Os evangélicos e a ditadura do golpe de 1964

“O relacionamento dos evangélicos com a ditadura militar não pode ser descrito, simplesmente, pelo alinhamento e adesão, embora no conjunto tenham predominado estas posturas. Como a categoria evangélico abriga diferentes tradições, esta pluralidade também se manifestou na interface com o regime. Houve opositores conscientes, principalmente a minoria ligada ao movimento ecumênico e aos debates teológicos inspirados no pensamento europeu do após-guerra, bem como na teologia latino-americana, cuja vertente mais conhecida era a teologia da libertação. Não obstante, prevaleceu a influência poderosa da ideologia conservadora- fundamentalista e anticomunista, conforme descreveu Lyndon Santos:

As igrejas evangélicas passaram a receber um tipo de pregação mais conservador e fundamentalista, oriundo das altas lideranças que apoiavam o regime. O ambiente eclesiástico reproduziu o que a sociedade vivia sob símbolos e discursos religiosos. Os evangélicos tornaram-se mais intolerantes com relação às diferenças, contradizendo sua herança de tolerância. Ser evangélico era possuir uma ética pessoal exemplar, estar preocupado com o comportamento e com a transmissão da experiência religiosa para os “perdidos”.

A “herança de tolerância” a que se refere Santos sempre esteve mais na idealização do que na realidade das denominações. As igrejas, que já antes não formavam cidadãos para os movimentos sociais, embora nos anos 60 houvesse discursos de incentivo ao engajamento em partidos e sindicatos, criaram um tipo de militância religiosa interna, a fim de prender os fiéis ao sagrado, reduzindo ao mínimo suas incursões no mundo social. Neste mesmo ambiente interno, tradições eclesiais de democracia formal eram mantidas: democracia direta, no caso das igrejas de organização congregacional, e indireta, nas igrejas governadas por presbitérios e similares. Estas práticas serviram, ainda que timidamente, para a capacitação política de evangélicos que se lançaram na vida pública, antes, durante e após o regime militar.

Santos sintetiza, simbolicamente, em três espaços, a trajetória política dos evangélicos, durante o regime militar: púlpito, praça e palanque. Do púlpito se afirmava, nos anos 70, que “crente deve votar no governo” e “crente não se mete em política”. A ênfase estava colocada na obediência às autoridades, conforme Romanos 13, e na frase de Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21), com a intenção de separar as esferas do político e do religioso. Para Santos: “Se quisermos encontrar alguns dos principais porta- vozes do regime militar no espaço e no tempo cotidianos do período pós-64, busquemos os milhares de pregadores dominicais”.E mais: “Não somente as prédicas noturnas, mas o ensino regular e sistematizado nas escolas dominicais e nos seminários teológicos, onde se formavam lideranças eclesiásticas, foi um dos instrumentos de reprodução de valores e idéias do regime”. O bipartidarismo imposto pelos militares calhava bem na mentalidade maniqueísta da maioria evangélica. Era fácil demonizar a oposição, agrupada no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), e associar a prática da vontade divina aos que se organizavam na Arena (Aliança Renovadora Nacional), braço do governo militar.

Os evangélicos podiam ocupar a praça com desenvoltura, a fim de fazerem proselitismo, porque seus discursos religiosos favoreciam ao regime, mesmo quando não era esta a intenção. O uso de alto-falantes e a entrada em cena de novas emissoras de rádio-difusão, com espaços de programação para igrejas evangélicas, marcaram o período. Em décadas seguintes, com a pentecostalização de parte do protestantismo e o surgimento do neopentecostalismo, ocorreu o avanço para a mídia televisiva. Este era um caminho de evolução previsível. O uso destes meios poderosos de propaganda da fé contribuiu para a popularização de líderes evangélicos, facilitando o ingresso de alguns deles no campo político-eleitoral.

A presença no palanque resultou em representação no Congresso. Entre 1950 e 1964, foram eleitos de nove a treze parlamentares evangélicos, quase todos de igrejas históricas não-pentecostais. Em 1964, havia dez deles no Congresso, sendo cinco presbiterianos, dois batistas, dois congregacionais e um pentecostal. Representavam eleitores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Suas campanhas não tinham caráter corporativo, pois não contavam com apoio oficial das denominações a que eram filiados.

Leonildo Campos compara o modo de participar na política dos antigos candidatos de tradição protestante histórica com o novo modo corporativo de conquistar espaços públicos praticado principalmente por denominações pentecostais e neopentecostais.

Campos desenvolve dois “tipos ideais” de políticos: os políticos evangélicos e os políticos de Cristo. Os primeiros inspiravam-se em idéias liberais dos norte-americanos e não eram, a rigor, portadores de uma utopia transformadora da sociedade. Estavam motivados por valores como liberdade de consciência e separação Igreja e Estado, bandeiras cuja defesa era necessária, por causa da influência muito forte da Igreja Católica no espaço público apesar da condição laica da República. Esses políticos, que surgiram principalmente a partir dos anos 1930, não representavam projetos corporativos de suas igrejas. Eram resultantes de iniciativas individuais e buscavam votos no público eva ngélico, apenas por pertencerem a esse ambiente. De fato, havia resistências, por parte das igrejas evangélicas, de se envolverem com política, seja partidária, sindical ou nos movimentos sociais em geral. Campos analisa as razões históricas e sociológicas dessa fuga às “coisas do mundo”, fruto de uma “teologia cansada de guerra”, que veio com a obra missionária norte-americana.

