Gould VS Dennett - Pontualismo VS Gradualismo

“Segundo Dennett (1998), Gould prestou um mau serviço à ciência por defender um tipo próprio de neodarwinismo, rejeitando o adaptacionismo em prol de um equilíbrio pontuado, tendo como força motriz não a famosa “cunha” ou o “leque” de Darwin, mas os fenômenos de extinção em massa. A seleção natural em Darwin é um continum, onde vige a lei e o tédio, o gradualismo filético. Em Gould vige o singular, o pontual, onde as palavras-chave são “cataclísmico”, “aleatório”, “ocasional”, “episódico”, “sorte”. Daí os títulos singulares de algumas de suas obras, na dupla acepção do termo: O polegar do panda, O sorriso do flamingo, A galinha e seus dentes, Os oito porquinhos, Lance de dados...

O equilíbrio pontuado, segundo Gould (e Eldredge, 1972, In: Dennett, 1998), é uma alternativa ao gradualismo. Enquanto o darwinismo funcional ortodoxo vê as mudanças como graduais, o equilíbrio pontuado afirma que elas acontecem aos “trancos”, onde longos períodos de mutabilidade, ou estase, são interrompidos por repentinos e drásticos períodos de mudanças rápidas.

Quando apareceu pela primeira vez, a tese do equilíbrio pontuado foi apresentada não como um desafio evolucionário, mas como uma correção conservadora de uma ilusão a que os darwinistas ortodoxos haviam sucumbido: os paleontólogos estavam simplesmente enganados ao pensar que a seleção natural darwiniana deixariam um registro fóssil, mostrando muitas formas intermediárias. [...] Por volta de 1980, Gould decidiu que o equilíbrio pontuado era uma idéia revolucionária, afinal de contas – não uma explicação da falta de gradualismo no registro fóssil, mas uma refutação do próprio gradualismo darwiniano. Esse argumento foi anunciado como revolucionário – e realmente era. Era revolucionário demais, e foi vaiado com a mesma ferocidade que o sistema reserva para hereges. [...] Gould recuou com firmeza, negando repedidas vezes ter sido sua intenção dizer algo tão ofensivo (Dennett, 1998, p. 296).

Gould se opõe à tese da evolução, entendida como um processo algorítmico, com a tese da contingência radical:

a natureza está cheia de espécies [...] todas elas lutando por um pedaço de espaço limitado. As novas espécies conquistam por norma um espaço expulsando outras por competição aberta. [...] Esta luta e conquista constantes estão na base do progresso, dado os vencedores, em média, poderem garantir o seu êxito através da superioridade geral da sua concepção. Defendi que a extinção em massa obsta a que a eliminação estabeleça esquemas a longo prazo na história da vida. O progresso por via da competição pode ocorrer em épocas normais, mas os episódios de extinção em massa desfazem, despedaçam e reorientam este processo com tamanha freqüência que a eliminação não se pode impor como dominante no curso geral da vida. Pessoalmente, não creio que as extinções em massa resultem com arbitrariedade absoluta, tratando cada espécie como uma moeda que se atira ao ar ou a um dado que é lançado. [...] A extinção em massa é uma força negativa. Não faz nada e só pode escolher entre as criaturas moldadas pela seleção natural. Mas claro que a extinção em massa pode destruir uma tendência, eliminar todo um grupo ou fazer que a vida siga por um caminho imprevisto – mas a evolução é criação, e não a eliminação diferencial. A força criadora da evolução, o motor da construção, deve residir ainda nos processos das épocas normais, criando criaturas que um dia irão ser examinadas antes da filtragem da extinção em massa. E o processo do controlo das épocas normais é a eliminação pela competição (Gould, 1992a, p.304-7).”

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É isso!

Fonte:
KLEBER BEZ BIROLO CANDIOTTO: “METÁFORAS E MODELOS DA MENTE: DAS TEORIAS DO SÉCULO XX À TEORIA MODULAR DE JERRY FODOR - O Estatuto Epistemológico das Metáforas e Modelos em Filosofia da Mente." (Tese apresentada no programa de pós-graduação em Filosofia e Metodologia da Ciência da Universidade Federal de São Carlos como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Filosofia. Orientação: Prof. Dr. João de Fernandes Teixeira). SÃO CARLOS, 2008 .

Nota:
A imagem e o títulos inseridos no texto não se incluem na referida tese.

Um comentário:

  1. Aroldo C.Branco da nova24/11/2012 23:35

    Vemos uma diferença irrenconciliável entre o neo-darwinismo e o equilíbrio pontuado.
    Todo evolucionista que acredita na paleontologia como guia na classificação filogenética que crê na biologia molecular A classificação filogenética está em pé de guerra atualmente. Existe uma controvérsia seriíssima entre as duas correntes. Vide os teóricos que defendem a evolução das baleias.
    Tem evolucionista que crê que a especiação seja resultado de múltiplas mutações aleatórias guiadas pela seleção natural
    Tem evolucionista que crê no equilíbrio pontuado.
    Tem evolucionista que crê que a baleia seja descendente do mesochidian
    Tem evolucionista que crê que ela seja parente dos hipopótamos.
    Tem evolucionista que acredita na paleontologia como guia na classificação filogenética
    Tem evolucionista que crê somente na biologia molecular
    Tem evolucionista que crê no australoptecus africanus como sendo um antepassado do homem
    Tem evolucionista que cogita a sua retirada da árvore genealógica do mesmo.
    Tem evolucionista que crê que a ontogenia recapitula a filogenia (embriologia)
    Tem evolucionista que descartou essa possibilidade.
    Tem evolucionista que acha que todas as características fenotípicas do ser vivo sejam fruto exclusivamente de seu genótipo
    Tem evolucionista que crê que existe muito mais fatores a serem avaliados (membrana celular, citoesqueleto, etc..)
    Tem tantas, mas tantas correntes diversas dentro do evolucionismo que a única coisa que os mantém unidos é a crença na evolução.

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