Machado de Assis por seus contemporâneos: Sílvio Romero

A série "Fundo do Baú - Literatura" abordará como tema a pessoa e a obra do grande escritor brasileiro, o genial Machado de Assis. Publicaremos análises e opiniões de alguns dos mais influentes contemporâneos do autor de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", em material publicado pela Biblioteca Nacional Digital, disponibilizado digitalmente em seu belo site.

SÍLVIO ROMERO (1851-1914)
Sílvio Romero foi um ensaísta, crítico, folclorista, polemista, professor e historiador da Literatura Brasileira, nascido em Lagarto, interior do Sergipe, em 21 de abril de 1851, e falecido no Rio de Janeiro, RJ, em 18 de julho de 1914. Foi ele um grande defensor da ideologia professada pelo evolucionista Herbert Spencer. Este, como é sabido, acreditava na supremacia de uma raça, que considerava superior. A crítica de Romero, a seguir, reflete em muitos aspectos, esta tendenciosa doutrina. Vemos isso, por exemplo, em: “Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e ai dele se saísse. Não teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada”. / “O temperamento, a psicologia do notável brasileiro não eram os mais próprios para produzir o humour, essa particularíssima feição da índole de certos povos. Nossa raça em geral é incapaz de o produzir espontaneamente.” / “Nas raças arianas, a que supomos levianamente pertencer de todo, mas a que de fato pertencemos em limitadíssima parte, nas raças arianas, só entre indús e eslavos, os psicólogos das nações têm encontrado insistentemente tão desoladoras tendências. Entre germânicos, gentes essencialmente enérgicas, não se o fato, senão, por assim dizer, esporadicamente e de modo exterior, sem alcance sério. Tal o caso de um Schopenhauer, de um Hartmann, de um Taubert, a quem erroneamente alguns juntam, sem a mínima razão, Frederico Nietzsche, que era exatamente o contrário de um pessimista. O mesmo se pode dizer dos latinos com seu Tácito antigo, ou seu moderno Leopardi. Nós brasileiros somos faladores, desrespeitadores das conveniências, assaz irrequietos, até onde nos deixa ir nossa ingênita apatia de meridionais, mas não somos pessimistas, nem nos agrada o terrível desencanto de tudo, sob as formas desesperadoras dos nirvanistas à Buda ou à Schopenhauer.”

Dito isto, vamos a Sílvio Romero e o que ele pensava da literatura do nosso Machado de Assis:

JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS (1839-1908).

Não era sem razão estuda-lo precedentemente a Távora e Taunay, porque os antecedeu nas lides literárias; mas como sua evolução foi longa e larga, distendendo-se após a daqueles, colocamo-lo depois.

O ilustre romancista e poeta era filho do Rio de Janeiro e veio à luz no ano de 1839.

Provinha de pais pobres e atravessou dificuldades em eu início: começou pela arte tipográfica.

Esta profissão teve a vantagem de despertar-lhe o gosto literário e pô-lo em relação com os escritores do tempo. Para alguma cousa serve a desfortuna econômica. O jovem Machado bem cedo começou a frequentar a Petalógica, curiosa sociedade de homens de letras, e a livraria de Paula Brito, mestiço inteligente, que amparou mais de um estudante, e cuja ação benfazeja, naquele sentido, na literatura, mereceria um estudo especial.

Tendo começado os seus primeiros ensaios literários aos vinte anos, em 1859, até aos trinta nada produziu que tivesse sério valor.

Suas obras até 1869 são de ordem tão secundária, que ele mesmo as ocultava em sua quase totalidade.

É o caso de Desencantos, fantasia dramática, de 1861, d' O Caminho da Porta e d' O Protocolo, de 1863, d'Os das Deuses de Casaca, de 1865, e das próprias Crisálidas, do ano anterior.

É um decênio inteiro de ensaios na comédia, na poesia, no folhetim, no conto, não falando numas poucas de traduções de mera fancaria.

Não é tudo; a década seguinte, que chamaremos o período de transição, é ainda pouco expressiva.

É lícito, pois, afirmar que só depois dos quarenta anos, só depois de 1879, Machado de Assis assumiu nas letras pátrias o lugar em que se viu colocado, porque só então o seu talento achou o filão mais fecundo, e seu espírito tomou a atitude significativa que distinguiu.

Iniciando os primeiros passos nas letras em 1859, quer isto dizer que, ao principiar, encontrava o romantismo brasileiro em plena floração, quase é lícito dizer, em franca decadência.

Sim, os três marcos miliários do romantismo pátrio já tinham sido erigidos pelas mãos possantes da geração anterior: e esses marcos eram os Suspiros Poéticos de Magalhães, em 1836; os Cantos de Gonçalves Dias, dez anos mais tarde, em 1846; o Guarani de Alencar, no decênio seguinte, em 1856.

Ao lado destes chefes de fila, quatro companheiros eméritos tinham já dado a lume seus melhores escritos, Porto Alegre, Macedo, Martins Pena, Álvares de Azevedo, estes últimos até falecidos, havia já bastante tempo.

Queremos significar que a mocidade passou a Machado de Assis entre os moços da geração seguinte. Sua camaradagem foi com um grupo de epígonos, que é costume elogiar demasiado, mas que era de uma mediocridade desoladora.

O período de transição na carreira de Machado de Assis (18691879) encerra alguns produtos ainda pouco significativos.

É o caso das Falenas em 1869, dos Contos Fluminenses em 1870, de Ressurreição em 1872, até Iaiá Garcia em 1878, que já é um belo romance, onde seu talento de observador psicólogo e de moralista, picado por certa dose de ironia, já se expande brilhantemente.

