Ninguém conhece a si mesmo”: Gadamer e a hermenêutica


“Blumenberg é um adversário da “secularização”. Não acredita, no caso, que o pensamento moderno esteja em relação de continuidade com o medieval, no sentido que as idéias “laicas” elaboradas no seu âmbito sejam uma tradução ou uma adaptação de dogmas teológicos ou metafísicos precedentes. O “homem copernicano” introduziu no seu mundo novidades inauditas e, interrompendo as ligações com a tradição, deixou realmente o passado livre para passar, abrindo o “novo tempo”, Neuzeit, ou seja, a modernidade. Para Gadamer, ao contrário, nunca podemos nos livrar da tradição. A consciência do indivíduo não constitui, com efeito, um centro auto-suficiente, isolado com relação à realidade da história que o circunda: faz parte do mundo, com o qual se comunica por meio da linguagem. Interpretamos os acontecimentos somente no interior do horizonte determinado pela nosso pertencimento a uma tradição, aos seus específicos – e antes inexplicáveis – pressupostos. O nosso entendimento não é, portanto, nunca logicamente puro, neutro, incondicionado. Tal como para o último Wittgenstein, também para Gadamer é ilusório imaginar que a nossa alma é como uma tabula rasa livre de condicionamentos ou de certezas pregressas: “Quem quisesse duvidar de tudo, não chegaria nem mesmo a duvidar. O próprio jogo de duvidar pressupõe já a certeza [...]. A criança aprende, porque acredita nos adultos. A dúvida vem depois da crença”186 Compreende-se alguma coisa somente porque dispomos já da sua “pré-compreensão” , ou seja, de uma idéia acolhida que nos aponta e orienta, pelo menos até quando não somos levados a procurar ulteriormente, a aprofundar essa noção não refletida porque, entrementes, tornou-se problemática e insatisfatória. O “círculo hermenêutico” mostra justamente como opera tal pré-compreensão do todo, enquanto antecipação provisória do articulado conhecimento das partes, o qual – uma vez ocorrido – modificará a imagem do conjunto, num processo recorrente e nunca acabado de sucessivas retificações e aberturas.

A historicidade significa, em primeiro lugar, que toda pré-compreensão é um preconceito e, generalizando, que a tradição é uma rede de preconceitos. Mas “pré-juízo” não equivale a juízo falso, a algo de intrinsecamente negativo: sempre se julga, e necessariamente, de um ponto de vista próprio limitado, antes ainda de ter compreendido mais a fundo uma questão. Ninguém é isento de pré-juízos: “Quem pensa estar seguro da própria liberdade dos preconceitos fundando-se na objetividade do método e negando o próprio condicionamento histórico sofre, depois, a força dos pré-juízos que o dominam de modo inconsciente e incontrolável, como um vis a tergo. Quem não quer reconhecer os juízos que o determinam, não saberá ver nem mesmo as coisas que à luz destes aparecem”.

Na procura de vítreas transparências, o Iluminismo desacreditou a idéia de pré-juízo, declarando-lhe guerra: “Assim fazendo, ele realizou também uma espécie de liberação, uma emancipação do espírito. Se, porém, daí se retira a conclusão de que é possível tornar-se transparente a si mesmo, soberano no próprio pensar e agir, então erramos. Ninguém conhece a si mesmo. Trazemos impresso conosco desde sempre um traço, e ninguém é uma folha em branco”.

Todos nós somos indelevelmente marcados pelo que herdamos e pelo que absorvemos da tradição. Mesmo querendo, não podemos, portanto, nos depurar dos nossos prejuízos e dos pré-condicionamentos históricos, não podemos apagar o que a história escreveu sobre a “folha” da nossa vida: podemos somente reescrevê-la, reelaborá-la incessantemente. Não atingiríamos de fato, no caso da eventual evaporação dos prejuízos, verdades eternas: alcançaríamos, pelo contrário, o puro vazio mental. Eliminados os traços, desaparecidas as impressões da tradição, não sobra nada. O importante é não permanecer ligado obstinadamente ou presunçosamente aos prejuízos: “O discurso não é um puro e simples desembuchar dos nossos prejuízos, mas põe-os em jogo, expõe-os às nossas dúvidas, como à réplica do outro [...]. A simples presença do outro que aparece à nossa frente ajuda, antes ainda que este tome a palavra para replicar, a descobrir os nossos prejuízos e a nossa parcialidade, a nos desfazer deles”.

Existem além disso “prejuízos legítimos”, que deveriam ser reivindicados, como os relativos à “autoridade” ou à “tradição”. Entre razão e tradição, sobretudo, não existe, em absoluto, a inimizade que o Iluminismo quer nos fazer crer, dado que identifica a tradição com a cega submissão a autoridades indemonstráveis e arbitrárias: “Mesmo a mais autêntica e sólida das tradições não se desenvolve naturalmente em virtude da força de persistência do que uma vez ocorreu, mas tem necessidade de ser aceita, de ser adotada e cultivada. Ela é essencialmente conservação, aquela mesma conservação que opera ao lado e dentro de toda mudança histórica [...] Até mesmo onde a vida se modifica de maneira tempestuosa, como nas épocas de revolução, na pretensa mudança de todas as coisas, conserva-se do passado muito mais do que se imagina, e solda-se junto ao novo, adquirindo uma validade renovada.”
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Fonte:
Bodei Remo: “A filosofia do século XX”. Tradução de Modesto Florenzano. EDUSC - Editora da Universidade do Sagrado Coração. Bauru, 2000, p. 227-228.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui no citado livro.

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