O prudente e a justa regra

O que vimos que parece ser um problema, com efeito, segue-se da interdependência entre prudência e virtude moral. Trata-se de reconhecer, em vista disso, que o critério para determinar a boa ação é imanente àquele que é virtuoso; ele é o padrão das ações porque é prudente. O prudente é aquele que possui a justa regra ou dispõe dela. Mas é preciso esclarecer ou mesmo corrigir essa afirmação.

Quando dizemos que a justa regra pertence ao prudente, não queremos dizer que ela é algo externo a ele. Não é o caso, assim, de compreender que, por ser virtuoso, o prudente tem um acesso privilegiado à justa regra. Não há uma regra e um padrão de ação fora de si para o qual o prudente olhe e determine quais são as boas ações. Como afirma Aubenque, o critério de determinação da boa ação não é transcendente àquele que dizemos que o possui:

O valor do spoudaios não é medido por qualquer Valor transcendente, mas é ele mesmo a medida do valor. Propomos, nesse sentido, assim chamá-lo: o nobre. Este personagem aparece na sua função de critério e fundamento de medida desde o livro I da Ética Nicomaquéia. (...)

Em nenhum momento Aristóteles desconectou, na Ética Nicomaquéia, a razão do desejo no que concerne à ação; devemos disso concluir que ele jamais separou a justa regra da justeza e nobreza do caráter daqueles que são ditos virtuosos ou nobres. É nisto que consiste ser bom e ser, no sentido próprio da palavra, a justa regra da bondade das ações. No livro VI, a justa regra e sua imanência àquele que a possui são tornadas explícitas; não são, contrariamente, introduzidas como algo novo. Aristóteles nos pede para relembrar com atenção o que já foi dito afirmando que a justa regra opera desde sempre em um caráter virtuoso, tal como foi exposto no livro II. No livro VI, é preciso apenas mostrar que o virtuoso é padrão para a ação por causa da presença nele da justa regra, ou seja, por causa de uma perfeição, ao lado da perfeição adquirida em seus desejos, em sua razão prática.

É assim que bom é aquilo que os homens bons julgam como tal. Isto é assim não porque eles fazem com que algo seja, através do seu juízo, bom, mas porque eles são o critério de reconhecimento para aquilo que deve ser feito. Eles aprenderam a desejar e julgar adequadamente, de modo que as coisas só aparecem como boas para eles quando o são realmente. Como observa Aubenque:

O bem real é aquele que aparece como tal à vontade do homem bom; nele, phainomenon agathon [o que aparece como bom] e agathon haplos [bom absolutamente ou sem qualificações] coincidem; o que permite, em todo caso, distinguir a verdade da aparência, é a decisão do spoudaios, cuja vontade é menos esclarecida (pois, para quem seria?) do que esclarecedora (...).

Não há vontade, aqui entendida como desejo e razão prática operando harmonicamente em vista da eudaimonia, superior a uma vontade prudente, a qual seria capaz de funcionar como critério para ela, verificando se ela é realmente boa ou não. A vontade do prudente esclarece o modo pelo qual devemos agir, mas não pode ser esclarecida, ou seja, atestada como correta por nenhuma outra instância superior a ela; com efeito, uma tal instância inexiste. Através da sua vontade, assim, o prudente esclarece a conduta das pessoas na medida em que uma tal vontade não se presta a ser esclarecida, mas a esclarecer como devem ser as condutas das pessoas. Ela mostra, porque foi bem educada, que espécie de coisas devem ser buscadas, quais devem ser evitadas e de que modo. É vendo o que é verdadeiro no domínio prático que a vontade do nobre pode guiar as ações das pessoas e funcionar como padrão para elas.

Na medida em que a regra e o padrão de ação do prudente são dados por ele e nele mesmo, é novamente Platão o alvo de Aristóteles. É preciso negar uma maneira platônica de conceber a justa regra, como algo supranatural, transcendente e, portanto, independente da conduta virtuosa particular dos seres humanos. Segundo Aristóteles, essa regra nos pertence: é através dos homens e como homens perfeitos, na medida em que isso nos é possível, que podemos determinar o que deve ser feito. Como afirma Aubenque, “(...) se não há mais [para os homens], como para Platão, uma Medida transcendente que lhes permita julgar, resta que sejam os homens de valor os juízes do valor ele mesmo”.

