Eu li isso...

"Os argumentos de Dawkins aparecem em três qualidades principais. Primeiro ele alega que a evolução tem plena responsabilidade pela complexidade biológica e pelas origens da humanidade. Portanto, não há mais necessidade de Deus. Embora esse argumento libere justificadamente de Deus a responsabilidade pelos numerosos atos de criação especial de cada espécie sobre o planeta, decerto não invalida a idéia de que Deus elaborou Seu plano criativo por meio da evolução. O primeiro argumento de Dawkins é, assim, irrelevante para o Deus venerado por Santo Agostinho, ou por mim. No entanto, Dawkins é um mestre em criar um alvo fácil e destruí-lo com muito prazer. Na verdade, é difícil fugir da conclusão de que essas caracterizações repetidas e errôneas da fé denunciam uma lista de assuntos pessoais mordazes, dependentes de argumentos racionais que Dawkins tanto acalenta no campo da ciência.

A segunda objeção da escola de ateísmo evolucionário de
Dawkins é outro alvo fácil: a de que a religião é anti-racional. Ele parece ter adotado a definição da religião atribuída ao estudante apócrifo de Mark Twain: "Fé é acreditar que aquilo que você conhece não é bem assim". A definição de fé de Dawkins é: "uma confiança cega, na ausência de evidências, até mesmo nos dentes das evidências". Isso decerto não descreve a fé dos seguidores mais sérios da história, nem da maioria daqueles que conheço. Apesar de a argumentação racional jamais poder provar, de forma conclusiva, a existência de Deus, pensadores considerados, de Agostinho a Tomás de Aquino, passando por C. S. Lewis, demonstraram que a crença em Deus sempre teve uma aceitação intensa. E não é menos hoje. É fácil para Dawkins atacar a caricatura de fé que ele nos apresenta, mas não se trata da fé real.

A terceira objeção de Dawkins é a de que muito mal tem sido
causado em nome da religião. Não há como negar essa verdade, embora atos de compaixão de grandiosidade inegável também tenham sido abastecidos pela fé. Contudo, os atos cruéis cometidos em nome da religião de maneira alguma contestam a verdade da fé; em vez disso, contestam a natureza dos seres humanos, esses recipientes enferrujados nos quais a água pura da verdade foi colocada.

É interessante que, embora alegue que são o gene e seu
impulso inflexível pela sobrevivência que explicam a existência de todos os seres vivos, Dawkins argumente que nós, humanos, somos, por fim, adiantados o bastante para ter a capacidade de nos rebelar contra as imposições genéticas. "Podemos até debater maneiras de cultivar e alimentar um altruísmo puro e desinteressado de forma voluntária — algo que não existe na natureza, algo que nunca existiu antes na história do mundo." Eis aqui um paradoxo: Dawkins aparenta contribuir para a Lei Moral. De onde pode ter vindo essa urgência de bons sentimentos? Isso não deveria levantar as suspeitas de Dawkins sobre a "indiferença cega e impiedosa" que, segundo ele, condiz com toda a natureza, incluindo ele e o resto da humanidade, por meio de uma evolução perversa? Que valor, então, ele deveria ligar ao altruísmo?

A mais importante e inevitável falha da afirmação de Dawkins, de
que a ciência obriga ao ateísmo, é que isso vai além das evidências. Se Deus se acha fora da natureza, a ciência não pode confirmar nem negar a existência dele. Portanto, o próprio ateísmo deve ser considerado uma forma de fé cega, pois assume um sistema de crenças que não pode ser defendido com base na razão pura. Talvez a síntese mais pitoresca desse ponto de vista venha de uma origem improvável: Stephen Jay Gould, que, sem contar Dawkins, provavelmente foi o porta-voz público da evolução mais lido na geração anterior. Ao escrever a resenha de um livro que de outro modo seria pouco percebida, Gould castigou a perspectiva de Dawkins:

Para dizer isso a todos os meus colegas pela zilhonésima
milionésima vez: a ciência simplesmente não pode, por seus métodos legítimos, julgar o tema sobre a possível superintendência de Deus na natureza. Não podemos afirmar nem negar isso; apenas não podemos comentar como cientistas. Se algum de nós fez afirmações inconvenientes de que o Darwinismo desmente Deus, irei atrás da senhora Mclnerney [a professora de Gould na universidade] e botá-la-ei abaixo com minhas críticas. [...] A ciência só pode trabalhar com explicações naturalistas. Não pode afirmar nem negar outras espécies de atores (como Deus) em outras esferas (o setor moral, por exemplo). Esqueça a filosofia um instante; o simples empirismo de cem anos atrás deve bastar. O próprio Darwin era agnóstico (por ter perdido suas crenças religiosas com a morte trágica de sua filha predileta). No entanto, a grande botânica dos Estados Unidos, Asa Gray, que era favorável à seleção natural e escreveu um livro intitulado Darwiniana, era uma cristã devota. Mais cinqüenta anos adiante: Charles D. Walcott, descobridor dos Burgess Shale Fossils, era darwinista convicto e um cristão igualmente fervoroso, que acreditava que Deus tinha organizado a seleção natural para construir a história da vida de acordo com Seus planos e finalidades. Avançando mais cinqüenta anos, chegamos aos dois grandes evolucionistas de nossa geração: G. G. Simpson era um agnóstico humanista, Theodosius Dobzhansky, seguidor da Igreja Ortodoxa Russa. Ou metade dos meus colegas são muito idiotas, ou então a ciência do darwinismo é inteiramente compatível com as crenças religiosas convencionais — e igualmente compatível com o ateísmo.

Assim, os que optam por ser ateus devem procurar outra base
para assumir essa posição. A evolução não fará isso.

Fonte:
Francis S. Collins. "
A Linguagem de Deus".Tradução: Giorgio Cappel. Editora Gente, 2007, p. 69-71.

É isso!

Um comentário:

  1. William Wallace08/01/2011 22:45

    Sou ateu e não acredito que a ciência ou mais exclusivamente a evolução seja uma desculpa para o mesmo, acredito que ateísmo seja algo intrínseco. Embora Gould falhe em dizer que a ciência não dê suporte a "não existência" de deus como se fosse obrigada ou mesmo possível provar a "não existência" de algo, qualquer que seja. Certamente não há nada que corrobore, na ciência, a existência de um ou mais deuses. Entretanto, e acho que isso é óbvio, um ateu simpatiza pela ciência por seu esforço de gerações de cientistas em descobrir a verdade, seja ela qual for. Só peço que, por favor, não cometa o erro de confundir 'ausência de crença' com 'crença na ausência'. Grato, Will.

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