Fotos de escolas antigas - V


Um pouco mais da história de algumas das nossas mais importantes e tradicionais escolas, em fotografias publicadas ao longo do século XX, como no exemplo a seguir, referente ao antigo e Instituto La-fayette, estabelecido no Rio de Janeiro.

Fachada do Instituto La-fayette, da sucursal de Petrópolis, em 1923

Instituto La-fayette. Vendo-se a quase totalidade dos matriculados,m que corresponde à época 630 alunos, em 1923

Instituto La-fayette. Vê-se o Jardim da Infância do departamento feminino, situada à Rua Conde de Bonfim, 186, Rio de Janeiro, em 1923

Instituto La-fayette. Vendo-se grupo parcial de alunas do curso primário, em 1923

Instituto La-fayette. Vendo-se grupo parcial de alunas do curso comercial, em 1923

Instituto La-fayette. Vendo-se alunos na sede à Rua Haddock Lobo, 253

Solenidade no Instituto La-fayette, em 1922
---
Fonte:
Revista "O Malho", edições de 1922 e 1923, disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil

O lugar da ética protestante



O lugar da ética protestante

Weber descobriu o capitalismo em absolutamente todas as épocas históricas. Porém, sob sua visão, o caráter específico da modernidade ocidental é precisamente este pendor geral à burocratização. O capitalismo moderno do ocidente se diferenciaria do antigo e do medieval graças a sua racionalidade, seu cálculo, sua burocracia. Sobre a racionalidade burocrática já se falou bastante nestas páginas, sem que fossem feitas menções à maneira pela qual Weber explica a origem do capitalismo moderno. Que este seja o nosso assunto a partir de agora. A teoria weberiana acerca da gênese do capitalismo moderno é controversa porque “a tese de Weber está repleta de ambigüidades, inconsistências e outras curiosidades intelectuais” (Parkin, 2000: 23). O ponto principal da discussão gira em torno da dimensão que possuiria a ética protestante na origem da modernidade.

Swedberg defende que a atuação da ascese protestante seria um episódio apenas na individualidade histórica construída por Weber:

O que nem todos sabem é que Weber via o surgimento do capitalismo moderno como um processo gradual, que teve dimensões institucionais assim como culturais e que se estendeu por vários séculos. A influência do protestantismo ascético é apenas um episódio desse longo processo, embora um episódio importante e particularmente fascinante (2005: 21).

A partir da leitura de História geral da economia, Swedberg constata que Weber deu importância a outros fatores além da religiosidade racional protestante. De fato, naquele texto, Weber colocaria enquanto pressuposto do capitalismo hodierno a contabilidade racional do capital, cujas condições prévias seriam 1) a apropriação dos meios de produção por parte da burguesia, 2) a liberdade de mercado, 3) uma técnica racional, 4) o direito racional, 5) o trabalho livre e 6) a comercialização da economia (cf. Weber, 1968: 250, 251). Aliadas a outros fatores (o Estado racional e o protestantismo), as instituições teriam gerado o capitalismo moderno. Esta é a leitura da tese weberiana para a ascensão da modernidade que Swedberg privilegia: a doutrina protestante é um episódio entre outros de peso igualmente relevante.

Em meio à série de eventos listada em História geral da economia encontra-se a desapropriação dos trabalhadores de seus meios de produção. Seria mais um dos momentos constitutivos do capital moderno, ao lado dos demais. Ao contrário, para Marx, este é o pressuposto histórico para o ser do capital: a apropriação dos meios de produção por parte da burguesia e então a classe trabalhadora “livre” para alienar a sua força de trabalho no mercado. Não há capitalismo em qualquer outra condição. A tendência de Weber é diminuir a importância histórica desse movimento. Na conferência de 1918 sobre o socialismo, Weber afirma que os instrumentos de produção tornaram-se monopólio das empresas e que “esta é uma realidade de fato, mas semelhante fenômeno não é típico apenas do processo econômico de produção” (1993: 97). A partir daqui, Weber enumera situações que qualifica como similares a do trabalhador fabril. Na universidade, “a massa de forças trabalhadoras atuais no âmbito da atividade universitária, sobretudo os assistentes dos grandes institutos, encontram-se, nessa perspectiva, na mesma condição que um operário qualquer” (Weber, idem: 97). Os funcionários e docentes das universidades também estão desprovidos de seus meios de produção, afirmaria Weber. “O mesmo ocorre, também, no âmbito das forças armadas”. Isto é, na modernidade, “tanto o soldado quanto o oficial... deixam de ser proprietários dos meios necessários para travar uma guerra” (Weber, idem: 97, 98).

Não é necessário muito esforço para perceber que Weber reduz a amplitude do movimento de desapropriação dos trabalhadores. É uma abstração desmedida, nociva à ciência, a equalização da função social historicamente determinada ao trabalhador com a de funcionários de universidades e de soldados. O que é o pressuposto genético-ontológico para o ser do capital, Weber equipara a outros momentos profundamente episódicos em vista do processo de “libertação” da classe trabalhadora para que se venda no mercado; na História geral da economia, é mais uma entre tantas esferas que ajudaram a causar a sociedade capitalista.

Caso fosse a construção de uma “individualidade histórica”, diríamos que o “juízo de possibilidade objetiva” de Weber não foi eficaz. Não soube discernir entre o trivial e o substantivo. É resultado de um uso falho das “fontes de conhecimento” e uma análise precária das “regras de experiência”. A desapropriação dos meios de produção dos trabalhadores transformou o curso da História Mundial; uma causalidade de tão magnitude não cabe nem de longe à “desapropriação” de funcionários e soldados.

Não pretendemos estudar todas as esferas listadas em História geral da economia que constituiriam as causalidades do capitalismo moderno, porém, uma outra chama a atenção: a formação do direito racional. À visão de Weber, na sociedade contemporânea, um dos elementos característicos da burocracia estatal seria a racionalização do direito; o nosso autor delineia em Economia e sociedade que, nos marcos da modernidade, a esfera do direito assume a forma de um todo sistemático, “um sistema de regras logicamente claro, internamente consistente e, sobretudo, em princípios, sem lacunas” (Weber, 1999: 12). A sistematização moderna do direito significa a constituição de “um sistema, portanto, que busca a possibilidade de subsumir logicamente a uma de suas normas todas as constelações de fatos imagináveis, porque, ao contrário, a ordem baseada nestas normas careceria de garantia jurídica” (Weber, idem: 12). O direito enquanto corpo normativo implica a abrangência sem lacunas de todos eventos da vida cotidiana. É um dos elementos de maior peso no que tange ao controle burocrático da vida social.

O fenômeno em si é compreendido por Weber sem que a sua substância racional seja capturada. Ater-se ao resultado é prescindir de todo o processo do qual ele é apenas a manifestação histórica. O que está por trás de tal sistematização do aparato jurídico não é levado em conta. Diversamente do que nos noticia Weber, o direito como um sistema não nasce do vazio.

Nos fecundos estudos de A teoria geral do direito e o marxismo, Pasukanis afirma que o direito apenas assume a “forma acabada” na sociedade burguesa: “as relações dos produtores de mercadorias entre si engendram a mais desenvolvida, universal e acabada mediação jurídica” (1989: 09). A sistematização do direito é um movimento que responde às questões postas pela produção material, pela troca de mercadorias no mercado, pela defesa positiva (“não natural”) da propriedade privada: “assim como a riqueza da sociedade capitalista tem a forma de uma enorme acumulação de mercadorias, a sociedade, em seu conjunto, apresenta-se como uma cadeia ininterrupta de relações jurídicas” (Pasukanis, idem: 10). Com a reificação do estágio monopolista do capital, a burocratização jurídica da vida cotidiana tende a expandir-se quantitativa e qualitativamente.

Além do que, Pasukanis constata um dado relevante para a teorização do direito vigente nas relações atuais: “é apenas na sociedade burguesa capitalista, em que o proletário surge como alguém que dispõe da sua força de trabalho como mercadoria, que a relação econômica da exploração é juridicamente mediatizada sob a forma de um contrato” (1989: 10). Pela primeira vez na história, temos um contrato jurídico a intermediar uma relação de exploração entre as classes antagônicas. Nas sociedades escravocratas, “o escravo é totalmente subordinado ao seu senhor e é precisamente por esta razão que esta relação de exploração não necessita de nenhuma elaboração jurídica particular”. O advento das relações capitalistas de produção engendra a essencial novidade: “o trabalhador assalariado, ao contrário, surge no mercado como livre vendedor de força de trabalho e é por isso que a relação de exploração capitalista se mediatiza sob a forma jurídica de contrato” (Pasukanis, idem: 82).

Na Ontologia do ser social, Lukács diz que, à medida que os conflitos adquirem complexidade, o direito torna-se cada vez mais abstrato em sua formalidade lógica. Essa sistematização lógica é estabelecida “não pela objetividade social propriamente dita, mas pelo interesse da classe dominante (ou das classes dominantes ou que articularam um compromisso) para regular e, portanto, dirimir de certo modo determinados conflitos” (Lukács, 1981: 480). O direito é sempre um direito de classe. Lukács costumava exprimir o caráter classista dessa sistematização com uma citação do escritor francês Anatole France contida no romance O lírio vermelho; ela está referida em meio às suas parcas anotações do livro sobre a ética que pretendia escrever: a lei proíbe com a mesma majestade que tanto o pobre quanto o rico durmam embaixo da ponte. Eis uma norma universal, que subsume sem lacunas todos os “fatos imagináveis” e que vela as suas determinações de classe.

O núcleo oculto deste movimento é inapreensível para o formalismo da sociologia weberiana. Até quando estabelece uma conexão entre a sistematização do direito e os interesses da burguesia, Weber não captura efetivamente as determinações que movem este processo:

Naturalmente, cabe sobretudo aos interessados burgueses exigir um direito inequívoco, claro, livre de arbítrio administrativo irracional e de perturbações irracionais por parte de privilégios concretos: direito que, antes de mais nada, garanta de forma segura o caráter juridicamente obrigatório de contratos e que, em virtude de todas estas qualidades, funcione de modo calculável (Weber, 1999: 123).

Os interesse burguês em se criar um direito sistêmico diz respeito à pura racionalização formal, à necessidade de se calcular em contratos as relações entre os agentes econômicos. O direito inequívoco seria um reflexo mecânico do imperativo que se tenha um conjunto calculável de leis para o tráfico de mercadorias, livre de ingerências arbitrárias. Oculta-se o fenômeno descrito por Pasukanis: pela primeira vez na história, temos uma relação de exploração mediada por contratos. Oculta-se que todo um corpo jurídico nasceu sobre esta base material.

Não é a nossa intenção avaliar uma por uma as esferas que, segundo História geral da economia, produziram o capitalismo atual. A desapropriação dos meios de produção dos trabalhadores e o direito racional foram duas ilustrações dos limites do formalismo sociológico de Weber. Swedberg não questiona o formalismo weberiano em seu estudo; valoriza a “pluricausalidade” da explicação que Weber dá para a constituição da modernidade e não a coloca em xeque.

