Conhecimento científico: lógica hegemônica e mitificação



“Não é novidade a profunda crise em que se encontra a ciência moderna. Desde os primórdios da humanidade, o ser humano "(...) entende-se apenas como um desvelador de verdades, e nunca um construtor. Considera ele que o mundo está pronto, as verdades estão dispostas a serem relevadas, tudo está dado" (LOPES, 1999: 51). Neste contexto, a ciência seria uma forma mais adequada de se revelar a verdade última da realidade. A partir de seus métodos, que possibilitam a descrição exata e a comprovação dos fatos destacados da realidade, a ciência permitiria ao ser humano o controle pleno dos fenômenos que constituem a vida.

Embasada, cada vez mais, nos pressupostos da especialização e da fragmentação, a ciência ganhou status de mito e sua característica anônima a distancia das pessoas, ao mesmo tempo em que se enraíza em nosso cotidiano. Surgindo como única forma válida de conhecimento, a ciência moderna adquire tal relevância em nossa sociedade que é impossível pensarmos, hoje, em uma forma diferente de descrição da realidade que tenha alcançado tamanha hegemonia.

Entretanto, a ciência enquanto "
prática social do conhecimento" (SANTOS, 1993: 11) está intrinsecamente vinculada as suas condições sociais de produção e "há três séculos, o conhecimento científico não faz mais do que provar suas virtudes de verificação e de descoberta a todos os outros modos de conhecimento" (MORIN, 1996: 15).

Descrevi, anteriormente, como a busca humana pela "verdade" utiliza-se do conhecimento como uma forma de alcançar a tão desejada apreensão da realidade última que daria aos seres humanos o controle de seus destinos, em suma, de suas vidas.

Ao classificar os diversos tipos de conhecimentos possíveis e, aliado ao contexto social, dissociar os conhecimentos oriundos da percepção daqueles construídos pelo pensamento, a partir da intuição intelectual, a história começa a dar corpo ao conhecimento científico. A forte relação do pensamento com a razão e sua utilização do método como o caminho para se chegar à verdade são decisivas na organização dos pilares de sustentação do conhecimento científico.

Nessa busca contínua pela verdade, o caminho dado pela ciência constituiu-se como o de mais êxito na tentativa de descrição e apreensão do real. Esta constatação de que a ciência seria a forma mais apropriada de alcance do conhecimento pleno, ao mesmo tempo em que permitiu o desenvolvimento extraordinário deste conhecimento, imobilizou as possibilidades de o pensarmos. Como nos fala Morin (1996: 21)
"O espírito científico é incapaz de se pensar de tanto crer que o conhecimento científico é o reflexo do real". É justamente esta "crença" que nos mostra a contradição enraizada no conhecimento científico, pois, ao mesmo tempo em que procura afastar a realidade dos conhecimentos que possam ser influenciados pela mitificação ou pelo dogmatismo, a ciência se construiu como um dogma da sociedade moderna. Esta crença oriunda da tensão entre as diversas correntes filosóficas que, ao discutirem a Razão e a sua possibilidade de conduzir ao conhecimento verdadeiro, não questionam a possibilidade de o ser humano alcançar esta verdade.

Esta afirmação é facilmente percebida quando, ao queremos atribuir valor a uma afirmação a vestimos com uma roupagem científica. A frase "isto está comprovado cientificamente" dá validade a qualquer afirmação que queiramos fazer e nos faz acreditar que tal afirmação seja verdadeira e, portanto, afastada de distorções e possíveis contestações.

A utilização de um método que, ao coletar dados, a partir de observação e experimentação, e analisá-los com a utilização de procedimentos lógicos e que levem à descrição de leis e teorias - método empírico - enraizou-se de tal forma em nossas diversas esferas sociais que, hoje, é difícil pensar na produção de um conhecimento que não siga as etapas do método e que seja classificado como válido.

