Positivismo e evolucionismo: semelhanças e diferenças

“Criado, ou como afirmam muitos de seus seguidores e dissidentes, sistematizado por Augusto Comte, o positivismo surge na França da década de 20 do século XIX e tem como idéias principais a lei dos três estados, a hierarquia dos conhecimentos e o encadeamento dos fatos históricos a partir de uma perspectiva temporal evolutiva, o que minimiza a margem de ação dos seres humanos na história, uma vez que, independente de nossas vontades, os fatos desenrolar-se-ão de acordo com as leis gerais que regem os acontecimentos no mundo. Propõe, neste sentido, uma lei positiva que, supostamente, preside a História. Essa característica do positivismo é comum a outras teorias científicas da época, entre elas o evolucionismo.

No entanto, apesar de, nesse aspecto, restringir a autonomia de ação do homem, a doutrina positivista prima pela proposição da ação, e não pela contemplação, ou seja, deseja estudar somente aquilo que possa ser comprovado cientificamente e que seja resultado de ações concretas, e não de abstrações. Isso quer dizer, por exemplo, que para um positivista, o que interessava era resolver ou amenizar os conflitos de classe, um dado concreto da sociedade francesa do século XIX e resultado da ação de seres humanos, e não identificar as causas desse problema. Para isso, o autor propunha a proteção dos mais fracos pelos mais fortes e a criação de leis sociais e trabalhistas, de modo a dignificar a pobreza e a proteger o trabalhador. Comte não se pronunciou sobre as causas reais desses conflitos, nem culpabilizou os industriais ou o grande capital por isso. Auguste Comte, ao contrário, atribuía um papel fundamental aos industriais no processo de evolução da humanidade. De acordo com José Arthur Giannotti, autor do prefácio à edição brasileira do livro “Os Pensadores” sobre Auguste Comte: “Em Suma, o espírito positivo, segundo Comte, instaura as ciências como investigação do real, do certo e indubitável, do precisamente determinado e do útil.”

As abstrações pertenceriam ao campo metafísico, que, segundo a própria lei dos três estados, seria um estágio ultrapassado da humanidade, quando os homens, que ainda não tinham a ciência como instrumento de compreensão do mundo, recorriam a explicações abstratas, crenças, ou razões metafísicas para entendê-lo. Dessa forma, para os adeptos dessa escola, o que não pode ser comprovado empiricamente não é ciência e, por isso, não é considerado relevante para o progresso da humanidade. Nas palavras de João Ribeiro Junior, autor do livro O que é positivismo?: “O positivismo é, portanto, uma filosofia determinista que professa, de um lado, o experimentalismo sistemático e, de outro, considera anticientífico todo o estudo das causas finais”.

Considerando-se apenas as afirmações feitas acima, Euclides da Cunha poderia perfeitamente ser considerado um positivista, já que compartilhava de muitas das idéias sistematizadas por Comte, como a da análise da história a partir de uma perspectiva evolutiva, da pesquisa empírica dos fatos, sem investigação de causas finais e da própria valorização do conhecimento científico, tido como o único legítimo.

No entanto, essas idéias não foram criadas por Comte, nem eram exclusividade do pensamento positivista. Como disse Stuart Mill, Comte se caracterizaria mais como um sistematizador de conhecimentos do que um descobridor dos mesmos. O que ele fez foi, a partir de influências como a dos iluministas e de filósofos como Hegel, sistematizar o que estava sendo dito em termos de ciência em sua época e rotular tais conhecimentos com o nome de positivismo.

As idéias de progresso, de leis da história, de importância da ciência e de análise empírica dos acontecimentos continuaram, portanto, fazendo parte do senso comum no meio científico da época, e outros preceitos científicos, que não o positivismo, também se utilizaram delas para formular suas doutrinas.

Desse modo, de acordo com Cruz Costa, o positivismo se distingue de outras correntes científicas basicamente por três pontos:

1) A lei dos três estados;
2) A classificação das ciências e,
3) O catecismo positivista.

Este último foi uma tentativa de Augusto Comte de criar uma religião da humanidade. Para tanto, o autor utilizou, dando novo significado, muitos dos rituais e normas da Igreja Católica, como por exemplo, o batismo, o matrimônio, o apostolado, a criação de um novo calendário, de santos e de dias santos. Comte justificava tal apropriação dizendo que, de acordo com a lei dos três estados, o estado científico era posterior, mas herdeiro do estado teológico, e por isso os mesmos rituais poderiam ser utilizados, embora o grande objeto de devoção fosse a ciência, e não Deus. Essa é uma das idéias de Comte que foi alvo de duras críticas por parte de Silvio Romero, assim como de Euclides da Cunha. Sobre esse assunto, Silvio Romero afirma:

A instituição de um novo dogma religioso e a conseqüente organização de um novo poder espiritual devidamente exercido por um novo clero, segundo o modelo católico feudal, que é o chefe d’ oeuvre politique de La sagesse humaine, eis o grande desideratum atingido por Auguste Comte, no pensar de seus sectários.
Deixou de pé os altares; apenas tirou fora dele o Deus de São Paulo e o substituiu pelo Ser Supremo, cuja revelação máxima recebeu Clotilde de Vaux, isto é, a humanidade arvorada assim em objeto de seu próprio culto.

