O Negro na Telenovela: invisibilidade e estereotipação

“Discutir a participação e a representação do negro nas telenovelas brasileiras exige o entendimento das contradições e preconceitos, presentes nas relações étnico-raciais no Brasil. Obras acadêmicas como a de Joel Zito Araújo intitulada “A Negação do Brasil: o negro na telenovela”, e a coletânea “Espelho Infiel: o negro no telejornalismo”, de Rosane Borges e Flávio Carrança, a pesquisa “A Identidade da Personagem Negra na Telenovela Brasileira”, de Solange Martins Couceiro de Lima, da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), estudo que faz parte do projeto:“Ficção e realidade: a telenovela no Brasil; o Brasil na telenovela”; estes estudos que tiveram projeção nacional, perpassando os muros das academias, propiciando uma provocação a repensar os processos de representação e inserção de afro-descendentes nos espaços sociais midiáticos.

Entendo, ancorado no pensamento de Piza (2004), que a forma de representação de negros em telenovelas, se processa de forma estereotipada, porque um personagem negro representa toda a coletividade de indivíduos negros, e trás agregado a si, toda sorte de idéias sobre negritude já configuradas no imaginário social. O processo de estereotipo cerceia a vida mental dos indivíduos, estereótipos estes arraigados na cultura brasileira, desde a época da escravidão, fundamentados em teorias racistas que se perpetuam até os dias atuais e são expressas nas telenovelas.

Defino o estereótipo como uma imagem simplificada, construída através de generalizações sobre um grupo, não levando em conta as diferenças presentes no interior dessa coletividade. Segundo Silveira (2000, p. 303) a prática de construção de estereótipo promove a redução, a essencialização e a naturalização das diferenças.

Segundo Silva (2001) as noções de imagem e estereotipo estão ligados de uma forma ou outra a noção de representação, como foco inscrito na invisibilidade, e no registro. Porém, a noção de imagem se localiza em uma epistemologia denominada “realista”, ou seja, a imagem capta a realidade e a cristaliza. Logo, a imagem concebida como reflexo, mantêm uma relação de passividade com a realidade, limitando-se a reproduzi-la.

A imagem é concebida também como que expressando uma visão estática do processo de significação. Ou seja, é concebida como registro, pois imagem vai refletir uma realidade. Para Silva (2001) a noção de imagem esta ligada aos conceitos de imitação, reprodução, mimese, reflexo, e iconização. Miranda (2006) entende que a representação é uma realidade construída e de certa forma legitimada pelo registro, pela intencionalidade da referida representação.

A imagem estereotipada do negro nas telenovelas é elaborada a partir de um processo de estigmatização deste segmento étnico, assim, considero que o ato de “estigmatizar” indica tomar qualquer marca diferencial de um individuo, e reduzi-lo a esta característica. Ou seja, Estigmatizar é atribuir um rótulo a alguém, tomando como sinal emblemático, elementos como a gordura ou magreza, a cor da pele, a estatura, o comportamento, a situação econômica ou geográfica, enfim, qualquer traço que carregue alteridade frente aos padrões considerados "normais".

Susman (1994) define estigma como qualquer traço persistente de um indivíduo ou grupo que evoca respostas negativas ou punitivas. Condições consideradas incapacitantes são estigmatizantes na medida em que evocam respostas negativas ou punitivas.

Para Goffman (1994), o estigma refere-se a uma situação em que o indivíduo está inabilitado para a aceitação social plena, e destaca que o estigma configura-se como algo externo ao indivíduo. O autor considera que os discriminadores procuram fazer com que o indivíduo portador de estigma, seja exposto o tempo todo. O objetivo é submetê-lo constantemente à prova, no afã de fazer com que seja legitimada sua inferioridade. Fazendo
com que o estigmatizado se sinta desacreditado, inviabilizando sua atuação, e sua inserção efetiva em um grupo social, ou em uma instituição. Para Goffman, este é o procedimento que oportuniza a configuração das condições de deterioração da identidade da vítima de estigmatização, a partir da qual se facilitam a manipulação de seu comportamento, atitude, sentimentos, potencializando mecanismos de exclusão. O autor entende que um dos aspectos mais perversos do processo de estigmatização é o que se refere à sua legitimação por parte do próprio discriminado.

