A mulher doméstica e domesticada

A mulher no lar, a “rainha do lar”, doméstica e domesticada

"No Brasil Colonial, aos poucos, o “ser mãe” terá seus contornos bem definidos. A família será uma unidade de produção e reprodução, centrada em torno da mãe ‘exemplar’, que instruía e educava os filhos cristãmente, cuidando com diligência das coisas da casa. Isso fazia integrar a mulher e os seus ao processo de formação do capitalismo da época (PRIORE, 1995: 45).

A hipótese de que as mulheres da Colônia sofreram um processo de gradual adestramento para se encaixarem no papel de mães ideais retira-as da silenciosa paisagem de estereótipos femininos, recolocando-as como objetos históricos; apresentadas com recorrência pela bibliografia tradicional como auto-sacrificadas, submissas sexu al e materialmente e reclusas, as imagens da mulher de elite opõem-se à promiscuidade e à lascívia da mulher de classe subalterna, em geral negra, mulata ou índia, pivô da miscigenação que justificou por tanto tempo a falsa cordialidade entre colonizadores e colonizados
(PRIORE, 1995: 46).

As mulheres exerciam, no ambiente do lar, poderes discretos e informais, pondo em xeque a ficção do poder masculino, bastante difundido na sociedade colonial. Na maternidade, as mulheres organizaram um espaço de revanche contra uma sociedade machista (PRIORE, 1995: 46).

Foi o nicho onde se abrigaram contra a exploração doméstica e sexual, que se traduzia, no mais das vezes, em humilhações, abandono e violência. Com essas características, a maternidade apagava as diferenças raciais, culturais e econômicas mais candentes e prestava-se a ser o instrumento de integração do gênero feminino ao projeto colonial
(PRIORE, 1995: 46).

Que mulheres- mães eram essas? Havia as solteiras, que se diferenciavam das que utilizavam relações concubinárias, sendo amparadas momentaneamente por um companheiro. Havia as que possuíam uma maternidade gestada sob as bênçãos da Igreja e ao abrigo da legislação que procurava reger o matrimônio tradicional.

O cenário do perfil familiar era nuclear, sobretudo no sudeste, diferente do quadro ruidoso e sensual descrito por Gilberto Freire em Casa-grande & senzala (1998). Conhecem-se também algumas de suas características: muitos maridos ausentes, companheiros ambulantes, mulheres chefiando seus lares e crianças circulando entre outras casas e sendo criadas por comadres, vizinhas e familiares (PRIORE, 1995: 47).

Longe das prédicas da Igreja, viviam mulheres pobres e empobrecidas, ao sabor de uniões consensuais, em alianças ditadas por simpatia de corpo e alma, contrapondo-se às da elite, contraídas, quase sempre, no interesse de manter patrimônios, ou, então, reforçar esferas de influência, ou, ainda, garantir às filhas uma proteção que outros pais desvalidos não poderiam dar (PRIORE, 1995: 47).

Desde os meados do século XIX, variados discursos sobre a família e o casal estabeleciam que era no lar, no ambiente familiar, onde se “estabeleciam as relações sexuais desejadas e legítimas, classificadas como decentes e higiênicas” (MALUF & MOTT, 2002: 386). Dessa forma, o casamento se constituía uma etapa superior das relações amorosas, uma das maiores fontes de estabilidade social. Por isso, os celibatários eram motivo de acerbos discursos, pois seriam ameaças ao edifício social.

As camadas mais pobres – operários, imigrantes, mulheres, negros e mulatos – tiveram um maior controle de comportamento, um dos nítidos aparelhos ideológicos do Estado, descritos por Althusser (1970). Clérigos, elementos das camadas médias e altas, intelectuais propunham medidas prescritivas, para institucionalizar a relação nessas camadas inferiores da população, classificando as uniões como imorais, quando o epílogo não era o casamento. Não haveria felicidade senão no casamento.

A esposa, a boa dona-de-casa (FERREIRA a, 1999: 704; MICHAELIS, 1998: 749), deveria conhecer todos os gostos do marido, por exemplo, não o interrompendo no momento da leitura, nem deixando incomodá- lo.

Na Revista Feminina, de outubro de 1924 (apud MALUF & MOTT, 2002: 394), há um “decálogo da esposa”:

