Mapa linguístico da África

O site Domínio Público está disponibilizando o acesso à belíssima Coleção “História Geral da África”. São oito volumes digitalizados, em português, fruto de uma parceria entre a Representação da UNESCO no Brasil, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação do Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O texto, a seguir, fora extraído do Volume I, intitulado: “Metodologia e pré
história
da África”, e trata de interessantes aspectos lingüísticos do continente.

PARTE II
Mapa linguístico da África
Por: D. Dalby

“Embora tenha uma densidade populacional inferior à do mundo tomado como um todo, a África possui um grau de complexidade linguística mais elevado do que qualquer outro continente. Isso explica por que não existe, até o momento, um mapeamento linguístico detalhado do continente africano, apesar de tão necessário aos historiadores e outros estudiosos. O mapa etnodemográfico da África estabelecido pela União Soviética é provavelmente o que mais se aproxima da precisão até esta data, embora peque por falta de clareza: torna‑se confuso no tocante a distinções linguísticas e étnicas, e sobrecarrega‑ se de dados demográficos e “etnolinguísticos”; além disso, todos os nomes africanos são transcritos em alfabeto cirílico. Outros mapas do continente, que indicam mais os grupos étnicos que os linguísticos, são, de modo geral, por demais simplificados para apresentarem algum valor científico.
Não se pode, é claro, evitar um certo excesso de simplificação ao se tentar obter uma imagem de conjunto da distribuição das línguas no continente africano e das relações existentes entre elas. Para que um mapa tivesse precisão absoluta, seria necessário que cada habitante do continente africano fosse representado por um ponto luminoso isolado; esse ponto se moveria, indicando o deslocamento de cada indivíduo no território e deveria assumir um dentre dois mil matizes, conforme a língua falada pela pessoa num determinado momento. Dada a impossibilidade material de estabelecer um tal mapa, devemos nos contentar com um documento que, sem atingir a perfeição, é, esperamos, mais detalhado e mais exato que os atualmente disponíveis.

Há dez anos desenvolve-se um trabalho no sentido de se elaborar um mapa da África especificamente linguístico (em oposição ao étnico). O presente artigo volta sua atenção para os aspectos desse trabalho que são relevantes para a história da África.

Não obstante sua aparência técnica, o estudo comparativo das línguas africanas tem sido realizado, frequentemente, de maneira demasiado simplista, existe uma tendência a admitir que o complexo mapa linguístico da África de hoje evoluiu de um antigo mapa muito mais simples, e que as relações linguísticas podem ser expressas sob a forma de “árvores genealógicas” que se subdividem segundo uma hierarquia descendente de níveis (“famílias”, “subfamílias”, “ramos”, etc.).

A crença de que as muitas centenas de línguas modernas da África podiam remontar, em ordem ascendente regular, a algumas “linguas‑mae” levou os especialistas em linguística comparada a examinarem todas as relações possíveis das línguas africanas, inclusive as mais distantes, antes de estabelecerem suas relações imediatas sobre uma base sólida. Levou‑os ainda a considerarem essencialmente o processo histórico de divergência entre as línguas com uma suposta origem comum, excluindo o processo de convergência das línguas nao‑aparentadas ou de reconvergência das línguas aparentadas. As lastimáveis consequências de tal abordagem agravaram‑se ainda mais pelo fato de que as classificações pseudo‑históricas obtidas por esses meios serviram igualmente de quadro de referência (não apenas para as línguas africanas, mas também para os povos africanos) e, por conseguinte, influenciaram indevidamente o pensamento dos historiadores da África.

É conveniente, pois, antes de mais nada, procurar esclarecer a confusão do mapa linguístico da África, reduzindo‑o a seus componentes mais simples, a saber: de um lado, grupos linguísticos que mantenham entre si uma relação estreita e harmônica e que possuam uma unidade tanto externa quanto interna (unidades complexas); de outro, línguas distintas que não participem de nenhum desses grupos (unidades simples). Tal procedimento revela uma importante característica do mapa linguístico que permanecia encoberta pelas classificações anteriores: de um total de cerca de 120 unidades complexas e simples de toda a África, mais de 100 confinam‑se a uma única zona, que se estende do litoral senegalês, a oeste, até os planaltos da Etiópia e da África oriental, a leste. Considerando‑se todas as diferentes línguas do continente africano, aproximadamente dois terços são faladas nesta zona, com cerca de 5600 km de extensão e apenas 1100 km, em média, de largura. Essa zona estende‑se ao longo do Saara, podendo ser denominada, por comodidade, zona de fragmentação subsaariana devido à sua situação geográfica e complexidade linguística. Seus limites podem ser determinados pela geografia física e linguística: grosso modo, limita‑se ao norte com o Saara, a leste com os contrafortes montanhosos, ao sul com a orla da floresta e a oeste com o litoral atlântico. Do ponto de vista da geografia física, as áreas de fragmentação máxima situam‑se ao longo das margens norte‑oriental, central e ocidental da zona de fragmentação, na extremidade meridional do chifre da África e num bloco que cobre uma grande parte da África ocidental. Do ponto de vista das relações estruturais e lexicais de conjunto, a área mais fragmentada situa‑se provavelmente no interior e ao redor da extremidade do chifre da África, onde as línguas que representam as quatro “famílias” africanas postuladas por Greenberg são faladas em um raio que não ultrapassa 40 km. Nesse caso, e no caso das colinas do Togo, do planalto de Jos, dos planaltos de Camarões, dos montes Nuba e dos planaltos da Etiópia ocidental, parece existir uma correlação entre os países montanhosos e a intensa fragmentação linguística. Deve‑se observar ainda que as relações internas de certas unidades complexas, representadas por línguas pertencentes ou não à zona de fragmentação, tornam‑se cada vez menos nítidas nos pontos de interpenetração da zona de fragmentação.