Tavares (2004, p.03) afirma que a estigmatização a que foi submetida a população afro-descendente no Brasil, foi o elemento determinante no processo de configuração de sua exclusão midiática, o que, em termos mais amplos, significaria invisibilidade e não reconhecimento, já que os meios de comunicação são fontes capazes de viabilizar reconhecimento e, por extensão, visibilidade, pois o mundo atual é regido pela comunicação. Logo, o tratamento dispensado pela mídia, em especial pelas telenovelas à população negra contribui para a (re) estigmatização anteriormente empreendida, seja pela invisbilidade ou pela representação carregada no estereotipo.

A inserção dos atores negros nas telenovelas brasileiras se processa de forma parcial e descontínua, centrada, segundo Tavares (2003, p.04) em 3 estereótipos clássicos. O primeiro está relacionado à imagem do negro passivo, focado na sexualidade (corpo) e alegria (espírito). O segundo está relacionado com a violência, criminalidade, revolta e marginalidade social. O terceiro e mais em voga atualmente, é o que retrata a imagem do negro enquanto um sujeito solitário, definitivamente encaixado num ideal de branqueamento. Ou seja, nem mesmo quando aparece como um profissional bem sucedido, ele deixa de corroborar a imagem já estereotipada do negro passivo, cordial e subserviente, com um perfil semelhante aos empregados domésticos e trabalhadores braçais, reafirmando no senso comum o legado sócio-histórico de escravidão.

Os enredos das telenovelas brasileiras refletem diretamente as relações assimétricas de poder entre as diferentes matrizes étnico-raciais, e apresentam extremada resistência em incorporar e legitimar a história e as contribuições culturais dos “povos vencidos”, (na realidade brasileira os negros e os índios). Os folhetins nacionais reservam ao negro dois estigmas: invisibilidade ou a visibilidade perversa recheada de estereótipos. Sodré (1999) diz que a televisão brasileira está para o negro assim como o espelho está para o vampiro. O negro olha: não se reconhece, não se vê!

Considero que é possível ler a invisibilidade delegada ao negro nas telenovelas ancorado no fato da totalidade dos folhetins temáticos ou de época produzidas no Brasil, contarem a saga dos imigrantes europeus, sobretudo portugueses e italianos, retratando scricto sensu a “história oficial” do país, propagada pelos livros didáticos, e pela ideologia da democracia racial brasileira.

Tomando como exemplo a novela temática Sinhá Moça (Rede Globo, 1986 e 2006), a trama inspirada no romance homônimo de Maria Pacheco Fernandes, tem como pano de fundo a luta pela abolição do modelo escravagista. Entretanto, este processo de luta pela liberdade, na novela é protagonizado por ilustres “sinhozinhos” e “sinhazinhas” brancos, sensibilizados com o sofrimento dos negros. O enredo do referido folhetim retrata negros e
negras como indivíduos passivos, omissos e dependentes dos heróis “brancos”, omitindo as revoltas, as organizações quilombolas, e as outras formas de resistência dos negros à escravização.

Silva (2006) considerou a telenovela Sinhá Moça uma falácia da realidade brasileira da época, pois em 1888, quando a Lei Áurea foi assinada, 95% dos africanos e seus descendentes já haviam conquistado a liberdade, fosse através da luta quilombola, fosse por
meio de fugas generalizadas, ou mesmo pela própria falência do modelo escravista. O autor polemiza que as inúmeras e importantes rebeliões do século XIX, como a revolta dos Malês, ou as radicais ações libertárias de grupos negros articulados em todo país, sequer merecem menção no folhetim em questão.

O remake de Sinhá Moça em 2006 chamou a atenção do Ministério Público da Bahia, e o levou a instaurar um inquérito civil alegando que o enredo da novela não só estaria prejudicando a auto-estima da população negra, como também deturpando a história da escravidão no Brasil. A Rede Globo respondeu ao ministério público, afirmando que a novela é uma simples adaptação de uma obra literária e tem como objetivo entreter, informar e educar. A nota da emissora é encerrada com a seguinte afirmativa: “o caminho dos negros é longo, árduo, e penoso, mas a liberdade lhe aguarda no fim, tal qual aconteceu na história do Brasil”.