Agora, o problema que cobre a leitura de História geral da economia feita por Swedberg é que o comentador atenua a importância de uma determinada passagem do texto. Nela, Weber diz que “o capitalismo não pode surgir de um grupo econômico fortemente influenciado pela magia” (1968: 315, 316). Ainda que equilibre a força da ascese protestante com as outras instituições listadas acima, Weber não deixa de conferir ao protestantismo a causa primária do capitalismo moderno. Instituições modernas como um corpo de burocratas especializados existiram em outras etapas da história (na China dos confucionistas, por exemplo); contudo, a burocracia não seria “racional moderna” sem a mentalidade ascética que nasce com a Reforma. As profecias dos reformados quebraram a magia; são profecias racionais: “é possível que um profeta, acreditado pelos milagres e outros meios, quebre as normas sagradas e tradicionais” (Weber, idem: 316). Os profetas de confissão protestante romperam com as normas sagradas da tradição. As profecias que se ouviram de sua voz foram eleitas por Weber enquanto o “fundamento” do capitalismo moderno: “às profecias cabem o mérito de haver rompido o encanto mágico do mundo, criando o fundamento para a nossa ciência moderna, para a técnica e, por fim, para o capitalismo” (idem: 316). Lutero e Calvino fundam a modernidade. Não obstante as outras esferas tenham vez no escopo de História geral da economia, o ponto crucial é a primazia da ideologia religiosa, da ascese protestante na constituição da época racional do capitalismo.

Em seu turno, Parkin traça um sentido diverso ao de Swedberg estudando a compreensão weberiana do capitalismo ocidental moderno. Embora a debilidade de seu exame resida no fato de que toma unicamente A ética protestante e o espírito do capitalismo, Parkin defende que Weber possuía duas teses distintas para explicar a ascensão da modernidade ocidental, uma fraca e outra forte. A forte é aquela que assume como ponto de partida da época capitalista a doutrina protestante. A fraca diz respeito a certos instantes da obra de Weber que indicam que a ética protestante e o espírito capitalista harmonizavam-se mutuamente sem que a primeira fosse causa originária do segundo; existiriam entre ambos “afinidades eletivas” e não uma conexão de causa e efeito. Para caracterizar a tese fraca, Parkin baseia-se em um trecho de A ética protestante e o espírito do capitalismo em que está dito:

Em face da enorme barafunda de influxos recíprocos entre as bases materiais, as formas de organização social e o conteúdo espiritual das épocas culturais da Reforma, procederemos tão só de modo a examinar de perto se, e em quais pontos, podemos reconhecer determinadas “afinidades eletivas” entre certas formas de fé religiosa e certas formas de ética profissional (Weber, 2004b: 83).

Esta é a tese fraca: haveria afinidades eletivas entre o espírito capitalista e a conduta protestante. Parkin poderia ter encontrado a tese fraca também em Economia e sociedade. Neste texto, Weber escreve que, com a correspondência entre a reprodução do capital e o comportamento moral estipulado pela Reforma, “está alcançada a coincidência do postulado religioso com o estilo de vida burguês favorável para o capitalismo” (2004a: 399). Coincidiram a religião reformada e os interesses do capital. São simples afinidades ou coincidências. Não existiria, portanto, o pressuposto lógico da tese forte, ou seja, a correlação de causa religiosa e efeito econômico.

Nas respostas às críticas de Felix Rachfahl, Weber tende a reforçar a tese fraca. Não temos os originais de Rachfahl, mas, segundo as citações de Weber, o crítico acusava-o de ter supervalorizado a função das religiões. Weber retruca voltando a utilizar a expressão que tomou de empréstimo de Goethe: “eu encontrei a idéia da ‘profissão vocacional’ [Beruf] e considerei a afinidade eletiva muito específica que o calvinismo (e com ele os quakers e algumas seitas semelhantes) mantém com o capitalismo, afinidade constatada depois de longo tempo” (2003: 418).

A confusão entre as visões dos comentadores dá-se porque Weber é ambíguo em suas colocações. As leituras possíveis e discordantes encontram respaldo nos textos weberianos. No entanto, a tese forte é aquela que recebe maiores atenções ao longo de sua obra (e é obviamente por esse motivo que Parkin lhe atribui a força ao invés da fraqueza): a ascese protestante, especialmente o calvinismo, teria racionalizado o espírito do capitalismo ao determinar a seus seguidores o critério econômico da acumulação de bens como indicativo de salvação. A fórmula é célebre: quanto mais disciplinado for o trabalho do fiel, maiores são as suas chances de obter a salvação de sua alma; o êxito na profissão dá ao crente protestante a certeza da redenção espiritual. De acordo com os preceitos da Reforma, “já que o êxito do trabalho é o sintoma mais seguro do agrado a Deus, o lucro capitalista é um dos mais importantes fundamentos do conhecimento de que a bênção de Deus descansou sobre a empresa” (Weber, 2004a: 399). Esse seria o marco inicial da época moderna ocidental.

A ambigüidade da explicação causal de Weber não é pequena. A tese forte é a norteadora de A ética protestante e o espírito do capitalismo, enquanto que em História geral da economia, Weber procura equilibrar aquelas outras esferas que vimos com Swedberg e a causalidade originária posta à função do protestantismo. Na mesma época em que lecionava os cursos que seriam publicados sob o título de História geral da economia, Weber lançava a segunda edição (em 1920) de A ética protestante e o espírito do capitalismo fazendo notar que “no que a ascese se pôs a transformar o mundo e a produzir no mundo seus efeitos, os bens exteriores deste mundo ganharam poder crescente e por fim irresistível, sobre os seres humanos como nunca antes na história” (2004b: 165). Nessa citação testemunha-se o poder de alcance atribuído à conduta ascética da religião; como nunca antes na história, a ascese calvinista pôs a transformar o mundo. Na História geral da economia, é correto que a causalidade do período capitalista também se deve a Lutero e Calvino. Mas a conduta ética por eles estipulada convive com as demais esferas privilegiadas por Swedberg. Ficamos entre a explicação unidimensional do ensaio de 1920 e a pretendida “pluricausalidade” das lições sobre a história econômica.

Ainda não se fechou a sucessão de “curiosidades intelectuais” da tese weberiana. No ensaio conhecido como Considerações intermediárias: o destino do Ocidente, Weber dá a entender que o protestantismo teria sido uma resposta ao surgimento do capitalismo moderno; seria o efeito secundário e não a causa instituidora. Weber explica que há uma tensão entre as religiões impregnadas do misticismo tradicional e a esfera econômica do capitalismo contemporâneo: “quanto mais o mundo da economia capitalista racional moderna seguia suas próprias leis imanentes, tanto menos impermeável tornava-se a qualquer relação imaginável com uma ética religiosa de fraternidade” (2005: 56). Haveria um conflito inerente à relação entre a impessoal racionalidade da época capitalista e a fraternidade tradicionalista das velhas igrejas: “e esta impermeabilidade aumentava com o crescimento da racionalização e da impessoalidade” (Weber, idem: 56). Para fugir à tensão entre a fraternidade religiosa e a impessoalidade do capital, criou-se a ética vocacional dos protestantes: “como religiosidade de virtuosos, a ética vocacional puritana renunciava ao universalismo do amor e considerava racionalmente todo o trabalho neste mundo como sendo um serviço à vontade de Deus” (Weber, idem: 58). Weber insinua que a ética protestante tenha sido o retrato religioso das relações capitalistas modernas, uma “aceitação” do estado de coisas da modernidade: “ao mesmo tempo, esta ética [puritana] transfigurava o universo econômico — desprezado, como totalidade do mundo, como coisa da criatura e imperfeita — em vontade divina e material sobre o qual deita o próprio dever” (idem: 58). Em outras palavras, a rotina burocrática da economia moderna é anterior e a conduta puritana aceita-a, ajusta-se mecanicamente a ela, transfigura-a em vontade de Deus.

Essa passagem aponta que existiam maiores inconsistências no “construto lógico” de Weber do que ele mesmo poderia desconfiar. As arestas ilógicas de sua individualidade histórica destacam-se à medida que se confrontam os diversos textos em que são abordados assuntos similares. Se a causalidade cronológica da época capitalista encontra-se na ética protestante, esta última não seria uma “aceitação” do cosmos econômico moderno, tampouco uma simples coincidência; pelo contrário, seria a sua origem fundadora. Apesar disso, o fragmento das Considerações intermediárias parece ser um momento avulso que não se repete ao longo da obra weberiana. Talvez Weber desejasse que os seus leitores calassem quanto a essas “curiosidades intelectuais” e retivessem apenas a tese forte de A ética protestante e o espírito do capitalismo: a doutrina protestante fundou a modernidade do espírito capitalista e ponto final.

Na individualidade histórica que construiu do capitalismo ocidental, Weber colocou-se a pergunta: se Lutero e Calvino fossem retirados da história, existiria a modernidade do capital? A despeito das contradições internas, o conjunto global dos escritos de Weber responde negativamente à questão.

Não houve um par como o de Lutero e Calvino no Oriente. Faltou ao capitalismo oriental a conduta racional dos ascéticos. Na China, por exemplo, Weber descreve a sua burocracia estatal e constata a ausência da advocacia, porque “os membros do clã, possivelmente educados em literatura, funcionavam como advogados para seus familiares” (Weber, 1968a: 102, 103). A burocracia chinesa baseava-se na irracionalidade das tradições. Segundo Weber, “o capitalismo industrial racional, específico do desenvolvimento moderno, não originou em nenhum lugar sob este regime” (idem: 103).

Não haveria capitalismo moderno sem a liderança racional-legal: “o investimento capitalista na indústria é bastante sensível a tal norma irracional e muito dependente da possibilidade de cálculo da operação estável e racional da máquina do Estado para emergir sob uma administração deste tipo” (Weber, idem: 103). Faz-se a pergunta: “porém, por que esta administração e este judiciário [na China] permaneceram tão irracionais do ponto de vista capitalista? Esta é a questão decisiva” (idem: 103). Já adiantamos a resposta à “questão decisiva” no início do parágrafo; Confúcio e Lao-tzu não foram para as religiões chinesas o que os Reformadores foram para o cristianismo. Como as demais esferas da vida social, a administração chinesa permaneceu irracional visto que Lutero e Calvino não estavam lá. O confucionismo e o taoísmo não racionalizaram profundamente a ética religiosa. Das religiões chinesas, conforme Weber, o confucionismo foi a que mais perto chegou da ascese protestante. Todavia, “o racionalismo confucionista significou a adaptação racional ao mundo; o racionalismo puritano significou o controle do mundo” (Weber, idem: 248). O racionalismo de Confúcio implica a procura da autoperfeição do espírito, da sabedoria respaldada nas tradições, da compreensão e aceitação do mundo (ao contrário do puritano que atua no mundo para adaptá-lo à sua vocação).