Abre-se depois a grande fase da maturidade, que durou trinta anos, e onde avultam as Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Papéis Avulsos, Histórias sem Data, Várias Histórias, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Relíquias de Casa Velha, Memorial de Aires.

Um estudo, mais ou menos completo, do escritor fluminense – na poesia, no conto, no romance, determinando-lhe o valor nesses domínios da produção literária, e nomeadamente notando-lhe as qualidades predominantes do espírito, no intuito de defini-lo em traços nítidos, já não é hoje cousa que se possa fazer sem arredar previamente do caminho certos tropeços nele postos pela crítica indígena.

Um desses é a apregoada antinomia entre a primeira e a segunda fase da carreira do ilustre autor, entre a sua antiga maneira e a que depois adotou.

Julgam geralmente que existe um valor quase invadeável entre os dois períodos.

A nova maneira de Machado de Assis não estava em completa antinomia com o seu passado, sendo apenas o desenvolvimento normal de bons germes que ele nativamente possuía, naquilo que a nova tendência teve de bom, e o desdobramento, também normal, de certos defeitos inatos, naquilo que teve ela de mau.

O psicologismo, mais ou menos irônico e pessimista, do autor de Brás Cubas, prende-se, por mais de uma raiz, ao romantismo comedido e sóbrio, cheio de certas sombras clássicas, que o escritor jamais abandonou.

Por outros termos, seu romantismo foi sempre, no meio da barulhada imaginativa e turbulenta dos seus velhos companheiros, pacato e ponderado, com uma porta aberta para o lado da observação e da realidade; seu posterior sistema, que poderemos chamar um naturalismo de meias tintas, um psicologismo ladeado de ironias veladas e de pessimismo sossegado, tem, por sua vez, uma janela escancarada para a banda das fantasias românticas, não raro das mais exageradas e aéreas.

Toda a obra do escritor é um produto sui-generis, dando-nos o exemplo duma espécie de ecletismo maneiroso, ponderado, discreto, em que se refletem as forças de um espírito valoroso, é certo, porém fundamentalmente plácido e tranquilo.

Outro preconceito que é mister arredar, é o de não poder o autor de Iaiá Garcia ser apreciado pelo critério nacionalista.

Machado de Assis pode e deve ser também julgado pelo critério nacionalista, que aliás não reputamos o único critério nestes assuntos; por mais de uma face o poeta das Falenas, o romancista de Ressurreição, presta-se à operação e não sai amesquinhado.

A inspiração nacionalista não é, ao que se repete vulgarmente, a que é mais pegada à vida nacional. Se assim fora, não teríamos dado importância a Álvares de Azevedo, Laurindo Rabelo, Aureliano Lessa, Varela, Castro Alves, Tobias Barreto, que, entre os românticos, estão na primeira fila dos poetas, já não falando no velho Cláudio da Costa, que ocupa o primeiro posto entre os clássicos.

O espírito nacional não está estritamente na escolha do tema, na eleição do assunto, como se costuma supor.

Não é mais possível hoje laborar em tal mal-entendu. O caráter nacional, esse quid quase indefinível, acha-se, ao inverso, na índole, na intuição, na visualidade interna, na psicologia do escritor. Tomasse um eslavo, um russo, como Tolstoi, por exemplo, um tema brasileiro, uma história qualquer das nossas tradições e costumes, havia de trata-la sempre como russo. Isto é fatal. Tomasse Machado de Assis um motivo, um assunto entre as lendas eslavas, havia de trata-lo sempre como brasileiro, queremos dizer, com aquela maneira de sentir e pensar, aquela visão interna das cousas, aquele tique, aquele sestro especial, se assim nos podemos expressar, que são o modo de representação espiritual da inteligência brasileira.

Não há livro menos alemão pelo assunto do que o Faust; não existe outro mais alemão pelo espírito. O tema é universal, é humano, a execução é germânica.

Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e ai dele se saísse. Não teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada.

Seus romances, seus contos, suas comédias encerram vários tipos brasileiros, genuinamente brasileiros, e ele não ficou, ao jeito de muitos dos nossos, na decoração exterior do quadro; mais penetrante do que muitos desses, foi além, e chegou até a criação de verdadeiros tipos sociais e psicológicos, que são nossos em carne e osso, e essas são as criações fundamentais de uma literatura. Que tal é aquele Luiz Garcia, aquele Antunes, aquela Valéria, aquele Procópio Dias, aquela Estela, todos estes só no pequeno livro de Iaiá Garcia?

Que vêm a ser aquele Carlos Maria, aquele Freitas, aquele Palha, aquela Fernanda, aquele Teófilo, aquela Tonica, aquele Camacho, e esse impagável major Siqueira, todos dessa extensa galeria de silhouettes que se chama Quincas Borba? Nos contos então a messe é ainda maior...Será preciso lembrar o Diplomático, esse curioso Rangel, que é um modelo do gênero, ou certos tipos de Alienista, e da Galeria póstuma, tão brasileiros em tudo?

Como poeta, o autor de Brás Cubas publicou quatro coleções de versos: Crisálidas em 1864, Falenas em 1869, Americanas, em 1875, Ocidentais.

A índole do talento de Machado de Assis não era a de um apaixonado e ardente poeta.

Faltava-lhe a imaginação vivace, alada, rápida, apreensora, capaz de reproduzir as cenas da natureza ou da sociedade, e daí a sua incapacidade descritiva e seu desprazer pela paisagem.

