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Singularidade cultural do povo judeu

Por: Iba Mendes (2002)

INTRODUÇÃO:

Este artigo tem como finalidade primordial abordar os principais aspectos que norteiam a vida do povo judeu ao longo de sua existência: as raízes, os valores, a religião, a cultura, em suma, sua singularidade e continuidade ao longo da história.

Embora seja relevante no estudo da história de um povo, os detalhes de suas origens e os pormenores de sua existência, não há neste trabalho a pretensão de se abordar minúcias desta questão. Todo o trabalho fundamenta-se nas quatro características básicas que distinguem a comunidade judaica, dos primórdios de sua existência aos dias atuais, que são: a étnica, religiosa, social e territorial.

A CARACTERÍSTICA ÉTNICA
A característica étnica é certamente um dos muitos traços que singulariza o povo judeu. É certo que cada povo possui características peculiares ao seu próprio grupo, manifestando sentimentos de distinção em relação a outros, entretanto, no caso do povo judeu, essas características adquirem um aspecto singular no fato de haver uma Aliança ou um Pacto com a Divindade: “O conceito, na verdade, traz o perigo de poder induzir a um sentido de superioridade, e seria ingênuo fingir que os judeus nunca se deixaram levar por isso. Mas por esse mesmo motivo, os mestres do judaísmo, desde os tempos antigos, esforçaram-se em advertir contra tal noção” (GOLDBERG).

Essa Aliança implica em regras e obrigações. O povo judeu foi incumbido de ser um sacerdócio santo, e a desobediência seria punida com severos castigos. De acordo com a Bíblia, o símbolo “material” dessa aliança seria a circuncisão, que sempre foi uma característica étnica permanente dos judeus, perdurando até hoje.

Faz parte também da característica étnica judaica, a proibição de casamentos de judeus com outros povos: “Nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos” - Deuteronômio 7:3. Uma explicação bem moderna sobre o assunto, é dada pelo o Rabino Henry Sobel:

“O casamento já é suficientemente complicado e complexo quando marido e mulher compartilham a mesma fé. Acrescentar divergências religiosas aos problemas cotidianos só pode gerar maiores tensões e conflitos” (SOBEL).

O Shabat é um dos traços mais distintivo da característica étnica judaica. Sua importância para os judeus é demasiada elevada, e para muitos é o elo que tem mantido unido o povo, e o que há de perpetuar essa unidade: “Se o Shabat continuar sendo guardado pelos que sempre conservaram a sua celebração, e conseguir reconquistar aqueles que dele se afastaram, permanecerá garantido o futuro do judaísmo” (PINKUSS).

As leis dietéticas são também um outro fator preponderante que distingue o povo judeu de outros povos. É praxe entre os povos a manutenção de hábitos alimentares específicos, contudo, para os judeus, esses hábitos devem ser seguidos por se tratar de uma ordem divina. Sua observância consiste muito mais nos aspectos sagrados do que nas características biológicas e sanitárias: se foi Deus quem ordenou, não há porque discutir seu uso do ponto de vista científico ou biológico: “De um ponto de vista ortodoxo, essas leis foram ordenadas divinamente, e é isso que as torna válidas. Aqueles que participam dessa convicção são naturalmente compelidos pela sua consciência a observá-las” (GOLDBERG DINUR).

A especificidade étnica, conforme afirma Ben-Zion Dinur, é atestada também pelos padrões de crescimento nacional e pela terminologia específica que usavam: “o povo era chamado ‘filhos de Israel’ e como um todo é a ‘Casa de Israel’ enquanto suas partes são as ‘Tribos de Israel’ e seus chefes os “Antepassados de Israel’” (DINUR).

Em suma, as características étnicas judaicas são tão diversificadas como são as opiniões a respeito do próprio povo judeu. Elas não são melhores nem piores que as dos demais povos, são apenas singulares, singulares e seculares.

A CARACTERÍSTICA RELIGIOSA
É sabido que a história do povo judeu teve início com Abraão, para quem Deus fez uma aliança dizendo: “Quanto a Mim, eis a minha aliança contigo, e serás pai de uma multidão de nações; (...) E estabelecerei a minha aliança entre Mim e ti, e entre tua semente depois de ti, nas suas gerações, numa aliança eterna, para ser teu Deus, e, de tua semente, depois de ti” - Gêneses 17:1-8.

É impossível desassociar o povo judeu das figuras bíblicas: Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi e outras que são mencionados na Bíblia. O caráter religioso é sintetizado especificamente pelo monoteísmo ético judaico. Como é consensual, o povo judeu foi o único, na antigüidade, que acreditava na existência de apenas um Deus: “A idéia básica da religião israelita é que Deus é supremo. Não há nenhum reino acima ou além dele que limite a sua soberania absoluta. Ele é completamente distinto e diverso do mundo; não está sujeito a quaisquer leis, compulsões ou poderes que o transcendem. É, em suma, não-mitológico. Esta é a essência da religião israelita, e o que coloca à parte de todas as formas de paganismo” (KAUFMANN).

A síntese da história judaica fundamenta-se na Bíblia. É através dela que conhecemos os primórdios da civilização judaica: o pacto já citado, entre Deus e Abraão; a libertação de Israel do domínio e escravidão egípcia; a conquista da Terra Prometida; o estabelecimento da monarquia, enfim, os triunfos e os fracassos que decorreram da obediência ou desobediência aos mandamentos divinos. Toda vida judaica foi norteada pela noção do divino. A Torá e as obrigações advindas dela são partes intrínsecas da comunidade ao longo de sua existência. Mesmo durante as dispersões, os valores sagrados jamais estiveram ausentes. O próprio fato de o Estado de Israel voltar a existir depois de séculos em decadência, pode, pelo menos parcialmente, ser atribuído à fé do povo e ao anseio de se estabelecerem na “Terra Prometida”, de seus antepassados. As lutas existentes atualmente fundamentam-se muito mais na questão religiosa do que na acumulação de todos os outros fatores: “Um dos principais componentes da personalidade judaica, o único verdadeiramente essencial do ponto de vista dos crentes, foi, durante muito tempo, a religião: esta implica um modo de vida e, quando levada aos seus extremos, deve impregnar todos os atos da existência quotidiana. (...) Ainda que na maioria sionistas de tendência socialista e desligados da religião, os fundadores do Estado, por complexos motivos em que se enredavam o coração e a razão, a ligação com as tradições e as necessidades políticas, não deixaram de colocar o Retorno no centro de exaltantes perspectivas bíblicas” (FRIEDMANN).

O profetismo foi outro fator preponderante para a continuidade e manutenção dos valores da religião judaica. “No trabalho dos profetas literários, a religião israelita atingiu um novo apogeu. Foram os primeiros que conceberam a doutrina do primado da moralidade, a idéia de que a essência da exigência que Deus faz ao homem não é cultural, porém moral” (KAUFMANN).

O que dizer do monoteísmo ético que serviu de base para as maiores religiões do mundo e que influenciou culturas, modificando-as ao longo dos séculos? Em suma, o fator religioso foi e continua sendo imprescindível para a manutenção e unidade das comunidades judaicas em todo o mundo, às que ainda estão dispersas e mesmo às que estão concentradas na Terra de Israel.

A CARACTERÍSTICA SOCIAL
“Quem pode, quer e deve desaparecer, desapareça! Mas a personalidade do povo Judeu não quer, não pode, não deve desaparecer. Não pode, porque inimigos exteriores contribuem a mantê-lo. Não quer e isso provou durante dois mil anos, no meio de padecimentos inomináveis. (...) Ramos inteiros de judaísmo podem perecer, destacar-se: a árvore vive” (HERZL).

Uma das grandes características sociais dos judeus são as comunidades. Desde os tempos mais remotos eles sempre estiveram sob a égide da “congregação”, não simplesmente pelos valores patriarcais, como normalmente se supõe, todavia, uma gama diversificadas de outros fatores dirigiram por prolongados tempos as vidas das pessoas, tais como os chefes das congregações, as assembléias, os juízes, os mensageiros, os profetas etc.

Não se pretende afirmar com isso que sempre houve uma unidade imaculável. Pelas mudanças históricas pelas quais foram submetidos, experimentaram modos de vida amplamente diversificados, porém, sempre houve em comum o respeito pelas tradições, e de alguma forma essa unidade prevaleceu: “...o que os distingue é uma fé comum e crenças comuns, um estilo de vida, desejos, idéias e aspirações. A base desta entidade reside no homem mais do que no lugar; seu alvo não é tanto manter a unidade organizacional quanto a aspiração de mudar a realidade, criar uma realidade social mais desejável do que a já existente” (DINUR).

Mesmo quando o reino fora dividido, e prevalecendo a supremacia de um, ainda assim, havia, não em todos os aspectos, é óbvio, mas no essencial, uma certa unidade que os tornavam “espiritualmente” unidos. Quando vencidos pelos babilônios e submetidos ao cativeiro, tendo o templo, o símbolo máximo da presença divina, destruído, superaram as adversidade, reconstruíram o templo, mantendo-se novamente unidos, congregados.

Na Idade Média, vivendo sob a ameaça das grandes religiões, e mesmo dispersos, conseguiram manter, se não fisicamente, ao menos pela fé, a continuidade de seus mais sagrados valores.

Onde quer que houvesse judeus havia comunidades que sempre mantinham intactas as tradições, e isso mesmo em meio a perseguições e atrocidades. Os judeus russos, talvez sirvam como um grande exemplo de unidade. Mesmo realizando todos os esforços no sentido de destruir o separatismo judeu, o governo russo fracassou ao tentar acabar com as kehilot: “...sob Nicolau I, a burguesia recorreu à conscrição, à perseguição, às escolas da Coroa e à abolição do Kahal; nos primeiros tempos do reinado de Alexandre II, recorreu-se a lisonjas e recompensas. Mas fosse qual fosse o disfarce que o assédio czarista assumisse, os judeus da Rússia preservaram a sua integridade comunal persistentemente e com êxito” (SACHAR).

O sionismo também representa de algum modo o espírito de perseverança e unidade dos judeus, é claro, não no seu aspecto imperialista e capitalista, mas na essência dos propósitos.

Os kibutzim, assentamentos agrícolas, é também uma característica social moderna que tipifica a unidade judaica. Embora já não tenha a mesma importância que teve no passado, ainda assim é muito significativa do ponto de vista social para Israel.