Grande parte das telenovelas temáticas apresentaram distorção no que tange a composição racial do Brasil, como em Terra Nostra (Rede Globo, 1999) que retratou o Brasil no final do século XIX, mostrando a proletarização dos imigrantes italianos, e a situação dos negros recém libertos. O autor desconsiderou o fato que dois terços da população da época era composta por negros. Terra Nostra, teve um impacto positivo sobre a auto-estima da comunidade de descendentes de italianos. Zanini (2005) pontua que a recepção da telenovela em foco, favoreceu a reflexividade acerca da noção de pertencimento “italiano”, dinamizando as manifestações culturais de comunidades de descendentes de italianos.

Já os personagens negros, ficaram, como de costume, cativos nas armadilhas da invisibilidade ou da visibilidade calcada no estereótipo. A construção do estereótipo negro,
segundo Sodré (1999, p. 246), surge entre a identidade social real (comparada por traços reais) e a identidade virtual (aquela que é conferida ao outro). Essa identidade virtual tem como base o imaginário social, ancorado na “tradição ocidental de preconceitos e rejeições”. E é a partir dela que são produzidos os estereótipos em torno do negro. Ou seja, a imagem dos indivíduos negros que tem origem na época da escravidão, segue viva ainda hoje na sociedade brasileira.

Corroborando esta afirmação, Carneiro (1999) destaca uma passagem da Telenovela Terra Nostra, em que um personagem negro, o “Menino Tiziu” (o nome Tiziu designa um pássaro preto) reclama de sua sorte ingrata com a seguinte frase: “Deus não quis me embranquecer”, Carneiro problematiza o impacto deste discurso na auto-estima da população negra, especialmente das crianças. A referida autora destaca também, outro diálogo entre o “Menino Tiziu” (André Luiz) e o italiano Mateo, em que o menino negro diz ao italiano que se o imigrante não se comportar direito, o capataz lhe colocará no tronco, como fazia com os negros. Mateo, interpretado pelo ator Thiago Lacerda, reage mostrando todo seu caráter de herói italiano, afirmando que se o capataz lhe colocar no tronco será um homem morto.

Para Carneiro esta é a chave explicativa dessas construções estereotipadas, a mensagem subliminar é a de uma suposta resignação dos negros a escravidão, e ao mesmo tempo ressaltar que a bravura, o orgulho, e a garra do branco imigrante que jamais se submeterá aos tratamentos dispensados à população negra, enfatizando e legitimando a premissa de que garra, orgulho, brios, e bravura são atributos que só a brancura pode conferir.

A autora destaca que as telenovelas difundem a subserviência e o infantilismo dos personagens negros, reiterando uma visão preconceituosa de uma humanidade incompleta do negro que se contrapõe a completude humana do branco, mesmo que sejam brancos de classes subalternas. A autora aponta que estes enredos de telenovelas temáticas fazem intencionalmente uma leitura do passado, que omite a violência da escravidão, as diversas
formas de resistência perpetradas pelos negros, sinalizam uma abolição inconclusa, e exaltam o papel dos processos de migração européias, romanceando a estratégia das elites locais de promover o processo de branqueamento da população. O impacto na contemporaneidade dessa fidelidade dos folhetins à “história oficial” é a desqualificação das lutas por igualdade de direitos, por afirmação da identidade étnico-racial, e por reivindicação de políticas afirmativas para grupos negros.

Entendo que a escravidão negra no Brasil é uma base usada ideologicamente para justificar a subalternização social do negro. O aportagem nos currículos escolares, nas obras literárias e nos produtos midiáticos como a telenovela, corrobora para a fomentação do preconceito dirigido a este segmento. O racismo é a expressão de uma ideologia que se propagou no mundo moderno, e promoveu a justificação do sistema escravista.

As relações de produção escravistas colocam o negro em uma posição social de subjugação, de trabalho forçado, de exploração econômica, de opressão e violência simbólica e material. As representações constituídas no imaginário social com base na matéria prima deste sistema de opressão, promoveram o desenvolvimento de uma ideologia racista que ainda vigora em muitos espaços sociais.

