck é a primeira a explicar a transformação dos seres vivos em geral segundo um processo de crescente complexidade , culminando no homem352. Tem sido um erro freqüente interpretar Lamarck à luz da teoria de Darwin, como se a ele “faltasse” o essencial; ao contrário, é ele o verdadeiro elo entre a cultura do século XVIII – especialmente Buffon – e o evolucionismo darwinista, propiciando reflexões sobre as linhas de continuidade e ruptura. Do ponto de vista mais geral, para Lamarck os seres vivos estão dispostos na natureza num gradiente de crescente perfeição (scala naturae), sendo que o papel que cada um desempenha na economia da natureza é tomado exclusivamente em termos da sua complexidade. Além disso, acredita ele que a diversidade da vida expressa um princípio de plenitude, sendo a natureza o conjunto dos seres vivos extintos, existentes ou por existir. No que tange à transformação das espécies, compreende-as numa linha filética onde velhas espécies se transformam, de modo lento e gradual, em novas espécies, sendo que essas variações só podem ser percebidas após um longo tempo enquanto a própria variação é tomada como manifestação daquele princípio que eleva as espécies em direção à crescente complexidade e perfeição353. Essencialmente, sua visão de natureza corresponde à idéia de equilíbrio entre todas as forças naturais, de tal sorte que os organismos se diferenciam na medida em que são movidos internamente pela busca desse equilíbrio com os demais seres com os quais interagem, isto é, com o ambiente, de modo que a espécie expressa a harmonia com ele e, na medida em que o ambiente muda, a espécie muda para adaptar-se na busca de novo momento do equilíbrio. Assim, a adaptação só pode ser mantida se o organismo se auto-ajusta constantemente às novas circunstâncias que correspondem a novas necessidades suas354. A própria diversidade decorre, então, da adaptação. A representação gráfica desse processo de evolução é a seguinte:
É isso!

Fonte:
CARLOS ALBERTO DÓRIA. "Cadências e Decadências do Brasil (o futuro da nação à sombra de Darwin, Hæckel e Spencer). DISSERTAÇÃO DE DOUTORADO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA. INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS – UNICAMP. Campinas, 2007.

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