O SURGIMENTO DO DIÁRIO, A TENSÃO ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO



 
O surgimento do diário: a tensão entre o público e o privado

Apesar da “escrita de si” poder ser localizada antes mesmo do Cristianismo, os primeiros usos do termo “diário” datam do século XIV e se referem a registros de caráter público. Somente a partir do Renascimento europeu os diários deixam de ser públicos. O diário, como um tipo de escritura íntima e confessional, como uma forma de “autobiografia”, alcança seu pleno desenvolvimento no final do século XVIII e início do século XIX. Apesar da passagem gradativa que se acompanha no diário, de público a privado, ele é marcado por uma constante tensão e ambiguidade entre esses dois polos.

Buscando o significado da palavra descobre-se que o termo “diário” refere-se à relação do que se faz ou sucede em cada dia, ou à obra em que se registram, diária ou quase diariamente, acontecimentos, impressões ou confissões. O termo refere-se também ao jornal que se publica todos os dias ou ao livro comercial de uso obrigatório, no qual se registram todas as operações econômicas, em ordem cronológica (FERREIRA, 1986). No latim, segundo a etimologia apresentada pelo dicionário Houaiss, o adjetivo ― diarius /a/ um é “o que se faz ou acontece todos os dias”; e o substantivo neutro, “pagamento de um dia, registro escrito de memória que se faz cada dia”. E são vários os significados encontrados no verbete. Como substantivo masculino: “1. Escrito em que se registram os acontecimentos de cada dia; 2. Periódico que se publica todos os dias (...)” (HOUAISS, 2000: 1032). O termo jornal vem do latim journale, o substantivo masculino jornal significa: 1. “Publicação diária, com notícias sobre o cenário político nacional e internacional, informações sobre todos os ramos do conhecimento, entrevistas, comentários, etc.; (...) 4. Escrito em que é feito um relato cotidiano dos acontecimentos; diário” (HOUAISS, 2000: 687).

O termo jornal vem do francês antigo journal, significando diário; do latim diurnal, de pertencente ao dia. Segundo a pesquisadora norte-americana Gannett (p.106), cujo livro publicado em 1992 constitui-se em uma referência anglossaxônica da história do diário, os primeiros usos do termo em inglês parecem datar da metade do século XIV e  se referem aos livros de serviços religiosos que continham as horas do dia, conhecidos como “Livros de Horas”. Eles eram inicialmente de domínio religioso e aos poucos passaram a ser utilizados pelos leigos. Ao final da Idade Média, surge a necessidade de um livro para possibilitar aos leigos o acesso a certos elementos do breviário utilizado pelos padres. Apesar das variações de formato e da abundância de ilustração, todos os Livros de Horas são concebidos segundo um mesmo esquema: começam com um calendário elaborado exclusivamente em função das festas religiosas. Seguem-se numerosas preces. Estas, compostas em grande parte de salmos, seguem o ritmo cotidiano – as matinas, laudas, prima, tércia, sexta e noa, as vésperas e as completas escalonam o dia. O livro de horas ficou limitado à leitura privada, alheia às cerimônias públicas e coletivas. Todos tinham seu Livro de Horas, muitas vezes o único da estante.

O termo journal surgiu como verbete do dicionário inglês Oxford em torno de 1355-56; e em 1454 aparece outra referência: a palavra journal é usada para se referir a viajar ou para recordação de viagem. Em 1540, o termo é usado para designar os registros comerciais  do livro diário, e em encontros públicos é usado  para se referir às recordações diárias de eventos do dia ou às transações realizadas por corpos públicos. Apesar da correlação etimológica existente entre os termos “diário e jornal”, no Brasil não observamos a utilização prática do termo “jornal” para denominar o diário íntimo, como existe nas tradições culturais norte-americana e europeia (GANNETT, 1992: 106).