I – Ama teu esposo acima de tudo na terra e ama o teu próximo da melhor forma
que puderes; mas lembra-te de que tua casa é de teu esposo e não de teu próximo;
II – Trata teu esposo como um precioso amigo: como a um hóspede de grande consideração nunca como uma amiga a quem te contam as pequenas contrariedades da vida;
III – Espera teu esposo com teu lar sempre em ordem e o semblante risonho; mas não te aflijas excessivamente se alguma vez ele não reparar nisso;
IV – Não lhe peças o supérfluo para o teu lar; pede-lhe sim, caso possas, uma casa alegre e um pouco de espaço tranqüilo para as crianças;
V – Lembra-te sempre que te casaste para partilhar com teu esposo as alegrias e as tristezas da existência. Quando todos o abandonarem, fica tu a seu lado e diz-lhe: Aqui me tens! Sou sempre a mesma;
VII – Se teu esposo possuir a ventura de ter sua mãe viva, seja boa para com ela pensando em todas as noites de aflição que terá passado para protegê-lo na infância, formando o coração que um dia havia de ser teu;
VIII – Não peças à vida o que ela nunca deu para ninguém. Pensa antes que se fores útil poderás ser feliz;
IX – Quando as mágoas chegarem, não te acovardes: luta! Luta e espera na certeza de que os dias de sol voltarão;
X – Se teu esposo se afastar de ti, espera-o. Se tarda em voltar, espera-o; ainda mesmo que te abandone, espera-o! Porque tu não és somente a sua esposa: és ainda a honra do seu nome. E quando um dia ele voltar, há de abençoar-te.

A esposa deveria, assim, conservar o “tradicional ideal de pureza e de submissão, combinar com as novas perspectivas burguesas de gerente eficiente do lar e ainda representar em sociedade o papel de companheira adequada” (MALUF & MOTT, 2002:396).

Mas, no início do século XX, há outros discursos de resistência contra essa ordem discursiva patriarcal-capitalista, como o de Ercília Nogueira Cobra, no Rio de Janeiro, em 1929, que denunciava, ao romper seu casamento, “em alto e bom som a dupla moral que estigmatizava as mulheres que ousavam viver a sexualidade fora do casamento” (MALUF & MOTT, 2002: 399).

Os discursos dominantes pregavam para as mulheres em geral uma norma sobre o papel da esposa e dona-de-casa, e para o homem o papel de chefe de família, regras que deveriam valer para toda a população. Mas foram principalmente as mulheres das classes mais favorecidas que se ligaram ao marido pelos “laços indissolúveis do matrimônio”, conduzindo apenas a administração da casa e cuidando dos filhos, com a proteção de um marido provedor. Mas a maioria das mulheres vivia relações, sem a presença efetiva de um homem no lar. Outras conviviam com companheiros, alguns sem um emprego efetivo nem regular.

Após a Primeira Guerra, ocorreram, em virtude de reiteradas reivindicações feministas, oportunidades de novas profissões para as brasileiras, fora do lar. Mas havia certos limites para a aspiração feminina. Geralmente, ofertavam-se lugares que estariam próximos da extensão das atribuições das mulheres, ou seja, as profissões de professora, datilógrafa, enfermeira, taquígrafa, telefonista, secretária, operária das indústrias têxteis, de confecções e alimentícia. Acrescente-se o fato de que as mulheres casadas, de acordo com o Código Civil de 1916, necessitavam de autorização do marido para o exercício de qualquer profissão, como atividade para complementar o sustento da família.

O trabalho da dona-de-casa sem recursos era extremamente penoso, pela falta de recursos técnicos, que só aos poucos foram introduzidos nos lares, como o ferro de passar elétrico (antes só o de carvão), a geladeira, o telefo ne, o rádio, a água encanada. Apenas uma parcela da população, a que podia pagar, tinha acesso a esses bens. Mesmo assim exigia-se da doméstica (como mostrava a Revista Feminina, de dezembro de 1921) “ser boa dona de casa... deve ser uma qualidade intrínseca da “alma feminina, não importando se de uma doutora ou de uma engomadeira” (MALUF & MOTT, 2002: 403).

Exigia-se que a mulher tivesse conhecimento, segundo certos manuais, de diversos assuntos, como a higiene, a física, a química, a geografia, as artes, para poder educar os filhos. O trabalho da casa deveria ter o seu tempo bem dividido, como arejar as camas, preparar as roupas, limpar os “trastes” e fazer o almoço, almoçar com as crianças e as fazer ir às escolas, pela manhã. Ainda: arrumar os quartos, limpar a casa. Depois de tudo pronto, poderia fazer sua toalete e dar início ao jantar, pronta para receber o “chefe” e as crianças. Em boa parte da tarde, seria feita a lavagem da roupa, trabalho hercúleo, pois as peças eram esfregadas à mão, lutando-se com a falta de água. Muita roupa era branqueada com processos antigos: em baciões esparziam cinzas e derramava-se água fervente, deixando-se de molho até o dia seguinte. Passar roupas com ferro em brasa era tarefa desgastante, pois pesavam em média cinco quilos. Um terno branco de linho precisava de cerca de cinco ferros para executar o trabalho (MALUF & MOTT, 2002: 407).

Muitas cozinhas eram um apêndice da casa, um puxado coberto com telhas, voltadas mais para o quintal do que para dentro da casa. Era um lugar muito quente, enfumaçado, engordurado, com o chão desgastado pelas pancadas do machado na lenha. A limpeza de panelas e frigideiras de ferro, pedra ou barro era realizada com sabão caseiro com uma mistura de cinzas e folhagem de pita. As panelas eram areadas com areia ou cacos de telha reduzidos a pó. Depois, iam para o sol para dar brilho. A cozinha era também utilizada para passar roupa, dar banho nas crianças e onde muitas empregadas dormiam sobre esteiras. Antes da popularização das geladeiras, as pessoas criavam galinhas, perus e patos no quintal. Na preparação, esses animais eram abatidos, depenados em água quente, chamuscados; retiravam-se as vísceras, que eram lavadas, picadas, temperadas, moqueadas e cozidas ou assadas (MALUF & MOTT, 2002: 412/3).

