A sátira menipéia e o texto de Sêneca

A SÁTIRA MENIPÉIA E O TEXTO DE SÊNECA

A antigüidade clássica fornece à posteridade uma gama de gêneros textuais, dentre os quais há um campo especialmente fértil que os antigos denominaram de sério-cômico, em oposição aos chamados gêneros elevados como a epopéia, a tragédia e a história, entre outros.

Entre as características dos gêneros do sério-cômico, reunidas e analisadas por Mikhail Bakthin na obra Problemas da poética de Dostoievski, cita-se primeiramente o tratamento que é dado à realidade. Para Bakthin, a história não se passa em um passado remoto ou absolutamente no campo das lendas: “O objeto da representação séria (e simultaneamente cômica) é dado sem qualquer distância épica ou trágica, no nível da atualidade, na zona do contato imediato e até profundamente familiar com os contemporâneos vivos (...). A Apocolocyntosis Diui Claudii, texto em estudo nesta pesquisa, foi escrita logo após ou poucos anos depois da morte do imperador Cláudio, motivo da invectiva de Sêneca. Portanto, grande parte dos acontecimentos relatados no libelo ora estudado era de conhecimento e de, até, testemunho da sociedade romana da época.

Outra peculiaridade do sério-cômico refere-se à análise crítica que se faz na obra: “(...) os gêneros do sério-cômico não se baseiam na ‘lenda’ nem se consagram através dela. (...) na maioria dos casos seu tratamento da lenda é profundamente crítico, sendo, às vezes, cínico-desmascarador”. Mesmo que Sêneca tenha também o propósito de rebaixar o imperador morto para assim realçar as características de Nero, o novoimperador, em toda a Apocolocintose o autor põe a nu os defeitos de Cláudio com a clara intenção de destruir a imagem de divino, concedida pelo senado romano a Cláudio.

A terceira particularidade refere-se à pluralidade de estilos e tons em uma mesma obra. Há uma combinação do sublime com o vulgar, do elevado com o baixo, em uma variedade de gêneros intercalados. Há uma renúncia à unidade estilística ou unicidade estilística, segundo Bakthin. Os gêneros elevados, como a epopéia e a tragédia, tratam de deuses e de personagens próximas à divindade, levando-se em conta as realizações humanas em sua dimensão ideal e grandiosa. Na Apocolocintose, pode-se perceber que a crítica a Cláudio e o conseqüente desprezo pela figura do imperador se dão a partir da estrutura da obra, uma vez que o autor sabe que, ao fazer essa mistura de gêneros em um mesmo texto, está elaborando uma obra ‘baixa’, em contraposição aos gêneros elevados. Logo, a forma escolhida por Sêneca já remete o leitor da época para o ridículo ou a mediocridade, neste caso para Cláudio, descrito na obra como homem inferior e tolo.

A Apocolocintose do Divino Cláudio insere-se, portanto, no estilo do sério-cômico e especificamente no gênero sátira menipéia. A utilização da expressão sátira menipéia ainda é vaga, carecendo de estudos mais aprofundados. Entretanto, Mikhail Bakthin, com sua obra Problemas da poética de Dostoievski, Northrop Frye e sua Anatomia da Crítica e a pesquisa de Enylton J. de Sá Rego norteiam o presente trabalho de pesquisa, visto que são críticos que se debruçaram sobre o gênero citado.

Quintiliano (Institutiones Oratoriae, X, 1, 93) afirma que a sátira é um gênero essencialmente latino. Tornou-se famoso e reconhecido o trecho satira quidem tota nostra est. Críticos e mais críticos debruçam-se sobre teorias acerca da sátira e, quase sempre, inscrevem como escritores satíricos latinos Lucílio, Horácio, Pérsio e Juvenal. Deixam de fora Sêneca, talvez por este ter-se firmado como grande filósofo e não satirista, ou por ter escrito um único texto satírico que não se enquadrasse na afirmação de Quintiliano, uma vez que a Apocolocyntosis Diui Claudii guarda reminiscências gregas, não sendo considerada simplesmente uma sátira, mas uma sátira menipéia. O próprio Quintiliano, além dos críticos citados acima, faz menção a uma sátira de estilo diferente àquele formulado pelos romanos: Alterum illud etiam prius saturae genus, sed non sola carminum uarietate mixtum condidit Terentius Varro, uir Romanorum eruditissimus (Terêncio Varro, o homem mais erudito entre os romanos, estabeleceu também outro gênero de sátira anterior àquele, não somente de uma única variedade, como também de versos misturados).