Os diários escritos antes do século XVI são primeiramente públicos. Robert A. Fothergill, considerado o primeiro estudioso crítico do desenvolvimento das tradições do diário na Inglaterra, que publicou Private chronicles (1974), citado por Gannett (p.105), afirma que não há uma fonte única da escrita do diário. Ele afirma, especialmente, que o diário como nós conhecemos hoje se desenvolveu da “junção de um número de hábitos pré-diários até a forma que excede os elementos componentes”. Ele apresenta a evolução do modelo de diário íntimo com quatro formas de proto ou pré-diários: diários públicos, diários de viagem, diários de registro pessoal – análogos aos livros comunitários (commonplace books) – e diários de consciência ou espirituais, que são descritos de forma sintética a seguir.

Os diários públicos, segundo Fothergill, são tão antigos quanto a própria escrita. Marcados pela tradição de escrita comunitária, tinham a função de divulgação pública de fatos e eventos. Exemplo de diário público são “as tábuas de argila encontradas na Suméria, datando de aproximadamente 3000 a.C., contendo listas de ração para ser distribuída, recordação de tributos e donativos, e listas de nomes divinos”. Ainda nessa categoria, estão incluídas as recordações e relatos sobre transações de corpos públicos, diários de viagem, recordações diárias de campanhas militares e expedições científicas.

O diário de viagem agrupa relatos de experiências de viagens de inúmeros diaristas. Os primeiros registros aparecem no século X, no Japão. Eles relacionavam, frequentemente, prosa narrativa e descritiva, bem como poesia, e eram um gênero altamente reconhecido pelo valor histórico e literário. Os diários de viagem tinham parte importante na relação de hierarquia e poder nos meios religiosos, utilizados em orações e oráculos, e entendidos como um diálogo entre os seres humanos e os deuses. Religiosos faziam excursões para lugares citados em poemas famosos para promover o poder religioso. Chegado ao destino, o viajante podia compor um poema incorporando uma linha a partir do original. Essas práticas funcionaram como uma devoção ancestral, de acordo com Fothergill (citado por GANNETT, 1992).

Os diários de viagem, muito comuns entre os séculos XV e XVIII, refletiam as viagens de caráter exploratório ou não, trazendo informações sobre a geografia específica, terreno, possibilidade de rotas, fauna e flora, mas também curiosidades sobre os povos nativos e a expressão do sentimento associado a cada uma dessas experiências. Na metade do século XVII, esse tipo de diário começa a ser utilizado como rito de passagem na educação de rapazes. Uma das etapas para se tornar adulto, o Grand Tour, oferecia ao jovem a oportunidade de empregar o diário de viagem para desenvolver o hábito da observação e reflexão. Os jornais de viagem eram utilizados por exploradores e militares na Europa, para relatar as expedições, como os textos gerados a partir dos descobrimentos portugueses, denominados posteriormente de “literatura de viagens”. Esse corpus é composto de obras escritas por testemunhas presenciais dos acontecimentos narrados e que se identificam por uma temática comum, que é a experiência proporcionada pela própria viagem.
  
Observa-se, portanto, como esses diários começam a passar do público ao privado, do uso “informativo de viagens” a seu uso como um processo educativo, funcionando como “rito de passagem” para os rapazes, que desenvolviam a prática de observação e reflexão em seus diários. A escrita de um diário de viagem era uma prática essencialmente masculina.

Os diários de memória pessoal são análogos aos commonplace books (livros de família). Conforme Ariès e Duby (2003), na Idade Média já eram escritos livros de família (ricordanze, ricordi) com o objetivo de prolongar no tempo o privado doméstico. Os autores dão conta que essas ricordanze não eram escritas de forma coletiva. Em geral, os autores eram os próprios pais de família que até podiam emprestar o livro de memórias para algum familiar, mas, de fato, eles mantinham um caráter secreto. Segundo Gannett (1992), o commonplace book é considerado um ancestral dos diários de leitura, quotas, observações, notas e desenhos que pessoas letradas, particularmente estudantes, têm mantido por séculos. Percebe-se aqui mais claramente o surgimento da escrita privada nesses diários de memória pessoal, assim como a função educativa desses escritos.