A língua hebraica foi e é outro fator de grande relevância para a comunidade judaica. Por durante toda a dispersão serviu apenas como veículo de comunicação litúrgica, ressurgiu e hoje é língua de estado, falada pelos judeus, e estudada nos grandes centros universitários em todo o mundo.

Enfim, onde houver judeus haverá a manutenção das mais antigas tradições. Não obstante vivendo sob culturas paradoxal à sua, os judeus conseguiram, conseguem e hão de conseguir manter intrínseca sua singularidade e unidade cultural: Shabat, Chanucá, Pessach e tudo que os faz singulares há de permanecer mesmo ante a fúria dos mais atrozes inimigos.

A CARACTERÍSTICA TERRITORIAL
A Terra Prometida, onde mana leite e mel, para muitos é apenas um anseio social daqueles que não tem onde viver, dos que querem plantar mas lhe é negado esse direito. Para os judeus, a Terra Prometida é muito mais que isso: é um cumprimento da vontade soberana de Deus. Para Theodor Herzl, o idealizador do sionismo, a Terra Prometida poderia ser na Argentina, na Palestina ou em qualquer outro lugar onde os judeus pudessem exercer livremente sua soberania e vontade. Todavia ficou evidente sua predileção por esta última: “A Palestina é a nossa Pátria histórica inolvidável. O simples ouvir citar o seu nome é um chamado poderosamente comovedor para nosso povo” (HERZL).

Durante todo o tempo em que estiveram dispersos, sempre houve, se não pela maioria, pelos menos para uma boa parte de judeus, o desejo de retornarem à Terra Prometida. Afinal, foi lá que viveram os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó! Foi lá onde os seus antepassados viveram e construíram os pilares de sua cultura: “Levando-se em consideração a continuidade da história judaica devemos sempre ter em mente a constante influência do caráter único da nação no seu nascimento” (DINUR).

Discute-se hoje se os judeus têm ou não direito de viverem na Palestina. Para alguns eles estão lá por servirem de instrumentos para propósitos de países imperialistas, contudo, sem entrar no mérito da questão, o fato de terem sua origem lá, significa para eles muito mais do que ter uma Pátria: é, acima de tudo o cumprimento do desejo de Deus.

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BIBLIOGRAFIA:
1. GOLDBERG, J. David e RAYNER, D. John. Os Judeus e o Judaísmo. Rio de Janeiro, Xenon, 1989.
2. SOBEL, I. Henry. Os “Porquês” do Judaísmo. São Paulo, Congregação Israelita Paulista, 1983.
3.Compilação de: PINKUSS, Fritz. O Shabat. São Paulo, Fundação Fritz Pinkuss - Congregação Israelita Paulista, 1961.
4. Vida e Valores do Povo Judeu. DINUR, Ben-Zion. História Judaica: Singularidade e Continuidade. São Paulo, Perspectiva, 1972.
5. KAUFMANN, Yehezkel. A Religião Judaica. São Paulo, Perspectiva, 1989.
6. FRIEDMANN, Georges. Fim do Povo Judeu? São Paulo, Perspectiva, 1965.
7. HERZL, Theodor. O Estado Judeu. São Paulo, Consulado Geral de Israel em São Paulo, 1987.
8. Textos para História Moderna do Povo Judeu. SACHAR, Moley Howard. Aspectos da Vida Judaica na “pele”. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1975.

Nota:
Este texto pode ser reproduzido e utilizado livremente, desde que citada a fonte e o autor.

Fonte da imagem:
http://www.shabes.net

A dilema das interpretações


Por: Iba Mendes (2005)

Muito se tem discutido acerca da temática do livro bíblico Cânticos dos Cânticos (ou Cantares de Salomão). Os cristãos, de um modo geral, acreditam tratar-se de uma alegoria, em que a noiva, a Sulamita, simboliza espiritalmente a Igreja, enquanto que o amado, talvez Salomão, é a figura mística do Noivo da Igreja, ou seja, Cristo. Os judeus, por sua vez, acreditam que a noiva é a figura de Israel, ao passo que o noivo reproduz a própria imagem de Deus. Já os que se inclinam às letras, ou seja, os literatos, estes apenas vêem no livro bíblico um poema de amor entre um homem e uma mulher apaixonados, e nada além.

Não apenas em relação à Bíblia, mas no próprio campo da Literatura, a questão da “interpretação”, tem sido e pode ser utilizada muitas vezes de maneira tendenciosa, para o fim a que se propõe àquele que a interpreta...

Em outro âmbito, os comunistas viam em Cristo apenas um líder reacionário, o qual se opôs ao sistema do seu tempo; outros, por sua vez, o conceberam como um homem iluminado ou um profeta apenas.

Um exemplo, na Literatura, diz respeito ao polêmico escritor austro-alemão Franz Kafka (1883-1924). Uns viam nele um pensador metafísico; outros, um profeta do absurdo; Camus e Sartre o imaginava como a síntese da incongruência do existir; psicólogos acreditaram que sua obra era resultado de sua relação com um pai autoritário e na sua própria condição de celibatário; marxistas entendiam seus escritos como a suma do caos burguês; os surrealistas o colocou na esfera do fantástico; há ainda os que vêm nele um lunático, vítima de sua neurose religiosa. Quem, pois, está com a razão?

No que tange aos textos literários, e com mais ênfase à Poesia, é comum prevalecer o subjetivismo de quem a analisa, de modo que é comum reduzir-se a existência à própria existência. Assim, num mesmo texto pode-se encontrar uma gama variada de temas: amor, morte, felicidade, guerra, traição, os dissabores da vida etc. Em muitos casos, o instante emocional de quem o lê um texto, também pode ser decisivo para uma conclusão sobre o conteúdo da obra como um todo. Esse fato é deveras corriqueiro com os textos religiosos. Muitos, vivendo uma situação desfavorável na vida, quando atingidos pelas procelas do existir, usam e abusam das interpretações, e de tal forma que em inúmeros casos, tais interpretações acabam por se transformar em doutrinas e até em dogmas. Não é á toa que há tanta divergência entre os que dizem seguir os livros considerados sagrados! Mas essa é uma outra questão...

É isso!

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Nota:
Este texto pode ser reproduzido e utilizado livremente, desde que citada a fonte e o autor.

A ética no Talmud


Por: Iba Mendes (2005)

Falar da moral do Talmud como algo isolado e independente, como alguma coisa que não tem relação com o passado e com o futuro, é um grande erro histórico. O Talmud, de um modo geral, não é algo inovador, nem tampouco uma nova doutrina. É, na verdade, um comentário da antiga Torá bíblica, que se amoldou aos novos tempos, à época em que foi escrito, segundo os novos conceitos e as novas circunstâncias, conforme as recentes exigências da vida: espiritual, social, política, econômica etc. Por ser uma nova exegese da Bíblia, não é, logicamente, a mesma coisa que a Bíblia; porém, também não é algo isolado e independente dela. Representa uma fase singular na evolução histórica, um fator determinante no desenvolvimento do povo judeu.

O mesmo se dá com a moral talmúdica. Tal qual o próprio Talmud, ela não deve ser considerada como algo isolado e independente, mas como uma evolução da própria moral bíblica. Esta moral remonta aos tempos mais antigos da história judaica, e suas marcas podem ser percebidas até mesmo nos trechos mais arcaicos da Bíblia. E, não obstante as mudanças operadas ao longo dos tempos, os valores do povo judeu, na sua essência, continuam firmados na a mesma base talmúdica.

Na própria Bíblia é possível perceber algumas modificações no que concerne aos valores morais dos judeus. Tomando como exemplo a guerra, nota-se que, durante o tempo que estes se encontravam em um estágio inicial de sua cultura, suas guerras eram selvagens e bárbaras. Este era seu lema: “Não deixarás nada com vida”. Alguns séculos mais tarde, entretanto, quando o povo judeu havia alcançado um outro nível de cultura e espiritual, na época em que eram influenciados pelos ensinamentos humanitários dos profetas, mudaram nitidamente seus conceitos. Por exemplo, antes de ir guerrear, eram eles orientados a incitar os inimigos para que aceitassem a paz. Quando se sitiava uma cidade, não era permitido destruir as árvores frutíferas. Somente devia participar das batalhas os voluntários, e unicamente aqueles que não tivessem corações fracos e que não fossem tímidos. Ainda sobre a guerra, os talmudistas notaram uma mudança fundamental operada na Torá, muito embora não aceitaram o fato de que esta mudança ocorresse também na esfera histórico-cultural, uma vez que todas as partes da Torá haviam sido outorgadas igualmente por Deus. Trataram então de resolver a questão estabelecendo uma diferença entre a “guerra santa” (isto é, a guerra ordenada por Deus) e a “guerra voluntária” (ou seja, a guerra decretada pela própria vontade do homem). A guerra contra os sete povos que habitavam a Palestina era uma “guerra santa”, porque Deus a havia ordenado, mandando que eles fossem exterminados. As demais guerras deixaram de ser santas, e por isso não seguiram as regras da lei.

A moral judaica, consequentemente, tem passado por diferentes categorias evolutivas. A moral talmúdica é a moral judaica de uma determinada época histórica, ligada diretamente com a que precedeu e que, por sua vez, liga-se a que se segue.

É fato conhecido que a Bíblia não se ocupa de questões puramente especulativas. Não pondera sobre a essência de Deus, sim sobre sua natureza; da mesma forma, não trata da imortalidade da alma humana nem de uma vida após a morte. Sobre isso tem havido inúmeros comentários, explicações e hipóteses. Alguns afirmam que os hebreus daquela época estavam poucos desenvolvidos para se envolverem com assuntos filosóficos, estando, portanto, desinteressados dos grandes problemas do mundo. Seu mundo era reduzido; seus conceitos, limitados; e seu Deus era local, nacional, agindo com exclusividade no meio de seu povo. Outras nações e outros povos possuíam aos seus modos, seus próprios deuses.

Até certo ponto, isto tem algo de verdadeiro, especificamente no que diz respeito ao estado primitivo em que eles viviam e na concepção limitada que tinham de Deus. Nesse aspecto pouco se diferenciavam dos demais povos. Resquícios desta limitação da concepção de Deus podem ser encontrados em inúmeras passagens dos textos mais antigos da Bíblia. Todavia, já no livro de Deuteronômio, provavelmente por idéias especulativas, o conceito de Deus se torna elevado e delicado. O Deus de Deuteronômio já não é o Deus local e nacional, sim o Deus único de todo o universo, o Deus de todos os povos, o Deus do céu e da terra e de tudo o que há dentro deles: “Não há outro Deus além dele”.