O outro tipo ideal, proposto por Campos, é o “político de Cristo”, cuja prática, “ao contrário da forma de atuar de muitos dos antigos ’políticos evangélicos’, não passa pela valorização do sistema partidário, nem pela defesa de ideologias políticas, propriamente ditas.”

A atuação deste novo agente, que iria se consolidar a partir do Congresso Constituinte de 1987-88, é pautada por demandas corporativas da denominação. São os objetivos da igreja, a serem alcançados no jogo de relações dentro dos aparelhos do Estado, que irão determinar definição de candidatos, escolha de partidos e estratégias eleitorais, para garantir a conquista da fatia desejada de poder, geralmente nos parlamentos, embora também não esteja descartada a disputa para cargos majoritários. Os candidatos podem estar distribuídos em diferentes partidos, pois é feita uma rigorosa análise das chances eleitorais, a partir de cálculos de quociente eleitoral. Portanto, a questão não é ideológica. Como destaca Campos:

Os partidos ou programas não [...] fazem diferença alguma [para os candidatos], porque o essencial para eles é a manutenção do apoio da Igreja que o elegeu. Sem essa Igreja, ele nada é; perde a função de locutor, pois o discurso não lhe pertence; não passa de um mero ator coadjuvante, que participa de uma dramaturgia que não dirige; e recebe da instituição que o escolheu um script pronto para uma atuação fundamentada na plena, total e irrestrita obediência às autoridades religiosas. O “político de Cristo” é uma figura vazada, que somente a instituição, as massas ou as circunstâncias, podem preencher.

Durante o regime militar, houve repressão interna nas igrejas presbiterianas (do Brasil e Independente, ou seja, IPB e IPI) e nas igrejas da Convenção Batista Brasileira. Alguns membros foram delatados e entregues aos torturadores por seus próprios irmãos de fé. Pastores se tornaram alunos da Escola Superior de Guerra, como foram os casos de Nílson do Amaral Fanini, da convenção batista citada, e Firmino da Anunciação Gouveia presidente da Assembléia de Deus no Pará, para ficar em apenas dois exemplos, dentre muitos que constam nos arquivos da ESG e das ADESG. Em dissertação de mestrado foram registrados alguns fatos que indicaram a convivência amistosa da Assembléia com o regime.

A conquista do poder pelos militares foi festejada pela Assembléia de Deus como manifestação da providência de Deus, para evitar que o Brasil caísse nas garras do comunismo, comparado a um monstro que subjugava 900 milhões de pessoas no mundo, segundo o jornal Estandarte, de março-abril de 1964.
Enquanto a Assembléia de Deus adquiria visibilidade e se credenciava como organização confiável para os militares no poder, as duas regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na Amazônia eram motivos de preocupação para essas autoridades castrenses, em razão das posturas críticas assumidas pelos bispos, diante do regime autoritário.
A partir da gestão do Coronel Jarbas Passarinho no Ministério da Educação, a Assembléia de Deus voltou a receber subvenção do Estado, destinada à construção do seu instituto teológico. No período de 1970 a 1974, foram US$ 28,035.00 de doações dessa fonte, conforme atas administrativas da Igreja, do mesmo período.
Com o trabalho do deputado estadual Antônio Teixeira e do federal Gabriel Hermes
Filho, o Seminário Teológico da Assembléia de Deus, em Belém, foi considerado de utilidade pública, obtendo, assim, isenção de impostos.
Enquanto a igreja recebia essas benesses e verbas do Estado, o jornal Estandarte, de
fevereiro de 1970, verberava um editorial contra os pastores que se engajassem na política. Em 1982, foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) ajudar o Abrigo de Idosos “Etelvina Bloise”, com a quantia de US$ 2,913.00, a pedido do então senador Jarbas Passarinho.
Em 1985, durante quatro meses, o pastor Firmino Gouveia participou de um curso na Escola Superior de Guerra, juntamente com outros líderes nacionais de denominações evangélicas brasileiras.

Algumas denominações tradicionais realizaram “limpezas” nos quadros docentes de suas instituições formadoras de pastores e, em situações extremas, decidiram fechar as portas das próprias instituições. Conforme relata Santos:

As intervenções nas instituições teológicas funcionaram para expurgar lideranças que passaram a ser vistas como semeadoras de idéias modernistas, ecumênicas e comunistas. Foram também um meio de tornar seus ensinos afeitos aos interesses dos novos dirigentes denominacionais alinhados ao regime instaurado. A perseguição, a censura e o cerceamento da liberdade dos artistas e intelectuais, promovidos pelo regime ditatorial, tiveram seu equivalente nas instituições religiosas por iniciativa das ‘novas’ cúpulas de dirigentes eclesiásticos concordantes com o poder.