A poesia do notável fluminense, pondo de parte certa feição patriótica. que se acha nas Americanas, tem três notas capitais: uma sonhadora e pessoal, outra humorista e docemente irônica, a terceira de certa curiosidade por cousas estranhas, por quadros afastados e peregrinos.

O livro onde melhor se acham juntas essas três notas é o das Falenas. A primeira se encontra em Prelúdio, Ruínas, Musa dos olhos verdes, Sombras... a segunda está em Menina e moça, Lágrimas de cera, Pálida Elvira... a última naqueles oito quadrinhos imitados da poesia chinesa.

As duas primeiras feições são as mais distintas, e por elas é que deve ser principalmente apreciado.

Não é um temperamento robusto. de órgãos abertos para o mundo exterior a receberem e a entornarem-lhe n'alma as sensações fortes, variadas, intensas e multíplices da natureza e da vida universal.

Não conhece essa intimidade com os grandes fenômenos externos, a camaradagem com as árvores e os animais, a embriaguez pelas fortes cenas das montanhas, dos mares. dos campos, das matas; nem a efusão inebriante do espetáculo dos céus imensos ou profundos, ou sombrios, ou brilhantes, ou borrascosos, ou azuis, ou estrelados; nem as cenas inefáveis das manhãs e das tardes tropicais, as mil cambiantes da paisagem, a eloquência infinita e muda, o quebranto intraduzíve1 das noites calmas e estivais.

As sensações que nele predominam são as da visão, porque de preferência são desse gênero as imagens que emprega; mas o colorido é sem intensos brilhos; o desenho anguloso e desigual; nada de fortes descrições, de amplos quadros, de vigorosas cenas, de reproduções realistas do mundo.

Se não há amplamente a cor, a luz, não há também o contorno, a plástica, a tateação das formas, doces, puras, rítmicas.

Não existe também o som, a música, a soletração indefinível que os sonhadores panteístas sentem emanar de tudo, evolar de todas as cousas.

O poeta é plácido; tudo se lhe afigura tranqüilo, tudo assume feições de quieto asilo a seus olhos. Não há em nossa língua autor de versos que abusasse mais destas palavras.

A poesia para ele é uma abstrata mansão, onde habitam a esperança e a saudade, é um refúgio tranqüilo, um sossegado asilo, terra pura e santa, onde há um suave remédio para os tristes, onde a musa verte seus bálsamos e converte as lágrimas em pérolas, onde se transforma o viver, acalma-se a tristeza, a dor se abranda e cala, canta a alma e suspira; enfim, alguma causa de comparável à Alemanha por que sonhava a ingênua moça, amante de André Roswein, no drama Dalila de Octave Feuillet!...

O estilo nas composições de lirismo narrativo e às vezes nas de feição humorística é seguro, correto, límpido, pôs to que demasiado sóbrio e pouco abundante.

O vocabulário não é dos mais ricos, mas é escolhido e de bom cunho.

Manhã de inverno é um caso desses; Menina e moça é outro. Ouçam as quadras da primeira:

"Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores. curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço. o inverno deste clima
Na verde palma sua história escreve.

Pouco a pouco dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale:
Já se vão descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o pano: eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou c'os sábios olhos
A suprema ciência do empresário:

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, – a voz serena
Acorda os ecos tímidos do vale:
E a divina comédia invade a cena."

É o velho estilo do romantismo.

Não ficou, porém, preso a essa escola o nosso poeta;nos últimos anos sacrificou em aras parnasianas. A esta última fase pertencem duas pequenas peças, Círculo vicioso e Mosca azul, que muitos sabem de cor.

Eis aqui o Círculo vicioso:

"Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– "Quem me dera que fosse aquela loura estrela.
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

–"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

– "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

É correto e bem feito incontestavelmente. Machado de Assis ficará, porém, como prosador, como quem mais fundo, no Brasil, penetrou no romance e no conto os abismos d'alma humana. Não é pequena glória, como vamos já ver.

O estudo da parte mais notável da obra literária de Machado de Assis, no romance e no conto, deve ser feito em seus elementos capitais: o estilo, o humour, o pessimismo, os caracteres. A análise destes quatro aspectos da obra fará conhecer a fundo o homem e o escritor. Comecemos pelo estilo.

O estilo de Machado de Assis não se distingue pelo colorido, pela força imaginativa da representação sensível, pela movimentação, pela abundância, ou pela variedade do vocabulário. Suas qualidades mais eminentes são a correção gramatical, a propriedade dos termos, a singeleza da forma.

O nosso romancista não tem grande fantasia representativa. Em seus livros de prosa, como nos de versos, conforme deixamos notado, falta completamente a paisagem, falham as descrições, as cenas da natureza, tão abundantes em Alencar, e as da história e da vida humana, tão notáveis em Herculano e em Eça de Queiroz.

O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rútilo, nem grandioso, nem eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente, do vocabulário e da frase. Vê se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem.

Machado de Assis repisa, repete, torce e retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal ou qual tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa concienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra.

É abrir ao acaso qualquer livro do prosador fluminense. Seja o mais antigo de seus volumes de contos, e logo na primeira página:

"Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas, por outro lado, sem a apresentação de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o papel sem adiantar a ação. Não há hesitação possível: vou apresentar-lhe Miss Dollar.
Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar é uma Inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dous grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças louras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roast beef britânico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoitos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um suspiro.
A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.
Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez será uma robusta Americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita.Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, cousa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol. Será uma boa mãe de família, segundo a doutrina de alguns padres-mestres da civilização. isto é, fecunda e ignorante.
Já não será do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas paginas, seria uma boa Inglesa de cinqüenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se não tivesse óculos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chapéu de linho em forma de cuia. seriam a última demão deste magnífico tipo de ultramar.
Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a heroína do romance não é nem foi Inglesa, mas Brasileira dos quatro costados,e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.
A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem as outras são exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a Brasileira rica. Falha dessa vez a proverbial perspicácia dos leitores. Miss Dollar é uma cadelinha galga."