O Deus de Deuteronômio não é somente único, mas também incorpóreo, que não pode ser representado mediante imagens: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra” (Dt. 5:8). É evidente que tamanha concepção de Deus somente é possível através de idéias especulativas. É bem verdade que o autor não se dá ao trabalho de fundamentar sua concepção filosófica do mundo, não a discute, nem se empenha em demonstrá-la por intermédio de conclusões lógicas; não nos revela o processo ideológico pelo qual chega a essas conclusões; contudo, isso parece até óbvio uma vez que não escreve um tratado filosófico, mas uma ética prática, uma Torá prática. Para uma ética prática não é relevante a representação abstrata de Deus como conceito filosófico, sim sua representação com um ser essencialmente ético, como um Deus de justiça, Deus de misericórdia, Deus de amor. Deus, como concepção filosófica, ocupa um lugar secundário. A Torá como tal não mantém nenhuma relação com a concepção filosófica, embora não a exclua completamente. Neste sentido é possível afirmar que Deus é a fonte da ética judaica. Este é o motivo pelo qual o judaísmo muito mais tarde, através de Maimônides e outros, tentaram converter o judaísmo num sistema filosófico em vez de um sistema ético.

Deus é um ser ético, e por isso que a Bíblia está sempre contra quem não se ajusta ao divino princípio ético: “Justo serias, ó Senhor, ainda que eu entrasse contigo num pleito; contudo falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente?” (Jr. 12:1). / “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?” (Hc. 1:13). / “O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação. Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece. E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juízo contigo... Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado? E por que não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniqüidade? Porque agora me deitarei no pó, e de madrugada me buscarás, e não existirei mais” (Jó 14:1-3; 7:20, 21). Todo o livro de Jó está repleto de queixas contra aqueles que não seguem os princípios éticos. A mesma coisa faz o pessimista autor de Eclesiastes: “Depois voltei-me, e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lágrimas dos que foram oprimidos e dos que não têm consolador, e a força estava do lado dos seus opressores; mas eles não tinham consolador. Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (Ec. 4:1; 3:19, 20).

Deus é um ser ético. É, portanto, o “alfa e o ômega” da ética judaica. A finalidade primordial do homem consiste em imitar a esse Deus, bem como em andar nos seus caminhos: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv. 19:2).

No Talmud esta idéia se desenvolve de um modo muito mais enfático e vigoroso. Este, da mesma forma que a Bíblia, ocupa-se relativamente pouco de questões especulativas. Isto não significa, entretanto, que os talmudistas as ignorassem. Em várias partes do Talmud é possível perceber com nitidez que eles conheciam perfeitamente a filosofia grega. A filosofia de Platão, por exemplo, é percebida em muitos de seus ensinamentos e nas Hagadot. A afirmação de Shimlai de que a criança, antes de nascer, vê de um extremo do universo ao outro e que este não esquece o instante do nascimento, e que o homem vai recordando pouco a pouco o que sabia anteriormente, remete à doutrina platônica de que nosso conhecimento é aquilo de que a nossa alma já sabia antes, no momento em que se encontrava no mundo celestial. A expressão talmúdica: “O alicate (pinça) tem sido feito conforme o alicate (pinça) primitivo” relembra a doutrina platônica sobre o mundo das idéias. Ademais, o Talmud trata de assuntos relacionados a certas doutrinas secretas, mais especificamente no que se relaciona à cosmogonia e à teogonia. Os talmudistas não proíbem o aprendizado destas doutrinas esotéricas; apenas aconselham que se tome o devido cuidado com elas. Não se deve estudá-las abertamente, mas sozinho e em segredo, e apenas os que estão aptos a não abandonar o caminho reto, àqueles para os quais a concepção filosófica de Deus não lhes acarretará nenhuma conflito ou contradição no que diz respeito aos conceitos éticos. Não apenas os filósofos judeus da Idade Média, por exemplo, Maimônides, sustentavam que os gregos aprenderam suas filosofias com os judeus. O mesmo afirmaram os antigos filósofos judeus da escola alexandrina. Esta afirmação carece naturalmente de todo o fundamento, porém, ela evidencia de todas as formas que os estudos filosóficos não eram estranhos aos judeus, mesmo antes da era cristã, e que muitos israelitas até os consideravam como um assunto puramente judaico.

Os talmudistas conheciam a filosofia, porém esta carece de valor para a ética prática. Desta forma, o Talmud não se ocupa delas. Interessava aos talmudistas muito mais o aspecto ético da natureza de Deus. A questão de: “Para o justo segue o mal e para o malvado segue o bem” era para eles muito mais importante. No entanto, não há neles tanta amargura como se observa na Bíblia, no que concerne a injustiça no mundo, pois para eles há solução para este problema: sabiam de uma vida posterior à morte e de uma recompensa após ela; sabiam também de um castigo no mundo além-túmulo.

Deus é um ser ético. Isto é o essencial. O objetivo do homem consiste, primordialmente, em ser também um ser ético. Deve imitar a Deus e orientar-se por seus caminhos: “Como eu sou misericordioso, assim também sereis misericordiosos; como sou clemente, assim hás de ser clemente tu”. Deus é bondoso até mesmo com aqueles que não são dignos da bondade. Por ser ele assim, deve o homem imitá-lo. Até na sua ira, Deus é longânimo, por isso deve ser também o homem. Deus é pura verdade, e o homem, por sua vez, deve ser sincero. Deus é justo, por isso o homem deve ser também. Aquele que decreta uma sentença de justiça, converte-se em colaborador de Deus na criação do universo.

Deus criou o mundo para o homem. Este é o propósito e o ponto central de toda a criação. “Por isso todo o homem deve sentir-se como se o mundo fosse criado especialmente para ele” e “aquele que sustenta uma só pessoa, é a mesma coisa que sustentar o mundo inteiro”. Nenhum indivíduo possui uma categoria superior a de outro: “Meu sangue não é mais vermelho do que o de outro”. O homem foi criado sozinho, a fim de que nada se engrandecesse à sua frente. A criação do mundo é uma expressão da natureza ética de Deus e encerra uma finalidade ética, uma intenção ética.

Deus faz o bem pelo bem, porque esta é a sua natureza. Não teve ele objetivos na criação; esta é uma projeção de sua natureza ética, de sua bondade e compaixão. E do mesmo modo que Deus não espera nenhuma recompensa pelas boas obras que pratica: “Não sejais como os escravos que servem a seu senhor pelo salário”. O homem deve fazer o bem por amor ao bem e não por um mero galardão: “Tudo que fizerdes, fazei por amor. O que age por amor é superior ao que procede por temor”. “O prêmio por uma boa obra é a mesma boa obra; o castigo de uma ação maléfica é a mesma ação maléfica”. “É preferível uma hora de arrependimento, a uma vida futura no mundo além-terra”. A boa ação constitui por si mesma sua recompensa; a ação perversa é por si só o próprio castigo. Isto não significa, contudo, que o homem não receba sua recompensa pelo bem praticado, ou que não seja castigado por um mal que fez. Isto apenas quer dizer que os motivos que o induz ao bem, devem ser puros, desprovidos de qualquer finalidade egoísta.

O Homem possui o livre arbítrio. A escolha está em suas próprias mãos. Pode fazer o bem e pode realizar o mal: “Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Dt. 30:19). Partindo do princípio de que Deus é um ser ético, faz-se mister realçar a idéia de que o homem é portador do livre arbítrio. Se o homem não pode escolher seu próprio caminho, se não é senhor de si mesmo, se tudo o que faz é por obrigação é está traçado por antecipação, neste caso ele nada mais é do que um autômato e toda a ética necessita de fundamento. Seu comportamento, bem ou mal, seria em tal caso inteiramente independente dele. Isso quer dizer então que não é o homem quem faz ou deixa de fazer determinadas coisas, mas que estes atos se realizam e deixam realizar-se dentro e por intermédio dele. O judaísmo, de forma rígida, tomando como base o fato de Deus ser essencialmente ético, prega claramente o livre arbítrio humano. E o Talmud se apega fortemente a esta doutrina bíblica, mesmo quando nota a contradição que existe entre a consciência de Deus e o livre arbítrio do homem. “Tudo está nas mãos de Deus, exceto a devoção”.

A conduta de Deus no que concerne ao homem é a de um pai em relação ao filho. Os homens devem amar a Deus como os próprios filhos amam seus pais. Mas, em que consiste o amor de Deus? Em imitar seus atos. Ela ama e se compadece de todos; assim também deve o homem amar a se apiedar de todos. A paternidade de Deus não significa outra coisa senão a fraternidade entre os homens, os quais devem se amar como se fossem filhos de um mesmo pai. “E amarás a teu próximo como a te mesmo”, eis o grande princípio da Torá. “O que para ti não é bom, não o queira para teu próximo, eis aqui toda a Torá. O resto é apenas um comentário”.

É impossível mencionar sequer uma pequena parte de todas as máximas e pensamentos éticos que estão registrados no Talmud. Poderia formar-se livros inteiros com eles. O que propôs aqui foi abordar alguns pontos básicos da ética talmúdica, fazendo uso das citações como ilustração. O que há, além disso, expressa-se na mesma linha: Deus é um ser ético, o universo é um fenômeno ético que tem no centro o homem, o qual, por isso mesmo, deve buscar com todas as suas forças o máximo do aperfeiçoamento ético.

Ao falar de Deus como um ser ético deve entender-se por isso o seguinte: Deus exige do homem que proceda com bondade e que seja justo, não por um mero capricho de Deus, sim porque a bondade e a justiça são a essência do seu ser, são uma conseqüência inevitável de sua natureza. Uma coisa não é boa o mal porque Deus tenha assim feito ou deixado de fazer. Um feito é ético não porque Deus o queira, mas porque ele é ético. Deus, em sua essência, é generoso e justo, e como conseqüência disto, exige que o homem preceda com retidão e justiça. Eis a ética do Talmud.