Isso, no entanto, embora aproxime a posição aristotélica da protagórica no que concerne à tese do homem-medida, não pode ser confundida com ela. Trata-se de um critério imanente, o que não constitui uma arbitrariedade ou relativismo.Também nesse ponto, como em outros momentos, a comparação com a arte ajuda Aristóteles. Trata-se do caso da saúde, novamente. Como Aristóteles afirma:

(...) assim é no caso dos corpos, onde também as coisas que são saudáveis são saudáveis para os corpos que estão em boa condição, enquanto que para aqueles que estão doentes outras coisas são saudáveis – ou amargo ou doce ou quente ou pesado e assim por diante –; pois não é o caso que o homem bom julga cada classe de coisas corretamente e em cada uma delas a verdade aparece para ele? Pois cada disposição de caráter tem as suas próprias idéias sobre o nobre e o prazeroso e talvez o homem bom distinga-se dos demais porque ele vê a verdade em cada classe de coisas, sendo como que a norma e a medida delas. (1113a25-34)

O critério para determinar se alguém tem saúde são as pessoas saudáveis. Não existe “A Saúde” independentemente daqueles que a têm, como um padrão externo por comparação ao qual as demais pessoas devem ser ditas saudáveis; são as próprias pessoas saudáveis o padrão para julgar a saúde dos demais. Assim, o paladar de uma pessoa saudável é o padrão para determinar se algo é doce, amargo, azedo ou salgado; a boa visão de alguém é padrão para determinar as cores dos objetos e não a visão de um daltônico; a temperatura de uma pessoa sem febre é padrão para afirmar o quanto uma outra está ou não febril. Do mesmo modo, é o caráter de alguém que é virtuoso que deve ser tomado como o padrão do que devemos fazer: ele é o corpo saudável em função do qual podemos saber o quanto estamos doentes, fornecendo-nos o modelo que o nosso “corpo moral” deve seguir.

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Fonte:
Priscilla Tesch Spinelli: “A Prudência na Ética Nicomaquéia de Aristóteles”. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Orientador: Prof. Dr. Balthazar Barbosa Filho. Porto Alegre, 2005.

Nota
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A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público

Fotos antigas do Corinthians - II


Um pouco da história do "poderoso Timão", o nosso querido Corinthians, fundado no ano de 1910, portanto, um time centenário.

Corinthians, em 1919

Corinthians, em 1919

O Corinthians (em cima), em 1922, quando venceu o Syrio por 6x0, ficando com a taça "Sacadura-Cabral"

O Corinthians (em cima) recebendo a taça (no meio) que ganhou contra o União Fluminense (embaixo), no ano de 1919

O Corinthians (embaixo), que ganhou do Santos (em cima), em 1930

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Fonte:
Revista "A Cigarra", edições de 1919 e 1930, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

O ethos e o pathos do filósofo

Podemos afirmar que Platão é o primeiro a identificar um conjunto de qualidades mentais e arregimentá-las sob uma única classificação: o filósofo. Na República, dedica diversas passagens, especialmente o Livro V, à definição do que seja o filósofo e à distinção entre saber e opinião, entre o philósophos e o philodoxos. Em meio aos seus contemporâneos, o filósofo se diferencia dos políticos, dos oradores e dos artistas em geral, philodoxoi que se comprazem com o reino da opinião e que, por isso, se encontram ainda aquém dos sophoi, na hierarquia de prestígio:

É nesse ponto que estabeleço a distinção: para um lado os que ainda agora referiste – amadores de espetáculos, amigos das artes e homens de ação – e para outro aqueles de quem estamos a tratar, os únicos que com razão podem chamar-se filósofos. Os demais são incapazes de discernir e de amar a natureza do belo em si . (...) se, na verdade, cada potência tem o seu objeto, e se as duas – a opinião e a ciência – são potências, sendo cada uma delas diversa, decorre que a mesma coisa não possa ser objeto de conhecimento e de opinião. O objeto da ciência é o Ser e o da opinião o não-Ser (...). Por conseguinte, devemos chamar philosophoi, e não philodoxoi aos que se dedicam ao Ser em si.

Nesta visão/divisão do mundo social, philósophos e philodoxos são termos antitéticos. A escolha subjetiva de um pressupõe a renúncia do outro. Os pares de opostos do repertório conceitual da filosofia platônica são, assim, transpostos para a representação da realidade social, desqualificando os concorrentes do campo pedagógico.