Percebe-se que não há nativa fluência na língua, nem movimento nas idéias; é alguma cousa que não vem de fonte copiosa e precípite, porém que escorre docemente como um veio pouco abundante, posto que límpido e suave. É que tal essencialmente é o espírito do romancista. Pouco vasto, possui em alto grau a facilidade da reflexão. Com um punhado de idéias pouco extensas, com um vocabulário que não é dos mais ricos, faz muitas e repetidas voltas em torno dos fatos e das noções que eles lhe deixam na inteligência, orientada por um imperturbável bom-senso, que lhe supre a imaginação e ajuda a observação que não deixa de ser notável. O cultivo dos bons mestres da língua forneceu-lhe certas formas de construção e de frase que lhe imprimem ao estilo a graciosidade da correção e apuro gramatical, na falta de outras qualidades mais brilhantes.

É um distinto prosador pela correção, pela simplicidade, pela propriedade das imagens, pelo adequado das comparações, pelo apropriado dos qualificativos.

Ele é o artista da frase média, cadenciada, medida, onde a palavra é catada com peculiar interesse, o qualificativo é esmerilhado com especial apuro; onde certos e determinados vocábulos entram como indispensável ornato.

Citaremos uma de suas mais belas páginas.

É quando descreve, em Quincas Borba, o passeio matinal de Carlos Maria, o céptico e meio blasé Carlos Maria, no dia do seu noivado. Eis aqui esse misto de velado humorismo e discreta poesia:

" – Ainda bem que se casa! repetiu o Rubião.
Não se demorou o casamento: três semanas. Na manhã do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era ele mesmo que ia casar? Não havia dúvida; mirou-se ao espelho, era ele.
Relembrou os últimos dias, a rápida marcha dos sucessos, a realidade da afeição que tinha à noiva, e, enfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira ideia enchia-o de grande e rara satisfação.
Ias ruminando ainda, a cavalo, no passeio habitual da manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho.
Posto se achasse costumado aos olhares admirativos, via agora em toda a gente um aspecto parecido com a noticia de que ele ia casar.As casuarinas de uma chácara, quietas antes que ele passasse por elas, disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos atribuiriam à aragem que passava também, mas que os sapientes reconheciam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas.
Pássaros saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal.Um casal de borboletas, – que os japões têm por símbolo da fidelidade, por observarem que, se passam de flor em flor, andam quase sempre aos pares, – um casal delas acompanhou por muito tempo o passo do cavalo, indo pela cerca de uma chácara que beirava o caminho, voltando aqui e ali, lépidas e amarelas.
De envolta com isto, um ar fresco, céu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoços estendidos pela janela fora das diligências, para vê-lo e ao seu garbo de noivo. Certo, era difícil crer que todos aqueles gestos e atitudes da gente, dos bichos e das árvores, exprimissem outro sentimento que não fosse a homenagem nupcial da natureza.
As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cerca. Seguiu-se outra chácara, despida de árvores, portão aberto, e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janelas de peitoril, cansadas de perder moradores. Também elas tinham visto bodas e festins; o século ainda as achou verdes de novidade e de esperança.
Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavaleiro. Ao contrário, ele possuía o dom particular de remoçar as ruínas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de há pouco.
Parou o cavalo; evocou as mulher que por ali entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as próprias sombras das pessoas felizes e extintas vinham agora cumprimenta-lo também, dizendo lhe pela boca invisível todos os nomes sublimes que pensavam dele. Chegou a ouvi-las e sorrir.
Mas uma voz estrídula veio mesclar-se ao concerto: – um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: "Papagaio real, para Portugal: quem passa? Currupá. papá. Grrr... Grrr..." As sombras fugiam, o cavalo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafações da pessoa humana, dizia ele.
A felicidade que eu lhe der será assim também interrompida? reflexionou andando.
Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua e pousaram cantando a sua língua própria: foi uma reparação. Essa língua sem palavras era inteligível, dizia uma porção de cousas claras e belas. Carlos Maria chegou a ver naquilo um símbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, ele a faria erguer aos trilos da passarada divina, que trazia em si, idéias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada."

Eis aí: é o quadro mais completo, como pintura e descrição, que se encontra em toda a obra de Machado de Assis, em que ele mais habilmente juntou a imaginação, a poesia e o humour, em que mais docemente casou a natureza exterior a uma situação d'alma humana.

Falemos agora do humorismo e pessimismo do nosso romancista.

Depois da mutação por que, de 1870 em diante, foi passando o espírito dos intelectuais brasileiros, sob a influência partida da escola de Recife, houve certo grupo de românticos que não tiveram a coragem de atirar fora a velha bagagem e tomar outra nova, entrando nesse renovamento do pensar nacional pela crítica, e começaram a se mostrar amuados, displicentes, irônicos, desgostosos, rebuscados, misteriosos e pessimistas.

Impotentes já, pela idade, de tomar um partido definido entre as grandes correntes filosóficas que dividiam o século, materialismo, positivismo, evolucionismo. monismo transformístico, hartmanismo, ficaram a burilar frases com o ar enigmático de faquires, falando em nome de não sabemos que cousas ocultas que fingiam saber.

Neste singular grupo Machado de Assis foi chefe de fila.