Os diários de consciência ou espirituais foram instrumentos religiosos utilizados para o auto-exame espiritual. Gannett (1992), citando Fothergill e Brian Dobbs, afirma que os puritanos, e mais tarde os Quacres, Metodistas e outros grupos que desafiaram a autoridade externa em matéria de crença pessoal, voltaram-se para a punição e rigoroso autoexame espiritual, para o que encontraram nos diários ferramenta muito útil. Pela metade do século XVII, how-to, livros tais como o de John Beadle – The journal or diary of a thankful christian (1656) eram utilizados para ajudar praticantes potenciais a usar o diário para examinar seus comportamentos, suas consciências, suas almas e sua relação com Deus e seu trabalho, e para mapear e documentar a mão de Deus em seu trabalho e no mundo.

A partir dessa época, a prática de escrever diários como meio de autoexaminação e autopunição tornou-se muito comum entre os religiosos puritanos e protestantes. No grupo protestante “A Sociedade dos Amigos” ou ―Quacres‖, os jornais também eram um instrumento importante para avaliar as chances de salvação. Durante a Restauração na Inglaterra, ocorrida após o assassinato do Rei Charles I e a subida ao trono de Charles II (1660-1685), os diários tornaram-se palco de uma confissão geral, determinada pela multiplicação de retiros e missões. Aterrorizados pela ameaça de culpa, muitos passaram a investigar a si mesmos à procura de faltas. Os diários serviam tanto para as confissões e a autoanálise, como também como regulamentos e resoluções que aprofundavam os exames. As mulheres eram estimuladas a manter diários como parte do sacramento e penitência e os homens mantinham a vida registrada e ordenada. Os diários chegaram aos Estados Unidos pelas mãos dos primeiros protestantes, no séc.

XVII. A tradição norte-americana dos diários espirituais tornou-se uma das mais antigas tradições literárias, situando-se como modelo central até o século XIX, junto com os diários de viagem.

Os diários de consciência ou espirituais, que se tornaram muito populares no século XVII, fomentaram a prática do diarismo nos séculos seguintes, segundo Gannett (1992). Mallon, citado por Gannett (p.110), destaca que os diários espirituais representam “a grande forma de arte protestante”, responsável por retirar dos diários o caráter público que tinham até então, para concentrar-se no aspecto da vida privada do diarista.

É possível perceber que diferentes formas de escritura podem ser identificadas como fontes do diário íntimo. Mas os diários espirituais, comuns a partir do Renascimento europeu, ilustram de maneira mais clara a passagem da escrita pública para a privada ou íntima. Esses diários espirituais contribuíram para o exercício de uma escrita de si com valor de confissão, purificação e autorreflexão.

Como a passagem da escrita pública para a escrita privada se deu de forma gradativa e com diferentes fontes, não existe um consenso com relação ao que se deva identificar como “o primeiro diário íntimo”. Gannett (1992, p.111) considera Samuel Pepys (1633-1703) o precursor dos diários íntimos. Ele escreveu entre 1660 e 1669, em escrita taquigráfica, os 64 volumes de seus diários chamados de Memoirs, que foram publicados somente em 1825, após terem sido descobertos e decifrados. Esses exemplares ilustram o hábito crítico da mente, associado com a observação e reflexão do mundo físico, social e do mundo interior. Os seus diários foram escritos em dez anos – entre os 27 e os 36 anos – e apresentam uma reflexão do autor sobre sua atuação como um homem importante da corte inglesa, circulando nos altos escalões científicos e culturais do reinado de Charles II, a quem serviu de perto como membro da marinha.

Porém, outros dois ingleses, John Evelyn (1620-1706) – que escreveu os diários entre 1641-1706, publicados apenas em 1818 – e James Boswell (1740-1795) – que teve o diário publicado em 1785 – são considerados por Gannett como os maiores praticantes do gênero. Boswell é celebrado pelo fato de ter aberto a público, como ninguém até então, a própria intimidade. John Evelyn também foi um membro da corte inglesa e relatou detalhes da era do Rei Charles I até a Rainha Anne, além de descrever, em seus diários, o nascimento da ciência e da arte modernas. Seus escritos compõem uma leitura do século XVII. Gannett (1992, p.112) destaca que, embora os diários de Pepys sejam considerados modelo para o diarismo, o marco da nova consciência é o livro de ensaios do francês Montaigne, escrito em 1580.