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BIBLIOGRAFIA
1. Almeida, João Ferreira de. A Bíblia Sagrada. Sociedade Bíblica do Brasil, São Paulo, 1995;
2. Guinzburg, Iser. El Talmud. Biblioteca de Autores Judios, Buenos Aires, 1937;
3. Levinas, Emamnuel. Novas Interpretações Talmúdicas. Tradução de Marcos de Castro. Editora Civilização Brasileiro, Rio de Janeiro, 2002;
4. Levinas, Emmannuel. Do Sagrado ao Santo. Tradução de Marcos de Castro. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2001.

NOTA:
Este texto pode ser reproduzido e utilizado livremente, desde que citada a fonte e o autor.

Israel e a minoria árabe


Por: IBA MENDES (2005)

O Estado de Israel é um caso específico na história da formação das nações. A transformação radical da sociedade israelense em seus 53 anos, dificilmente pode ser comparada com a evolução de qualquer outra nação organizada nos tempos modernos. Israel nasceu e se desenvolveu sob a égide de uma meta: o Sionismo, que tinha como objetivo transformar as condições de vida da comunidade judaica dispersa pelo mundo; pretendia estabelecer um Estado moderno, independente, povoado por uma maioria judia. Tal fato concretizou-se em 14 de maio de 1948, no entanto, o objetivo foi por água abaixo em conseqüência das mudanças políticas, sociais, culturais e demográficas que o seguiram.

O Estado de Israel é formado por uma população multi-étnica, multi-cultural e multi-religiosa, que tem em comum, em termos gerais, a sensação de pertencer a uma só nação, e de ter uma história cultural e religiosa semelhante. Entretanto, existe uma minoria de origem nacional que se considera diferente, em termo étnicos, religiosos, culturais e lingüísticos, e por isso, sente-se discriminada, quanto à distribuição dos recursos financeiros e poder. Esta situação torna-se ainda mais complexa pelo fato da maioria da população viver fisicamente ameaçada e condenada a
um estado de guerra constante. Os laços étnicos, religiosos e culturais entre a minoria - os árabes - e os poderosos países vizinhos, perturbam ainda mais a relação maioria-minoria.

Os objetivos do movimento sionista e do Estado de Israel estão expressos na Declaração de Independência do Estado de Israel, divulgada
em Tel Aviv, em 1948. Este documento é de particular importância, pelo fato de que até os nossos dias, ainda que norteado por princípios, Israel não tem uma Constituição escrita. Devido à impossibilidade de lograr um acordo a esse respeito, o Knesset (Parlamento Israelense), renunciou a idéia de adotar uma constituição e resolveu promulgar uma série de Leis Básicas que haveria de se transformar em núcleos de uma futura lei fundamental. Como conseqüência desta situação, o Parlamento tem supremacia no sistema legal da nação.

A Declaração da Independência não significou uma lei positiva. No entanto, desfruta de um “status especial” no que diz respeito aos direitos básicos dos cidadãos israelenses. É empregada como uma espécie de guia para a interpretação das leis do Estado. A declaração proclama, de forma inequívoca, o caráter judaico do Estado. O
“Estado Judaico em Eretz Israel permanecerá aberto para a imigração dos judeu e para a reunião dos exilados”. As portas da nação não estão fechadas para os não-judeus, todavia, os imigrantes judeus gozam de um privilégio todo especial, que logo foi articulado pela Lei do Retorno e outras leis de cunho sionista, em matéria de absorção dos imigrantes, o que incluía a cidadania automática, algo que não podia ser oferecido aos outros. A mesma declaração sintetiza, em um único parágrafo, o que se pode denominar como a filosofia política do Estado:

O Estado de Israel promoverá o desenvolvimento do país para o bem de todos seus habitantes. Estará baseado em princípios de liberdade, justiça e paz, à luz dos ensinamentos dos profetas de Israel. Manterá uma completa igualdade de direitos sociais e políticos para todos seus cidadãos, sem distinção de credo, raça e sexo. Garantirá a liberdade de culto, consciência, idioma, educação e cultura. Salvaguardará os lugares santos de todas as religiões e será fiel aos princípios das Nações Unidas”.

É visível aqui o trato dado à minoria, principalmente no que concerne aos direitos de igualdade nos diversos setores da população.
O Estado de Israel, afirma a Declaração “por ser uma democracia, garante direitos iguais a todos seus cidadãos sem distinção de sexo, raça e credo. Assegura o gozo e o exercício, em condições semelhantes, os direitos humanos e liberdades fundamentais no campo político, civil, econômico, social e cultural, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com exceção das restrições impostas para a manutenção da ordem política e moral”. Porém, será que Israel tem cumprido todos os ditames dessa Declaração?

Sabe-se que Israel tem confirmado a Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, e a Corte Suprema de Israel tem invocado
“a doutrina fundamental dos direitos humanos, tal como foi formulada pela Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 aos Pactos sobre Direitos Civis e Políticos de 1966.

A igualdade ante a lei e a proibição da discriminação são princípios contidos em várias leis. Por exemplo, o Artigo 42 (i), da lei do trabalho de 1959, proíbe a discriminação
“contra toda pessoa por razões de idade, sexo, religião, grupo étnico, país de origem, ponto de vista e afiliação partidária, e quem precisa de um trabalhador, não negará a vaga a uma pessoa por nenhum desses motivos”. Desde 1951, rege uma Lei de Direitos Iguais para a Mulher, de tal forma que a Lei de Iguais Oportunidades no Emprego foi criada em 1981. De acordo com o artigo 9 da lei sobre o Conselho de Educação Superior, de 1958, foi promulgada uma regra que proibia a discriminação na matrícula de alunos e na escolha do professor no que diz respeito ao sexo, cor, raça, religião, origem nacional e posição social. Mesmo porque o sistema educacional, pelo menos teoricamente, almeja a “integração total sócio-nacional de diferentes comunidades étnicas” e “tem por objetivo servir de veículo para beneficiar a grupos menos favorecido socialmente e melhor desempenho acadêmico de estudantes de situação financeira escassa”. E em relação à minoria árabe?

Embora a minoria árabe esteja separada dos israelenses, sabe-se que ela não é homogênea na sociedade
em Israel. Trata-se de uma minoria propositadamente não-assimilada com uma permanente diferença cultural e separação social, determinadas por numerosos ajustes institucionais, tais como a lei de comunidades religiosas autônomas, concentração contínua de árabes um umas poucas regiões geo-culturais, localidades e bairros separados, e os Departamentos de Assunto Árabes especiais. Há quem afirme que os árabes em Israel gozam de um “status” de “separados porém iguais” e que o objetivo da política israelense é “controlar” a minoria, não os eliminando, mas absorvendo-os.

Teoricamente diz-se que os direitos civis e políticos do indivíduo e os direitos culturais dos árabes em Israel estão assegurados. Seus direitos e sua própria identidade estão preservados. Entretanto, estão excluídos do serviço militar obrigatório, não participam da estrutura de poder nacional, não há, por exemplo, um ministro árabe, etc.

Não obstante a comunidade árabe, e mesmo alguns meios de comunicação criticar o modo como Israel trata a minoria árabe lá estabelecida, sabe-se que o nível de vida dos árabes tem aumentado consideravelmente nos últimos tempos: tem surgido uma importante classe média e uma elite. Ademais, com a ascensão do nacionalismo palestino, os árabes de Israel tornaram-se mais ativos e militantes o que tem gerado nos últimos dias enorme tensão entre judeus e árabes, tensão essa cuja origem diz respeito tanto a situação política externa como as limitações institucionais e sociais das condições prevalecentes.

As aspirações árabes de minoria não estão claramente definidas. Obviamente, uma parte aspiram a condição de minoria nacional reconhecida, capaz de desempenhar um papel na elaboração da política nacional e de ter voz ativa nas decisões concernentes a seus próprios assuntos, e mais, obter uma igualdade absoluta em tudo que se relaciona com a modernização e distribuição de recursos. Outros, entretanto, desejam maior integração social, mesmo não pretendendo a assimilação. Em outro extremo da gama política, existem aqueles que visivelmente se opõem ao que se denomina de “órgão sionista” e defendem a destruição do Estado de Israel.

Os árabes não desfrutam dos projetos organizados mediante a Agência Judaica e outros organismos sionistas; muito menos podem obter os benefícios reservados para ex-membros das forças armadas. Várias comissões incumbidas de buscar meios para melhorar as condições da minoria árabe tem sido estabelecidas pelos Ministérios do Interior, Educação e Cultura, o Departamento do Primeiro Ministro e o Knesset. A política no tocante aos árabes liberalizou-se e as situações tidas como discriminatórias tem sido reavaliadas.

Em geral, até o momento não se fez programas específicos em favor da minoria árabe. Porém, a política de Israel em face dessa minoria está baseada em idéias democráticas (Democracia Étnica). Por exemplo, desenvolveu-se uma rede de educação completamente independente para a população árabe e os serviços educacionais estão concentrados em escolas separadas, na quais professores árabes ensinam às suas crianças em sua própria língua materna. É o mesmo plano que norteia as escolas judaicas.

Em relação ao ensino universitário, uma Associação para o Desenvolvimento da Educação e Cultura Árabe, apoiada por grupos de amigos no exterior, apresentou uma solicitação ao Conselho Superior de Educação para que permita estabelecer uma Universidade Árabe. A solicitação, contudo, foi rejeitada em virtude de que muito em breve não haveria de faltar universidades no país. Porém, o Conselho tomou nota das dificuldades existentes para estudantes árabes na transferência do colégio secundário para a Universidade e recomendou a revisão das condições de admissão desses estudantes. O Conselho também determinou
que o número de estudantes árabes nos programas preparatórios pré-universitários fosse consideravelmente aumentado e que a possibilidade desses estudantes freqüentarem outras instituições de educação superior, seja devidamente examinadas.

Em suma, o tratamento dado à minoria árabe por Israel, embora criticada, e às vezes tachada de discriminatória, não é uma questão tão simples assim. Em conseqüência dos constantes conflitos com os países árabes, principalmente com os povos palestinos, torna-se, se não impossível, pelo menos improvável uma radical mudança nas leis referentes a essa minoria. Por exemplo, os árabes exigem maior participação no mercado de trabalho, porém, ocorre que a maior parte das indústrias israelenses estão de algum modo ligadas ao exército, de modo que, dependendo do cargo que um árabe venha ocupar nesta indústria, haveria possibilidade de se descobrir “segredos” que não mão de fundamentalistas islâmicos poderiam ser fatais para a nação de Israel.