Ele sentiu também, numa certa hora, o desgosto que, em momento psicológico, se apoderou d'alma brasileira. Mas sentiu-o de leve.

Papéis Avulsos, Várias Histórias, Brás Cubas, Quincas Borba
... são amostras desse humorismo pacato, desse pessimismo vistoso e intencional, que atacou o espírito público, antes que ele tomasse gosto e jeito para passar adiante.

O humour, nestas condições, não é natural e espontâneo; é um capricho, uma cousa feita segundo certas receitas e manipulações.

Ora, o humour não é artefato que se possa imitar com vantagem; porque ele tem real merecimento quando se confunde com a índole mesma do escritor.

O humorista é porque é e porque não pode deixar de ser. Dickens, Carlyle, Swift, Sterne, Heine foram humoristas fatalmente, necessariamente; não podia ser por outra forma. A índole, a psicologia, a raça, o meio tinha de faze-los como foram.

Tomaz Hood, Fielding, Richter, ou qualquer dos citados acima, ninguém de bomsenso pode acreditar que escrevessem as Americanas, Helena, Iaiá Garcia, A Mão e a Luva, Ressurreição, Crisálidas, isto é, seis livros onde tudo poderá existir, menos o genuíno humour, seis livros que representam um grande mortalis oevi spatium do nosso autor, sem que este desse, de longe ou de perto, o menor sinal de ocultar em si o espírito mefistofélico dos humoristas de raça.

O Machado de Assis dos últimos anos era fundamentalmente o mesmo eclético de trinta ou quarenta anos atrás: meio clássico, meio romântico. meio realista, uma espécie de juste milieu literário, um homem de meias tintas, de meias palavras, de meias idéias, de meios sistemas, agravado apenas pelo vezo humorístico, que não lhe ia bem, porque não ficava a caráter num ânimo tão calmo, tão sereno, tão sensato, tão equilibrado, como era o autor de Tu só, tu, puro amor.

A manifestação mais aproveitável de seu talento foi certa aptidão de observação comedida e a capacidade de a revestir, em suas obras, de uma forma correta e pura.

A princípio o poeta e romancista diluía por tudo aquilo certo lirismo, doce, suave, tranqüilo; depois teve veleidades de pensador, de filósofo, e entendeu que devia polvilhar os seus artefatos de humour, e, às vezes, de cenas com pretensão ao horrível.

O temperamento, a psicologia do notável brasileiro não eram os mais próprios para produzir o humour, essa particularíssima feição da índole de certos povos. Nossa raça em geral é incapaz de o produzir espontaneamente.

Nossa raça produz facilmente o cômico, que se não, deve confundir com o humour.

O cômico ri pelo gosto de rir, porque em tudo sabe farejar o grotesco. O humorista ri com melancolia, quando devia chorar; ou chora com chiste, quando devia apenas rir. A situação é diversa e mais complicada do que a do espírito simplesmente cômico.

Como quer que seja, não se encontram em Machado de Assis os característicos do humorista descritos pelos mestres da crítica.

Não tinha aquela visualidade subjetiva da contradição entre o ideal e a realidade no mundo e no homem, que o forçasse constantemente à nota artística do humour.

Não tinha aquela efusão contínua da sensibilidade, que tal estado d' alma determina. Não possuía aquela particular superioridade de julgamento dos homens e das cousas, e descambava quase sempre, em seus últimos livros, para o pessimismo, que não é o humorismo, e algumas vezes talvez para uma espécie de misantropia, cousa por outro lado também diversa do pessimismo.

Se se pode tomar Lawrence Sterne como o tipo de escritor humorista e os seus livros como modelo do gênero, não há no mundo das letras dois homens mais dessemelhantes do que o autor de Ressurreição e o de Tristram Shandy, e não existem obras mais diferentes do que as do autor inglês e as do brasileiro.

Sterne era um misto singular de volubilidade e paixão, de sentimentalismo e leviandade. Pastor protestante e crente na sua religião, era um perpétuo namorado, metido em aventuras apaixonadas que o levaram quase ao delírio. Filho de militar inglês, conheceu a vida da caserna e das guarnições de cidade em cidade; de família burguesa, e mais tarde pastor d' aldeia, tendo passado pela Universidade, pôs-se em contacto com a média da sociedade, onde são mais tenazes as recordações e mais variados os tipos.

Daí a grande fonte em que se abeberava a sua imaginação travessa, o seu caráter inconstante, a sua índole versátil.

Por isso é que encheu Tristram Shandy e a Viagem Sentimental de tantas cenas que são verdadeiros prodígios d'arte humorística e conseguiu criar dois tipos dos mais originais da literatura universal. Algumas destas cenas, como a história de Le Fêvre, a morte de Yorik, os dois asnos, o asno morto de Nampont, e o de massapão, a mosca do irmão de Tristram, são, no dizer dos mestres, verdadeiras obras-primas. Quanto aos tipos, isto é, os dois manos Shandys. são dois caracteres animados, duas criações cheias de realidade, de movimentação, de força, de vida, em suma, que parecem dois entes tomados ao natural, tipos representativos de duas classes de seres humanos, sem abstração, e na mais completa espontaneidade da existência.

Nem o nosso sensato, manso, criterioso e tímido Machado se pareceu com Lawrence Sterne, nem ele jamais ideou nada, que lembre os dois irmãos Shandys.

Lancemos rápidos olhares sobre o pessimista, que se quis manifestar especialmente nas Memórias de Brás Cubas, no Quincas Borba e em Dom Casmurro.