Nos seus estudos sobre a China, Weber especializa-se no fragmento da religião. É da religião a prioridade na interpretação do comportamento típico dos chineses. Em certa medida, as instituições capitalistas estavam lá, porém sem o espírito racional dos ascéticos. Sem a mentalidade ascética, não nasceu o moderno espírito capitalista entre os chineses. Entretanto, em uma curta frase, Weber menciona um fato que talvez merecesse melhor atenção: “foram obstruídas na China a ‘disciplina do trabalho’ e a seleção livre de trabalho no mercado, as quais caracterizaram a grande empresa moderna” (1968a: 95). Face ao vínculo dos homens à rígida estrutura dos clãs, jamais houve na China a força de trabalho disciplinada e “livre” para se vender no mercado. Não resta dúvida que esta característica da sociedade chinesa poderia ter sido mais bem desenvolvida pelo estudo de Weber. Mas, tivemos ocasião para demonstrar que, embora o trabalhador desapropriado de seus meios de produção e subsistência fosse referido por Weber, este evento histórico não lhe causava a maior das preocupações. Como o nosso autor disse logo acima, a “questão decisiva” não era esta. Weber centrava-se, sobretudo, na forma como a ascese protestante modelou “a face do gênero humano” no Ocidente e continuaria a modelar no futuro, não obstante tenha perdido os laços religiosos de origem.

O mesmo tratamento é dado à sociedade indiana. Na Índia, Weber depara-se com instituições “racionais”; um exército organizado, contabilidade burocrática, monopólios de comércio e comunicação, sistema numérico racional, relativo desenvolvimento urbano, aritmética e álgebra desenvolvidas, direito positivo; tudo isto havia lugar na Índia, segundo Weber. Por que então o capitalismo moderno de feição ocidental não aportou em terras indianas? O fato é que foi o próprio ocidente que o levou a Índia. Weber relata que “o capitalismo industrial moderno, em particular a indústria, entrou na Índia sob a administração britânica e com diretos e fortes incentivos” (1967a: 113). Todavia, Weber não pretende analisar os impactos que a dominação colonizadora do capital inglês impôs aos indianos, o que Marx chamou de “crimes do capital”. Pelo contrário, incumbe-se de compreender as dificuldades que as relações capitalistas tiveram para lá se desenvolver. O capital monopolista não encontrou uma força de trabalho domesticada, pronta para ser explorada: o indiano é “apenas um trabalhador casual. ‘Disciplina’ no sentido europeu é uma idéia desconhecida por ele” (Weber, idem: 114). A exploração capitalista encontrou barreiras no tradicionalismo da cultura da Índia. Careceu o capitalismo indiano da ascese que condicionasse o operário ao trabalho vocacional e “racionalizado”: “para racionalizar a economia era impossível romper com o tradicionalismo, baseado na ritualística das castas que se ancora na doutrina do karma” (Weber, idem: 123). Weber especializou-se no fragmento da religião; um “economista” que cuidasse dos “crimes do capital”.

Na individualidade histórica de Weber para a modernidade ocidental, os Reformados interpretam o papel de protagonistas. Ernst Troeltsch intuiu os equívocos que possivelmente existiriam em se “exagerar unilateralmente a significação do protestantismo” (2005: 28). Por isso, tratou de registrar:

Uma grande massa dos fundamentos do mundo moderno em respeito ao Estado, à sociedade, à economia, à ciência e à arte originou-se com completa independência do protestantismo, sendo, em parte, uma simples continuação dos desenvolvimentos da baixa, Idade Média, em parte, efeito do Renascimento e, especialmente, do Renascimento assimilado pelo protestantismo, e, finalmente, foi lograda nas nações católicas, como Espanha, Áustria, Itália e especialmente França, depois que surgiu o protestantismo e junto a ele. Porém, de todo modo, não é possível negar abertamente sua grande significação na origem do mundo moderno (2005: 28).

O historiador das religiões é muito mais cauteloso do que Weber ao avaliar a importância dos Reformados. Vejam que Troeltsch expõe inclusive problemas cronológicos para se atribuir à conduta ascética a causa originária da modernidade. É fato que Weber também observa que “certas formas importantes de negócio capitalista” são mais antigas que a Reforma (cf. 2004b: 82); todavia, esta observação permanece sendo uma outra das contradições internas à tese de Weber, para a qual o capitalismo moderno não poderia nascer sem a mentalidade ascética. Ainda que não dê um tratamento dialético às questões que levanta, Troeltsch não absolutiza unilateralmente a influência da doutrina religiosa no devir da modernidade; a sua análise caminha no sentido de imputar à religião o papel fomentador do comportamento moderno, sem que fosse a instância criadora, a causa única: “o Estado moderno e sua liberdade e seu regime constitucional, sua burocracia civil e militar, a economia moderna e a nova estratificação social, a ciência moderna e a arte moderna encontram-se já em marcha... antes do protestantismo e sem ele” (Troeltsch, 2005: 95). Troeltsch deseja explicar aspectos do homem moderno a partir do luteranismo e do calvinismo e, ao fazê-lo, não escapa dos limites de um neokantismo culturalista, mas se desvencilha daqueles que viriam quando se confere uma causalidade absoluta às forças religiosas.

Troeltsch não foi o único pensador burguês a conceber uma variante da interpretação weberiana para a gênese da época capitalista (é evidente, sem fazer concessões à concepção materialista da história). Outros autores participam do baile. No ensaio As origens do capitalismo moderno, Lujo Brentano elabora a sua própria teoria sobre o fator causal da modernidade. De acordo com o economista, “o capitalismo moderno obteve então suas origens no comércio, no empréstimo do dinheiro e na organização da guerra” (Brentano, 1968: 60, 61). Dos três elementos, o que adquire maior relevo em sua teoria é a organização da guerra. Na guerra, a diferença entre o regime feudal e o capitalismo moderno patenteia-se: “na guerra ofensiva, o sistema feudal demonstrou-se ineficaz; era necessário comprar com dinheiro os serviços dos cavaleiros. É este o primeiro passo da penetração do capitalismo na organização da guerra” (Brentano, idem: 51). A partir do investimento do dinheiro acumulado nas cidades comerciais mediterrâneas, as guerras começaram a ser construídas como verdadeiros empreendimentos capitalistas. Para que não haja dúvidas, Brentano finca o marco inicial: “encontramos as primeiras formas de capitalismo nas guerras marítimas travadas pelas cidades italianas comerciais. Lá, as expedições guerreiras apresentam às vezes o caráter de empresas de sociedade de ações” (idem: 45).

Alfred Weber prefere privilegiar o papel do Estado ao explicar a ascensão do capitalismo moderno. O capitalismo moderno seria a passagem do comercial para o industrial. Nesta passagem, o Estado teria atuado em primeiro plano. Alfred Weber relata que o capitalismo industrial foi um “presente maravilhoso para os modernos estados” em sua época de constituição (cf. s/d: 427). Conforme a História sociológica da cultura, “o Estado moderno, quanto a seu crescente ímpeto, só é compreensível à luz desse fato material. O Estado moderno atrai a si, com todos os seus meios, o capitalismo nascido na Itália, na Flandres, na Inglaterra e nas cidades alemãs” (Weber, idem: 427). O Estado moderno teria criado a época capitalista. Vejam que o capitalismo comercial é apresentado como um fato da história, que não necessita ser explicado, cuja ascensão para a forma industrial é produzida pelo “ímpeto” do Estado moderno.

Alfred Weber esclarece em que consistiu o desempenho do Estado na consecução da modernidade do capitalismo: para que se fomentasse a empresa capitalista contemporânea, era preciso que fossem formados monopólios e privilégios, uma moeda e um sistema de crédito monetário organizados, estradas, canais e correio público; além disso, o capitalismo moderno nascente precisava de colônias em todas as regiões do mundo, de terras a serem exploradas, de “territórios estrangeiros aos quais, depois de ter destruído a produção primitiva dos indígenas, pudesse vender com grande ganho, comprar barato ou fazer produzir barato aquilo que venderia caro depois” (Weber, s/d: 428). Eram necessários a força de trabalho barata e também o exército armado que lhe protegesse. Estes eventos teriam vez apenas com a ação do Estado: “só o Estado moderno seria capaz de proporcionar todos esses meios” (Weber, idem: 429). Dessa maneira, segundo História sociológica da cultura, o Estado alimentou o “ser que, uma vez criado, tem de desenvolver-se por si próprio como conquistador da vida e do mundo, dado que este ser vivia do princípio da acumulação do capital..., levando... em si próprio forças ilimitadas que possuíam as suas próprias leis de evolução” (idem: 431).

Em seu turno, Werner Sombart trouxe à luz a sua versão particular para o surgimento do “espírito capitalista”. No seu caso, a polêmica era explícita contra Max Weber. O economista descobre o “espírito de empresa”, característico do empreendimento burguês, muito antes do Benjamin Franklin de Weber; escreve que, “se não me equivoco, em Florença, até fins do século XIV apareceu pela primeira vez o perfeito burguês” (Sombart, 1953: 103). Assim afirma Sombart porque o atesta um grande número de documentos deixados por homens de negócios e outros que estavam à par das atividades comerciais; são homens que “consignaram seus pensamentos em preciosas memórias ou obras morais cuja leitura erige ante nossos olhos, com claridade meridiana, a imagem e semelhança de Benjamin Franklin, cabal encarnação do espírito burguês” (Sombart, idem: 103).

Sombart elege o filósofo Leon Battista Alberti (1404-1472) como o autor da obra que, em primeira mão, reúne os princípios do espírito capitalista. Haveria em Do governo da família as noções de racionalização da conduta econômica, o espírito acumulativo e a honestidade nos negócios; são características que Sombart chama de “virtudes burguesas” já presentes na obra do renascentista. Esse livro demonstra para o economista que aquilo que se encontra na época capitalista “a saber, os princípios de uma existência burguesa bem ordenada, discreta, fundada em um determinado conjunto de conveniências, signos de bom tom e distinção, forma desde 1465 a substância vital da alma dos comerciantes e dos banqueiros florentinos” (1953: 103).

Entretanto, para melhor articular a sua explicação para a origem do capitalismo contemporâneo, o economista alemão separa dois tipos ideais de burguês: o antigo e o moderno. O antigo percorre desde o Renascimento até o século XVIII e tem como principal atributo o fato de que não está a serviço do capitalismo; “para todos os homens dos alvores do capitalismo, os negócios não eram mais que um meio para se chegar ao único fim supremo que não era outro senão a vida”. Segundo Sombart, estes homens colocavam-se no centro mesmo de seus interesses: “eram seus próprios interesses vitais e dos demais homens com quem e para quem trabalhavam que determinavam a direção e a medida de suas atividades” (1953: 148). A marca distintiva do novo burguês, advindo da revolução industrial inglesa, é o deslocamento do centro de seus interesses para a aquisição do lucro: “o homem, com seus prazeres e dores, com suas necessidade e exigências, deixou de ser o ponto de convergência de todos os interesses, e que seu lugar foi ocupado por algumas abstrações como o lucro, o enriquecimento, os negócios” (idem: 162). Esse é o aspecto psicológico de principal relevância na caracterização do burguês moderno feita por Sombart: o homem deixa-se de lado, ocupa-se com a obtenção dos lucros e nada mais.