Enquanto Gannett considera Montaigne o precursor do diário íntimo, Lima considera o modelo clássico do gênero autobiográfico as Confissões de Jean Jacques Rousseau, escritas no período de 1782-1789. Para Lima, o texto de Rousseau pode ser considerado autobiográfico, porque busca o desvendamento do eu pela sondagem de suas motivações, por mais remotas ou ocultas que fossem. Para Rousseau a “escrita de si” possibilitaria ao leitor o conhecimento sobre a verdadeira natureza humana. Rousseau inaugura uma escrita confessional, marcada pelo desejo de desvendar o “eu”, que não existia na antiguidade e que passa a ser comum nas escritas de diários nos séculos XVIII e XIX. Veremos adiante as condições que possibilitaram a emergência de um diário íntimo e confessional na modernidade.

Se diferentes formas de escritura pessoal surgiram de registros públicos, elas não marcam uma transição simples do público ao privado, mas, uma relação de ambiguidade e de conflito entre os dois polos. O diário, desde suas formas originais até a sua forma eletrônica contemporânea, é marcado por uma constante tensão entre a publicização e a escrita de si, entre o desejo de seu autor de revelar-se e esconder-se.

Pode-se dizer que essa tensão é constitutiva do próprio diário. Não se pode deixar de sublinhar que, de acordo com a psicanálise, essa tensão é também característica da própria subjetividade. Partindo do conceito de sujeito cindido, a escrita de si revela grande complexidade. As contradições entre o ficcional e o real, o subjetivo e o objetivo, o público e o privado, estão presentes em todo texto e atestam a divisão do sujeito. Todo texto joga com a ambiguidade que se traça entre o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado, entre o consciente e o inconsciente, o “eu” e o outro. Na adolescência essa ambiguidade se revela de forma contundente.

Fundamentalmente, baseamo-nos no pressuposto de que, por mais íntima que seja uma forma de escrita, ela é sempre dirigida a um outro. Ao se dirigir ao seu “querido diário”, o sujeito se dirige a um outro imaginário, a quem confere o poder de escuta, de julgamento e de absolvição. O diário é um outro para o sujeito que escreve, um outro capaz de acompanhar e atestar suas transformações subjetivas, capaz de acolher as mais íntimas confissões e desejos, respeitando-os e guardando-os para si, um outro especular, matriz da projeção dos ideais narcísicos de seu autor. Mas toda escrita é também endereçada a um Outro, campo simbólico, cultural. Veremos, na passagem que o sujeito adolescente deve fazer do espaço familiar para o social mais amplo, como ele exercita a constituição de um íntimo, que escapa ao domínio parental, ao mesmo tempo em que se lança no espaço público.

Se a escrita de si torna-se uma forma de desvendamento de um eu, como a apreensão de uma unidade, essa unidade, como nos ensina Lacan, é uma ilusão. O sujeito é dividido e não há como se curar dessa divisão. A origem de sua existência está situada no desejo do Outro, dimensão inconsciente de seu ser, transindividual, que lhe escapa. O sujeito é inicialmente marcado pelo Outro, pelo significante. O desconhecimento da determinação simbólica do desejo incita o sujeito a buscar restaurar sua unidade perdida, ilusória. O texto autobiográfico é um campo especular, projeção de múltiplos reflexos e espaço de encenação de um eu. O autor de um diário se dirige a um outro especular, narcísico, tecendo um texto que, através de suas tramas significantes, deixa escapar o desejo.

Veremos agora as condições que propiciaram o surgimento do diário como uma escrita íntima, confessional, como uma “narrativa sobre si” na modernidade. Para essa discussão, retomaremos as noções de público e privado, localizando na modernidade o momento do declínio da dimensão pública e da expansão da dimensão privada da existência.


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Fonte:
NÁDIA LAGUÁRDIA DE LIMA: “A ESCRITA VIRTUAL NA ADOLESCÊNCIA: Os blogs como um tratamento do real da puberdade, analisados a partir da função do romance”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Educação. Linha de pesquisa: Psicologia, Psicanálise e Educação. Orientadora: Ana Lydia Bezerra Santiago). Belo Horizonte, 2009.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

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