CONCLUSÃO
A criação do Estado de Israel foi o resultado de uma ação política baseada nos ideais do Sionismo, mediante a Organização Sionista Mundial, movimento voluntário de alcance universal. A formação de Estado Judeu reconhecido internacionalmente foi a principal pretensão dos sionistas, porém, não foi a única. O programa sionista, que Theodor Herzl delineara em seu livro O Estado Judeu, incluía, além dos elementos sociais e demográficos, um componente preponderante: a união étnica, cultural e religiosa do povo judeu.

Em suma, ao que parece, a única aspiração sionista verdadeiramente concretizada foi a criação de um Estado Judeu. Ademais, não há unidade religiosa, e os que não são religiosos vivem sob a égide dos ditames de pequenos partidos ortodoxos que a cada dia tem seu pode aumentado; não houve a grande reunião do exílio, pois a maior parte dos judeus ainda vivem dispersos, e o próprio Estado dependem deles financeiramente; também não há unidade étnica, sendo a minoria árabe uma prova cabal dessa realidade, e e o maior sonho dos sionistas, a paz, parece cada vez mais distante, devido, principalmente, a existência daqueles que, para os sionistas, eram ignorados, ou seja, a minoria árabe. A paz, a liberdade e a unidade em Israel existem, portanto, apenas em sonho... O sonho de Herzl continua sendo apenas um sonho:
“Creio que os judeus sempre terão inimigos, como qualquer outra nação. Mas, quando estiverem radicados em sua própria terra, jamais poderão ser dispersos pelo mundo inteiro... O mundo se libertará com nossa liberdade, se enriquecerá com nossa riqueza e se engrandecerá com nossa grandeza. E aquilo que ensaiamos em benefício próprio terá efeitos poderosos e felizes em prol de toda a Humanidade”.

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BIBLIOGRAFIA:
1. REVISTA RUMBOS - n 11 - deciembre de 1984. Organização Sionista Mundial, Jerusalém;
2. HERZL, Theodor. O Estado Judeu. Consulado Geral de Israel em São Paulo, 49 ed., 1997.

NOTA:
Este texto ser reproduzido e utilizado livremente, desde que citada a fonte e o autor.

Uma breve análise do texto "Picolépolis", de Rubem Alves

Por: Iba Mendes (a pedido de uma amiga, em 2005)

Picolépolis, muito mais do que uma narração alegórica, é um espelho que há muito vem refletindo a realidade do ensino superior no Brasil.

Durante muito tempo, “chupar um picolé”, isto é, ter um curso superior, era prerrogativa quase que exclusiva da classe socialmente mais favorecida de nossa sociedade; um privilégio que a elite brasileira ostentava com grande galhardia. Os pobres se contentavam com os “cachorros-quentes”, ou seja, o ensino médio, os cursos técnicos e profissionalizantes etc.

É bem verdade que sempre houve universidades públicas, as quais ofereceram e oferecem “picolés” gratuitamente. Todavia, são exatamente estes os picolés preferidos dos ricos. “Picolés brancos”, que podemos exemplificar com os cursos mais cobiçados, por exemplo, o curso de medicina, cabem apenas ao “paladar” dos filhos desses ricos. Mesmo os “picolés vermelhos, amarelos, verdes” etc. (metaforicamente os cursos menos concorridos), ainda estes, na universidade pública, eram (e ainda são) “saboreados” principalmente pelos que tinham ou têm condições de pagar por eles, uma vez que, na disputa no vestibular, estão mais preparados, afinal sempre estudaram em boas escolas desde a infância.

Sabedores dessa demanda, muitos empresários entraram no “mercado de picolés”, buscando assim ampliar ainda mais os seus lucros. Dessa forma o ensino transformou-se em verdadeira mercadoria, em negócio grandemente vantajoso, ou como escreveu Rubem Alves: “um mercado maravilhoso, inesgotável… com infinitas possibilidades”. Em cada esquina há uma “fabrica de picolés”, que os oferecem em variadas cores, ininterruptamente. São cursos para todos os gostos, no horário mais flexível e com os preços mais variados.

Contudo, não obstante o número de “fábricas de picolés” ter aumentando consideravelmente, e apesar de haver picolés em número inesgotável, ainda assim milhares de pessoas permanecem sem condições de adquiri-los. E o pior, mesmo os que, a custo de muito esforço e economia, conseguem “comprar” tais “picolés”, após “saboreá-los”, ficam com o “palito” na mão sem saber o que fazer com ele.

São milhões de diplomas entregues diariamente no país, os quais, na sua maior parte, apenas servirão como símbolo de status que será com o tempo destruído pelas traças, ou que permanecerá numa moldura como uma espécie de “honra ao mérito”, apenas isso. Os “picolés” são tantos que o mercado já está saturado deles. Como conseqüência disso, pessoas formadas em Direito, Engenharia, Economia, Jornalismo, Letras, Pedagogia etc. acabam trabalhando em restaurantes, comércio ambulante, supermercados, padarias etc. Tais pessoas, embora estejam em posse das “chaves”, não conseguem “portas” para abri-las. Têm o diploma de curso superior, mas estão impossibilitadas de ascenderem financeiramente com eles. Não sabem o que fazer com eles. Como afirmou o autor de “Picolépolis”: “As chaves que as universidades a faculdades produzem só são boas se abrem as portas de trabalho”. Do contrário servirão apenas como meros amuletos para os que sempre estarão a sonhar com uma vida melhor.

É isso!

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Fonte da imagem:
Oneinchpunch

Darwin e a causa neo-ateísta


Qual, dos grandes vultos históricos, teria melhor credencial ideológica para representar a causa neo-ateísta?

Talvez Karl Marx, que se referiu à religião como o “ópio do povo”; ou, quiçá, Stalin, Mão Tse Tung e Fidel Castro, que perseguiram os religiosos e mandaram fechar as igrejas. Indo mais longe, pode-se aventar o nome de Epicuro, o qual, embora não fosse propriamente ateu, desdenhou dos deuses, afirmando não haver motivos para temê-los, quer na vida ou quer após a morte. Temos ainda o escritor português José Saramago, que via a Bíblia como um “manual de maus costumes” e que desaconselhava sua leitura entre os jovens; também podemos fazer menção de Friedrich Wilhelm Nietzsche, o qual proclamou “a morte de Deus” e atacou frontalmente a fé cristã. Outros nomes poderiam ainda ser lembrados, tais como: Charlie Chaplin, que professou seu ateísmo, segundo ele, pelo “simples senso comum”; Sigmund Freud, que via a religião como uma neurose obsessiva; o músico inglês John Lennon, que dizia acreditar apenas em si próprio; Isaac Asimov, que via a Bíblia como a maior arma a favor do ateísmo. E, por fim, pode-se pensar no ícone atual do novo ateísmo, o ideólogo Richard Dawkins, que afirmou ser a fé um dos maiores males do mundo, comparável ao vírus da varíola, porém mais difícil de erradicar.

Razões não faltam para se eleger um desses nomes como o “melhor representante” do não-Deus ou do anti-religião; porém, é o nome de Charles Darwin que se desponta no horizonte alvoroçado desses novos ateus; Darwin é o nome mais lembrado e o que mais se liga à causa neo-ateísta, atualmente. Prova disso é a data que se escolheu para assinalar aquilo que eles denominaram de “O Dia do Orgulho Ateu”, ou seja, o dia 12 de fevereiro, o mesmo do nascimento do naturalista inglês e autor do “A Origem das Espécies”.

Não é à toa que a Evolução, para esses novos ateus, transformou-se num evento essencialmente ateísta e o que mais contrasta com a ideia de um Deus criador. Sem dúvida um enorme obstáculo aos darwinistas de tendências religiosas. Ademais, a luta inglória dos devotos de Darwin em elevar à Teoria da Evolução ao status de lídima ciência, só perde com isso, afinal, faz com que ela (A Teoria da Evolução) seja cada vez mais vista pelos crentes como uma opositora de suas crenças e, consequentemente, como um estorvo para a fé em Deus. E assim caminha a mediocridade...

É isso!

A secular estupidez de nossos políticos



Denominar os políticos de estúpidos, em si já é um jibóico pleonasmo. Em se tratando do político brasileiro, esse redundante vício de linguagem se transmuta naturalmente para uma bela “figura de estilo”. Isso não é lá nenhuma novidade...

Há quase 100 anos, mais precisamente no dia 27 de outubro de 1917, a prestigiada revista “Careta” publicou uma crônica que, se não fora o estilo e o contexto histórico, diria tranquilamente que foi escrita ainda ontem, tamanha é a semelhança com os dias de hoje. Com o título “Mau Humor”, o autor define com exemplar maestria o verdadeiro caráter do político tupiniquim: “A política, como a fazem os políticos de nosso país, homens de apurada esperteza, instintos rasteiros, inteligência vulgar e inculta, é uma complicação monótona que se repete estupidamente, sem notáveis variações na incongruência dos seus painéis”. Tratando da educação entre tais estadistas, escreveu: “Ignorantíssimos, os nossos homens de estado acreditam que não há necessidade de aprender o alfabeto para governar um país e como não sabem distinguir o bom do pior, julgam que agiram como sábios ao praticar vergonhosos atos que empurram a nossa gente para a treva e metem a nossa terra na desordem do caos”. E mais adiante: “Entre os trezentos cavalheiros que recebem contos de réis mensais para desempenhar na elegância legislativa do nosso parlamento o galante papel dos trezentos de Gideão da crônica bilacqueana, não há trinta que tenham lido a constituição mas há certamente quatro ou seis que não crêem na existência desse afamado monumento de adaptação às normas de uma nacionalidade de outra raça”. E com divertida ironia cita um exemplo bem típico da época: “Não queremos levar o nosso arrojo ao extremo de perguntar ao dr. Wenceslau Braz se leu o Código a que o ministro Carlos Maximiliano quis dar o nome presidencial mas estamos convencidos que se lhe perguntássemos a quanto montava, S. Ex. pigarrearia durante três meses antes de responder com um vago palpite”. Quanto à burocracia (ou “burrocracia”), tão peculiar entre nossos reverenciados magistrados, acrescenta o autor: “Fazemos tudo ao caso, sem plano, perdendo tempo em construções que são abandonadas quando se muda de operários, porque, com a nossa desorientação, um operário nunca aprova o esboço do edifício ideado pelo confrade a quem substitui e sempre imagina um palácio que não pode acabar no prazo imposto ao seu trabalho”. Sintetizando aquilo que melhor define nossos doutos políticos e nossa política, emenda: “O nosso país é o único grande país em que a política é uma profissão, e o político é um parasita que vive de ser político”. E finaliza com uma indagação historicamente contextualizada e acentuadamente provocativa: “Um rei de França acabou na forca. O czar da Rússia está no exílio. Como findarão os seus dias os responsáveis pelas nossas desgraças nacionais?”

