Adolescência na sociedade contemporânea

“A sociedade contemporânea é caracterizada por intensas transformações que se dão nos cenários sociais, políticos, econômicos, culturais, midiáticos e tecnológicos e que repercutem diretamente na vida cotidiana e, conseqüentemente, na produção das subjetividades dos sujeitos. Assim, o entendimento da adolescência na contemporaneidade deve levar em conta tais transformações que promovem novos modos ou processos de subjetivação.

Segundo Palácios & Oliva (2004), em nossa cultura ocidental atual, os indivíduos que consideramos adolescentes podem caracterizar-se, de maneira geral, por:

Ainda estarem num sistema escolar ou em algum outro contexto de aprendizagem profissional ou na busca de um emprego estável; por ainda estarem dependendo de seus pais e vivendo com ele; por estarem realizando a transição de um sistema de apego em grande parte centrado na família, passando por um sistema de apego centrado no grupo de pares, a um sistema de apego centrado em uma pessoa de outro sexo; por se sentirem membros de uma cultura de idade ( a cultura adolescente) que se caracteriza por ter suas próprias modas e hábitos; seu próprio estilo de vida, seus próprios valores; por terem preocupações e inquietações que já não são da infância, mas que ainda não coincidem com as dos adultos
. (COLL et a.l., 2004, p. 310).

Cada sociedade vai estabelecer critérios que o jovem deve atingir para obter o status de adulto. Para a nossa sociedade, estes critérios seriam, segundo Levisky (1998, p. 30) “maturidade, independência, autodeterminação, responsabilidade e atividade sexual efetivamente adulta”.

Outeiral (2003), psiquiatra e psicanalista, em sua obra Adolescer, enfatiza os fatores de natureza sociocultural que definem a adolescência e identifica alguns elementos mais universais que identificariam o término da adolescência:

1.
Estabelecimento de uma identidade sexual e possibilidade de estabelecer relações afetivas estáveis.
2. Capacidade de assumir compromissos profissionais e manter-se (“independência econômica”).
3. Aquisição de um sistema de valores pessoais (“moral própria”)
4. Relação de reciprocidade com a geração precedente (sobretudo com os pais). Em termos etários, isto ocorreria por volta de 25 anos na classe média brasileira, com variações para mais ou para menos consoante as
condições socioeconômicas da família de origem do adolescente
(OUTERIAL, 2003, p.6).

Knobel (1992, p.10) parte do pressuposto que não existe indivíduo isolado do seu contexto, nem para adoecer, sendo então “a patologia uma expressão do conflito do indivíduo com a realidade, seja através da inter-relação de suas estruturas psíquicas ou do manejo das mesmas frente ao mundo exterior”. Afirma ainda que

O adolescente apresenta uma vulnerabilidade especial para assimilar os impactos projetivos de pais, irmãos, amigos e de toda sociedade. Ou seja, é um receptáculo propício para encarregar-se dos conflitos dos outros e assumir os aspectos mais doentios do meio em que vive. Isto é o que presenciamos em nossa sociedade, que projeta suas próprias falhas nos assim chamados excessos da juventude, responsabilizando-os pela delinqüência, pela aderência às drogas, pela prostituição, etc.
(KNOBEL, 1992, p.11).

Nosso contexto cultural não facilita a transição da adolescência para o status adulto devido às condições sócio-político-culturais que tornam a adolescência mais prolongada e complexa. Torna-se difícil uma independência principalmente financeira dos pais que, conseqüentemente, impede que o indivíduo forme sua própria família, mesmo sendo física e psicologicamente adulto, fato que pode ser atribuído a características atuais de nossa sociedade onde há uma escassez no mercado de trabalho, uma ampliação do nível de escolarização e alto custo de vida, entre outros fatores.

Uma análise dessa nova configuração da adolescência na sociedade contemporânea é feita pelo médico psicanalista José Outeiral (2003). Ele enfatiza que o processo da adolescência, ao abarcar as relações do adolescente com a família e sociedade em que está inserido, se realiza num momento histórico de intensas e rápidas transformações da sociedade, com rupturas de uma série de paradigmas (idéias, valores morais e estéticos, processos de pensamento, etc.) que não podemos deixar de considerar na vivência desta fase.

Através de sua observação clínica, observa mudanças na adolescência, enquanto processo psicossocial, entre elas uma diminuição do período de latência, descrito por Freud, “invadido por uma adolescência cada vez mais precoce” (OUTEIRAL, 2003, p.103) ao verificar condutas adolescentes, como o namoro ou a contestação, em indivíduos não púberes antes dos dez anos de idade. E que tal abreviação repercutirá na estruturação do psiquismo, dada a importância do período de latência para o desenvolvimento normal, chegando ao risco de termos o fim da infância na cultura contemporânea. Em contraposição, aponta para um processo de alongamento da adolescência, chamado pelo autor de “adultescência”, onde adultos teriam condutas adolescentes implicando em falta de padrões adultos para os “verdadeiros” adolescentes se identificarem.