Ao examinarmos o nível mais primário, o da etimologia da palavra philósophos, já identificamos aí o sentido passional que o termo evoca, a atitude radical diante do mundo. De acordo com a análise de Eric Havelock, phil é um termo que designa estimulação psíquica, condução e ansiedade; um desejo de consumo. O filósofo é, então, um homem de instintos e energias especiais, dirigidos para a sophia, entendida por Platão como conhecimento das identidades que são, “são para sempre”: as formas.

De fato, antes da fixação conceitual que lhe atribui Platão, o termo philósophos e seus derivados (philosophia e philosophein) eram utilizados muito raramente, nos textos anteriores ao IV século que conhecemos. As poucas ocorrências traziam um sentido vago e indeterminado,indicando hábitos mentais como um todo. Segundo Luc Brisson, “nos sofistas Antifonte e Górgias, philósophos sugere a qualidade de um discurso que exprime o pensamento de forma adequada. Em Heráclito e nos historiadores Heródoto e Tucídides, o mesmo termo evoca a aquisição de conhecimentos em geral”.

Cabe ressaltar que mesmo Xenofonte quase não faz referência ao termo, até quando se trata de caracterizar as práticas e os ensinamentos de Sócrates. Em sua Apologia, Platão abusa da alusão ao vocábulo para naturalizar a perseguição ao filósofo, como se a ekklesia do início do século IV fizesse qualquer distinção entre sofistas e filósofos. Já Xenofonte, em sua defesa de Sócrates, não menciona uma vez sequer o vocábulo, ou qualquer outro a ele aparentado. Em todas as suas obras ditas socráticas sobressai um grande sábio bastante à vontade na tradição dos sophoi e poucas e sempre imprecisas referências ao philósophos. A formalização da diferença, como dissemos, compete a Platão. O sucesso que obteve na fixação do significado da categoria philósophos pode ser mensurado pelo relato de Heráclides do Ponto, um de seus principais alunos na Academia. O discípulo remete a Pitágoras a responsabilidade pela origem do termo:

Pitágoras foi o primeiro a se chamar philósophos; não apenas empregou uma palavra nova, como ensinou uma doutrina original. Tendo ido a Phlionte, conversou longamente com Léon, tirano da cidade. Admirando seu espírito e sua eloqüência, Léon perguntou-lhe que arte lhe agradava mais. Ao que Pitágoras respondeu que nada conhecia de arte, que era philósophos. Surpreendendo-se com a novidade da palavra, Leon indagou-lhe sobre o que eram, afinal, os philósophoi e o que os distinguia dos outros homens. Pitágoras respondeu-lhe que nossa passagem por esta vida se parece com a da multidão que se encontra nos jogos panegíricos. Alguns aí vão pela glória que lhes promete a força física, outros pelo ganho que provém do comércio de mercadorias, e há uma terceira classe de pessoas que aí vão para ver o panorama, as obras de arte, as proezas e os discursos virtuosos que se apresentam nos panegíricos. Mas nós proviemos de uma outra vida e de uma outra natureza em relação àquela. Alguns são escravos da glória, outros da riqueza. Ao contrário, raros são aqueles que receberam a contemplação das coisas mais belas e são estes que chamamos philósophoi, e não sophoí, porque ninguém é sábio, se não for deus.

Por longo tempo, os especialistas endossaram a afirmação do fragmento, creditando a Pitágoras a origem da definição e do emprego do termo. A crítica filológica mais recente, porém, estabelece, sem ressalvas, que o composto em questão ascende ao ensino da Academia. Partilhamos da mesma posição, dado o caráter sectário e místico da confraria que Pitágoras funda na Sicília, em meados do século VI. Uma comunidade soteriológica que via na purificação da alma o caminho para restaurar a unidade perdida com o divino. Fechada à ordem políade, tal organização não poderia separar o domínio de atuação do filósofo, situado no trânsito entre as categorias sociais da cidade, como dá a entender o registro de Heráclides do Ponto.

Ao contrário, Pitágoras é, antes de tudo, um indivíduo excepcional e inspirado, bastante próximo do antigo poeta-adivinho e de suas técnicas de imersão espiritual, que ilustra exemplarmente o sentido arcaico atribuído ao sóphos. Neste uso bastante impreciso, não havia linha de demarcação entre o conhecimento do passado, do presente e do futuro, o que aproximava o sábio dos poetas e dos adivinhos.