Antes de tudo, uma nota que se nos antolha indispensável: nós os brasileiros não somos em grau algum um povo de pessimistas. Em nossa alma nacional, em nossa psicologia étnica não se encontram as tremendas tendências do desalento mórbido e de resignação consciente diante da miséria, da mesquinhez, do nada incurável da existência humana.

Nas raças arianas, a que supomos levianamente pertencer de todo, mas a que de fato pertencemos em limitadíssima parte, nas raças arianas, só entre indús e eslavos, os psicólogos das nações têm encontrado insistentemente tão desoladoras tendências. Entre germânicos, gentes essencialmente enérgicas, não se o fato, senão, por assim dizer, esporadicamente e de modo exterior, sem alcance sério. Tal o caso de um Schopenhauer, de um Hartmann, de um Taubert, a quem erroneamente alguns juntam, sem a mínima razão, Frederico Nietzsche, que era exatamente o contrário de um pessimista. O mesmo se pode dizer dos latinos com seu Tácito antigo, ou seu moderno Leopardi. Nós brasileiros somos faladores, desrespeitadores das conveniências, assaz irrequietos, até onde nos deixa ir nossa ingênita apatia de meridionais, mas não somos pessimistas, nem nos agrada o terrível desencanto de tudo, sob as formas desesperadoras dos nirvanistas à Buda ou à Schopenhauer.

Em nosso mundo ocidental os poucos verdadeiros pessimistas, os desabusados de tudo e de todos, irremediavelmente condenados a sofrer a imensa dor inapagável das desilusões, mais do que desilusões, verdadeira condenação e prisão da vida, são sempre seres completamente desequilibrados, como era Baudelaire, como era Ed. Poe, como era em parte Flaubert, como era o próprio Schopenhauer.

Não era este precisamente o caso de Machado de Assis. Seu espírito era velado, discreto, tranqüilo; mas era doce e comunicativo. Não andava carregado de sombras; usava de bons mots, de trocadilhos, de calembures; ria facilmente, posto que com certa reserva; sentia-se que não se entregava de todo, não abria largamente todas as portas d'alma à curiosidade estranha; mas dava a impressão da calma, da serenidade.

Alguns explicam o pessimismo pela hiperestesia. Muitas vezes tal aumento considerável da sensibilidade conduz apenas ao humour, como foi o caso de Dickens e de Heine; ou à simples melancolia, como em Chateaubriand ou Lamartine; ou ao mero cepticismo, como em Musset e SheIley. E muitas vezes a hiperestesia, até levada ao excesso do delírio de perseguição, como em Rousseau, chega, ao través da melancolia, a um acentuado otimismo. E, ainda mais, não é raro um espírito equilibrado, sadio, como o de Voltaire, vir a chegar, como nota final de sua concepção do mundo, a conclusões pessimísticas. É este também o caso de Vigny. Há, pois, duas espécies de pessimismo, um, profundo, irredutível, que é tanto da cabeça como do coração, e aparece quando se a conjunção do desmantelo da sensibilidade com certas tendências do espírito e da cultura filosófica do indivíduo; é o de Schopenhauer, Baudelaire, Leopardi, Flaubert, Byron et reliqui; outro, da cabeça, sem grandes raízes, meramente especulativo e sem chegar a tremendas crises que envolvam o coração; e desta espécie é o de VoItaire e Machado de Assis.

A questão do pessimismo tem de esmiuçar o problema da sensibilidade e da intelectualidade dos escritores, lado subjetivo do assunto, e, ao mesmo tempo, a ação das peripécias, das pressões da sociedade sobre eles, lado objetivo do fenômeno. Só com um estudo, assim completo, sobre cada autor, poder-se-ia conhecer a natureza de sua intuição pessimística ou não sobre o mundo e a existência.

Pelo que toca aos vaivéns da sociedade. bem se vê como eles atuam diversamente sobre os homens e daí a variedade de casos que se nos deparam.

Existem os grandes felizes otimistas, o que é natural; os grandes felizes que se dão ao luxo de ser pessimistas, o que não deixa de ser muitas vezes bem singular; os grandes sofredores pessimistas, o que é explicável; os grandes desgraçados que têm a generosidade de se mostrar otimistas, o que merece peculiar atenção. Mas a lista ainda está bem longe de ser completa: os sofredores. que, por circunstâncias várias da sensibilidade e da inteligência, chegam a certo pessimismo apenas teorético, espécie de protesto para uma mais perfeita organização das cousas.

Neste grupo é que se há de colocar o nosso Machado de Assis. Não se pode contestar nele o pessimismo, mais acentuado ainda do que o seu humorismo; mas assim como este se agravou inutilmente em suas últimas obras com certas fórmulas meramente convencionais, também o seu pessimismo da última fase tem alguma cousa de exterior.

uma nota nas Memórias de Brás Cubas e noutros dos mais recentes livros de Machado de Assis, que deve ser assinalada para completa apreciação de sua personalidade: a coloração de horrível que imprime em alguns de seus quadros.

Falta neste ponto a Machado um não sabemos quê que é uma espécie de impavidez na loucura, qualidade possuída pelo grande Ed. Poe e de que é um medonho exemplo o seu Gato preto, ou um certo tom grandioso e épico que estruge nalgumas páginas da Casa dos Mortos de Dostoiewsky, capazes de emparelhar com algumas cenas de Dante.

Mas em língua portuguesa ninguém, no gênero, se elevou tão alto quanto Machado, nem no Brasil, nem em Portugal, convém afirma-lo.