94 anos depois...

Como findarão os seus dias os responsáveis pelas inúmeras injustiças sociais que ainda consomem a vida do nosso sofrido povo? Como findarão os seus dias os responsáveis pela onda de corrupção que faz desviar o dinheiro público o qual deveria servir para melhorar a saúde e a educação da nossa gente? Quantos séculos ainda serão necessários para que esses mesmos parasitas continuem dirigindo nossos destinos?

É esperar para não ver...

É isso!

O darwinismo medieval

É amplamente conhecida a opressora atuação da Igreja em todos os âmbitos da sociedade durante a longa Idade Média. Em relação, por exemplo, aos intelectuais, sabe-se que eles não deveriam jamais ultrapassar os estreitos limites estabelecidos pelos líderes religiosos, o que poderia culminar numa perigosa acusação de “heresia”. Tudo o que a Igreja decretava como verdade, seja na esfera da fé ou da razão, deveria ser aceito incondicionalmente como sendo realmente a “verdade”. Desta forma, se a Igreja afirmava que o Sol girava em torno da Terra, ainda que houvesse provas contrárias, prevalecia sempre sua arbitrária “verdade”. Todos conhecem o caso do cientista italiano Galileu Galilei que, por apoiar a teoria de Copérnico de que o Sol (e não a terra) constituía-se o centro do nosso sistema planetário, foi preso pela Inquisição, tendo de atenuar suas convicções, visto que não corroboravam com o entendimento oficial da igreja.

Bom. A Inquisição se foi, e com ela seguiu-se a reboque toda a opressão exercida aos que ousam pensar diferente dos dogmas da igreja. Em 1978, o papa João Paulo II declarou: "A Inquisição é um capítulo doloroso do qual os católicos devem se arrepender". E, não obstante a perseguição aos intelectuais ainda persistir entre muitos grupos religiosos ao redor do mundo, nos países democráticos ela já se tornou sombra de um passado que não quer se repetir. Religião e ciência, hoje, excetuando esses grupos religiosos fundamentalistas, convivem pacificamente, com raríssimos confrontos no âmbito ético-moral.

Sendo assim, por que determinadas vertentes consideradas “científicas” ainda hoje sentem tanto temor de que uma “conspiração religiosa” venha aterrar as novas descobertas da ciência, como é o caso de boa parcela dos defensores da Teoria da Evolução, de Charles Darwin?

Pessoalmente desconheço casos semelhantes ao que ocorre no seio do darwinismo. O medo de que a Teoria da Evolução seja banida das pautas escolares transformou-se, para muitos dos devotos de Darwin, numa patológica mania de perseguição, como se a vulnerabilidade científica de seus dogmas afetassem toda a ciência, incluindo a descoberta de cura para a AIDS. Tratam a ciência como fosse um frágil rival da religião, daí todo esse desespero que até parece fugir de uma boa explicação freudiana.

Semelhantemente à Igreja medieval, esses devotos de Darwin não aceitam quaisquer contestações, as quais, na prática, transformaram-se em “perigosas heresias”. Para eles há uma só verdade, a qual deve ser preservada a todo custo. A situação é tal hoje, que qualquer cientista que apresente uma alternativa genuína a seus “dogmas científicos” logo é silenciado, sob o risco de ser mandado ao ostracismo acadêmico, sendo em consequencia disso rotulado dos mais variados adjetivos com conotações religiosas. É o medievalismo às avessas, patologicamente às avessas...

É isso!

"A outra face de Darwin"

Acabou o “ano de Darwin!”


Todavia, certamente não se irão os aplausos solenes, os cortejos servis, as bajulações excessivas e os louvores não fingidos ao “homem que teve a idéia mais brilhante do mundo.” Não me lembro de um vulto histórico que tenha recebido tantas homenagens quanto o naturalista Charles Darwin, em seu 200º aniversário.

Ele não descobriu remédios para curar enfermidades, não criou leis para diminuir as desigualdades sociais entre os homens, não elaborou projetos para o bem estar das sociedades, não se engajou em prol da harmonia entre os povos, não inventou máquinas para ajudar as pessoas nos seus labores diários, não formulou conceitos a partir dos quais a guerra e a violência fossem suprimidas do convívio humano, não trouxe, enfim, nenhuma contribuição realmente significativa para as práticas médicas, no entanto, ainda assim foi aplaudido como um grande libertador. Por quê?

Simples. Darwin “revolucionou” a moral humana, “destronando” o homem de seu “pedestal divino”, “mostrando” sua "ínfima origem" e aniquilando a pretensão religiosa de um ser maravilhosamente coroado por Deus. Ou seja, a grande e espetacular contribuição de Charles Darwin ao mundo está pautada essencialmente em questões de natureza filosófica, e não naquilo que se pode testar em tubos de ensaio no laboratório. Daí todo esse interesse por sua vida e obra.

Se as homenagens dadas a Darwin fossem realmente conseqüências de suas realizações científicas, o mesmo deveria ser feito, por exemplo, em relação a Isaac Newton, Louis Pasteur, Antonine Lavoisier, Albert Sabin entre outros grandes cientistas, esses sim que tornaram o mundo muito melhor com suas descobertas. Aliás, Darwin nada fez que Wallace não tenha feito. A sua única “vantagem” foi ter nascido num berço de ouro e de ter conquistado a simpatia da Academia mediante seu status social na sociedade inglesa. Não fora isso, o pobre Wallace também teria sua hora vez, assim como teve “Augusto Matraga” ((rs)).

Bem, mas aqui a gente mata a cobra a mostra a cobra!

Inicio o ano desmascarando mais uma vez essa a falsa imagem de um Darwin que lutou por “uma causa sagrada”. Não tenciono, é claro, desmerecer os feitos filosóficos deste naturalista. Absolutamente. Também seria muita ingenuidade buscar desprestigiar a Teoria da Evolução por meio do que se segue. De forma alguma. Meu único objetivo e tentar, ainda que inutilmente, mostrar nesse banal blog da Internet, a outra face de Darwin.

Certa feita, quando debatia acerca das intenções racistas de Darwin, um desses seus apaixonados admiradores, acusou-me de “
obsessão religiosa recalcada e iracunda”. Vá lá, todos tem sua própria “obsessão”: futebol, política, religião etc. A minha é descer a lenha em ideologias travestidas de ciência, como é o caso de certa vertente darwinista.

Bom, mas a questão que vou tratar é: teve Darwin aspiração eugenista? Ou será que apenas nutria de um racismo bem próprio à época?

Uma das besteiras mais comuns da galera de Darwin quando na sua defesa, diz respeito a falso argumento da “unanimidade”. – Darwin - dizem eles - era tão racista quanto qualquer outra pensador que viveu naquele instante histórico. Mas não preciso ir muito longe para desfazer essa falsa retórica. Machado de Assis fora contemporâneo de Darwin e, no entanto, jamais defendeu qualquer postura racista. – Ah, porque ele era mulato! Mas o racismo não se manifesta apenas em relação ao negro. O racismo de Hitler, por exemplo, era contra seu próprio povo considerado “inferior” por ser judeu. Ademais, temos ainda aqui no Brasil o grande exemplo de Castro Alves, autor do estupendo “Navio Negreiro”:

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!


A seguir, vou postar um texto-base de autoria de Charles Darwin, e a partir dele farei menção de quatro autores, todos abordando o assunto em questão.


CHARLES DARWIN – EM “A ORIGEM DO HOMEM”:
"O homem analisa escrupulosamente o caráter e a ascen­dência dos seus cavalos, do seu gado e dos seus cães antes de acasalá-los; mas, quando chega a época das núpcias, ra­ramente ou nunca toma semelhante cuidado. Ele é levado por motivos quase análogos àqueles dos animais inferiores, quando são entregues à sua livre escolha, embora seja tão superior a eles que pode avaliar altamente as qualidades mentais e as virtudes. Por outro lado, sente forte atração pela simples riqueza ou pela posição. Todavia, mercê da se­leção, ele poderia de algum modo agir não só sobre a estru­tura física e a conformação óssea da sua prole, mas sobre as suas qualidades intelectuais e morais. Ambos os sexos de­veriam abster-se do matrimónio se acentuadamente fracos no corpo e na mente; mas estas esperanças são utópicas e nunca serão concretizadas nem mesmo parcialmente, enquanto as leis da hereditariedade não forem conhecidas amplamente. Todo aquele que prestar alguma ajuda para se colimar este fim estará fazendo obra boa. Quando os princípios da pro­criação e da hereditariedade forem melhor conhecidos, não ouviremos mais alguns membros ignorantes da nossa legisla­tura rejeitar com desprezo um plano que tente a verificar se o matrimónio entre consanguíneos é ou não prejudicial ao homem.

O progresso do bem-estar do g
énero humano é um pro­blema mais complexo: todos aqueles que não podem evitar a pobreza para os próprios filhos deveriam evitar o matrimó­nio; na verdade, a pobreza não só representa um grande mal, mas tende ao próprio incremento, levando à desconsideração do matrimónio. Por outro lado, Galton observou que, se o prudente evita o matrimónio enquanto que o incauto se casa, os membros inferiores tendem a suplantar os membros me­lhores da sociedade. Como qualquer outro animal, o homem sem dúvida chegou à sua atual condição elevada através de uma luta pela existência, devida ao seu rápido progresso; se deve progredir ainda mais, teme-se que deva estar sujeito a uma dura batalha. Se assim não fosse, chafurdaria na indo­lência e os mais dotados não teriam mais êxito na luta pela vida do que os menos dotados. Por isso a nossa natural taxa de aumento, embora leve a muitos prejuízos óbvios, não deve ser de algum modo muito reduzida. Deveria estar aberta a competição para todos os homens; e com as leis e os costu­mes não se deveria impedir que os mais capazes tivessem melhor êxito e que criassem o maior número de filhos. Por mais importante que a luta pela existência tenha sido e ainda continue sendo, contudo no que diz respeito ao desenvolvi­mento das qualidades mais elevadas da natureza humana exis­tem outros fatores mais importantes. Com efeito, as quali­dades morais progrediram, tanto direta como indiretamente, muito mais por efeito do hábito, das faculdades raciocinantes, da instrução, da religião, etc., do que pela seleção natural; muito embora a esta última se possam com segurança atribuir os instintos sociais, que constituíram a base para o desenvol­vimento do senso moral.