Exatamente contra este atributo inspirado e impreciso que se insurge Platão, reivindicando o plano de distinção do filósofo. A julgar pelo nível do discurso e das práticas da Academia, seu empenho parece exitoso, pois é sintomático que um aluno destacado como Heráclides do Ponto reproduza, de forma integral e em primeira pessoa, a alegoria platônica para a origem do filósofo e da filosofia. Este fato indica a estabilidade da transmissão dos ensinamentos e das práticas na Academia. Sua abordagem do mito de origem que referencia a identidade do grupo revela a auto-consciência discursiva dos filósofos platônicos. Após valer-se do prestígio de sua genealogia familiar como fonte de autoridade, Platão evoca novamente o valor da tradição. Desta vez, procura legitimar a posição social do filósofo na anterioridade da experiência, no recurso ao passado de uma organização estável e coesa como a dos pitagóricos, que supomos bem afamada no mundo grego.

Por que Pitágoras e não algum outro pré-socrático entre tantos, como Heráclito e Parmênides, que parecia conhecer tão bem? Que fundamentos, do ponto de vista da legitimação e da ética comunitária, orientaram sua escolha? As razões para essa opção merecem uma análise, que, em função de nossos objetivos, infelizmente não poderemos empreender aqui. Em ao menos um sentido, porém, sugerimos o propósito da apropriação. No plano ideal de sua filosofia, a iniciação pressupõe uma “escolha total”, ou seja, a praeparatio philosophica impõe limites à obediência cívica, exige a renúncia do apego à família e, no caso limite, da própria vida. Neste sentido, a atitude abnegada com que Sócrates se porta diante de sua esposa e filhos, e mesmo em seu julgamento e execução, é verdadeiramente um paradigma, nos diálogos platônicos.

A convicção do indivíduo na transformação radical de sua vida, a compensação pela renúncia à satisfação pessoal, assenta no carisma grupal distintivo, na “certeza de que provém de uma outra vida e de uma outra natureza”, nas palavras do Pitágoras de Heráclides do Ponto. A filosofia não é aqui uma atividade a que alguém possa ligar-se como a uma carreira, ou como a um interesse entre vários outros.

É como modo de vida que a filosofia, em seu mito de origem, desqualifica os sophoi, “porque ninguém é sábio, se não for Deus”. Não é mero desejo de saber. É um ethos. Platão afirma o regime do filósofo em oposição ao sábio inspirado e sequioso de conhecimentos em geral. Em seu lugar, a aspiração à verdadeira sophia, perseguida pelo filósofo, não transpassa as possibilidades humanas, na medida que funda o domínio desta sabedoria na contemplação de um único objeto: “o mundo das formas inteligíveis, do qual o mundo dos sensíveis, onde por apenas algum tempo encontra-se a alma humana, nada mais é do que um reflexo”.

Na direção desta contemplação, o filósofo deve empenhar todos os seus esforços. Lembremos do significado etimológico da palavra philósophos, da estimulação psíquica orientada para a sophia. Percebemos que no estágio mais básico de sua própria etimologia, a invenção platônica pressupõe um estado de incitação do espírito favorável à aprendizagem. É preciso produzir e canalizar os instintos e energias especiais, segundo normas de procedimento adequadas ao processo de aprendizagem.

Na República, Platão afirma que as vicissitudes emocionais, como o desejo e o medo, podem afastar o homem do pensamento racional, levando-o a agir contra sua vontade. Ao mestre, como Platão, cabe combater aquelas inclinações desviantes, incitando uma alteração particular no estado emocional dos discípulos, predispondo-os ao conselho, à aprendizagem e ao comportamento moral. Trata-se da paramythia, recurso amplamente utilizado na paidéia grega, que consiste em provocar o medo nas crianças para estimular a obediência. De acordo com estudo de Michael Erler, a paramythia assume feições próprias em Platão, mesclando intenções terapêuticas e argumentos racionais. Ela aparece com freqüência em sua literatura, destacando- e nas Leis, na República e no Fédon.

A utilização de intenções terapêuticas como expediente pedagógico, justamente no diálogo que, como vimos, melhor expõe o êxtase dos discípulos frente ao carisma de Sócrates, que figura a frieza com que o mestre participa de suas relações familiares e o destemor libertário com que encara sua própria morte, não nos parece casual. O diálogo recria uma situação exemplar para os discípulos. Mostra a necessidade de domesticar suas emoções e exalta o valor superior da filosofia como ética comunitária. Ao mesmo tempo, produz uma disposição espiritual de medo e debilidade nos discípulos, explorando a iminência da morte de Sócrates, que lhes exorta a ascese e o desprendimento diante da vida, acenando, logo após, para a profunda compensação afetiva que dele emerge. Vejamos.