A importância linguística e histórica da zona de fragmentação ficou obscurecida pela sobreposição de uma rede de “famílias” e de “subfamílias” de línguas postuladas por linguistas europeus e americanos. Dentre elas, as duas “famílias” mais extensas ultrapassam em interesse e validade as outras duas grandes “famílias” da classificação de Greenberg, ou até mesmo as várias “subfamílias” em que foram tradicionalmente “divididas”. Uma vez que a palavra “família” implica uma ordem de descendência de natureza humana e biológica, que não convém ao fenômeno da linguagem, poder‑se‑ia utilizar o termo “região de maior afinidade” para designar adequadamente cada uma dessas duas “famílias”, notadamente por ocuparem áreas mais ou menos contíguas do continente africano. A primeira dessas áreas, a “regiao setentrional de maior afinidade”, é tradicionalmente conhecida como “camito‑semítica” e, mais recentemente, como “afro‑asiática” (Greenberg) ou “eritreia” (Tucker). A segunda, ou “regiao meridional de maior afinidade”, foi recentemente denominada de “niger‑congo” e de “congo‑ kordofaniano” (Greenberg) ou de “nigrítica” (Murdock). Não há controvérsia sobre a validade global dessas duas regiões de maior afinidade, evidentes para os linguistas europeus desde o século XVII12 e, sem dúvida, há muito mais tempo, para os observadores africanos. A relativa importância dessas duas regiões de maior afinidade se expressa pelo fato de compreenderem mais de 80% das línguas faladas na África, sendo que só a área meridional de maior afinidade abrange aproximadamente 66% das diferentes línguas do continente. Segundo a classificação tradicionalista empregada no atual mapa linguístico, as línguas da região setentrional de maior afinidade dividem‑se em um total de 17 unidades complexas e simples (12 das quais situam‑se integralmente na zona de fragmentação) e as línguas da região meridional de maior afinidade, em um total de 58 unidades complexas e simples (57 das quais situam‑se integralmente na zona de fragmentação).

Há uma razão importante para não se estabelecerem níveis intermediários nas relações entre as zonas fundamentais de maior afinidade a nível continental e as unidades simples ou complexas a nível relativamente local. Por uma razão ainda não determinada, esses níveis intermediários de relação lingüística são muito mais obscuros e difíceis de definir do que os níveis fundamentais e imediatos. Assim é que a unidade da família “oeste‑atlântica”, “kwa”, “gur” ou “benue‑congo”, no interior da região meridional de maior afinidade, ou a unidade da família “cuxítica” ou “chádica”, no quadro da região setentrional de maior afinidade nunca foram demonstradas de maneira cabal. Embora se tenha apontado, anos atrás, esta importante falha da classificação tradicional européia e americana das línguas africanas, esses níveis intermediários de classificação continuam ocupando lugar de destaque na literatura especializada. A sustentação dessas divisões arbitrárias impostas ao mapa linguístico da África podem, de certo modo, ser comparadas à história das divisões coloniais arbitrárias impostas ao mapa político do continente.