Restaria saber quais foram as novas forças que, de acordo com Sombart, produziram a mudança, trouxeram o lucro para o cerne dos interesses do homem burguês e engendraram a modernidade do capital. O economista é claro quanto a isso: o espírito do capitalismo moderno deve-se aos judeus, graças à sua predisposição psicológica e à sua religião.

Vejamos com maiores detalhes o caminho traçado pelo autor de O burguês rumo à conclusão de que os judeus instituíram o capitalismo moderno. Sombart sustenta que a biologia particular de certas raças detém condições que contribuem ao empreendimento capitalista: “sem dúvida, todas as manifestações do espírito capitalista reduzem-se, como todos os estados e processos psíquicos, a predisposições particulares, é dizer, a propriedades originais e hereditárias do organismo” (1953: 187). Seriam inerentes à psicologia de determinadas raças as aptidões que impulsionam o capital. Apesar do grosseiro darwinismo social de suas idéias, Sombart não se abala: “a meu juízo, é um fato acima de toda discussão que as manifestações do espírito capitalista e que a estrutura psíquica em sua totalidade repousam sobre predisposições hereditárias” (idem: 187). Homens de certa estirpe nascem com a alma burguesa, com a “vivacidade de espírito, perspicácia, inteligência” que, conforme Sombart, perfazem o temperamento do empresário (cf. idem: 189). A natureza burguesa está “no sangue”. Por isso, “avistamos de longe um burguês porque conhecemos o aroma especial que se desprende desta raça humana” (Sombart, idem: 191).

Por conseguinte, as etnias que estariam predispostas ao capitalismo empreendedor são aquelas que abrangem o maior número de homens com a alma burguesa. Observem as conclusões produzidas pelo economista a partir deste determinismo psicológico: “entre os povos cujas aptidões capitalistas estão abaixo do comum, coloco antes de tudo os celtas e algumas tribos germânicas, como os godos” (1953: 199). Em contrapartida, “entre os povos europeus, foram os florentinos, os escoceses e os judeus os que mais contribuíram para o desenvolvimento do espírito capitalista” (Sombart, idem: 202). Assim, aqui estão os judeus com as suas predisposições psicológicas e biológicas a ajudar na constituição do capital moderno. Mas não estão sós. Os florentinos e os escoceses figuram entre eles. Os três povos mantiveram-se puros ao longo dos tempos. Não mesclaram o seu sangue burguês com outros povos menos aptos ao capitalismo e selecionaram entre si os mais fortes para o empreendimento empresarial.

Por que seriam então os judeus os escolhidos por Sombart para fazer originar o capitalismo moderno? É de se interrogar o que os difere das duas “etnias” também aptas para o espírito capitalista. A resposta é mais simplória do que parece à primeira vista: segundo Sombart, nem os florentinos e sequer os escoceses tiveram para si uma moral religiosa como o judaísmo. Ou seja, “a influência da religião judaica sobre a orientação da vida em geral e da vida econômica em particular foi mais decisiva e mais profunda que as outras demais” (Sombart, 1953: 224). Sombart refuta claramente a idéia weberiana de que o protestantismo foi um impulso ao capital; pelo contrário, a “Reforma teve incontestavelmente como resultado uma introversão do homem e a intensificação de sua necessidade metafísica, os interesses capitalistas deviam necessariamente sofrer na medida em que o espírito da Reforma difundia-se e generalizava-se” (idem: 241). Conforme os estudos de Sombart, o papel que Weber credita ao protestantismo pertenceria, na verdade, ao judaísmo. Se existiram grandes capitalistas puritanos, Sombart inclina-se a crer na força das disposições naturais deste homens ou nas meras circunstâncias casuais; não seria resultado da ascese protestante (cf. idem: 249). Fosse talvez a influência do judaísmo dentro do próprio protestantismo.

A situação é diferente quando se trata do judaísmo: “o que considero como o aspecto específico do judaísmo é que este contém e desenvolve até as últimas conseqüências lógicas todas as doutrinas favoráveis ao capitalismo” (Sombart, 1953: 252). Haveria nos preceitos da religião judaica os mandamentos que motivam a liberdade comercial e industrial. O economista sugere inúmeras passagens dos textos sagrados dos judeus em que são comprovados tais pressupostos. De acordo com Sombart, para a fé judaica, “não há dúvidas: é Deus mesmo quem deseja a liberdade de comércio, o exercício liberal das profissões. É inútil insistir acerca da influência que semelhante concepção desempenhou sobre a orientação e evolução da vida econômica” (idem: 257).

Em um livro chamado Os judeus e o capitalismo moderno, Sombart coloca a seguinte questão para os leitores que ainda duvidam de que existe algo de essencialmente judeu na constituição do capitalismo contemporâneo: “de outra maneira, poderíamos talvez assegurar que não haveria diferença para a história econômica da Europa ocidental se os esquimós tivessem ocupado o lugar dos judeus, ou quem sabe até gorilas tivessem feito esta função tão bem” (2001: 176, 177).

A religião judaica é milenar e a constituição do capitalismo moderno data do século XVIII. Lembrem-se de que o novo burguês seria recente na história do homem. Explica Sombart que, apenas neste período, as premissas biológicas, psíquicas e religiosas do povo judeu conseguiram as condições sociais que serviram de fulcro para a formação de uma época capitalista. No século XV, trezentos mil judeus foram expulsos da Espanha e espalharam-se pela Europa. Esses migrantes judeus “são os pioneiros e os animadores da organização capitalista” (Sombart, 1953: 281). A este fenômeno agregam-se condições sociais de outra espécie: maiores migrações, o Estado, as descobertas de minas de outro e prata, a técnica racional, etc. Assim se deu o capitalismo moderno; “o gigante liberado percorreu os países, assolando tudo a seu passo, demolindo todas as barreiras que se opunham ao avanço de sua marcha” (Sombart, idem: 338).

Ao concluir triunfante, diz Sombart que o seu estudo sobre a constituição do capitalismo “não deixa de pé nem sequer hipóteses tão engenhosas como as de Max Weber” (1953: 335).

Max Weber não se furta a dialogar com as provocações de Sombart. É escrito no capítulo da sociologia das religiões em Economia e sociedade: “na polêmica contra o engenhoso livro de Sombart não se deveria ter contestado seriamente o fato de que o judaísmo participou intensamente no desenvolvimento do sistema econômico capitalista da Idade Moderna” (2004a: 405). Com efeito, em parcial concordância com Sombart, Weber vê no judaísmo uma forma de racionalização da conduta cotidiana, que, em certa medida, fomenta o “espírito do capitalismo”: a despeito de suas diferenças internas, o fato de que o judaísmo e o protestantismo “não conhecerem nenhuma confissão e dispensa de graça por uma pessoa humana e nenhuma graça sacramental mágica, exerceu historicamente aquela pressão imensamente forte que levou ao desenvolvimento de formas eticamente racionais de vida” (Weber, idem: 376). Sob configurações diferentes, ambas racionalizam a conduta no mundo.No entanto, do ponto de vista de Weber, a racionalização da ética judaica não teria alcançado o grau de asceticismo modernizador de seu herdeiro, o protestantismo:

O sucesso nas atividades aquisitivas passou a ser cada vez mais, para o judeu do gueto, uma prova tangível da graça pessoal de Deus. No entanto, a idéia de “afirmar-se” na “profissão” determinada por Deus não se aplica ao judeu no sentido dado pelo asceticismo intramundano. Pois a bênção de Deus está arraigada, muito menos do que entre os puritanos, num método de vida sistemático, ascético e racional, como a única fonte possível da certitudo salutis. Não apenas, por exemplo, a ética sexual conservou um caráter antiascético e naturalista, e a ética econômica do judaísmo antigo permaneceu fortemente tradicionalista nas relações postuladas, francamente dominada pela valorização da riqueza, alheia a toda ascese, como também toda santificação pelas obras dos judeus tem um fundamento ritualista e, além disso, está freqüentemente combinada com o conteúdo sentimental específico de uma religiosidade baseada na fé (2004a: 339).

Weber alega que fortes elementos tradicionalistas mantiveram-se na moral da religião judaica. Nas relações sexuais, na esfera econômica, no próprio ritualismo sacramental, os judeus não se desvencilharam as amarras da tradição. A ascese dos judeus não foi uma ruptura plena com a magia à maneira do protestantismo, sob a ótica de Economia e sociedade.

O sociólogo não duvida que o judaísmo estimulou determinadas atividades aquisitivas, porém, sustenta que falta à economia dos judeus “uma seção — não por inteiro, mas relativamente e num grau que chama a atenção —, a saber, aquela que é precisamente própria do capitalismo moderno: a organização do trabalho artesanal em indústrias caseiras, manufaturas e fábricas” (Weber, 2004: 406). Segundo o sociólogo, as teorias de Sombart não explicam o motivo pelo qual “não tenha ocorrido a nenhum judeu devoto criar uma indústria com os círculos de trabalhadores judaicos devotos no gueto da mesma maneira como o fizeram tantos empresários puritanos devotos com devotos trabalhadores e artesãos cristãos” (idem: 406). Na seqüência do parágrafo, Weber é categórico: “eles [os judeus] estão quase inteiramente ausentes (em termos relativos) do que é especificamente novo do capitalismo moderno, isto é, a organização racional do trabalho, sobretudo artesanal, em ‘empresas’ industriais” (idem: 406). Isso teria acontecido porque o judaísmo nunca possuiu a realização racional capitalista enquanto a medida de sua salvação. “Há traços ‘ascéticos’ no judaísmo, mas eles não são, em si, o central, mas em parte apenas conseqüências da lei e em parte procedentes da problemática peculiar da piedade judaica; em todo caso, são tão secundários como tudo que o judaísmo possui de mística genuína” (Weber, idem: 410).

A distinção do protestantismo estaria justamente naquilo que carece à moral judaica; de acordo com Weber, para esta última “o que falta é precisamente aquilo que dá ao ‘asceticismo intramundano’ sua característica decisiva: a relação unitária com o ‘mundo’ sob o aspecto da certeza de salvação, da certitudo salutis, sendo esta o centro do qual tudo se alimenta” (2004: 410). Weber reconhece na religião protestante a herança da judaica; mas é um filho que não carrega absolutamente todos os traços do pai. O protestantismo aniquilou tudo de magia que ainda persistia no judaísmo e levou a racionalização incipiente dos judeus a um nível nunca visto. Seria justamente o que existe de “não-judaico” no protestantismo que teria causado o espírito do capitalismo moderno: a conduta cotidiana do exercício profissional que se oriente para o acúmulo racional de bens. Uma eclética mistura das categorias maristas com os conceitos weberianos ficaria assim: a ascese protestante incita a reprodução ampliada do capital.