Resta, para completar o perfil do ilustre brasileiro, aprecia-lo como criador de caracteres ou tipos. Mas, por esta face, poucas linhas bastarão. Machado de Assis não conseguiu criar um verdadeiro e completo tipo vivo, real, ao gosto e com a mestria dos grandes gênios inventivos das letras. Tem, sim, alguns esboços, muito bem feitos, quer gerais, quer brasileiros, mas não passam de esboços. Não existe um só que tenha entrado na circulação com a assinatura da vida. O mesmo deu-se com Macedo, Manuel de Almeida, Franklin Távora, Escragnolle Taunay, Bernardo Guimarães, Agrário de Meneses, e com o próprio Alencar. Este logrou apenas criar três nomes, Iracema, Peri e Moacir, que se tornaram populares; mas os nomes, como já ponderamos.

Martins Pena foi um pouco adiante e chegou a criar alguns paradigmas, espécies de moldes de indivíduos das classes populares, mas puramente abstratos. Tais são o do juiz-de-paz toleirão, o do noviço endiabrado, o do irmão das almas velhaco e outros assim, como verdadeiras categorias sociais, não como homens vivos a moverem-se na vida diária. Tanto é isto verdade que de tais indivíduos ninguém se lembra dos nomes próprios e apenas vagamente das ações. Macedo, como também foi lembrado, deu-nos o Capitão Tibério. figura viva, que vai, porém, sendo esquecida. Os tipos de Machado de Assis, quer gerais e humanos, quer mais particulares e brasileiros, não lograram entrar na circulação tradicional.

Alguns dos indicados nas páginas atrás são bem interessantes; mas não chegam a ser verdadeiras figuras que se gravem na mente do público para sempre.

É inútil estudar o comediógrafo e o crítico. Não tinha individualidade poderosa em nenhuma dessas especialidades. Suas comédias são contos dialogados sem vida autônoma, sem as vantagens da novelística.

Suas críticas são ainda contos, menos a espontaneidade da narrativa. Machado, neste último terreno, não tinha a habilidade de descrever um caráter, ao gosto de Sainte Beuve, Taine, Macaulay, Renan, Faguet, Hennequin; nem possuía a destreza precisa para labutar entre as idéias e manterse potente no meio do intrincado das doutrinas e sistemas, qualidade máxima de Scherer. Devemos concluir, insistindo sobre o poeta, o contista, o romancista, especialmente estes dois últimos.

Os melhores trechos de seus livros são aqueles em que revela as qualidades de observador de costumes e de psicologista, aqueles em que dá entrada a cenas de nosso viver pátrio, de nossos usos e sestros sociais.

Infelizmente, não são abundantes os casos do gênero. Mas peguemos das próprias Memórias Póstumas de Brás Cubas e apreciemos pequenos quadros de nossa vida brasileira.

Aqui está um, quando, no cap. X, Cubas fala de seu batizado e padrinhos:

"Item, não posso dizer nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na igreja de São Domingos, uma terça-feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas famílias do Norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias, outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras coisas que aprendi; e certamente os dizia com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia pessoa estranha diante de quem me não obrigassem a recitá-los.
– Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.
Meu padrinho? é o Excelentíssimo Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos; minha madrinha é a Excelentíssima Senhora D. Maria Luísa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.
– É muito esperto o seu menino, comentavam os ouvintes.
Muito esperto, concordava meu pai; e os olhos babavam-se-lhe de orgulho, e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.
Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar às cadeiras, pegavam me da fralda, davam-me carrinhos de pau. – Só só, nhonhô, só só, dizia-me a mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que minha mãe agitava diante de mim, ia para a frente, cai aqui, cai acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando."
É delicioso, como cor local e veracidade de observação.
Mais outro, também copiado ao vivo de nossos costumes do tempo da escravidão. É do cap. XI:
"Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: – “Cala a boca, besta!” – Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos."
Outro, finalmente, aqui inserimos que traz a pintura dos tempos escolares,. na época dos chamados mestres régios. O traço é firme, posto que demasiado sóbrio:
"Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, muito pouco e muito leve. Só era pesada, a palmatória, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho, – ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata, – um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças, – umas largas calças de enfiar –, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. – Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que nos deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros, ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, à toa, como dois peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificência nas atitudes, nos meneios. Quem diria que... Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos. Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de cruzes fúnebres."

Trechos como estes, repetimos, são felizmente raros nos livros do célebre escritor, e é pena que o sejam.

Era um filão que ele devia profundar esse do caráter brasileiro com suas virtudes e defeitos. Sua obra seria mais variada e mais profunda. Com três ou quatro paletadas o emérito estilista sabia, quando queria pôr de pé um sujeito e faze-lo mover-se à nossa vista.

E com estas notas voltamos a um dos pontos donde partíramos. O autor de Dom Casmurro pode e deve ser também apreciado pelo critério nacionalista.

O nisus central e ativo de Machado de Assis era de brasileiro, e como tal se revelava no caráter essencial de sua obra de mestiço e até em várias roupagens exteriores, quando assestava a observação mais diretamente para as cousas pátrias.

Cremos poder defini-lo em poucas palavras:

Machado de Assis não era um satírico; a mais superficial leitura de qualquer de suas obras mostrao logo às primeiras páginas. Não era um cômico, nem como dizedor de pilhérias, nem como criador de tipos e situações engraçadas e equívocas. Não era também plenamente um misantropo, um détraqué. Não lembra, pois, nem Juvenal, nem Martins Pena, nem Molière, nem detodo Baudelaire, ou Poe, ou Dostoiewsky. Não era, finalmente, da raça dos humanitários propagandistas e evangelizadores de povos ao gosto de Tolstoi. Era, antes, uma espécie de moralista complacente e doce, eivado de certa dose de contida ironia, como qualidade nativa, que de quando em quando costumava enroupar nas vestes de um peculiar humorismo, aprendido nos livros, e a que dava também por vezes uns ares de pessimismo intencional.