Cebes pede a Sócrates: “Procura convencer-nos Sócrates, a respeito do assunto que tanto tememos, ou melhor, não que tenhamos medo, e sim a criança (epode) apreensiva que reside em nós. Por isso, esforça-te por convencer esta criança a não sentir diante da morte o mesmo medo que lhe infundem as assombrações”. E Sócrates consente: “É preciso que exorcizem estes epodai todos os dias até libertá-los de todo o medo”.

A alusão aos epodai é muito significativa. Platão os personaliza como uma indesejável inclinação emocional de todos os homens, os interioriza como a parte perturbada da alma. Para estirpá-la, o filósofo precisa observar certas interdições. Além da atitude moral mais geral de desprendimento, de que falamos acima, o filósofo deve evitar “dedicar-se avidamente aos prazeres de comer e de beber, (...) os prazeres do amor, (...) os cuidados com o corpo, como vestimentas e calçados de boa qualidade”, e demais privações desta ordem, diluídas no conjunto dos textos platônicos.

Das prescrições de renúncia sobressai uma grande compensação afetiva, que transparece na estratificação antropológica de Platão. Curiosamente, tal compensação é enunciada pela primeira vez no Fédon, seguindo de perto as passagens que versam sobre a paramythia e as interdições, acima citadas. Ao abordar a questão do destino das almas, assim se pronuncia o Sócrates de Platão:

Em corpos de asno ou de animais semelhantes é que muito naturalmente irão entrar as almas daqueles para quem a voracidade, a impudicícia, a bebedeira constituíram um hábito, as almas daqueles que jamais praticaram a sobriedade (...). E para aqueles para os quais o mais alto prêmio era a injustiça, a tirania, a rapina, esses animarão corpos de lobos, falcões e milhafres. Ou acaso pode haver outro destino para essas almas? (...) os mais felizes serão aqueles cujas almas hão de ter um destino e lugar mais agradáveis, serão aqueles que sempre exerceram essa virtude social e cívica que nós chamamos de temperança e de justiça e nas quais eles se formaram pela força do hábito e do exercício, sem oauxílio da filosofia e da reflexão? (...) sua migração se fará para alguma espécie animal que tenha hábitos sociais e seja organizada de modo policiado, sem dúvida abelhas, vespas ou formigas (...). E quanto à espécie divina, absolutamente ninguém, se não filosofou, se daqui partiu sem estar totalmente purificado, ninguém tem o direito de atingi-la, a não ser unicamente aquele que é filósofo.

De pronto, afigura-se-nos a superioridade do caminho do filósofo, o único capaz de liberar-se da cadeia de reencarnações, regressando à plenitude atávica do estado puro da alma. Desse modo, o Fédon aponta para a compensação afetiva reservada àqueles que observam as abstinências de uma vida inteiramente consagrada à filosofia. Nesta opção, a morte não é mais que o completo desligamento da alma imortal de seu corpo, e a vida do filósofo é um ensaio ou preparação para a liberação final. No Fedro, voltamos a encontrar a afirmação do pathos da distância, desta vez com uma nova roupagem:

Uma lei estabelece que, no primeiro nascimento, a alma não entra no corpo de um animal: aquela que mais contemplou gerará um filósofo, um esteta ou um amante favorito das Musas; a alma de segundo grau irá formar um rei legislador, guerreiro ou dominador; a do terceiro grau forma um político, um economista, ou financista; a do quarto, um atleta incansável ou um médico; a do quinto seguirá a vida de um profeta ou adepto dos mistérios; a do sexto terá a existência de um poeta ou qualquer outro produtor de imitações; a do sétimo, a de um artesão ou camponês; a do oitavo, a de um sofista ou demagogo; a do nono, a de um tirano. Quem, em todas estas situações, praticou a justiça moral, terá melhor sorte. Quem não a praticou cai em situação inferior.