[...]

---
Fonte:
RANIERI CARLI DE OLIVEIRA: “AS RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA DE MAX WEBER”. (Tese apresentada ao programa de pós-graduação em serviço social na Universidade Federal do Rio de Janeiro para a obtenção parcial do título de doutor em serviço social. Orientação: profº José Paulo Netto). Rio de Janeiro, 2008.

Nota
:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.Disponível digitalmente no site: Domínio Público

Fotos recentes de Aracaju (SE): 2009 - III


Preservando a memória desta que, sem a menor dúvida, é uma das mais belas capitais do Brasil, a maravilhosa Aracaju, capital do pequeno Estado do Sergipe, em fotografias tiradas no ano de 2009...

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia - Praia dos Artistas))

ARACAJU - 2009 (Praia dos Artistas)

ARACAJU - 2009 (Praia dos Artistas)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (mercado público municipal)
---
Fonte:
Arquivo Pessoal: Iba Mendes, 2009.
Nota:
As imagens podem ser reproduzidas e utilizadas livremente, desde que citada a fonte.

O Estado moderno e a burocracia


O Estado moderno e a burocracia

No início do século XX, apesar desse tom elitista e antidemocrático da inteligentsia alemã – sobretudo em relação ao movimento social-democrata – já não eram poucos os intelectuais, como Max Weber, que reconheciam o processo de democratização e industrialização como irreversíveis, pelo menos totalmente. “Foram suficientemente realistas para suspeitar que ao menos alguns aspectos desagradáveis da civilização moderna estavam tão intimamente ligados às necessidades e mesmo às vantagens da mudança socioeconômica que uma condenação indiscriminada era ao mesmo tempo irresponsável e inútil” (Ringer, 2000: 130-1).

A crescente visibilidade das diferenças econômicas entre as classes tornou cada vez mais difícil aceitar que os ideais não-econômicos dos mandarins eram objetivos de toda política social aceitos universalmente. É evidente que nenhum conjunto isolado de programas e metas sociais poderia satisfazer latifundiários, empresários e trabalhadores. O conflito entre os partidos de massa sugeria que as decisões políticas derradeiras deveriam ser tomadas na arena da política eleitoral. (Ringer, 2000: 150)

Reconhecendo a burocratização como um processo universal nas sociedades ocidentais modernas, que marca sua singularidade histórica e que, sobretudo, ocorre simultaneamente ao processo de industrialização, Weber desviou a atenção das desigualdades e contradições econômicas do capitalismo; burocratização e industrialização, para ele, “caracterizam nossa época e o futuro previsível” (Weber, 1993: 51). O próprio desenvolvimento do Estado “regido e administrado segundo um direito burocrático e racional”, do ponto de vista histórico, está “intimamente ligado ao moderno desenvolvimento capitalista” (Weber, 1993: 43). A burocratização do Estado alemão era ainda mais marcante, segundo Weber, devido ao Parlamento não representar verdadeiramente uma instituição onde se tomavam, de fato, as decisões políticas. Suas instâncias não tinham poder de decisão e os problemas eram “meramente debatidos”, tornando-se “simplesmente um órgão decorativo tolerado a contragosto pela burocracia reinante” (Weber, 1993: 39).

Especificamente na Alemanha, a inépcia parlamentar teria sido uma herança da forma como Bismarck conduziu a política, legando uma nação “sem qualquer formação política [...] acostumada a ver o grande estadista, lá do alto, a cuidar da política em seu lugar” e “habituada a deixar as coisas acontecerem de forma fatalista sob a égide do ‘regime monárquico’” (Weber, 1993: 38). A centralização do poder na figura de Bismarck tolheu a possibilidade de surgimento de novas lideranças políticas, deixando o “parlamento sem poder, limitado a fazer oposição por oposição”. Em uma tradição política como essa, não existiriam razões para o desenvolvimento de “cabeças pensantes e íntegras” (Weber, 1993: 38) – Bismarck, pelo contrário, procurou evitá-las sempre que possível. A tendência foi a migração das lideranças da esfera política para a iniciativa privada, onde as possibilidades de realização estavam abertas.

Nesse contexto, o papel dos partidos políticos foi apenas o de desempenhar uma função burocrática com o objetivo de continuamente “angariar votos para seus candidatos em eleições ou em colégios eleitorais” (Weber, 1993: 44). Apesar da renovação dos integrantes ser uma característica fundamental para a dinâmica dos partidos políticos – posto que são instituições criadas a partir da voluntariedade de seus membros e, portanto, de recrutamento livre – não foram poucos os casos

nos quais, dentro dos partidos, jovens talentos com qualidades de liderança simplesmente são “abafados” pelos figurões locais e do partido, da mesma forma como acontece em todas corporações. É natural que isso aconteça num parlamento sem poder, limitado a fazer oposição por oposição. (Weber, 1993: 68)

Entretanto, a burocratização do Estado alemão não encontraria sua causa exclusiva na tradição política de um parlamento débil herdado de Bismarck. Isso apenas marcaria a particularidade do caso alemão – e o agravaria, é claro –, posto que a burocratização é processo muito mais amplo que caracteriza, segundo Weber, toda a modernidade ocidental. “Precisão, rapidez, univocidade, conhecimento da documentação, continuidade, discrição, uniformidade, subordinação rigorosa, diminuição de atritos e custos materiais e pessoais” (Weber, 1999: 212) são exigências, sobretudo, da economia capitalista moderna, mas que também se expandem para a administração pública e para as, organizações partidárias. Assim, a especialização e a escolaridade profissionalizante e racional tornam o processo de burocratização muito mais definitivo e inexorável que em outras épocas e lugares.

[A burocracia] desenvolve sua peculiaridade específica, bem vinda ao capitalismo, com tanto maior perfeição quanto mais se “desumaniza”, vale dizer, quanto mais perfeitamente consegue realizar aquela qualidade específica que é louvada como sua virtude: a eliminação do amor, do ódio e de todos os elementos sentimentais, puramente pessoais e, de modo geral, irracionais, que se subtraem ao cálculo, na execução das tarefas oficiais. (Weber, 1999b: 213)

Uma das marcas impressas pela burocratização no Estado moderno foi a substituição dos critérios honoríficos ou hereditários para o preenchimento de cargos públicos pelos de igualdade de direitos individuais. Foi dessa forma que, com o desenvolvimento do capitalismo e do direito racional, as funções públicas foram passando de títulos honoríficos e hereditários para profissionais especializados. Da mesma forma que o desenvolvimento histórico do capitalismo pode ser observado através da modernização da economia, Weber afirma que o aperfeiçoamento do funcionalismo burocrático estatal poderia ser medido pela sua “estrutura de carreira, seu provento, sua aposentadoria e pensão, sua promoção, seu treinamento especializado, pela divisão funcional do trabalho, pela atribuição de responsabilidades, seu controle documental e sua estrutura hierárquica” (Weber, 1993: 41).

Assim, a especialização e a racionalidade – “inevitáveis progressos do futuro previsível” – seriam as determinações da vida moderna às quais o funcionalismo está diretamente ligado.

Todas as burocracias do mundo estão indo por esse caminho. [...] Nos locais onde o funcionário instruído e moderno se instala, o seu poder torna-se realmente indestrutível, porque, então, toda a organização dos serviços mais elementares está condicionada à sua forma de trabalho. (Weber, 1993: 53)

E, no entanto, o poder político no Estado moderno, longe de estar nos discursos dos parlamentares ou nas mãos dos chefes do executivo, está no “no dia-a-dia da máquina administrativa, está, necessária e inevitavelmente, nas mãos do funcionalismo” (Weber, 1993: 41). Assim também ocorre com a burocratização do partido político e com a racionalização crescente de suas estratégias de campanha eleitoral e do controle de cargos na máquina estatal. Afinal, os processos eleitorais – fonte da legitimidade no Estado moderno – fazem com que os partidos dediquem-se cuidadosamente a um “trabalho mais contínuo e rigoroso para se conseguir votos do que era conhecido no velho sistema de partidos honoríficos” (Weber, 1993: 112). O núcleo permanente e coeso de qualquer partido político, além de integrantes proeminentes (um ou alguns líderes) é composto por um aparato burocrático, financiado por contribuições dos filiados, patrocinadores, empréstimos privados, enfim, por toda sorte de contribuição ligada – geral, mas não necessariamente – à economia privada.

Esse núcleo decide sobre o respectivo programa, a maneira de proceder e sobre os candidatos. Mesmo numa organização partidária muito democrática, terá sempre um corpo de funcionários profissionais e especializados, pelo menos a massa dos eleitores e, numa certa medida também, os simples “filiados” não participam (ou o fazem somente formalmente) da determinação do programa e da escolha dos candidatos. De fato, os eleitores somente participam pelo fato de os candidatos serem escolhidos e o programa ser feito levando-se em conta a necessidade de se ganhar seus votos. (Weber, 1993: 45)

No interior desse “núcleo permanente e coeso”, percebe-se a influência e até a necessidade cada vez maior dos setores burocráticos em contraposição às lideranças propriamente políticas – isso, principalmente, na Alemanha de Weber. [...] na administração de organizações de massa – e é isso que importa realmente – os funcionários de carreira de formação especializada formam o cerne da sua estrutura e a disciplina deles é condição absoluta de seu sucesso [...]. Em todas as organizações, as funções significativas são desempenhadas crescentemente por funcionários assalariados em todos os níveis. Todo o restante é, ou está se tornando, cada vez mais, mera aparência. (Weber, 1993: 50-1)

Em partidos nos quais as “lideranças políticas” se tornam “mera aparência”, estratégias de angariar votos, os Parlamentos, por extensão, tornam-se meros “órgãos representativos de indivíduos governados por meios burocráticos” (Weber, 1993: 59). Por outro lado, a importância do funcionário do partido, “em todos os lugares”, ganha “destaque como elemento importante da tática partidária” (Weber, 1993: 111), de forma que o processo de democratização dos partidos alemães foi acompanhado pela burocratização e pela racionalização. As eleições de massa, dessa forma, promoveram uma “democratização dos meios e das formas organizacionais do embate político” e estruturaram uma nova “prática política” (Weber, 1993: 112) pautada na concorrência.

Paradoxalmente, no entanto, esse mesmo processo de legitimação (as eleições) criou uma condição em que o político profissional – entendido sobretudo em seu aspecto burocrático – não se destacou em relação ao demagogo. Mesmo com o domínio dos meios de comunicação de massa – que tem um peso fundamental no sucesso do político – e com a reunião dos conhecimentos técnicos necessários para fazer funcionar conscientemente o aparato burocrático e estatal, o funcionário não se sobressai ao demagogo na disputa dos votos. E para Weber, o que importa na escolha das lideranças políticas é a concorrência entre elas, “porque toda política, em sua essência, é luta” (Weber, 1993: 117).