Para Araújo (2000) a inserção de negros em telenovelas brasileiras é apenas um espelho do preconceito racial que impera no país. O autor chama este processo de “A negação do Brasil”, pois as telenovelas negam etnicamente a realidade do país, haja visto que, na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios de 2005 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população parda corresponde a 43,2% do total e a preta a 6,3%. Seriam, portanto, 49,5% da população brasileira que poderiam ser considerada negra ou afrodescendente, e um breve levantamento etnográfico da configuração étnica do elenco de qualquer telenovela produzida no país sinaliza de forma gritante este descompasso.

Araújo (2000) considera que a ausência do negro na telenovela, ou a representação de sua imagem galvanizada pela subalternização, é conseqüência de um preconceito racial gerado pela exclusão social das populações negras no país, populações estas que para o autor continuam vivendo as mesmas compulsões desagregadoras da autoimagem, reforçada pela indústria cultural brasileira, a qual insiste simbolicamente no ideal de branqueamento. O autor analisa a presença de personagens negros em telenovelas no período de 1963 a 1997, problematizando as conseqüências destas propostas de representação nos processos de construção identitária no país. Inicia sua discussão apontando os primórdios da participação negra na televisão brasileira, pontuando o sucesso da atriz negra Isaura Bruno, na telenovela Direito de Nascer (1964), interpretando a personagem Mamãe Dolores, e a escalação do ator branco, Sérgio Cardoso, para interpretar um personagem negro, que seria o protagonista da telenovela Cabana do Pai Tomás (Tv Tupi, 1968). Para fazê-lo, o ator era
pintado de preto, usava rolhas no nariz e atrás dos lábios. A emissora justificou que a escalação de um ator branco para interpretar um personagem negro, mesmo existindo outros atores negros capazes de protagonizar o folhetim, foi unicamente no afã de atender as exigências dos patrocinadores. Este episódio inaugurou o chamado Blackface, procedimento em que atores brancos são pintados de preto, prática muito utilizada nos Estados Unidos da América; o blackface atua reforçando o entendimento de que existe uma alma branca sob e pele negra.

Ainda na década de 60, as poucas inserções de personagens negros em telenovelas brasileiras tinham como pano de fundo o amor inter-racial, protagonizado pelos atores Leila
Diniz, Natália Thimberg e Zózimo Bulbul na telenovela Vidas em Conflito (Tv Excelsior, 21hrs, 1969. Neste período ocorreram também inserções esporáticas de negros nas telenovelas, como a do jogador Pelé, que interpretou um serviçal na novela Os Estranhos, além de outras participações sem maior densidade de atores negros interpretando empregados domésticos ou capatazes, corroborando a imagem de subvalorização do negro nos primeiros anos da televisão brasileira.

É relevante sinalizar que a novela Vidas em Conflito, de autoria de Teixeira Filho, se arvorou a retratar a primeira família de classe média negra na televisão brasileira. Entretanto o enredo foi alterado para eliminar os poucos personagens negros da trama. O autor Bráulio Pedroso, que era dono de um estilo inovador em suas tramas, foi despedido da TV Globo quando preparava a sinopse da novela Preto no Branco, que tinha o projeto de ter o personagem Aristides como o primeiro protagonista negro de uma telenovela.

Araújo (2000) pontua que no inicio da década de 70, autores como Janete Clair, Jorge de Andrade e Dias Gomes, introduziram personagens negros em suas tramas. Porém, nenhum deles chegou a ser protagonista ou antagonista, foram personagens de pouca densidade em relação ao enredo central. O maior destaque fica por conta da telenovela Pecado Capital (Rede Globo, 20hrs, 1975), de autoria de Janete Clair, na qual o ator negro Milton Gonçalves, interpretou um psiquiatra formado em Harvard. Segundo Araújo, esse foi o primeiro sucesso de critica e de público para um personagem negro inserido na classe média. Ainda na década de 70, Araújo indica que as telenovelas escritas por Dias Gomes apresentavam uma “especial simpatia” por aqueles indivíduos que viviam em condições subalternas nas relações entre as classes sociais no Brasil. Entretanto, destaca que este conceito de simpatia pode ter sido conivente à imobilidade social. Segundo o referido autor,
nesta mesma década, alguns enredos de telenovelas abordaram romances inter-racias, que repetiram o estereotipo da Cinderela, que ascende socialmente através do relacionamento afetivo. Outro chavão que permeou os folhetins da época foram os tipos cômicos e pitorescos, que em 90% eram interpretados por negros nos folhetins e programas da Tv Tupi, enfatizando que o lugar do negro era o da tragédia ou do circo. Já as telenovelas Globais que enfatizavam a escravidão, como Escrava Isaura, de Gilberto Braga, e Sinhá-moça, de Benedito Rui Barbosa, além de instaurar o fato de que a escrava negra de maior sucesso da TV brasileira era branca, retratavam a figura do branco como salvador da dignidade negra. Nas décadas de 80 e 90, período em que a televisão brasileira conquistou definitivamente o mercado internacional, o espaço destinado para atores negros foi relativamente ampliado, pois nesta época houve um aumento na produção de novelas regionalistas (tramas cujos enredos não se desenvolvem em capitais ou centros urbanos) e épicas, que demandavam pela criação de personagens negros. Araújo (2000) destaca que esta ampliação se deveu também ao fato dos demais autores de telenovela começaram a seguir a proposta da dramaturga Janete Clair, e criaram alguns personagens que compunham a chamada classe média negra. Segundo o autor, neste período, de 98 telenovelas produzidas pela Rede Globo, excetuando-se as que abordaram a temática da escravidão, em 28 delas não foi encontrado nenhum personagem negro, em apenas 29 produções o numero de atores negros ultrapassou 10% do total do elenco.