Diferentemente do trecho anterior, vemos aí uma hierarquia construída no trânsito entre as categorias sociais classificadas por Platão. Sendo Fedro um texto posterior ao Fédon, é interessante notarmos o processo de desenvolvimento das alteridades da filosofia no âmbito mesmo do discurso filosófico. Feita a exceção ao tirano, os últimos degraus desta pirâmide são ocupados, respectivamente, por indivíduos inspirados (profeta), os praticantes do que Platão entende por arte imitativa (poeta e artesão) e, finalmente, o sofista. Se excluirmos o artesão, “herói secreto da democracia ateniense", todos os demais são oriundos da tradição dos sóphoi. Os sofistas, os primeiros a utilizar a técnica discursiva da retórica, em meados do século V, concorriam com os poetas pela honra de transmitir este saber: sophistés deriva de sóphos.

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Fonte:
ALEXANDRE DE PAIVA RIO CAMARGO: “A diakrisis dos mais sábios: associação comunitária e dissidência política na filosofia grega (séc. IV a.C.)”. (Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do título de mestre. Área de concentração: Poder e Idéias Políticas. Orientador: Prof. Dr. Marcelo Rede). Niterói, 2008.

Nota
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Fotos antigas de Capim Grosso (Bahia)


Um pouco da história de minha querida Capim Grosso: mundão de Deus abandonado pelos homens. As imagens não são assim tão antigas, mas o objetivo é preservar a memória da cidade e observar suas mudanças ao longo dos anos.

CAPIM GROSSO (o Monumento símbolo da cidade) - Anos 80

CAPIM GROSSO (O Monumento símbolo da cidade) - Anos 80

CAPIM GROSSO - (passeio pelo Contorno, onde ficava a antiga rodoviária) - Anos 80

CAPIM GROSSO (vista do Monumento que simboliza a cidade) -Ano: 1997

CAPIM GROSSO (vista de um dos extremos da cidade) - Ano: 1997

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Fonte:
Coleção pessoal. Pode ser reproduzida livremente desde que citada a fonte.

Estrutura administrativa e judiciária do antigo Império do Brasil


O texto, a seguir, foi publicado no remoto ano de 1883, portanto, seis anos antes da mudança do regime para República. Por meio dele é possível entender um pouco como funcionava a estrutura governamental, administrativa e judiciária do antigo regime imperial.

D. PEDRO II

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GOVERNO, DIVISÃO ADMINISTRATIVA E JUDICIARIA DO IMPÉRIO DO BRASIL

O Império do Brasil tem uma superfície de 8,350,000 quilômetros quadrados, equivalente a 270,600 léguas geográficas quadradas, e uma População de 12,000,000 de habitantes, compreendidos os índios selvagens.

A religião do Estado é a católica apostólica romana; são, porém, admitidas todas as outras religiões, debaixo de certas condições estipuladas pela nova lei da reforma de 1881.

Constituição: O Império do Brasil é uma monarquia hereditária, constitucional e representativa. O atual Imperador é o Senhor D. Pedro II de Alcântara, Defensor Perpétuo do Brasil, nascido a 2 de Dezembro de 1825, no Palácio da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

O Império reconhece quatro grandes poderes:

1º - O poder moderador, delegado privativamente ao Imperador, como chefe supremo da nação. A pessoa do Imperador e inviolável e sagrada, não sujeita à responsabilidade alguma. Os seus títulos são: Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, e tem o tratamento de Majestade Imperial.

2º - O poder legislativo, delegado à assembléia geral, com a sanção do Imperador. A assembléia geral compõe-se de duas câmaras: a dos deputados e a dos senadores ou o Senado. A câmara dos deputados é eletiva e temporária, o Senado é composto de membros vitalícios escolhidos pelo Imperador dentre os candidatos que em listas tríplices são apresentados pelos eleitores das províncias.

3 - O poder executivo, delegado aos ministros responsáveis e ao Imperador como chefe desse poder. Os ministros, secretário de estado, são nomeados pelo Imperador, eles são e ficam responsáveis por todos os atos que cometem, mesmo agidos e executados por ordem vocal ou por escrito do Imperador.

4º - O poder judiciário, delegado aos juízes e jurados, não responsáveis. Os jurados pronunciam sobre o fato, e os juízes aplicam a lei, ambos em plena e inteira independência, sem que qualquer dos outros poderes tenha o direito de modificar, emendas ou anular as sentenças proferidas por eles, podendo somente o Imperador perdoar as penas, mas não modificar as sentenças.

