Evolução e imaginação

Até que ponto a paixão exagerada por uma causa não é decisiva na obtenção de “provas” que a confirme como verdadeira? Especificamente no âmbito das pesquisas paleontológicas, até que ponto a obsessão pela causa da evolução não é preponderante para se chegar a um resultado favorável ao termo de uma dada pesquisa?

Não me refiro à manipulação intencional dos dados, embora isso também possa ocorrer, mas sim a um esforço orientado emocionalmente para um determinado propósito. Os antigos craniometristas, por exemplo, acreditavam de tal maneira que os europeus tinham um cérebro maior e mais sofisticado do que os negros e os índios, que ao fim de suas investigações acabavam por encontrar as “provas” de que tanto necessitavam para atestar suas “verdades”.

Isso me veio à mente ao ler o livro “A Origem da Espécie Humana”, do prestigiado Richard Leakey. Lá pelas tantas, ao fazer menção do sítio 50, o autor tenta recriar a partir de indícios arqueológicos o modo de vida do chamado Homo erectus, há 1, 5 milhões de anos. A forma como Leakey fantasia a rotina diária deses misteriosos seres, remete-nos de algum modo ao maravilhoso mundo dos mitos, das lendas, das fábulas e dos contos populares. Se não, vejamos:

“Embora nunca possamos ter certeza de como era a vida diária nos primeiros tempos do Homo erectus, podemos utilizar o rico indício arqueológico do sítio 50, e nossa imaginação, para recriar tal cenário, há 1,5 milhão de anos:

Uma corrente sazonal segue seu leito gentilmente através da planície aluvial no lado leste do gigantesco lago. Acácias altas alinham-se ao longo das margens da corrente sinuosa, projetando sombras bem-vindas que protegem do sol tropical. Na maior parte do ano o leito da corrente permanece seco, mas chuvas recentes nas colinas ao norte estão abrindo seu caminho em direção ao lago, fazendo a corrente aumentar de volume lentamente. Por umas poucas semanas, a planície aluvial tem estado flamejante por causa das cores, com ervas florescentes formando manchas amarelas e roxas contra a terra alaranjada e baixos arbustos de acácia parecendo nuvens revoltas. A estação chuvosa é iminente.

Aqui, em uma curva da corrente, vemos um pequeno agrupamento humano, cinco fêmeas adultas e um aglomerado de crianças e jovens. Eles são de estatura atlética e fortes. Estão conversando alto, alguns deles trocam observações sociais óbvias, alguns discutem os planos para o dia. Mais cedo, antes do nascer do Sol, quatro machos adultos do grupo haviam partido em busca de carne. O papel das fêmeas é coletar alimentos vegetais, que todos percebem ser o principal produto econômico em suas vidas. Os machos caçam, as fêmeas coletam; é um sistema que funciona espetacularmente bem para o nosso grupo e por tanto tempo quanto qualquer um é capaz de lembrar-se.

Três das fêmeas agora estão prontas para partir nuas exceto por uma pele de animal jogada sobre os ombros que tem o papel dual de servir para transportar o bebê, e mais tarde para transportar o alimento. Elas levam consigo bastões curtos e pontiagudos, que uma das fêmeas preparara antes usando lascas de pedra afiadas para aparar galhos fortes...

Para trás junto à corrente, as duas fêmeas restantes repousam tranqüilamente sobre a areia macia sob uma acácia alta, observando os trejeitos de três jovens. Muito velhos para serem carregados na pele de animal, muito jovens para caçar ou coletar, estes fazem o que todos os jovens fazem: eles fazem brincadeiras que prenunciam sua vida adulta...

Obter lascas afiadas é mais difícil do que parece, e a habilidade é ensinada principalmente por meio do exemplo, e não pela instrução verbal. A garota tenta novamente, desta vez sua ação é sutil-mente diferente. Uma lasca afiada destaca-se do seixo, e a garota deixa escapar um grito de triunfo. Ela apodera-se da lasca, mostra- a para a mulher sorridente e então corre para exibi-la aos seus colegas defolguedos. Eles prosseguem juntos com a brincadeira, armados agora de um implemento da maturidade. Eles encontram um pau, que a aprendiz de britadeira desbasta até obter uma ponta aguçada, e então eles formam sm grupo de caça, em busca de um peixe para matá-lo com a lança...

Em breve, o som distante de vozes que se aproximam avisa às mulheres que os homens estão retornando. E, a julgar pelo tom de excitação na conversação destes, eles estão retornando após terem sido bem-sucedidos. Na maior parte do dia os homens estiveram silenciosamente tocaiando um pequeno rebanho de antílopes, observando que um dos animais parecia coxear ligeiramente. Repetidamente, este indivíduo era deixado para trás pelo rebanho e tinha que fazer tremendos esforços para juntar-se a ele...

Finalmente, uma oportunidade apresentou-se e, sem dizer uma palavra, de comum acordo, os três homens moveram-se para posições estratégicas. Um deles atirou uma pedra com força e precisão, obtendo um impacto estonteante; os outros dois correram para imobilizar a presa. Uma estocada rápida com um pau curto e pontiagudo fez correr uma torrente de sangue da jugular do animal. O animel Jutou mas em pouco tempo estava morto...

Mais tarde, naquela noite, há quase um sentido de ritual no consumo da carne. O homem que conduziu o grupo de caça corta os pedaços e os entrega para as mulheres que sentam em torno dele e para os outros homens. As mulheres dão pedaços para as suas crianças, que os trocam alegremente entre si. Os homens oferecem pedaços para seus colegas, que oferecem outros pedaços em troca. O ato de comer carne é mais do que o sustento; é uma atividade de comunhão social.

A excitação do triunfo na caça agora evanesce, os homens e mulheres trocam relatos de seus dias separados. Há uma compreensão de que eles em breve terão que deixar este acampamento agradável, pois as chuvas crescentes nas montanhas distantes em breve farão com que a corrente inunde suas margens. Por agora, eles estão contentes....


É isso!

Fonte:
Richard Leakey: "A Origem da Espécie Humana". Tradução: Alexandre Tort. Rio De Janeiro, 1997, p. 79-82.

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