A tradição liberal de governo interno dessas igrejas do protestantismo histórico, que, a rigor, não era tão cultivada no dia a dia, ficou mais fragilizada, ao incorporar práticas autoritárias do regime. Jornais denominacionais ampliaram a censura ideológica que já praticavam, houve concentração de poder em lideranças intolerantes, além dos já citados episódios de fechamento de seminários e delação de líderes para os aparelhos de repressão. A coisa funcionou como se houvesse um caldo de cultura autoritário à espera de que se manifestasse um regime de mesma natureza para que fosse instaurada a intolerância, sem constrangimento e de modo ostensivo, nessas igrejas.

No sentido quantitativo, o regime fez bem a esse segmento religioso. Em 1970, os evangélicos totalizavam 4.833.106 de pessoas, ou 5,2 % da população brasileira. Em 1980, eram 7.885.650, correspondendo a 6,6 % do total, e em 1991, somavam 13.157.094, ou seja, 9,0 % da população. No caso dos pentecostais, o censo demográfico somente passou a dar tratamento específico a partir de 1980, quando foram registrados 3.863.320, portanto 3,2 % da população. Em 1991, eles alcançaram a marca de 8.768.929, equivalendo a 6,0 % do total de habitantes do País.

Pode-se afirmar que o campo religioso evangélico passou por mudanças irreversíveis ao conviver pacificamente com o regime militar. Santos considera que:

A visibilidade numérica e a presença mais evidente na paisagem das cidades, a utilização de meios de comunicação como televisão e rádio, o potencial de votos nas eleições, a presença de políticos evangélicos nas instâncias do poder político, a força institucional das denominações e a ampliação de seus patrimônios – tudo isso produziu posições outrora não adotadas por parte dos evangélicos.”

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É isso!


Fonte:
Saulo de Tarso Cerqueira Baptista: “CULTURA POLÍTICA BRASILEIRA, PRÁTICAS PENTECOSTAIS E NEOPENTECOSTAIS: A presença da Assembléia de Deus e da Igreja Universal do Reino de Deus no Congresso Nacional 1999-2006”. (Tese apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, como requisito para obtenção do grau de Doutor. Orientador: Professor Doutor Leonildo Silveira Campos). São Bernardo do Campo, 2007.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

5 comentários:

  1. Engraçado que essa turma não se refere de mesma maneira sobre a ditadura comunista de Cuba que dura até hoje, a mais de 50 anos sob comando dos militares irmãos Castro.
    Houve levante de guerrilha armada comunista em meados de 64 a fim de tentativa de tomada do poder. Esquerdistas da época como Fernando Gabeira declarou que havia naquela época tentativa do que chama de "implante" da ditadura do proletariado(golpe comunista). A manifestação contra o comunismo foi algo legitimo e democrático em 64, como se viu a manifestação em Brasília recentemente. Manifestação pacífica e democrática. Muita coisa tem de vir à tona, pois o que se conta é história de um lado só. Não é à toa isso pois se vê as universidades públicas dominadas de ideologia marxista. Obviamente o regime militar que se discorreu não é de se apoiar. Foi um regime de exceção. Nenhum militar queria se perpetuar no poder como os ditadores comunistas fazem, feito Fidel. Diante dos acontecimentos e instabilidade política que houve no país, antes isso do que uma ditadura comunista ateia ao estilo de Cuba, China ou Coreia do Norte. Esse negócio de historiadores marxistas ficarem fazendo história de um lado só não irá se perpetuar. Pois a verdade sempre vem à tona.

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    1. Vê se cresce amigo, você tá falando de um regime que matou, torturou e terminou com famílias inteiras, hoje se sabe que os militares eram corruptos, desviaram muuuuuuuito dinheiro (pesquise sobre a usina de Angra) e pior de tudo MATARAM muitos índios inocentes que de comunistas não tinham nada! VAI ESTUDAR MONSTRO!!!

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    2. Cara,sabemos o outro lado da História.Mas isso não anula os elefantes brancos que a ditadura deixou,como o conservadorismo e fundamentalismo evangélico,corja a qual você pertence.Antes defender o regime,pense se você gostaria de ser sequestrado,torturado,cuspido,humilhado e ser tratado com grosserias por sonhar com país melhor!

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    3. P.S: Vocês conservadores não aprendem nunca mesmo! O que garantiria que um grupinho de guerrilheiros universitários em um país gigantesco e urbano iria fazer uma revolução comunista? Tudo isso serviu apenas de pretexto para endurecer o regime.Mas não adianta,não é não? Pois vocês são verdadeiros asnos,e não entendem o os sete humanos falam!

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  2. Tem muita gente precisando estudar!!!
    A Ditadura Cubana não matou ninguem? Quem matou mais, a esquerda guerrilheira ou os militares? Os guerrilheiros queriam derrubar a ditadura para implantar a democracia?
    Não!!! Che Guevara discursou na ONU falando que em Cuba se torturava e se fuzilava e continuariam torturando e fuzilando!
    Os guerrilheiros queriam implantar uma ditadura aos moldes da Albania e eles mataram o dobro dos militares!!

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