A conclus
ão principal a que se chegou nesta obra, isto é, a de que o homem descendeu de alguma forma menos orga­nizada, nem sequer gosto de pensar, desagradará bastante a muitos. Mas dificilmente podemos duvidar que não tenhamos descendido de bárbaros. Jamais esquecerei o espanto que tive quando pela primeira vez vi uma reunião de fueguinos numa praia selvagem e impérvia, diante da ideia que logo me veio à mente — assim eram os nossos antepassados. Esses homens estavam completamente pelados e tinham o corpo pintado, com os longos cabelos emaranhados, as bocas espu­mavam de excitação e tinham uma expressão selvagem, apa­vorada e cheia de suspeita. Malmente tinham alguma arte e viviam como animais selvagens daquilo que conseguiam capturar e eram impiedosos com o que não fosse da sua tribo. Quem tiver visto um selvagem em sua terra nativa não sentirá muita vergonha se for constrangido a reconhecer que em suas veias corre o sangue das mais humildes criaturas. Quanto a mim, quisera antes ter descendido daquela pequena e heróica macaquinha que desafiou o seu terrível inimigo para salvar a vida do próprio guarda; ou daquele velho babuíno que, des­cendo da montanha, levou embora triunfante um companheiro seu jovem, livrando-o de uma matilha de cães estupefatos, ao invés de descender de um selvagem que sente prazer em tor­turar os inimigos, que encara as mulheres corno escravas, que não conhece o pudor e que é atormentado por enormes su­perstições.

Releva-se ao homem se sente algum orgulho por ter gal­gado, embora n
ão por méritos próprios, o cume da escala dos viventes; e o fato de ter-se elevado desta maneira, ao invés de ter sido colocado ali desde as origens, pode permitir que se embale na esperança de um destino ainda mais elevado num futuro longínquo. Mas acontece que aqui não nos ocupa­mos de esperanças e de temores e sim apenas da verdade, pois a nossa razão nos permite descobri-la e para tanto apresentei provas dentro do máximo das minhas capacidades.

Contudo, cumpre que reconhe
çamos — pelo menos é o que me parece — que o homem, com todas as suas nobres qualidades, com a "simpatia" que experimenta pêlos mais in­fortunados, com a benevolência extensiva, não somente a todos os homens-, mas às mais humildes criaturas viventes, com o seu intelecto quase divino que penetrou nos movimen­tos e na estrutura do sistema solar, com todos estes enorme? poderes — cumpre reconhecer que ele traz ainda na sua es­trutura física a marca indelével da sua ínfima origem."

Fonte:CHARLES DARWIN. “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”. Tradução: Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca. Hemus Livraria Editora LTDA. São Paulo, 1974, p. 710-712.

COMENTÁRIOS:

1 – NÉLIO BIZZO (darwinista professor da Universidade de São Paulo), EM "O QUE É DARWINISMO":

“A idéia de
que o darwinismo era uma doutrina que se aplicava apenas aos seres vivos não-humanos é outra versão absolutamente incorreta. No Origem das Espécies, Darwin passa comodamente ao largo das implicações de sua teoria com o homem. No entanto, no seu Origem do homem, ele penetra na questão e aí, suas opiniões deixam pouca margem de dúvida.

Darwin
e seu primo Francis Galton, juntamente com uma série de pensadores seus contemporâneos, acreditavam que a “raça” humana poderia ser melhorada se fossem evitados “cruzamentos indesejáveis”. A sociedade era vista com uma clara divisão: de um lado, os membros “superiores”, sadios, inteligentes, ricos e, obviamente, brancos; do outro lado, os membros “inferiores”, mal nutridos, doentes, pobres, de constituição racial duvidosa. Estes deveriam ser impedidos de se reproduzirem, pois acabariam por “rebaixar toda a raça”. A evolução biológica do homem poderia ser “acelerada”, limitando-se os mesmos rituais de seleção “vistos” na natureza. Os mais aptos, evidentemente, estavam entre os indivíduos das classes dominantes.

Darwin
chegava até a prever a completa extinção de raças inteiras, consideradas “inferiores”. Escreveu pouco antes da morte, numa carta de 1881: “Eu poderia esforçar-me e mostrar o que a seleção natural fez e ainda faz para o progresso da civilização, mais do que aquilo que pareceis admitir.Lembrai-vos do perigo que correram as nações européias, alguns séculos atrás, de serem esmagadas pelos turcos e de quanto este idéia nos parece ridícula hoje em dia. As raças mais civilizadas, que chamamos de caucásicas, bateram os turcos em campo raso na luta pela existência. Fazendo um relance sobre o mundo, sem olhar num porvir muito longínquo, quantas raças inferiores serão em breve eliminadas pelas raças que têm um grau de civilização superior!”

Se lembrarmos do jovem naturalista na Austrália, veremos que era exatamente este o raciocínio que utilizou para prever o futuro do canguru: seria dizimado pelos magricelas galgos ingleses. Se esta previsão estava errada, desgraçadamente Darwin
acertou com relação aos “civilizados”: assassinaram impiedosamente os povos primitivos que não aceitaram a submissão ao seu domínio.

No Origem do homem, deixava muita claras suas posições racistas:

"A seleção permite ao homem agir de
modo favorável, não somente na constituição física de seus filhos, mas em suas qualidades intelectuais e morais (sic). Os dois sexos deveriam ser impedidos de desposarem-se quando se encontrassem em estado de inferioridade muito acentuada de corpo ou espírito”. E mais adiante: Todos aqueles que não podem evitar uma abjeta pobreza para seus filhos deveriam evitar de se casar, porque a pobreza não é apenas um grande mal, mas ela tende a aumentar; (...) enquanto os inconscientes se casam e os prudentes evitam o casamento, os membros inferiores da sociedade tendem a suplantar (em número) os membros superiores. Como todos os animais, o homem chegou certamente ao seu alto grau de desenvolvimento atual mediante luta pela existência, que é conseqüência de sua multiplicação rápida; e, para chegar a um mais alto grau ainda, é preciso que continue a ser mantida uma luta rigorosa (...). Deveria haver concorrência aberta para todos os homens e dever-se-iam fazer desaparecer todas as leis e todos os costumes que impedem os mais capazes de conseguir seus objetivos e criar o maior número possível de crianças.

O grande Charles
Darwin não declara expressamente a que grupo pertencia. Mas pelo fato de ter tido dez filhos e de ser uma pessoa rica, deduz-se facilmente...

É comum dizer-se que
Darwin não afirmou que o homem descendia do macaco. Darwin dizia coisa muito pior. Seu racismo não o abandonava. Afirmava que o homem descendia dos selvagens! E não parava aí. Dizia que preferia descender de um forte e valente macaco, do que ter um desses selvagens como ancestral.

A aplicação de
sua teoria ao homem, ou, mais propriamente, e extensão ao organismo humano dos valores burgueses de propriedade privada e acumulação, resultou no que se chamou eugenia. O melhoramento da raça através de recomendações da eugenia eram os ideais do nazismo. O Estado Nazista não era portanto nada mais do que um Estado capitalista onde a melhoria do corpo dos cidadãos fazia parte da estratégia global de aumento do produtividade.

Hitler garantia procriação aos cidadãos alemães e possuíssem cabelos loiros, boa estrutura, queixo bem formado, nariz fino a arrebitado, olhos claros e profundos e pele rosado. Os homens selecionados poderiam ingressar na tropa de
elite, a SS, e poderiam ter o número de filhos que desejassem, sem precisar casar. O Estado cuidaria de criar e educar tais crianças, segundo os ideais do nazismo. A trajetória do nazismo é bem conhecida. As Câmaras de gás e os seis milhões de assassinatos, também... O que pouco se fala é que os Estados Unidos também adotavam políticas eugenistas na mesma época...”.

Fonte:
Nélio Marco Vizenzo Bizzo: “O que é Darwinismo” – Editora Brasiliense – páginas: 67 a 712.


2 - MARCEL BLANC, EM "OS HERDEIROS DE DARWIN":
"A eugenia (como vimos no primeiro capítulo) foi uma doutrina fundada em 1883 pelo primo de Darwin ,Francis Galton (1822-1911). Tinha como objetivo aperfeiçoar a raça (leia-se raça superior) encorajando a reprodução dos indivíduos mais dotados (leia-se os inventores, os dirigentes, etc.), e desencorajando a dos menos aptos. As ligações do darwinismo social com o racismo científico foram meticulosamente elaborados pelo antropólogo francês Georges Vacher de Lapouge (1854-1936), que publicou, notadamente, uma obra intitulada L' Aryen. Para ele, o sucesso social estava relacionado ao fato de se pertencer a uma raça, e as raças eram desiguais, algumas superiores, como os arianos, outras inferiores (judeus, negros, etc.).

Vacher de Lapouge criticava o darwinismo social e é preciso reconhecer que alguns trabalhos de Darwin caminhavam no sentido do racismo científico.

Um bom número de biólogos atuais dificilmente o aceitam e chegam a negá-lo pura e simplesmente. No entanto, mesmo o título completo da principal obra de Darwin é por demais explícito:
Sobre a origem das espécies por meio da seleçãoção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela existência. E em The Descent of Man, algumas passagens são claras.

Darwin escreveu neste livro que existe uma hierarquia das raças, com as inferiores sendo representadas pêlos selvagens (os negros da África e da Oceania; os índios da América do Sul, etc.); as superiores pêlos civilizados, com as nações européias representando o topo da civilização, segundo a expressão do próprio Darwin. E acrescenta: foi a evolução por meio da seleção natural que conduziu imperceptivelmente, por gradações sucessivas, raças inferiores a superiores.

Reconhece-se aqui a aplicação dessa teoria evolucionista, por ele estabelecida, ao homem: a transição gradual
de um tipo de população a outro, mais evoluído. De acordo com ele, em todos os estágios da evolução da espécie humana, sempre houve duas categorias de seres humanos: os intelectualmente superiores e os inferiores. Desde a pré-história, os primeiros sempre tiveram mais sucesso em todas as atividades e deixaram um número maior de filhos.