São esses argumentos que Weber utiliza para fazer a crítica do parlamentarismo como forma mais adequada de escolha do mais alto mandatário do poder político de uma nação. O líder político, nas democracias modernas, “terá que conquistar a confiança e a fé das próprias massas e, portanto, chegar ao poder através de meios demagógicos de massas” (Weber, 1993: 119). Tal processo de eleição popular direta faria parte das formas cesaristas “puras” de aclamação, uma vez que o poder político se baseia nas massas, e não no parlamento (Weber, 1993: 118). Essas formas de escolha do dirigente político são tipicamente plebiscitárias e representam o predomínio do poder carismático sobre o burocrático e o tradicional.

A crítica dos políticos e do parlamento contrapondo-os à competência, à eficiência e à imparcialidade da burocracia – característica do final do século XIX – foi outra forma de pôr em xeque a democracia. Competência, eficiência e imparcialidade representariam muito bem, segundo Lukács, o “espírito alemão”:

O alemão médio – por mais capaz e inclusive eminente que possa ser em sua especialidade (entendendo por isso também a filosofia, a arte, etc.) – está acostumado a esperar todas as decisões, inclusive as que decidem sobre sua própria existência, de “cima”, das “autoridades competentes” do exército, da política ou da ciência, sem que se lhe ocorra sequer fazer valer nem se pôr a considerar seus próprios pontos de vista como fator chamado a influenciar também na vida política, econômica, etc., de seu país. (Lukács, 1976: 67)

Uma cultura política como essa – de cultivo do espírito burocrático –, em conjunto com aquela série de resquícios feudais e antidemocráticos, deixou o imperialismo alemão “livre de todo controle democrático” (Lukács, 1976: 56). Nem as revoluções de 1848, nem a República de Weimar conseguiram mudar radicalmente essa marca, deixando os agentes populares fora da cena política através de repressão militar ou incorporando-os através da corrente reformista. Disso resultou, segundo o jogo de palavras que Lukács empresta de Marx, uma República sem republicanos, uma democracia sem democratas (Lukács, 1976: 60), das quais as massas populares nada poderiam esperar, indicando aquele mesmo tom de pessimismo em relação à democracia e oferecendo “um pretexto aparentemente claro à lenda de que somente se poderia alcançar a grandeza nacional alemã sobre bases antidemocráticas” (Lukács, 1976: 61). E este desengano trouxe consigo a “esperança de ver surgir, como o salvador, um ‘novo caudilho’” (Lukács, 1976: 67) nos moldes nietzscheanos do pessimismo heróico, que não faz mais que “acentuar a disposição de ânimo a receber e assimilar uma concepção de mundo baseada no desespero” (Lukács, 1976: 68).

Assim, “por mais desesperadora que seja a situação, surgirá – se pensa – um ‘gênio ungido pela divindade’ (um Bismarck, um Guilherme II, um Hitler) que se encarregue, com sua ‘intuição criadora’ de buscar a solução para todos os problemas” (Lukács, 1976: 70). Cohn, no entanto, hesitaria em afirmar a influência nietzscheana em Weber nesse nível utópico do surgimento de um “novo homem”, ou um “super homem”. “Poder-se-ia argumentar”, segundo Cohn, “que pelo menos traços disso existem” na noção weberiana de “carisma”, “o que já me parece um pouco forçado, apesar do inegável ponto em comum que é a preocupação dos dois autores com o problema da criação de novos valores” (Cohn, 1979: 104). Apesar disso, pode-se encontrar, nos exageros de Weber, a definição de política como “um esforço tenaz e enérgico para atravessar grossas vigas de madeira”, e que “o homem capaz de semelhante esforço deve ser um chefe e não apenas um chefe, mas um herói, no mais simples sentido da palavra” (Weber, 1999a: 123). Controvérsias à parte, o que importa é ressaltar o fato de que houve em certa medida uma predisposição da intelectualidade alemã na preferência por grandes líderes em detrimento da política parlamentar e burocrática.

---
Fonte:
MICHAEL DANIEL BOMM: “CARISMA, BUROCRACIA E ESTADO MODERNO: UMA ANÁLISE SOBRE LIDERANÇA POLÍTICA EM WEBER E GRAMSCI”. (Dissertação apresentada à Banca Examinadora como requisito para a obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, Campus de Araraquara. BANCA EXAMINADORA: PROF. DR. MARCO AURÉLIO NOGUEIRA (ORIENTADOR) PROFA. DRA. WALQUIRIA DOMINGUES LEÃO RÊGO PROFA. DRA. GABRIELA NUNES FERREIRA). Araraquara, 2006.

Nota
:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

Fotos recentes de Aracaju (SE): 2009 - II


Preservando a memória desta que, sem a menor dúvida, é uma das mais belas capitais do Brasil, a maravilhosa Aracaju, capital do pequeno Estado do Sergipe, em fotografias tiradas no ano de 2009...

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia, vendo-se aspecto do interior do Oceanário)

---
Fonte:
Arquivo Pessoal: Iba Mendes, 2009.
Nota:
As imagens podem ser reproduzidas e utilizadas livremente, desde que citada a fonte.

O Projeto Humanista da Sociologia Weberiana


O Projeto Humanista da Sociologia Weberiana

Após nos guiarmos, em todo o desenvolvimento anterior, pela caracterização do instrumental que uma teoria crítica necessita para perseguir seu objetivo de favorecer práticas emancipatórias – mas já nos fazendo adentrar, como visto, em diversos temas substantivos –, passaremos agora a nos preocupar mais especificamente em interpretar Marx e Weber a partir dos esforços nesse sentido encontrados em Habermas e especialmente na Teoria da Ação Comunicativa. Esperamos com isso oferecer uma apropriação mais fértil quanto aos temas explorados por esses autores e, afinal, quanto ao valor destes temas para uma contemporânea ancoragem sociológica da dialética da reificação e da emancipação.

Em um momento intermediário, nos desviaremos para uma apresentação da obra de Habermas no contexto mais amplo da disciplina sociológica, com o fito de determinar previamente as correntes de reflexão teórica (novo movimento teórico e teoria crítica) nas quais se insere o acolhimento pelo mesmo do pensamento de ambos os autores. Por ora, destinaremos algumas linhas para já fixar algumas das vantagens de se inserir Weber na composição hodierna da teoria crítica.

Consideremos, inicialmente, o fato de que a sociologia clássica da modernidade deixou uma marca importante no campo das ciências sociais, o que é por Habermas reconhecido e colocado em destaque. Se acreditamos que os ímpetos elementares da sociologia crítica são, inseparavelmente, o pathos da emancipação e a vocação sóbria de decifrar objetivamente o moderno, ou seja, a preocupação humanista com a autodeterminação e o exame científico da sociedade burguesa, isto se deve principalmente às pesquisas exemplares e às construções teóricas que Marx e Weber legaram à tradição da disciplina. Qual o significado da modernidade, qual o conteúdo normativo de suas promessas, que tipo de crítica pode a ela ser dirigida, como se deve lidar com sua herança – os dois autores formularam essas perguntas de um modo que até hoje não perdeu a validade, e que as torna tão úteis para a pesquisa e para a orientação da práxis quanto o foram em sua época. Com efeito, tais questões permanecem no centro de qualquer programa de “Teoria Crítica da Sociedade”, e Habermas, por seu lado, propõe respondê-las traduzindo em uma teoria comunicativa os temas clássicos de Marx e Weber.

Com relação a Marx, diz o autor: “Uma teoria da modernização capitalista que se valha dos meios de uma teoria da ação comunicativa se atém [...] integralmente ao modelo de Marx” (Habermas, 1999b, p. 529). Como esperamos já ter deixado bastante claro, a perspectiva marxiana de fazer ciência e de pautar a pesquisa pela objetividade não permite que se exclua em nenhum momento de sua obra o escopo da emancipação. Já no pensamento weberiano, como queremos repisar, algumas dificuldades aparecem.

É verdade que em Weber predomina o pathos simmeliano do desespero, e seu “projeto humanista” de uma sociologia compreensiva que favorece a ética da responsabilidade – proposta como a forma de as elites políticas de um regime parlamentar integrarem em sua ação as racionalidades formal e substantiva (e fonte de um “paradoxal” reforço da tese habermasiana de uma aproximação entre Weber e a ética dialógica) – fica obstruído devido a essa tendência fatalista que, ao fim e ao cabo, “exclui a possibilidade mesma da ruptura da reificação”. (Vandenberghe, 1997, p. 207, v. também pp. 161, 165 e 201)

Por outro lado, há uma especificação dos conceitos de reificação e alienação em Marx e em Weber que merece ser feita antes que possamos continuar. São, de fato, noções “freqüentemente associadas, e mesmo confundidas”. Em Marx a alienação tem o significado de perda de liberdade ou de reificação, mas para Weber essa perda de liberdade – cujo sentido de “redução de um conceito multidimensional da ação ao conceito unidimensional de ação estratégica” imprime maior refinamento científico-social ao achado de Marx – se distingue da alienação, que agora significa perda de sentido ou desencantamento do mundo. (Vandenberghe, 1997, pp. 21, 167-9, 173).

Isto posto, há um aspecto em que podemos discordar do comentador, mobilizando seus próprios argumentos. Pode até mesmo ser que “a tese da perda de sentido não [deva] ser interpretada nos termos do pessimismo cultural” de um Horkheimer, mas, na medida em que se perfaz a dialética de “reencantamento, desencantamento e desumanização do mundo” – ou em que as imagens de mundo caem por terra diante do politeísmo dos valores e levam consigo não só o nexo entre interesses e idéias (ou entre interesses e valores) como, com isso, a possibilidade de um questionamento prático da ação unidimensional –, torna-se difícil tirar de vista a convergência entre perda de sentido e perda de liberdade e não recair em algum tipo de pessimismo fatalista. Em outras palavras, não há como afirmar que “aquilo que nós perdemos em certeza moral [com a perda de sentido reflexivo], nós o ganhamos, segundo Weber, em liberdade e responsabilidade pessoais” se a irreversível institucionalização da racionalidade formal (perda de liberdade) desloca para o passado a referência a valores (perda de sentido como impeditiva da intervenção prática que poderia reverter a perda de liberdade). (Vandenberghe, 1997, pp. 170, 196)

Certamente, este é um aspecto contraditório da própria obra de Weber. De todo modo, a perda de sentido reflexivo só seria suportável se não convergisse com a perda de liberdade, se não fossem, estas, duas “tendências que se interpenetram e reforçam mutuamente” (Habermas, 1999b, p. 464). Habermas, ao assimilar esses conceitos de Weber respectivamente ao “empobrecimento cultural” e à “reificação induzida sistemicamente”, destaca que os dois processos, de distintas causas e remédios, levam conjuntamente a uma prática cotidiana mutilada em sua dimensão simbólica – a um mundo da vida “desertificado” (a racionalidade especializada da alta cultura se retrai diante das tradições moribundas que vagam pela hermenêutica cotidiana) e “atrofiado” (colonização ou invasão de imperativos sistêmicos sobre os núcleos sociais da racionalidade comunicativa, com alastramento de “uma realidade vazia de conteúdo normativo”).