A sátira portanto assume diferentes vertentes. No mundo romano, a sátira mais conhecida e reconhecida tem fundo moralizante, e o próprio Horácio expressa o ridentem dicere uerum quid uetat?. Mesmo que o satirizar seja um sentimento universal, a sátira latina surge da observação dos vícios e das distorções sociais e morais. “Seus alvos são, ao mesmo tempo, morais, sociais e políticos, e seu espírito, essencialmente conservador”. Com a mudança abrupta da antiga vida campesina romana para a nova vida ao estilo dos helênicos, Roma presencia costumes até então desconhecidos. Os romanos, antes de conhecerem a Grécia e seus costumes, tinham como características o amor à própria terra e aos produtos dela, o amor à família e a sujeição ao paterfamilias, o mos maiorum – obediência incondicional aos mais velhos e às tradições –, que leva ao senso de moralidade e tinham, enfim, um apego à simplicidade no viver.

A vida e, conseqüentemente, os costumes romanos agrários sofreram profundas transformações com as conquistas territoriais e, principalmente, com o contato com civilizações tão díspares como a grega. Horácio, nas epístolas (II, 1, 156-157), remete a isso quando escreve Graecia capta ferum uictorem cepit et artes intulit agresti Latio (a Grécia vencida conquistou o fero vencedor e trouxe as artes ao Lácio agreste). Mesmo com essas revoluções sociais, a sociedade romana ainda podia ser considerada conservadora, de modo que os satiristas latinos conhecem o sucesso por meio da mordacidade e zombaria contra aqueles que iam de encontro aos traços originais da agrária civilização romana. De um lado então está a sátira exclusivamente em versos, dedicada a uma censura às vezes ferina, a uma invectiva mordaz e sem sutilezas contra aqueles que não correspondiam ao antigo padrão romano.

Por outro lado, surge também em Roma uma sátira que admite versos de variados metros mesclados à prosa, também invectiva, mas com direito à paródia refinada. Essa é a sátira menipéia, cujas origens remontam ao mundo grego, especificamente a Menipo de Gadara, que havia formulado um tipo especial de literatura, no século III a.C., mordaz, agressiva e polêmica. O romano Varrão, no século I a.C., escreveu, entre vários gêneros, textos que resultaram na união do sério com o jocoso. Varrão seguiu Menipo na mescla de prosa com versos, no uso de uma linguagem rica em recursos, como jogo de palavras, citações em grego, formas cultas aliadas a formas vulgares.

Sobre a sátira menipéia, Mikhail Bakhtin informa:

“Esse gênero deve a sua denominação ao filósofo do século III a.C. Menipo de Gadara, que lhe deu forma clássica. No entanto, o termo, enquanto denominação de um determinado gênero, foi propriamente introduzido pela primeira vez pelo erudito romano do século I a.C., Varrão, que chamou à sua sátira de saturae menippeae. (...). Uma “sátira menipéia” clássica é o Apolokyntosys Claudii de Sêneca. O Satyricon, de Petrônio, não passa de uma “sátira menipéia” desenvolvida até os limites do romance. A noção mais completa do gênero é, evidentemente, aquela que nos dão as “sátiras menipéias” de Luciano que chegaram perfeitas até nós (...). São uma “sátira menipéia” desenvolvida as Metamorfoses (O Asno de Ouro) de Apuleio (assim como sua fonte grega, que conhecemos pela breve exposição de Luciano). (...). Esse gênero carnavalizado, extraordinariamente flexível, capaz de penetrar em outros gêneros, teve uma importância enorme, até hoje ainda insuficientemente apreciada, no desenvolvimento das literaturas européias.”

Northrop Frye, em Anatomia da Crítica, escreve que “anatomia”, no livro de Robert Burton – Anatomy of Melancholy –, significa dissecção ou análise, e que estas características pertencem também à menipéia. Frye adota, então, o termo anatomia para designar a sátira menipéia. Sobre ela, tece vários comentários que citamos:

A sátira menipéia lida menos com pessoas, como pessoas, do que com atitudes espirituais. Profissionais de todos os tipos, pedantes, fanáticos, excêntricos, adventícios, virtuoses, entusiastas, rapaces e incompetentes, são tratados de acordo com seus liames profissionais com a vida, de modo distinto de seu comportamento social. (...). Em sua maior concentração, a sátira menipéia oferece-nos uma visão do mundo nos termos de uma simples configuração intelectual. A estrutura intelectual construída a partir da estória favorece violentas deslocações na costumeira lógica da narrativa, embora o surgimento da indiferença resultante reflita apenas a indiferença do leitor ou de sua tendência a julgar segundo um conceito de ficção centrado no romance. (...). O satirista menipeu, cuidando de temas e atitudes intelectuais, mostra sua exuberância em peculiaridades intelectuais empilhando enorme massa de erudição sobre seu tema ou soterrando seus alvos pedantescos sob uma avalanche de seu própriopalavreado. (...) mas a narração digressiva, as listas, a estilização da personagem por linhas de “humor”, a maravilhosa jornada do grande nariz [aqui ele se refere à obra Tristam Shandy], as discussões simposíacas e o constante escárnio de filósofos e de críticos pedantes são traços peculiares à anatomia.”