O que era seu, o que existia no seu espírito, como qualidades naturais, como bases de seu temperamento, vinham a ser o talento da análise psicológica, uma espontânea simpatia pela dignidade humana, a facilidade de generalizar os fatos e as idéias, o que tudo dá ao complexo de sua obra certo sainete moralizante, que o humour e o pessimismo não têm força de apagar. Possuía, por certo, uma dose ingênita de ironia; mas esta não podia nunca extravasar-se tumultuária e envenenadora, por ser sofreada pela timidez fundamental do temperamento do escritor.

Tal a razão pela qual se deve afirmar a unidade da obra do poeta e do romancista através de seus trinta volumes de produção, de seus cinqüenta anos de trabalho. Mostra certamente em si vivos sinais de evolução e progresso; mas esses não se fizeram como síntese de suas primeiras revelações na arena das lides espirituais, e sim como normal continuação e desdobramento delas.

O progresso consistiu no melhor manejo da linguagem, na maior correção do estilo, no mais apurado da observação, no mais penetrante da análise, em algum alargamento das idéias. Não se fez no sentido de transformar um tranqüilo e apaziguado caráter num tremendo e despejado praguejador pessimista.

É verdade que a tranqüilidade da velhice não era mais a dos anos juvenis em que o poeta escreveu as Crisálidas e os seus primeiros contos. A própria quietude de seu temperamento levou-o ao uso da introspecção, da meditação solitária e absorvente dos espetáculos do mundo subjetivo, que é sempre misterioso. A sua tranqüilidade da velhice não era como a das linfas mansas e rasas que espelham os céus azulados por entre folhas e flores; era a tranqüilidade das águas profundas que ocultam os grandes abismos.

No coração do notável fluminense é bem de crer que sérias dores tenham também passado, deixando lá os sinais que não se apagam. São as estalagmites coadas gota a gota na gruta dos sofrimentos.

Elas deviam lá estar e a obra do romancista deixa-as ver aqui e além no travo da frase, no lancinante dos conceitos. Mas tudo sóbrio, comedido, temperado pela brandura ingênita do homem. Quando, pois, o escritor dá largas ao seu próprio temperamento, produz as melhores e mais espontâneas páginas de seus livros; quando se entrega aos preceitos e regras que aprendeu nas obras alheias, aos tiques que foi adquirindo aos poucos, resvala, algum tanto, para o extravagante e gera os tipos incertos de suposto humorismo, como Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e quejandos.

Para tudo dizer sem mais rodeios: Machado de Assis é grande quando faz a narrativa sóbria, elegante, lírica dos fatos que inventou ou copiou da realidade; é menor, quando se mete a filósofo pessimista e a humorista engraçado.

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Fonte:
Sílvio Romero – Machado de Assis, Rio de Janeiro, 1897. – As páginas aqui consagradas ao ilustre fluminense são uma condensação do citado volume, disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil

3 comentários:

  1. Se alguma vez ouvi falar de Sílvio Romero foi justamente por ele falar mal de Machado de Assis, ressentindo pelo motivo de uma crítica que Machado fez a uns versos de Sílvio Romero que se enganou profundamente quando disse que os personagens de Machado de Assis cairia no esquecimento. O tempo é o melhor juiz. A Justiça foi feita.

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  2. Eduardo Rodrigues Vianna30/06/16 20:48

    "Percebe-se que não há nativa fluência na língua, nem movimento nas idéias; é alguma cousa que não vem de fonte copiosa e precípite, porém que escorre docemente como um veio pouco abundante, posto que límpido e suave. É que tal essencialmente é o espírito do romancista. Pouco vasto, possui em alto grau a facilidade da reflexão. Com um punhado de idéias pouco extensas, com um vocabulário que não é dos mais ricos, faz muitas e repetidas voltas em torno dos fatos e das noções que eles lhe deixam na inteligência, orientada por um imperturbável bom-senso, que lhe supre a imaginação e ajuda a observação que não deixa de ser notável. O cultivo dos bons mestres da língua forneceu-lhe certas formas de construção e de frase que lhe imprimem ao estilo a graciosidade da correção e apuro gramatical, na falta de outras qualidades mais brilhantes."

    Sílvio Romero podia ter optado por se abster de publicar tamanha baboseira. Nesse caso, seria lembrado pela sua única obra relevante, a sua compilação de contos populares do Brasil, tão cara, por exemplo, a Câmara Cascudo. Romero escreveu tanto, e por tanto tempo, e apenas um de seus livros preserva alguma importância. A culpa recai certamente sobre embusteiros e tolos como Machado de Assis, a quem Romero retrata como um molecote sem grandes atributos aqui e um sábio de pobre metafísica acolá, embora fosse Machado tão superior a Romero. E, claro, não podemos nos esquecer de que a cor da pele de Machado de Assis não era das melhores, segundo os Romero e os Oliveira Vianna que abundaram por estas terras, que tanto barulho fizeram e tão pouca coisa útil legaram à posteridade.

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  3. Eduardo Rodrigues Vianna01/07/16 02:22

    Bem, devo voltar atrás quanto a um ponto importante, por uma questão de justiça: Romero foi o nosso primeiro grande folclorista, e é este um mérito para o qual se deve atentar, e a que se deve dar o devido valor, por meio da leitura e da difusão, aqui no Brasil do século XXI. É uma pena que a sua obra seja com facilidade eclipsada pelas tão tolas picuinhas a que gostava de se entregar.

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