Hoje, a filosofia da ciência já nos apresenta questionamentos à mitificação do conhecimento científico e que nos levam a questionar a idéia de que
“(...) a ciência é uma atividade racional, que opera de acordo com algum método ou métodos especiais” (CHALMERS, 1993:19). Sabemos que a ciência está intrinsecamente ligada àqueles que a produzem e estes, por sua vez, ligados aos grupos sociais dos quais fazem parte.

A partir de questionamentos como estes que filósofos como Feyerabend (1989) discutem o papel "mítico" da ciência que, aproximando-se do papel desempenhado pelas religiões, apresenta seus métodos e teorias como verdades absolutas.

Entretanto, quero aqui discutir a hegemonia deste conhecimento científico, ao mesmo tempo, que repenso outras formas de conhecimento que julgo válidas para entender a realidade. Não pretendo como já afirmei anteriormente, "demonizar" a ciência e tentar questionar sua validade. O que objetivo é fornecer elementos para que possamos ampliar a visão sobre o conhecimento de forma a estabelecer um diálogo entre diversos deles que permitam a conseqüente ampliação de nossas formas de vermos e entendermos o mundo, pois através de um "conflito saudável" entre diversas formas de pensarmos a realidade, podemos continuar a estabelecer a contínua produção de conhecimentos que sempre motivou a humanidade.

Pretendo questionar a forma "engessada" como o conhecimento científico vem sendo apresentado e propor que retornemos a busca incessante pelo conhecimento, utilizando-nos de diversos caminhos. Esta utilização de uma única trilha de condução ao conhecimento empobrece a caminhada à medida que, ao limitar as possibilidades de pensamento, limita também as nossas possibilidades de utilização de diversos prismas que nos permitam enxergar formas diferenciadas e ampliadas de conhecimento.

Para tanto, pretendo construir um caminho que, ao repensar, brevemente os passos dados pela ciência, me permita refletir em quais momentos ou em quais formas de elaboração, a ciência ao se erguer como conhecimento hegemônico, exclui através de um monismo paradigmático, outras formas de conhecer.

Decerto, o período do Renascimento representou uma fase de desenvolvimento e conquistas da humanidade, onde a necessidade de ampliação de conhecimentos, a partir do reviver de conhecimentos elaborados na filosofia antiga e do contato com novos povos cuja lógica diferenciada proporcionou o questionamento das certezas apresentadas até então, reforçaram a busca pelo pensamento autônomo e a organização de novas metas.

Durante todo o século XVI, com a reflexão das grandes conquistas de então, ao mesmo tempo em que surge um desenvolvimento de conhecimentos sem proporções, questiona-se, já neste momento, o distanciamento que estes "novos conhecimentos" começavam a tomar da reflexão.

Entretanto, vamos encontrar neste período, a tentativa de organização de um caminho para o conhecimento que, ao se constituir como único e certo, não dissociaria a produção do conhecimento da reflexão que envolve esta produção.

Porém, apesar da explosão de produções científicas durante o Renascimento, principalmente, a partir da introdução da matematização nos conhecimentos que surgiam e o desenvolvimento da Astronomia Copernicana, vamos encontrar o marco de origem do que hoje chamamos de ciência moderna, no século XVI.

Este colossal desenvolvimento é oriundo da gigantesca quantidade de pesquisas que são desenvolvidas por quase toda a Europa. Conhecimentos relacionados à Física, à Matemática e à Fisiologia aquecem a utilização do método experimental desenvolvido por Francis Bacon que, ao ser aplicado por Galileu na criação da Mecânica Moderna, estabelece a posição na qual até hoje este método influencia a produção científica.

Este período inaugura a fase de rompimento com a filosofia aristotélica que, ao descrever o mundo como um organismo finito e ordenado, onde todas as coisas teriam lugar definido, permitia a descrição e a classificação da realidade, na tentativa de sua apreensão.