Aponta também que, nas classes sociais menos favorecidas, o processo adolescente começa e termina mais cedo, enquanto que nas classes sociais mais favorecidas acontece também mais cedo, mas termina bem mais tarde; e que nas sociedades primitivas após breves rituais de iniciação os jovens se tornavam adultos.

Salles (2005) aponta, em seu artigo de revisão, algumas dimensões que configuram a infância e adolescência na sociedade contemporânea, citando

[...] o prolongamento da adolescência, principalmente nas camadas médias da população; o nível de acesso ao consumo permitido às crianças e adolescentes, a informação não controlada; o nível de simetria das relações entre crianças, adolescentes e adultos e, na relação pais e filho; a insegurança dos pais quanto a imposição de limites [...] (SALLES, 2005, p.40).

SALLES (2005) concorda com outros autores que no século XX, ao se glorificar a juventude e diminuir a autoridade dos pais, os valores morais e sociais são revistos e questionados, assim como as relações de autoridade.

Ainda na perspectiva de Salles (2005), pelo jovem torna-se modelo para as diferentes faixas etárias [...] difunde-se socialmente o culto à aparência, à beleza, à erotização e à necessidade de se conservar a juventude. Como também, ainda segundo a mesma autora,

A relação criança e adulto é permeada pela cultura do consumo, na qual a felicidade se iguala à posse de bens materiais. Os objetos que se possui são projeções do eu e a imagem é algo que chama atenção e define posições sociais. As coisas e os objetos que possuímos demarcam relações sociais, definem o estilo pessoal, hierarquizam e discriminam grupos [...] Mesmo que o acesso ao consumo seja restrito, pois depende da condição social, o referencial é o mesmo. A diferença está no que se consome variando de acordo com diferentes grupos sociais.
(SALLES, 2005, p. 39).

Levisky (1998) ressalta a penetração intensa e maciça da mídia provocando intensas transformações em culturas estáveis, tornando mais complexa a organização da personalidade dos adolescentes.

Ozella (2002) vem apontar também a importância dos meios de comunicação em massa na constituição da identidade na adolescência, por entender que adolescência é uma construção histórica, ou seja, é constituída nas relações sociais e por elas significadas (interpretadas), fornecendo modelos tanto para os próprios adolescentes, como para os adultos frente a eles. Ressalta que mesmo não havendo, necessariamente, uma passividade do adolescente diante dos conteúdos e valores veiculados, a possibilidade de ser gerada uma leitura mais crítica das informações se torna mais remota dada a massificação das informações transmitidas.

Importantes repercussões nos processos de subjetivação na adolescência são apontadas por Outeiral (2003), tendo em vista um momento em que a sociedade sofre um conjunto de rupturas de uma série de paradigmas (idéias, valores morais e estéticos, processos de pensamento, etc.), dentre elas o tempo, no sentido de tempo interno, tempo de elaboração de experiências, é mais rápido para crianças e adolescentes do que para os adultos, que levaria, segundo observações clínicas do autor, ao que chama de adolescentes “atuadores”, com baixa tolerância à frustração, gerando distúrbios de condutas e na organização do pensamento. Vivem numa cultura de produtos descartáveis e efêmeros onde as relações entre as pessoas acabam tendo tais características, tornando o próprio sujeito algo descartável, um objeto, resultado também do que o autor aponta como processo de “banalização” frente à violência e sexualidade, a que estão expostos principalmente na mídia, modificando a forma de perceber a violência e a erótica. E, em relação à erótica, “a situação atual cria uma erótica que, de certa forma, adquire uma autonomia em relação ao desejo: ou seja, o objeto está ‘pronto e oferecido’ antes mesmo de ser desejado” (OUTEIRAL, 2003, p.120-121), determinando a necessidade de estímulos intensos e diferentes, que se traduzem no “ficar” do adolescente com vários parceiros, em personagens midiáticos perversos ou reality-shows, onde as “pulsões parciais [...] dominam o cenário, ocupando o lugar da sexualidade adulta, madura”.

A estética adolescente é a de um videoclipe: “breve, curto, fragmentado, desfocado, às vezes, sem início-meio-fim, [...] e não conta uma história verdadeira” (OUTEIRAL, 2003,p.121-122), inclui-se aqui a questão da estética do corpo, profundamente narcísica, resultando no incremento de transtornos alimentares e do “culto ao corpo”, nos dias atuais.

Partindo então do entendimento de que as condições sócio-históricas constroem uma determinada forma de ser adolescente, e neste sentido é produtora de subjetividade, indagamos sobre um novo fenômeno que tem marcado a adolescência, em especial a masculina, na contemporaneidade, que é o uso de substâncias com a finalidade de obtenção de ganho de massa muscular, principalmente para fins estéticos.”

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Fonte:
Vera Lúcia Mendes Trabbold: “A BUSCA DO CORPO IDEAL COMO SINTOMA CONTEMPORÂNEO: Os significados do corpo para os adolescentes masculinos que freqüentam academias de ginástica na cidade de Montes Claros – MG”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós–Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências da Saúde. Área de concentração: Saúde da Criança e do Adolescente Orientadora: Profª. Drª Regina Lunardi Rocha Co-orientadora: Profª. Drª Matilde M. Miranda Cadete). Belo Horizonte, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada.

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