Foi assim que a inteligência humana progrediu e que as raças superiores foram formadas.
Aliás, nessa obra, Darwin reconheceu que seu primo Galton tinha razão: nas nações mais civilizadas, comete-se o erro de contrariar o processo de eliminação pela seleção natural com a instituição de diversas formas de auxílio aos pobres, de hospitais para os doentes, etc. ("nossos médicos vão inclusive fazer o melhor possível para salvar qualquer pessoa", impressiona-se)”.

E nas últimas páginas
de The Descent of Man, Darwin apregoa de modo totalmente explícito sua adesão aos ideais eugenistas de seu primo: "Os membros tanto de um sexo como de outro deveriam abster-se de se casar em caso de inferioridade manifesta no corpo ou no espírito." Alfred Russel Wallace disse, aliás, que em uma de suas últimas conversas com Darwin (antes de sua morte) este teria expresso um ponto de vista pessimista quanto ao futuro da humanidade: Se Darwin foi incontestavelmente um darwinista social, um racista científico e um eugenista convicto, a posteridade dessas doutrinas revelou-se sinistra (e é sem dúvida por isso que muitos cientistas abominam a idéia de associar Darwin a essas correntes). Em nome da eugenia, esterilizou-se nos Estados Unidos, entre 1900 e 1940, quase 36 mil pessoas: doentes mentais, todos os tipos de desviados (marginais, vagabundos, etc.) ou, de modo mais geral, pessoas que tiveram o azar de encontrar-se sem recursos e viram-se internadas em algum hospital psiquiátrico por alguma (má) razão.

Mas muitos outros países democráticos também conheceram ondas de
esterilização antes da Segunda Guerra Mundial, pela instigação das ligas eugenistas a que se associavam um bom número dos neodarwinistas mais eminentes (como por exemplo, o matemático R. Fisher, da Grã-Bretanha).

Sabemos que as teorias de
Vacher de Lapouge e de Galton foram especialmente retomadas por Hitler e pêlos ideólogos nazistas como bem entenderam (o darwinismo social, por sua vez, foi propagado na Alemanha a partir do final do século XIX pelo discípulo alemão de Darwin: Ernst Haeckel, biólogo ainda de grande renome). Sem dúvida, não é exagerado dizer que o Estado racial desejado por Hitler, assim como sua doutrina da luta das raças, que culminou com o genocídio de judeus e de ciganos, deve uma boa parte de seus fundamentos ao darwinismo social, à eugenia e ao racismo científico”.

Fonte:
Marcel Blanc: “Os Herdeiros de Darwin”. Editora Scritta. São paulo, 1994, p. 184-187.



3 - JOSÉ OSVALDO DE
MEIRA PENNA (ex-professor da Universidade de Brasília (UnB) de 1982 a 1989, autor de, entre outros: “Nietzsche e a Loucura”): EM “POLEMOS: UMA ANÁLISE CRÍTICA DO DARWINISMO”:

“Em A descendência do homem e a seleção sexual, que apareceu pela primeira vez em 1871, Darwin
expressa opiniões similarmente notáveis que resumem sua postura filosófica quanto ao problema da seleção e da contra-seleção, aplicadas ao homem. O eugenismo aí está implícito. O eugenismo e a crítica a certos efeitos anti-seletivos da civilização moderna - argumentos que serão, futuramente, aproveitados de modo peculiar. Vejamos o que diz o biólogo:

Com os selvagens, os indivíduos fracos de
corpo e de espírito são prontamente eliminados e os sobreviventes não tardam, ordinariamente, a se fazer notar por sua saúde vigorosa. No que diz respeito a nós, homens civilizados, fazemos pelo contrário todos os esforços para deter a marcha da eliminação; construímos hospitais para os idiotas, os achacados e os doentes; fazemos leis que prestam assistência aos indigentes; nossos médicos esforçam-se com toda a sua ciência para prolongar ao máximo a vida de cada um... Os membros mais débeis podem assim reproduzir-se indefinidamente. Ora, quem quer que se tenha ocupado da reprodução dos animais domésticos sabe, sem dúvida, como essa perpetuação dos seres débeis deve ser prejudicial à raça humana. Nosso instinto de simpatia nos induz a socorrer os infelizes. A compaixão constitui um dos produtos acidentais que adquirimos, no princípio, do mesmo modo como os outros instintos sociais de que faz parte. A simpatia, aliás, tende sempre a tornar-se mais larga e mais universal. Não saberíamos restringir nossa simpatia, mesmo se admitirmos que a razão inflexível disso fizesse uma lei, sem prejudicar a parte mais nobre de nossa natureza...

Devemos portanto sofrer, sem nos queixar, os efeitos incontestavelmente perversos que resultam da persistência e da propagação dos seres débeis. Parece, contudo, que existe um freio a essa propagação, no sentido
de que os membros malsãos da sociedade se casam menos facilmente do que os membros sãos. Esse freio poderia ter uma eficácia real se os fracos de corpo e de espírito se abstivessem do casamento. Mas é isso uma situação que é mais fácil desejar do que realizar”.

Em outros trechos, parece Darwin
lamentar que o homem civilizado procure anular, graças à medicina, o processo de eliminação dos inferiores. A vacina descoberta por Pasteur e Jenner estava preservando milhares cuja constituição franzina teria sucumbido à varíola ou à peste. "Assim os mem¬bros fracos da sociedade civilizada se propagam" e "ninguém duvida que isso é prejudicial à raça do homem". Comparando essa prática com a iniciativa inteligente do próprio homem quando domestica os animais, Darwin estava, sem se dar conta, lançando as bases de uma concepção de eugenismo radical que encontraria sua suprema e mais terrível expressão no racismo nazista”.

Não seria Hitler darwinista? E Himmler, e Rosenberg, e Mengele e os SS também?

Aliás, o próprio Nietzsche, tão infenso ao nacional-socialismo estatizante alemão, também escreveria na coletânea do Wille zur Macht que, para gerar o super-homem, seria necessário "formar o homem futuro pela educação seletiva (Züchtung) e, por outro lado, aniquilar milhões de
malogrados".

Naquela obra, em seus aforismos 397 e 398, Nietzsche volta repetidamente ao tema eugenista. Sabemos que o eugenismo hitleriano adotou metodicamente o programa e que. mesmo antes do Holocausto e do início da guerra em 1939, já estava esterilizando e, mais tarde, assassinando em massa os imbecis, os mentecaptos, os doentes incuráveis, os homossexuais e os incapacitados de
várias espécies.

A eugenia justificou o genocídio: os cálculos variam entre 11 e 26 milhões de
massacrados das raças ditas "inferiores" -judeus, russos, poloneses, ciganos, iugoslavos, etc”.

Fonte:JOSÉ OSVALDO DE MEIRA PENNA. “Polemos: uma análise crítica do darwinismo. Editora UnB (da Universidade de Brasília). Brasília, 2006, p. 235, 236.


4 – DENIS BUICAN (professor na Universidade de Paris X e doutor em Ciências Naturais e Ciências Humanas pela Sorbonne): EM “DARWIN E O DARWINISMO”:

Para Darwin, a jóia da civilização europeia é o mun­do anglo-saxão: "A superioridade notável que tiveram, so­bre outras nações europeias, os ingleses, como coloniza-dores, superioridade atestada pela comparação dos pro­gressos realizados pêlos canadenses de origem inglesa com os de origem francesa foi atribuída à sua 'energia persistente e à sua audácia'; mas quem poderia dizer como os ingleses adquiriram essa energia? Certamente, há muita verdade na hipótese que atribui ã seleção na­tural os maravilhosos progressos dos Estados Unidos, assim como o caráter de seu povo; os homens mais cora­josos, mais enérgicos e mais empreendedores de todas as partes da Europa emigraram durante as dez ou doze últimas gerações, para irem povoar esse grande país e lá prosperaram."

Assim, Darwin volta
à sua teoria da seleção natu­ral, para explicar o progresso da humanidade e dos po­vos: "Se não tivesse sido submetido à seleção natural durante os tempos primitivos, o homem, certamente, nunca teria atingido a posição que ocupa hoje. Quando vemos, em muitas partes do mundo, regiões extremamen­te férteis, povoadas por alguns selvagens errantes, en­quanto poderiam alimentar numerosas famílias próspe­ras, inclinamo-nos a pensar que a luta pela existência não foi suficientemente rude para forçar o homem a atin­gir seu estado mais elevado."

Falando da a
ção da seleção natural sobre as nações "civilizadas", Darwin fica muito próximo das ideias de Wallace e Galton, isto é, da eugenia: "Entre os selvagens, os indivíduos fracos de corpo ou de espírito são pron­tamente eliminados, e os sobreviventes são geralmente notáveis por seu vigoroso estado de saúde. Quanto a nós, homens civilizados, fazemos, ao contrário, todos os es­forços para deter a marcha da eliminação; construímos hospitais para os idiotas, os inválidos e os doentes; fa­zemos leis para ajudar os indigentes; nossos médicos utilizam toda a sua ciência para prolongar, tanto quanto possível, a vida. Podemos crer que a vacina preservou milhares de indivíduos que, fracos de constituição, te­riam outrora sucumbido à varíola. Os membros débeis das sociedades civilizadas podem, pois, reproduzir-se in­definidamente. Ora, quem trata de reprodução de ani­mais domésticos sabe perfeitamente quanto essa perpe­tuação dos seres débeis deve ser nociva à raça humana".

Apesar desse temor pela descend
ência do homem, na ausência da seleção natural, Darwin, moderado por uma concepção humanista, não leva seu raciocínio até um eugenismo exacerbado, pois, diz ele, abandonando os fra­cos e os inválidos, "só poderíamos ter em vista uma van­tagem eventual, às custas de um mal presente, conside­rável e certo. Devemos, pois, suportar sem nos queixar­mos os efeitos incontestavelmente maus, que resultam da persistência e da propagação dos seres débeis. Parece, todavia, que existe um freio para essa propagação, pois os membros doentios da sociedade se casam menos fa­cilmente que os membros sãos. Esse freio poderia ter uma eficácia real, se os fracos de corpo e de espírito se abstivessem do casamento; mas esse é um estado de coi­sas que é mais fácil desejar que realizar".

Fonte:
DENIS BUICAN. “Darwin e o Darwinismo”. Jorge Zahar Ediror. Rio de Janeiro, 1987, p. 66-67.


É isso!