Na obra O calundu e a panacéia: Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica, Enylton J. de Sá Rego faz um aprofundado estudo de algumas obras da segunda fase de Machado de Assis e relaciona-as como sátiras menipéias. Para isso, menciona, exemplificando, vários textos da Antigüidade e entre eles a Apocolocintose. Segundo ele, “Uma análise textual da Apocolocintose de Sêneca revelou-nos portanto algumas de suas [da menipéia] características principais: o caráter parodístico, a mistura de estilos populares e elevados, assim como o andamento irregular de sua forma narrativa”. Ainda no estudo de Sá Rego, este cita:

“Na definição da sátira menipéia, no entanto, a afirmação de que ela é uma mistura de prosa e verso parece exigir uma certa modificação. De fato, não basta que o verso seja introduzido em meio à prosa, ... pois isto pode acontecer, por exemplo, no caso de citações ou de diálogo em muitas formas de composição. O que encontramos aqui é o próprio autor, falando em sua própria pessoa, mudando de um estilo de expressão a outro, sem nenhuma desculpa visível a não ser o seu tom coloquial. A essência da sátira menipéia é exatamente o seu andamento variado e desenfreado, andando, correndo e tropeçando, de vez em quando se permitindo até uma cabriola retórica.” Ball, citado por Enylton José de Sá Rego, apud O calundu e a panacéia: Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica, p. 42.

A Apocolocintose é inegavelmente uma sátira menipéia tanto na forma como no conteúdo. Há na obra de Sêneca passagens em que se utiliza às vezes linguagem vulgar, outras vezes linguagem erudita. Ainda se fazem presentes citações gregas, e os gêneros sérios, como a epopéia, a tragédia, a história e a retórica clássica, são parodiados. Northrop Frye conceituou a sátira menipéia assim como Sá Rego também a relacionou em sua obra. Não há um estudo sistemático e detalhado dedicado exclusivamente à caracterização da sátira menipéia; entretanto, Bakhtin estudou e elencou quatorze particularidades da sátira menipéia, que arrolamos abaixo.

A primeira característica relacionada por Bakhtin liga-se ao elemento cômico. Na Menipéia, segundo o autor, há a presença acentuada do elemento cômico. A palavra cômico chegou até nós por meio dos gregos, via latim. Pode-se afirmar que o cômico se dá pela conciliação de situações aparentemente incompatíveis, com a intenção de produzir o riso. O riso é oriundo da fusão de uma idéia lógica e, simultaneamente, absurda. “Aristóteles é o primeiro teórico a esboçar dois tipos de riso, um “riso vituperioso” que pressupõe por necessidade a invectiva pessoal, e um riso sem vitupério, sem dor, que o filósofo vincula de modo arbitrário à comédia (...).”

A característica seguinte diz respeito à “excepcional liberdade de invenção do enredo e filosófica. Isso não cria o menor obstáculo ao fato de os heróis da menipéia serem figuras históricas e lendárias”. Além disso, a menipéia está livre das histórias que pretendem ser História e não há nela nenhuma exigência de verossimilhança.

Na terceira particularidade, “muito amiúde o fantástico assume caráter de aventura, às vezes simbólico ou até místico-religioso. Mas, em todos os casos, ele está subordinado à função puramente ideológica de provocar e experimentar a verdade”. Portanto o recurso da fantasia é utilizado como instrumento para experimentar a verdade e, por meio desse recurso, as idéias e os temas apresentam maior importância. Dessa forma, com o objetivo de criar situações inesperadas, os heróis vão ao céu, ao inferno, a caminhos desconhecidos e são colocados em situações extraordinárias reais. Por fim, a fantasia serve à busca, à provocação e à experimentação da verdade.

Outro dado apresentado por Bakhtin diz respeito à conjugação ou mistura de elementos do fantástico com o mundo das camadas mais baixas da sociedade, ao submundo humano. “As aventuras da verdade na terra ocorrem nas grandes estradas, nos bordéis, nos covis de ladrões, nas tabernas, nas feiras, prisões, orgias eróticas dos cultos secretos, etc. Aqui a idéia não teme o ambiente do submundo nem a lama da vida”. Bakhtin ainda afirma que essa característica da menipéia relacionada ao naturalismo desenvolveu-se de modo pleno no Satyricon, de Petrônio.