Considero que o caráter contraditório desta realidade fica mais agudizado nas telenovelas regionais, como Tieta (Rede Globo, 20hrs, 1989) de Aguinaldo Silva. A trama inspirada no romance homônimo de Jorge Amado se desenvolve no agreste baiano, região onde a maioria da população é afro-descendente. Entretanto, na novela em questão não existia nenhum personagem negro.

Em Roque Santeiro (Rede Globo, 20hrs, 1985), na sinopse original o autor Dias Gomes pretendia retratar o romance entre a protagonista da história, a Viúva Porcina com seu fiel capanga Rodézio, interpretado pelo ator negro Toni Tornado. Porém, os grupos de discussão e patrocinadores da novela não aceitaram ver a atriz Regina Duarte, considerada
uma namoradinha do Brasil se envolver com um negro. Destaco uma passagem desta novela, em que Porcina se referiu ao seu capanga como um negro de alma branca, pelo fato deste lhe devotar uma fidelidade canina. Este discurso indica o único lugar possível, reservado ao negro no imaginário social da novela em questão. Nesta mesma telenovela o autor Dias Gomes, inseriu um promotor negro, interpretado pelo ator Milton Gonçalves. A novela retratou inúmeros discursos de personagens que se surpreendiam pelo fato do novo promotor da cidade ser um homem negro, todavia a participação de Milton Gonçalves foi curta. Araújo (2000) destaca que o negro não é o único discriminado na telenovela, o índio também sofre com a invisibilidade ou a representação pautada no estereotipo negativo. O autor destaca que em Aritana (Rede Globo, 22 rhs, 1979) o personagem principal, um índio, era interpretado pelo ator branco Carlos Alberto Riccielli. Seguindo este padrão que Araújo denominou de estética sueca, as personagens mulatas dos romances de Jorge Amado, quando adaptadas para telenovelas, foram sistematicamente interpretadas por atrizes brancas. Lima (2000) estudou a representação de personagens negras de 1975 a 1988 e de 1988 a 1997, e concluiu que a telenovela no Brasil contemporâneo, reflete uma situação de racismo não explícito característico da ideologia racial, com momentos de avanço e de retrocesso. A maneira como são tratadas as personagens negras no enredo da telenovela reflete essa ambigüidade e, ao mesmo tempo em a que reflete, reforça a imagem do negro que vem sendo construída e transmitida pelas grandes redes de televisão a milhões de telespectadores no País: uma pessoa humilde ou em condição social subalterna, pobre, com pouca instrução e educação. Ser mulher negra, é ser sensual. E quando esses estereótipos não estão presentes, o negro acaba sendo visto, no mínimo, como exótico, num universo de brancos. ”

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É isso!

Fonte:
Igor Bergamo Anjos Gomes: “A ameaça simbólica das cotas raciais na mídia brasileira: O negro nas telenovelas”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, para obtenção do titulo de mestre. Orientador: Prof. Dr. Carlos Benedito Rodrigues da Silva). Universidade Federal do Maranhão.São Luís, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

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