Greenberg prestou um grande serviço à linguística africana chamando a atenção para o uso arbitrário do termo “camítico” como nível intermediário de classificação, mas, infelizmente, é o responsável pela perpetuação do uso arbitrário de muitos outros. Vários desses níveis, já haviam sido questionados pelos linguistas, mas o Professor Stewart publicou recentemente uma refutação ainda mais clara do grupo “benue‑congo”, a maior das “subfamílias” da classificação postulada por Greenberg:

“Um resultado importante de todo este (recente) trabalho sobre as línguas do grupo ‘benuecongo’ foi colocar em dúvida a validade deste grupo enquanto unidade genética, Primeiramente, admitirase de modo incontestável que Greenberg estava com a razão ao afirmar que muitas inovações comuns poderiam ter valor de prova, embora na realidade mencionasse apenas uma: a palavra que significa ‘criança’. Williamson relata, entretanto, que quando se levam em consideração correspondências fonéticas regulares, observase que tal particularidade não se limita às línguas benuecongo e, assim, não constitui prova convincente; acrescenta que, em todo o volume I de Benue‑Congo Comparative Wordlist não existe um único exemplo que constitua uma prova convincente...”.

Quando Stewart nos aponta as dúvidas antigas acerca da unidade externa do grupo benue‑congo, não se pode deixar de imaginar por que os especialistas da linguística comparada relutaram tanto em abandona‑lo em seus sistemas de classificação. Infelizmente, parece ter‑se perdido toda a lição prática do benue‑congo e – ao invés de abandonar este e outros níveis não comprovados de classificação intermediária – Stewart prefere perpetuar o esquema de Greenberg, amalgamando “benue‑congo” com “kwa” e “gur” (estes, dois conceitos igualmente arbitrários) para formar uma outra subdivisão, também arbitrária, do “niger‑congo”, conhecido agora como “volta‑congo”. Sem dúvida, teremos de esperar pelo resultado de outros trabalhos de linguística comparada antes que o “volta‑congo” de Stewart se amplie ainda mais, de modo a incluir todo o “niger‑congo” ou a região setentrional de maior afinidade, único nível fundamental de unidade externa e interna que permanece claro e inconteste.

Os historiadores deveriam notar que a “grande aceitação” da classificação standard de Greenberg repousa principalmente, com respeito ao niger‑congo, em sua própria aceitação dos “Gruppen” de Westermann ou “subfamílias” das línguas da África ocidental. Como já foi ressaltado, Westermann nao estabeleceu a unidade externa de seus “Gruppen, enquanto sua unidade interna demonstra apenas pertencerem as línguas que os constituem à região setentrional de maior afinidade.

Embora os historiadores não devam aceitar sem reservas as classificações existentes das línguas africanas, não seria demais ressaltar a importância do mapa linguístico da África enquanto fonte de informações sobre a pre‑história o continente. Obras de maior profundidade ainda estão por vir e aguarda‑seuma nova geração de historiadores das línguas que sejam, eles próprios, falantes de línguas africanas. Estarão estes habilitados a consolidar os trabalhos preliminares imprescindíveis à realização de uma comparação exata e minuciosa de línguas próximas e estreitamente aparentadas. A partir daí, então, será possível voltar‑se para uma interpretação mais estratégica do mapa linguístico da África como um todo. Embora possua um grau de complexidade linguística maior do que qualquer outro continente, a África se notabiliza pelo fato de que dois terços de suas línguas pertencem a uma só área de maior afinidade e de que esses dois terços, compostos de modos diferentes, confinam‑se à zona de fragmentação subsaariana. A África de língua bantu é a única região do continente a ter constituído objeto de discussões importantes a respeito da interpretação pre‑historica de dados linguísticos. A chave para a interpretação pre‑histórica desses dados, em escala continental, será uma melhor compreensão, de nossa parte, das relações linguísticas no interior da zona de fragmentação. Entretanto, a extensão da tarefa não poderia ser subestimada.

É difícil, sem dúvida, separar a história africana de seu cenário geográfico. No entanto, seria inútil apoiar‑se em reflexões deterministas para compreender, em toda a sua complexidade, as relações estabelecidas entre as sociedades africanas e seu respectivo meio ambiente. Cada comunidade, de fato, reagiu de maneira peculiar em relação ao meio. Assim, as tentativas mais ou menos bem sucedidas de ordenação do espaço testemunham, aqui e ali, o grau de organização dos homens e a eficácia de suas técnicas de exploração dos recursos locais. Para uma África em mudança, porém, é importante examinar determinadas particularidades geográficas capazes de elucidar os principais acontecimentos que marcaram a longa perspectiva geo‑histórica do continente. Com respeito a este ponto, as características da arquitetura da África como um todo, sua extraordinária zonalidade climática e a originalidade de seus meios naturais constituem heranças que impediram ou facilitaram a atividade humana, sem jamais determinar seu desenvolvimento. Decididamente, nada é simples nas relações íntimas entre a natureza africana e os homens que a ocupam, exploram, ordenam e transformam de acordo com sua organização política, recursos técnicos e interesses econômicos.”
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Fonte:
HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA. Volume I: Metodologia e pré
‑história da África. Comitê Científico Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África. EDITOR JOSEPH KI-ZERBO. UNESCO no Brasil, 2010.

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