A eugenia nos Estados Unidos

"A Inglaterra do século XIX, que foi palco para o surgimento da eugenia de Francis Galton, era um país marcado por profundas mudanças sociais. O crescimento do parque fabril somado ao conseqüente inchaço urbano imprimia nesta sociedade vitoriana, e mais adiante em muitos outros países europeus e nos Estados Unidos, uma nova configuração social da condição da pobreza. Trabalhos forçados nos teares, êxodo rural, disseminação de epidemias e pobreza de grande parte da população colocavam os intelectuais a postos para resolver a enorme dificuldade que era gerir as populações e manter os avanços econômicos. Neste contexto de mudanças sociais é que foi possível aparecer uma teoria eugênica como a de Galton. É num momento histórico que urge por explicações para as desigualdades sociais que aparece este profeta eugênico proclamando uma nova religião que almeja expurgar os indivíduos degenerados para que não contaminem a população e, desta forma, indivíduos degenerados para que não contaminem a população e, desta forma, virem a torná-la mais débil.

Esta eugenia galtoniana com pretensões religiosas de convencimento ainda no século XIX galgará a credibilidade acadêmica e no início do século XX atravessará o Atlântico e se estabelecerá com muito maior solidez nos Estados Unidos. A instituição pioneira de eugenia foi a American Eugenics Society fundada em 1905, dois anos antes da fundação da English Eugenics Society38, fundada por Galton em Londres (cf. BEIGUELMAN, 1979, p.981).

Podemos aventar as mais variadas hipóteses para explicar os porquês da eugenia encontrar solo tão fértil em terras estadunidenses, mas com grande probabilidade de acerto podemos dizer que o passado racista dos Estados Unidos foi o grande dinamizador deste processo. Fundamentalmente, os Estados Unidos é um país de imigrantes – como grande parte dos países americanos. Raças, credos e culturas durante os séculos se misturaram nesta antiga colônia franco-hispânica-britânica. Quase um século após as lutas pela independência, deu-se no século XIX uma sangrenta guerra civil que pôs frente a frente interesses econômicos, industriais e racistas na baila da construção de uma nação soberana e unida. De certa forma, podemos afirmar que o Estados Unidos teve seu futuro de apogeu econômico determinado com a derrota dos escravagistas sulinos (estados predominantemente dedicados a agricultura no estilo colonial) perante o norte em processo de industrialização. Porém, apesar do fim da escravidão de negros oriundos do continente africano, solidificou-se desde o século XIX uma valorização de determinados grupos raciais e religiosos denominados WASP (branco, anglo-saxão e protestante). São famosos os massacres de negros feitos pelo grupo ultra-racista denominado Klu Klux Klan (cf. BERLINI, 2005) nos estados sulinos, antigos berços do escravagismo negro. É neste contexto social racista que a eugenia desenvolveu-se largamente, mesmo não possuindo legitimidade científica e pouco se importando se as leis mendelianas aplicavam-se somente para ervilhas ou para animais e humanos (cf. BLACK, 2003, p.79). Os primeiros testemunhos eugênicos (cf. BLACK, 2003, pp.80-81), além da formação da sociedade eugênica, se reportam à primeira década do século XX com John Franklin Bobbit e sua obra Pratical eugenics, que sustentava a supremacia da raça germânica; com Madison Grant, primeiro porta-voz do emergente movimento eugênico e curador do Museu Americano de História Natural, que por meio do livro The passing of the great race [O fim da grande raça] sustentava a superioridade nórdica, tese também abraçada por Lethrop Stoddard em The rising tide of color against white world supremacy [A onda crescente da cor contra a supremacia do mundo branco]:

No final do século XIX, nosso país [Estados Unidos], originalmente povoado
quase exclusivamente por nórdicos, foi invadido por hordas de imigrantes dos Alpes e do Mediterrâneo, sem mencionar elementos asiátic os, com os levantinos e os judeus. Como res ultado, o americano nativo nórdico tem sido comprimido, com uma espantosa rapidez, por esses prolíficos e infestados alienígenas e, depois de duas curtas gerações, está quase ex tinto em muitas das nossas áreas urbanas (Stoddard Apud BLACK, 2003, p.80).

Fundamentalmente, a eugenia que nasce nos Estados Unidos é um movimen
to contra os não-nórdicos. Sustentados por preconceitos sem fundamentos científicos, os estudos hereditários de Mendel são somados a estatísticas que levam ao verdadeiro ódio racial. Tudo que não faz lembrar uma ascendência nórdica é visto como impuro, uma ameaça à raça branca com o perigo da miscigenação. Como afirmavam Stoddard e Grant (cf. BLACK, 2003, pp.81-82), os cruzamentos entre brancos, negros e ameríndios produziam mestiços que se assemelhavam a cães vira-latas sobre duas pernas. Estes cruzamentos eram deletérios à supremacia branca, pois nunca melhoravam a prole, antes sempre a deixava inferior: negros, hindus, índios, judeus eram vistos como perigos constantes. Este ódio racial se prolongava até mesmo sobre grupos brancos considerados produtos de mestiçagem como os mediterrâneos e os irlandeses: “Os italianos eram predispostos à violência pessoal. Os irlandeses tinham consideráveis deficiências mentais, enquanto os alemães eram parcimoniosos, inteligentes e honestos” (BLACK, 2003, p.89).

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É isso!

Fonte:
ROGÉRIO PEREIRA XAVIER: "CORPOS DISPONÍVEIS: ANÁLISE FOUCAULTIANA DO DISCURSO DO SANITARISMO, DA GENÉTICA E DA EUGENIA". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, como requisito à obtenção do título de Mestre em Filosofia. Orientadora: Profa. Dra. Inês Lacerda Araújo). CURITIBA, 2006.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.

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