Já João do Rio, em crônica anteriormente citada, possui uma visão mais positiva dessa característica do apostolado positivista. Em um trecho de sua crônica, o cronista escreve:

- Que é positivismo? Sussurro eu, sentando-me.
- É uma religião que respeita as religiões passadas e substitui a revelação pela demonstração. Nasceu da ruptura do catolicismo e da evolução científica do século XVII para cá. De Maistre dizia que o catolicismo ia passar por muitas transformações para ligar ciência e religião. Comte descobriu a lei dos três estados, a chave da Sociologia, e quando era o grande filósofo, Clotilde apareceu e ensinou que a inteligência é apenas o ministro do coração. ”

Outra idéia muito importante presente no catecismo positivista, que vai de encontro ao evolucionismo, é a proteção dos mais fracos pelos mais fortes. De acordo com Comte, os mais aptos, ou seja, os mais fortes, deveriam se encarregar de proteger os mais fracos, de modo a conservar a ordem social e a harmonia. A idéia era dignificar a pobreza, e não eliminá-la.

Comte, que viveu na França de 1848 e chegou a ser discípulo de Saint Simon, tendo depois rompido com ele, estava, com essas idéias, pensando em uma forma de manter o proletariado longe de idéias extremadas e do que ele parecia ver como desordem. Para manter a ordem social, e para que a camada menos favorecida da sociedade não se levantasse pedindo igualdade social era necessário criar mecanismos de dignificação da pobreza, de satisfação das necessidades mínimas dessa população. Comte estava, portanto, longe de ser um revolucionário, alguém que propusesse a eliminação das diferenças entre classes sociais ou do direito de propriedade. Esse ponto é outro alvo de críticas de Romero, que afirma o seguinte sobre a religião da humanidade de Comte:

Preceitos morais, que subordinam o espírito ao coração, plantando nele o altruísmo, que da parte do rico se chama proteção, da parte do pobre se denomina obediência e veneração... É muito bom de dizer e o cristianismo durante quase mil e novecentos anos não tem dito outra coisa.

No entanto, a teoria comtiana estava mais longe ainda de ser parecida com a evolucionista social, já que essa doutrina, formulada por Spencer, defendia a idéia da seleção natural das espécies, criada por Darwin para descrever apenas o comportamento animal, mas que para os evolucionistas sociais spencerianos deveria ser aplicada também aos seres humanos. Como já foi dito, o principal livro de Darwin foi publicado alguns anos após a morte de Comte. Por isso, nem Darwin nem Spencer poderiam ter exercido qualquer tipo de influência na obra e no pensamento de Comte. Spencer, que tinha Malthus como principal matriz teórica, acreditava que também entre os homens imperava a lei dos mais fortes. Para ele, os mais fortes sobrevivem, os mais fracos tenderiam a desaparecer. E não se deveria ter pena daqueles que são mais fracos, fazer caridade ou dar esmolas para sua manutenção, que em nada ajudaria o progresso da humanidade. Eles deveriam, mesmo, desaparecer. O meio regularia quem deve sobreviver ou ser extinto. Não se deveria interferir na ordem natural das coisas.

Assim como Malthus, Spencer também argumentava que a guerra era benéfica, na medida em que regulava automaticamente quem deveria viver ou não. Além disso, outra idéia importante que Spencer utilizou da teoria de Darwin era a da luta pela vida. Segundo Spencer os homens viviam em constante competição, a qual não poderia ser cerceada por mecanismos estatais. A competitividade seria inerente à luta pela vida na qual os homens estão engajados, e qualquer tentativa de interferir nessa competição poderia alterar os resultados que seriam alcançados caso a “natureza” tivesse sido respeitada. Como se pode ver, Spencer era um entusiasta do liberalismo, muito diferente da idéia de ditadura republicana e da presença do estado como regulador da ordem social, como aparece em Comte.

Portanto, como conciliar a proteção dos mais fracos pelos mais fortes, de Comte, com a seleção natural de Spencer? Mais ainda, como equacionar a ordem social com a ‘desordem’ causada pela competitividade entre os homens, em constante luta pela vida? De acordo com Ângela Alonso, professora da USP:

No catecismo positivista (1852), Comte apresentava uma religião civil - o catolicismo laico da Religião da Humanidade - e prescrevia um darwinismo às avessas: a proteção do mais fraco pelo mais forte. Políticas sociaiscompensariam a desigualdade social e reduziriam o antagonismo político da sociedade moderna entre proletários e patrícios. O sistema de política positiva (1851-4) defendia um regime republicano-presidencialistacentralizado, inspirado na república romana. Comte não vinha promover a revolução, mas evitá-la.

Outro ponto importante de diferenciação entre as doutrinas diz respeito à questão racial: é verdade que Comte alude aos mais fracos e mais fortes em sua doutrina, o que nos leva a pensar que ele estivesse de acordo com as teorias raciais de sua época. No entanto, Comte não se pronuncia, em momento algum a respeito da questão racial nos moldes spencerianos, já que ele não define quem seriam os mais fracos ou os mais fortes. Spencer, ao contrário, o faz claramente, dizendo existirem raças mais aptas ao desenvolvimento que outras.

Ainda sobre o evolucionismo, a questão da adaptação ao meio e do meio como determinante, apontadas por Velloso como característica da geração de 1870, é um traço, mais uma vez, do evolucionismo, e não do positivismo. De acordo com a teoria spenceriana, a idéia de adaptação ao meio é essencial na luta pela vida, na seleção natural. Só os mais adaptados sobrevivem. Essa importância atribuída ao meio não é monopólio do que é chamado de determinismo geográfico. O meio atua como um estímulo para a evolução dos caracteres dos seres vivos. Segundo a doutrina spenceriana mais fidedigna a Lamarck e a Darwin, estas características adquiridas seriam herdadas pelas próximas gerações. O meio seria, portanto, um fator determinante como indutor de mudanças nos habitantes de um meio natural.”

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É isso!


Fonte:
Natalia Peixoto Bravo de Souza: “A militância em torno da glorificação de Euclides da Cunha: um projeto político-ideológico”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em História. Orientador: Profa. Dra. Maria Amélia Mascarenhas Dantes). Universidade de São Paulo. São Paulo, 2010.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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