Apresentar o homem na sua essência e na sua totalidade é a quinta característica da menipéia no estudo de Bakhtin. Importante atributo da anatomia – termo utilizado por Frye –, apresenta-se aqui uma extrema capacidade de ver o mundo. “Procura apresentar, parece, as palavras derradeiras, decisivas e os atos do homem, apresentando em cada um deles o homem em sua totalidade e toda a vida humana em sua totalidade”. A menipéia, de acordo com essa característica, põe em oposição as atitudes finais do homem no mundo, já livre das conveniências sociais.

A sexta marca da menipéia traz como manifestação a estrutura em planos, a saber, da Terra para o Olimpo e deste para o inferno. Diálogos no limiar, ou seja, no limite ou entrada do céu e/ou do inferno são apresentados também como peculiares à sátira menipéia e o próprio Bakhtin exemplifica o texto de Sêneca em estudo nesta pesquisa como um dos melhores exemplos.

“Na menipéia surge a modalidade específica do fantástico experimental, totalmente estranho à epopéia e à tragédia antiga. Trata-se de uma observação feita de um ângulo de visão inusitado, como, por exemplo, de uma altura na qual variam acentuadamente as dimensões dos fenômenos da vida em observação.” Essa nova experiência ou novidade na escrita marca a sétima característica descrita por Bakhtin.

Os estados psicológico-morais anormais do homem – loucura do herói, amnésias, dupla personalidade, devaneios incontidos, sonhos extraordinários, paixões limítrofes com a loucura – marcam a oitava característica da sátira menipéia. A destruição da integridade e da perfeição do homem é facilitada pela atitude dialógica, que aparece na menipéia. “As fantasias, os sonhos e a loucura destroem a integridade épica e trágica do homem e do seu destino: nele se revelam as possibilidades de um outro homem e de outra vida, ele perde a sua perfeição e a sua univalência, deixando de coincidir consigo mesmo.”

A nona característica está na linha da violação das normas. Cenas de escândalos, de comportamentos excêntricos, de declarações inoportunas também estão presentes. Incluem-se aí as violações do discurso com a mistura do formal com o informal, com os escândalos e manifestações extravagantes nas cenas descritas. “A palavra inoportuna é inoportuna por sua franqueza cínica ou pelo desmascaramento profanador do sagrado ou pela veemente violação da etiqueta.”

O alto e o baixo, os contrastes agudos e jogos de oxímoros, a elevação e a decadência e as mudanças bruscas marcam a característica seguinte da menipéia, retratada por Bakhtin.

O elemento utópico também integra a menipéia, com a apresentação de lugares exóticos, misteriosos, com o mundo às avessas, marcando assim uma outra característica da sátira menipéia.

Importante traço é a décima segunda característica apresentada por Bakhtin, em que o autor relata que o uso de gêneros intercalados são uma constante nas menipéias. Além disso, há a fusão dos discursos da prosa e do verso, como já havia sido comentada por Quintiliano (Inst. Or. X, 1, 95) no século I d.C. e, sobre os versos, Bakhtin afirma: “As partes em verso se apresentam com certo grau de paródia”.

A variada gama de gêneros reforça a multiplicidade de estilos no interior da menipéia e essa é outra marca da sátira, assim como também, para finalizar as características apresentadas por Bakhtin, o enfoque em tom mordaz que o texto dá à atualidade, com discussão aberta com diversas escolas ideológicas, filosóficas e religiosas. Há uma constante presença de figuras atuais ou recém-desaparecidas e uma variada alusão a acontecimentos da época.

Portanto, levando-se em conta o que os três teóricos apresentaram a respeito da menipéia, pode-se dizer que há em comum, nesta teoria da sátira menipéia, uma técnica de desintegração, de corrosão, de um homem ou de um tema. Com isso, após a tradução do texto de Sêneca, acompanhada de notas e do texto latino, estudamos e a aplicamos em nossa pesquisa sobre a Apocolocintose as características mais evidentes da sátira menipéia de que Sêneca fez uso e que os teóricos supracitados relacionaram.

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Fonte:
Frederico de Sousa Silva: “APOCOLOCINTOSE DO DIVINO CLÁUDIO: Tradução, notas e comentários”. (Dissertação apresentada ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Profº. Drº. José R. Seabra F.). São Paulo, 2008.

Nota
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