Mas a mulher também tinha outra tarefa: a de confeccionar vestimentas, pois a que não sabia costurar era considerada “digna de lástima”. A máquina de costura era uma companheira inseparável da boa dona-de-casa, pois representava uma economia substancial no orçamento doméstico. Apesar de todo esse esforço sobre-humano, sem nenhuma remuneração, como acontece até hoje, muitas recebiam a pecha de perdulárias. Assim, ocorriam discursos contraditórios: uns de exaltação da mulher e outros de que era dissipadora dos bens materiais da família.

Com o marido provedor da subsistência da família, legitimando a dependência econômica da mulher, a esposa se tornou a única responsável pelos trabalhos domésticos. Elas deveriam manter o bom humor, realizar todas as tarefas, ser econômicas, sem jamais pedir a participação do marido nos serviços domésticos. A importância social das mulheres, subordinadas a esse discurso dominante, era uma forma de “indenização”, pois não tinham direito de acesso à igualdade com os homens (MALUF & MOTT, 2002: 418/421).

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A mulher doméstica e domesticada

O discurso de domesticação da mulher cristaliza-se sobre a sociedade brasileira, à medida que colabora para o funcionamento da formação discursiva de que a mulher é inferior, é “sexo frágil”. De outra parte, aderiu a um discurso que domestica e perpetua a mulher por mais alguns anos nos limites do lar e dos trabalhos domésticos. Isso é interessante na medida em que preserva para os homens, no mercado, algumas frentes de trabalho passíveis de ser desempenhadas por ambos os sexos.

O trabalho doméstico, em termos capitalistas, não gera valor, já que não cria algo que se possa vender ou trocar no mercado, não contribui para acumular riqueza. O produto da dona-de-casa tem valor de uso, serve apenas para o consumo da família. Já que não possui valor de troca, não necessita ser remunerado, segundo as formações discursivas inscritas no ideológico do capitalismo. Esse trabalho “natural”, “sem valor financeiro”, “invisível”, é considerado uma simples extensão do lugar social da mulher como reprodutora, mas é uma produção de que dependem todas as demais. Assim, o sistema familiar escraviza e oprime a mulher. Para Engels, citado por Gutierrez (1985: 49), a mulher é a proletária do homem: “O primeiro antagonismo de classes que apareceu na História coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; é a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino”.

O lar é o refúgio da mulher, e, para justificar o seu confinamento, o imaginário social concebe o lar como um lugar diferente do mundo exterior, onde impera a competição, uma guerra de interesses. O lar significa aconchego afetivo, solidariedade, valores humanos. Esses são os discursos atrelados ao patriarcalismo capitalista. Na família, essa mesma instância ideológica assegura o status quo de toda a sociedade. Há nesse espaço relações de poder, de dominação masculina e a conseqüente submissão da mulher e dos filhos (GUTIERREZ, 1985: 55).

(...) a família humana é uma construção social, uma superação da família biológica (macho-fêmea-crias). Seus membros sempre estiveram unidos por uma rede complexa e precisa de direitos e proibições sexuais, de direitos e obrigações econômicas e, mais modernamente, por laços afetivos habitualmente acompanhados de laços legais e religiosos (ROCHA-COUTINHO, 1994: 27).

Enfim, à mulher foi destinado o papel de cuidar da casa e da família, negando-se a ela as características que se distanciavam desse lugar social, reforçando-se o enclausuramento ao mundo doméstico, procurando-se suavizar esse papel com o poder concedido a ela sobre esse mundo do lar. Um verdadeiro gueto familiar se criou em substituição ao gineceu dos gregos e à camarinha, lugar de oclusão da mulher no período colonial brasileiro. No espaço familiar, o homem estabelece uma relação privada com a mulher, com o marido desempenhando o papel da burguesia. A esposa exerceria o do proletariado, com a diferença de que este se integra a diversas entidades de classe, ao passo que as mulheres se encontram dispersas, cada qual em sua casa, com seu patrão particular ou seu chefe, seu uma não- identificação de umas com as outras. Em qualquer situação nos variados lugares sociais, a posição de oprimidas não muda, pois se encontram dispersas, impossibilitadas de encontrar uma dimensão política, uma identidade de grupo oprimido (GUTIERREZ, 1985: 50).”

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É isso!


Fonte:
MANOEL PINTO RIBEIRO: “AS FORMAÇÕES DISCURSIVAS SOBRE A MULHER NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA 1930-1945”. (Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós -Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense. ORIENTADOR: Prof. Dr. RICARDO STAVOLA CAVALIERE ). Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2007.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

2 comentários:

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