Por fim, podemos destacar a maneira específica, já mencionada, como Habermas atualiza o “materialismo interdisciplinar” formulado pela Escola de Frankfurt nos anos 1930 (v., por exemplo, Honneth, 1999). Para o autor, a teoria social pode abandonar a idéia de que os “conteúdos normativos” enraizados na cultura moderna só poderiam ser apreendidos depois de submetidos à crítica das ideologias – conceito frágil se desatrelado da filosofia da história, a qual garantia subterraneamente o estatuto não-ideológico dos conteúdos normativos de partida –, confiando em que, “com o conceito de razão comunicativa, de uma razão imanente ao uso da linguagem quando este uso se endereça ao entendimento”, uma filosofia que se proponha a “realizar o trabalho preliminar para uma teoria da racionalidade” pode retomar à luz do dia as “relações de cooperação” com a teoria crítica (Habermas, 1999b, p. 563).

Dessa maneira, temos a reflexão filosófica operando em conjunto com a teoria crítica para formular uma reconstrução abstrata da lógica de reprodução imanente aos níveis comunicativos da realidade social. Ao que poderíamos acrescentar a contabilização, nesse esforço, dos aportes empíricos da pesquisa científico-social – pois a teoria crítica, como qualquer teoria social, é apenas uma lente que define o foco da ciência social e de suas ramificações (Habermas, 1999b, p. 542) – sobre as condições reais de desenvolvimento da referida lógica. Cumpre observar que essa combinação entre pesquisa empírica e orientação filosófica oferece, nas fronteiras que o pensamento crítico for capaz de abrir entre o nível teórico e o das decisões práticas do cotidiano, a possibilidade de uma tomada de posição mais condizente com uma ética da responsabilidade (exatamente como na Ciência como Vocação de Weber) que, na era da modernização reflexiva e da sociedade de riscos, deixa de se aplicar apenas às elites do poder político e se torna imputável não só aos especialistas em geral – atribuindo um sentido mais radical à “integridade intelectual” de que falava Weber –, como para todo indivíduo, cujas escolhas mais corriqueiras da esfera privada estão impregnadas de conseqüências produtoras de riscos.

---
Fonte:
MAXIMILIANO VIEIRA FRANCO DE GODOY: “EMANCIPAÇÃO E RACIONALIZAÇÃO: SOCIOLOGIA CRÍTICA EM MARX, WEBER E NA “TEORIA DA AÇÃO COMUNICATIVA” DE HABERMAS”. (Dissertação apresentada ao Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Sociologia. Orientador: Prof. Dr. Luiz Jorge Werneck Vianna). Rio de Janeiro, 2007.

Nota
:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

Fotos recentes de Aracaju (SE): 2009


Preservando a memória desta que, sem a menor dúvida, é uma das mais belas capitais do Brasil, a maravilhosa Aracaju, capital do pequeno Estado do Sergipe, em fotografias tiradas no ano de 2009...

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (Orla de Atalaia)

ARACAJU - 2009 (mercado público)

---
Fonte:
Arquivo Pessoal: Iba Mendes, 2009.
Nota:
As imagens podem ser reproduzidas e utilizadas livremente, desde que citada a fonte.

Alberto Caeiro e Álvaro de Campos



Alberto Caeiro e Álvaro de Campos

Nos poemas “XVIII” d’O Guardador de Rebanhos, do heterônimo Alberto Caeiro e “Datilografia”, do heterônimo Álvaro de Campos, percebemos o desejo de inconsciência através do querer ser outro, do querer ser o que se não é, do anseio pelo estado de inconsciência de seres inanimados, do aspirar à inocente existência inconsciente de viventes alheados e distraídos, do expressar nostalgia do espaço edênico interditado, demonstrando melancolia em ansiar pelo perdido espaço-tempo da criança inocente e despreocupada, do desejar aflitivo por um estado gozoso e inconsciente da vida, por um estado de anestesia e de passagem incólume pela dor do mundo e da vida que seria trazida à instância íntima do sujeito melancólico pela experiência racional e o pensamento reflexivo.

Alberto Caeiro foi concebido por Fernando Pessoa para ser um “poeta bucólico de espécie complicada”, pretensamente avesso à reflexão racional, ao pensamento reflexivo que pudesse falsear a percepção exclusivamente sensorial da Natureza.

Os poemas de Alberto Caeiro estão distribuídos em três livros O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos. Segundo as considerações de Cleonice Berardinelli (2004), no ensaio “Recuperando um olhar sobre Pessoa” e no ensaio “Vogando em águas pessoanas”, poderíamos encontrar um Alberto Caeiro em três momentos ou faces: “a ortodoxa, de ‘O Guardador de Rebanhos’, a heterodoxa, de ‘O Pastor Amoroso’, e a terceira, pendendo para uma e outra, a dos ‘Poemas Inconjuntos’. À heterodoxa se devem agrupar, também, os poemas XVI a XIX de ‘O Guardador’” (BERARDINELLI, 2004, p.252)17. Desse modo, O poema “XVIII” compõe a face “heterodoxa” de Caeiro:

XVIII
QUEM ME DERA que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
(O.P. p. 215)

Em destaque, no primeiro verso, o sujeito poético apresenta um drama essencial, pressentido na produção poética do heterônimo Alberto Caeiro e apontado por ele como doença: o querer ser o que o sujeito poético não é, o desejo de transmigração para outras experiências de ser e de existir no mundo, o anseio pelo estado de inconsciência em que existem os seres animais e inanimados indicados nos primeiros versos dos dísticos desse poema.

O poema “XVIII” faz parte de um grupo de quatro poemas que foram anunciados, pelo heterônimo Alberto Caeiro, em um poema que os antecedeu e justificou, como sendo a produção natural de estado melancólico de um sujeito poético intimamente doente “As quatro canções que seguem/[...] Escrevi-as estando doente” (O.P. p. 214).

O desejo patente do sujeito poético de ser o que ele não é ficou ressaltado pela expressão volitiva “Quem me dera que eu fosse”, cujo modo subjuntivo pode indicar que o sujeito poético possui dolorosa consciência de que seu querer ser outro seria irrealizável. O desejo de ser o que não é e a angústia consciente da impossibilidade de seu existir em outras formas inconscientes na natureza surgem reiterados em quatro das cinco estrofes do poema e adicionam um novo traço doloroso ao estado melancólico do sujeito a cada repetição daquela expressão volitiva. No primeiro verso do poema “XVI”, que forma o grupo de poemas anunciados como produto do estado combalido de Caeiro doente, o sujeito poético de Alberto Caeiro expressou semelhante constatação melancólica no uso da expressão volitiva “Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois”.

Notemos que o sujeito poético de Alberto Caeiro dos poemas “XVI” e “XVIII” completou a expressão de sua volição com seres geralmente inanimados e irracionais, simples cenário do mundo ou da natureza, “um carro de bois”, “o pó da estrada”, “os rios que correm”, “os choupos à margem do rio”, “o burro do moleiro”. Esse íntimo desejo de vivenciar animicamente outras experiências de ser e de existir no mundo parece estar relacionado com uma outra aspiração, realizada por Fernando Pessoa na concepção do processo heteronímico, presente desde a infância (com a criação do Chevalier de Pas), de outrar-se em diferentes personalidades poéticas. Em tudo, o querer ser outro, diferente do que se é, aproxima-se de uma espécie de rejeição ôntica radical que, como desejo de inconsciência, não sendo o que se é, parece beirar à alienação, tentativa de fuga à dor do mundo, anestesia para a dor do pensar.

Alberto Caeiro, “mestre” de Fernando Pessoa - ortônimo e de todos os outros heterônimos pessoanos apresentados em Ficções do Interlúdio, por vários versos, insistente, afirmou não sofrer esta dor do pensar, ou dor do mundo, e com a exceção do momento da doença, não apresentou a rejeição ôntica radical ou o desejo de outrar-se no simples sentido de querer ser o que se não é. Excetuando-se esses poemas do desequilíbrio doentio de Caeiro, o restante de sua produção poética dissimulou os seus momentos de angústia, através da entrega completa e da sintonia do sujeito poético com a Natureza, pois em Caeiro sadio Natureza e homem não discrepam e compõem um cenário exemplar de fruição natural.

Além do desejo de querer ser o que não é, no poema “XVIII”, Caeiro, nomeadamente, revelou que queria ser os elementos da natureza, sendo os três primeiros inanimados e o quarto e último animado, mas irracional. Esse desejo de inconsciência, manifestado através do querer metamorfosear-se em elementos destituídos de racionalidade, parece demonstrar a intenção de Caeiro de passar pela vida sem perceber ser o que é, passar sem ser tatuado por ela, inconsciente de ter passado, de ter presente, ou de ter porvir - sem a historicidade da memória humana, demonstrou a intenção de não deixar marca alguma nos seres que com ele conviveriam em relação necessária e natural.

É desse modo que o sujeito poético de Alberto Caeiro do poema “XVIII” nos apresentou os dois versos finais que se diferenciam dos anteriores quanto à repetição do desejo de ser o que se não é. Nessa última estrofe, o sujeito poético expressou, de maneira amarga e ressentida, o que ele é e não gostaria de ser, ou seja, aquele que tem racionalidade e analisa com pesar toda a sua trajetória existencial.

Fernando Pessoa também concebeu Álvaro de Campos, um poeta futurista citadino, um homem do século XX, das fábricas, da energia elétrica, das máquinas, da velocidade. Dos vários heterônimos talvez seja aquele que apresentou mais claramente fases distintas, que na proposição de Jacinto do Prado Coelho (1969, p. 60) seriam três: - a do “Opiário” (data fictícia 03/1914); - a do futurismo whitmaniano na “Ode Triunfal” (06/1914); - a pessoal, na qual já não se perceberia claramente nenhuma influência, que começaria em “Casa branca nau preta” (11/10/1916) e iria até a morte de Fernando Pessoa. Nessa última fase, Campos viria a ser o poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado. Passando a ser o poeta do abatimento, da abulia, da atonia, da aridez interior, do descontentamento de si e dos outros. Esse momento da curva desenvolvida por sua poesia demonstrou que sua inicial aderência ao mundo moderno, o seu pretenso dinamismo e vigor do primeiro momento da produção de seus poemas poderiam ser narcótico para afogar o tédio. O poema “Datilografia” de 19/12/1933 pertenceria, portanto, a esta última fase proposta por Jacinto do Prado Coelho (1969).