A ascensão da ciência moderna põe a humanidade frente a um período revolucionário, onde a idéia de um universo sem limites possibilitou a audácia de imaginar a possibilidade de uma forma de conhecimento que, ao descrever esta realidade e desvendar seus, até então, mistérios indecifráveis, poderiam favorecer seu controle e sua utilização. O ser humano defrontava-se então com uma de suas maiores descobertas: ele não era uma peça no jogo da natureza, ele podia entendê-la, dominá-la. Podia utilizar-se da realidade para compondo e recompondo os fenômenos, fazer o seu próprio destino. Não estava mais a mercê de uma realidade da qual algo ou alguém dispunha para organizar sua vida. Ele podia agora, entendê-la e, portanto, controlá-la.

Esta constatação é, notadamente, oriunda das proposições realizadas, no início do século XVII, por Francis Bacon que, ao afirmar que o objetivo primeiro da ciência deveria ser a melhoria da vida dos seres humanos, apresenta o método experimental como o caminho para se alcançar esta meta. Através da coleta de dados, a partir da observação, se organizariam teorias que seriam a base para a contínua reorganização dos fenômenos da realidade.

Podemos entender este período como de uma notável revolução, pois, ao romper com a idéia do universo finito e perceber que podia entendê-lo e controlá-lo, visto que, a partir da afirmação de Galileu de que a natureza é escrita em linguagem matemática, surge a possibilidade do ser humano desvendar os seus processos, a humanidade começa, então, a aproximar-se da organização de um caminho para efetuar o desvelamento e posterior controle da realidade.

A ciência começa a ganhar, então, o poder sobre as coisas e sobre os seres vivos. Aliada, na mesma época, à organização dada por René Descartes quando, ao lançar o Discurso do Método (1637), a ciência dá, então, seu primeiro passo em direção à posição hegemônica que ocupa até os dias de hoje.

Como esclareci no início da escrita da tese, minha intenção primordial é a discussão sobre o ensino de ciências na escola fundamental. Entendo que não há possibilidade de discutir este ensino sem realizar uma análise de como vêm se dando as relações de produção histórica do conhecimento científico, visto que penso ser esta uma forma de analisar como esta historicidade influencia o ensino das ciências.

Para a realização desta breve análise venho, até o momento, construindo um caminho onde, ao passar pela discussão primeira do que é o conhecimento, chego até o conhecimento científico, como uma das maiores expressões realizadas pela humanidade na tentativa contínua de chegar à verdade absoluta, porém afirmando não ser o conhecimento científico, sua única expressão.

Ao apresentar uma brevíssima descrição de como a ciência moderna estabelece-se como o conhecimento pleno, objetivo levantar elementos que me permitam entender como esta dogmatização chega aos dias atuais enraizando-se por todas as esferas de nossa vida cotidiana e gerando um tipo de escola e um ensino de ciências que, mesmo ao tentar "cientificizar" o conhecimento trabalhado, o afasta das intenções primordiais da ciência e apresenta um conhecimento imutável e que tido como verdade, não dá possibilidades de questionamento, reflexão e produção contínua de conhecimentos.

Entendo que temos, no desenvolvimento da ciência, três grandes correntes que influenciam até hoje o ensino de ciências, o Cartesianismo, o Empirismo e o Positivismo. Realizarei, agora, uma brevíssima descrição destas três correntes, na tentativa de estabelecer as conexões necessárias à discussão primordial que
pretendo desenvolver na tese: o ensino de ciências."


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Fonte:
LANA CLAUDIA DE SOUZA FONSECA: "RELIGIÃO POPULAR: O QUE A ESCOLA PÚBLICA TEM A VER COM ISSO? - PISTAS PARA REPENSAR O ENSINO DE CIÊNCIAS” . (Trabalho apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina ministrada pelo prof no Programa de Pós-Graduação em educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Rio de Janeiro, 2005.

Nota
:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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