DATILOGRAFIA
Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verde.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique taque estalado das máquinas de escrever.
(O.P. p.389)

O sujeito poético de Álvaro de Campos do poema “Datilografia” está rodeado dos objetos que lhe caracterizam espaço e ofício da vida adulta e consciente. O sujeito está apartado, distante do mundo externo ao seu escritório, profundamente mergulhado em seus afazeres de engenheiro. No entanto, essa vida de ocupação adulta e consciente não lhe basta para companhia, ressalta sua solidão, o sujeito poético expressa um estado de angústia íntima que produziu as melancólicas reflexões sobre o paradisíaco espaço-tempo da infância.

Pelo ruído da máquina de escrever, o sujeito foi levado a pensar sobre dois planos diferentes daquele do cubículo que os contém como enfadonho invólucro, mas não os comporta plenamente. Esses dois planos são: o da vida feliz de outrora, da infância inconsciente e o da angustiosa vida prática, da utilidade, do enfadonho. Dois planos que foram comentados alternada e pendularmente no decorrer do poema.

Se em poemas de um momento anterior ao desse poema de Álvaro de Campos a máquina absorvia, aguçava e extasiava todos os sentidos do sujeito poético e era exemplo máximo da modernidade muitíssimo louvada por ele, nesse último momento de sua produção poética, a máquina apareceu como estorvo “banalmente sinistro” que impede, como âncora, a decolada do sujeito para o mundo idílico do passado infantil, mundo tão desejado por este heterônimo. A tentativa de decolagem para o mundo idílico da infância perdida é também observada no poema “Aniversário” de Álvaro de Campos:

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
[...]
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
[...]
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
[...]
(O.P. p. 379).

Essa busca da mítica infância perdida é a que coloca Campos mais próximo da temática seguida neste trabalho. Nessa busca empreendida por Álvaro de Campos, o desejo de inconsciência pode ser percebido através da aspiração de regresso ao íntegro paraíso ingênuo da infância, quando ser inconsciente é uma “grande saúde”.

Em “Datilografia”, os dois planos discutidos por Campos são relacionados um à vida falsa e o outro à vida verdadeira. Temos a oposição entre vida falsa, que é a vivida, e a do sonho; oposiçao entre a vida-angústia consciente do presente, a aflita vida prática e do enfado doloroso, e a do passado de ingenuidade, de inocência infantil. Essa é uma oposição que aproxima este heterônimo ao Fernando Pessoa - ortônimo do poema “Tenho tanto sentimento”, de 18/09/1933:

[...]
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
(O.P. p. 172)

Nesse poema, o sujeito poético de Fernando Pessoa - ortônimo apresentou semelhante dicotomia entre vida verdadeira e falsa. Na primeira estrofe do trecho destacado, a oposição foi apresentada entre a vida vivida e a vida pensada (sinônimo de desejada) e, na última estrofe, o sujeito poético levanta um questionamento sobre qual seria a vida verdadeira e a errada, dizendo que a vida que levamos é a que nos obriga a pensar.

Os três versos finais da segunda estrofe do poema “Tenho tanto sentimento”, nos quais foi apresentada a vida “[...] E a única que temos/ É essa que é dividida/ Entre a verdadeira e a errada”, são versos que lembram o cubículo isolado do engenheiro no poema “Datilografia”, como espaço onde o sujeito poético estaria numa posição limítrofe, intersecção entre o plano da vida falsa e a verdadeira.

No poema “Datilografia”, tomamos o cubículo como fronteira entre o estar remoto até do próprio ser e o ruído da vida banal e útil, representado pelo tique-taque da máquina de escrever. Ruído este que irá intervalar todo o corpo do poema, apresentando, de início, a náusea à regularidade enfadonha da vida. O sujeito poético busca a fuga ao ruído no “Outrora”, no ser outro do passado, da infância das ilustrações que surgem como grandes paisagens explícitas e opulentas de natureza, de castelos e cavaleiros e de cores. Nesse contexto, “Outrora” surge na página como afirmação de algo no passado, contudo, impossibilitado no presente de continuar servindo de ponto de fuga para o sujeito poético em seus devaneios, pelos versos “Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,/ O tique-taque estalado das máquinas de escrever”. Novamente, o “acompanhamento banalmente sinistro” foi fronteira entre a vida verdadeira carregada de anseios infantis e sonhos, que a inocência ou a inconsciência infantil torna realizáveis, e a vida de reflexão e pensamento discursivo que analisa e segmenta a vida “Temos todos duas vidas”.

O sujeito poético, embalado pelo ruído ritmado e constante do tique-taque da máquina de escrever, que pode ser facilmente associado ao tique-taque de um relógio, ao passar das horas que alertam para o esvair do tempo, quando teríamos, no máximo, um substrato das grandes paisagens explícitas e opulentas de natureza, de fantasias e de cores da infância perdida, pusera-se a avaliar o que seria verdadeiro e o que seria falso no existir, em uma estrofe de seis versos em que o primeiro é uma afirmação “Temos todos duas vidas”, e os cinco seguintes tratam dois do onírico como verdadeiro, e os três restantes do pragmático como falso.

Na penúltima estrofe de oito versos desse poema, o sujeito parece que tenta se entregar, mesmo que ainda esteja em processo de reflexão, ao devaneio fantástico da vida plena na infância. No penúltimo verso da estrofe, porém, o sujeito poético interrompeu a decolagem para o mundo onírico e retomou as suas reflexões sobre a vida falsa, afirmando que nesta, viver quer dizer morrer.

O desejo de inconsciência foi revelado pelo sujeito poético de Álvaro de Campos, no último verso dessa penúltima estrofe, através da derradeira esperança de viver, pela náusea, no mundo da inocência infantil, mas as reticências, que findam o verso, antecipam a sobreposição absoluta do som estalado e opressivo da máquina de escrever /relógio, fazendo a realidade invadir, sufocar completamente o momento de fugacidade do sujeito poético, introduzindo, em ritmo crescente, o tique-taque como se fosse um cortejo fúnebre.

“Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, / Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever”, nesses versos que ressurgem na última estrofe, pela terceira vez no poema, de maneira amplificada pela conjunção adversativa “mas”, pelo uso do verbo “erguer” e o vocábulo “voz” contíguo, que atribui personalidade e voz ao tique-taque, o sujeito procurou ressaltar ainda mais o seu aborrecimento pela interrupção da decolagem, tornando-a definitiva, pois essa voz amplificada ecoa infinitamente na vida falsa, na vida das aflições íntimas conscientes.

Em Alberto Caeiro
doente, observamos o desejo de inconsciência através do querer ser o que não é, do querer refugiar-se, metamorfosear-se no inanimado e no ingênuo destituído de reflexão, como a tônica temática do poema “XVIII” apresentado acima. Em Álvaro de Campos do poema “Datilografia”, percebemos o desejo de inconsciência através do querer ser o outro da infância, do querer ser o inconsciente sonhador infantil, do querer ser o que o poeta foi e já não é.

Em Alberto Caeiro
doente visto no poema “XVIII”, temos o desejo de inconsciência pela aniquilação do ser humano nas instâncias íntimas e essenciais que o definem, pelo querer ser o pó que existe sob os pés dos pobres, o rio ao lado das lavadeiras, ou mesmo o burro estimado pelo moleiro. Nesse querer a rejeição ôntica radical do desejo de inconsciência, Alberto Caeiro só estabeleceu relações de completa inconsciência e de afeto na relação moleiro-burro, mas não razão. Lembremos de como Alberto Caeiro apresenta o seu estado de doença no poema “XV” e que lhe deu maior naturalidade humana e como ente poético autônomo:

As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo que eu sinto,
São do contrário do que sou...

Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais [...]
(O.P. p. 214)

Este poema anunciou os quatro outros, um dos quais é o “XVIII”, que o sujeito poético produz influenciado pela noese ou pela dianoética da Natureza, do mundo e do homem. Ele se anunciou como doente, porque não admite geralmente que o pensamento interfira e falseie a Natureza. Seu estado de consciência racional e discursiva desestabilizou seu ser, tornando-o adoentado, mas, semelhantemente ao seu estado de homem apaixonado nos poemas de O Pastor Amoroso, conferiu-lhe maior naturalidade humana e como ente poético autônomo.

Alberto Caeiro é considerado o mestre dos outros heterônimos e de Fernando Pessoa - ortônimo porque propusera e foi o que mais se aproximou, exceto nos seus coerentes momentos de doença, da completa execução de sua proposição de suspensão do pensamento que deforma, põe na “fôrma”, classifica e falseia a Natureza. Em seus poemas Caeiro demonstrou abdicar do pensamento em favor do sentir completamente sinestésico, anoético. De modo anti-cartesiano, ser é, para Caeiro, sinônimo de existir, e existir é o domínio do ser, da inconsciência; o pensar é o domínio do não ser, do parecer, da opinião, da falsidade, da dor. Assim, para Caeiro, existir é não pensar, é ser inconsciência, é ser inocência. À abdicação do pensamento expressa por Caeiro parece combinar com o Sófocles do trecho: “Como é bom viver, entretanto, sem sabedoria, visto que é o veneno da vida” (SÓFOCLES, apud ROTTERDAM, 2003, p.28).

Aproximados os poemas “XVIII”, de Alberto Caeiro, e “Datilografia”, de Álvaro de Campos, percebemos que há o desejo de inconsciência através do querer ser o inocente da infância “quando fui verdadeiro ao meu sonho”, e através do querer ser o que não é: ser de existência inconsciente, inanimado, irracional ou inocente.

O desejo de inconsciência também se revelou em alguns outros de poemas de Fernando Pessoa através do elogio ao ser que, em qualquer idade, seria inocência, seria inconsciência, o inconsciente tresloucado: “Sem a loucura que é o homem/ mais que besta sadia” (O.P. p. 76) e “Só quem puder obter a estupidez/ Ou a loucura pode ser feliz. [...] Nunca aos loucos o engano se desfez” (O.P. p. 104). Semelhantemente ao que podemos depreender de Erasmo de Rotterdam (2003), os poetas, guiados pelas lições e experiências do mundo adentraram na infeliz carreira da sabedoria e passaram pela vida invejando os dons da loucura: embriaguez, alienação, inconsciência infantil, misoponia, irreflexão, sono profundo. Conforme disse a personagem Loucura da obra O Elogio da Loucura: “Conseqüentemente, por graça de minha bondade, torna-se o velho criança, devendo-me a libertação de todas as aborrecidas aflições que atormentam o sábio.” (ROTTERDAM, 2003 p. 30).

---
Fonte:
Hélio Valdeci Rodrigues : “O desejo de inconsciência em poemas de Fernando Pessoa – ortônimo e heterônimos Alberto Caeiro e Álvaro de Campos”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Profª Drª Maria Helena Nery Garcez). São Paulo, 2009.

Nota
:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público