Direitos dos Cidadãos: Gozam os mesmos direitas políticos e civis todos os cidadãos brasileiros, tanto o nato brasileiro, como o estrangeiro naturalizado, seja qual for a sua religião, com a única exceção de não poderem ser nem ministro, nem regente. (Decreto n. 3029 de 9 de Janeiro de 1881).

Conselho de Estado: É uma Instituição auxiliar aos poderes moderador e executivo, composta de 12 membros vitalícios, nomeados pelo Imperador, podendo haver, além destes, até 12 membros extraordinários, nomeados igualmente pelo Imperador, que os poderá dispensar por tempo indefinido. Estes conselheiros são ouvidos em todos os negócios graves da administração governamental.

Divisão administrativa: O Brasil está dividido em 20 províncias, administradas por presidentes de província, nomeados pelo Imperador, e na hierarquia administrativa subordinados ao ministério, além de um município neutro, onde está a Corte, que tem uma organização administrativa especial.

Em cada província há uma assembléia legislativa, composta de deputados temporários o eleitos por sufrágio dos cidadãos da província; é delegada a esta assembléia a legislação provincial, sendo suas leis obrigatórias para todo o cidadão, depois de serem elas sancionadas pelo presidente da província.

As províncias estão subdivididas em Municípios, administrados por câmaras municipais, compostas de vereadores temporários, eleitos por sufrágio dos cidadãos do município. Há mais em cada município um delegado.

Os municípios são divididos em freguesias administradas por subdelegados, sob a ordem imediata dos delegadas. As freguesias são divididas em quarteirões, administrados por inspetores de quarteirão, debaixo da ordem imediata dos subdelegados.


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Fonte:
Almanak administrativo, mercantil, e industrial do imperio do Brazil para 1883. Sauer, Arthur (org.), disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

Anúncios antigos de carros antigos - X


Anúncios antigos de antigas marcas de automóveis, algumas das quais já se afundaram no mar do esquecimento.

FIVE PASSENGER TURING CAR - MODEL 30-K (Anúncio de 1912)

STANDARD (anúncio de 1914)

BUICK (anúncio de 1917)

COLE AERO-EIGTH (anúncio de 1919)

NASH (anúncio de 1925)

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Fonte:
Revista "A Cigarra" (anúncios: 2, 3 e 4), edições de 1914, 1917 e 1919;
Revista Ilustração Paulista (anúncio: 1), edição de 1912, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo
Revista de Pernambuco (anúncio: 5), edição de 1928, disponível digitalmente no site: Domínio Público

Piadas do século XIX: 1878


O brasileiro sempre foi dado a uma boa piada!
Embora as piadas de antigamente fossem assim, digamos, bem "ingênuas" se comparadas às dos dias atuais, no seu tempo e contexto eram o que de mais engraçado havia entre o povo. A seguir vão alguns exemplos...

"Allegoria". Charge publicada no jornal "O Polichinello", em agosto de 1876

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PIADAS DO SÉCULO XIX: 1878

Um ladrão
Um ladrão tendo sido sentenciado à morte não fazia senão repetir enquanto liam a sentença:
- Ainda fiz pior, ainda fiz pior, ainda fiz pior...
- Então que fez você pior do que isto? - O quê?
Ao que ele respondeu:
- Deixei que me pegassem.

Antes e depois
“Meu Deus, valei-me”, gritava um carpinteiro ao descambar de um andaime; mas, percebendo que caíra em pé, acrescentou : “Agora já não é preciso.”

O recado
Uma senhora mandou um de seus filhos avisar a certa amiga que tinha dado à luz um menino.
O portador; ou por querer abrilhantar o recado, ou por esquecer-se das palavras “dar á luz”, disse:
- Minha mãe manda-lhe contar que deu à vela um menino.

Podia ser avô
Foi um velho a uma igreja para casar-se com uma menina de 16 anos. O padre estava detraído e não fazia caso dele.
- Sr. padre, dizia o velho; estou esperando.
- Aproxime-se da pia que eu já vou, volveu o padre.
- Não percebo; eu o que venho é casar-me, sr. padre.
- Ah! desculpe; eu cuidei que vinha batizar sua neta.

Paráfrase
Certo orador brasileiro de grande reputação, hoje falecido, estando na oposição do senado, e tendo caído o ministério, que guerreara dissertou sobre a vida do defunto-governo, e concluiu deste modo: abiit, excessit, evasit, erupit.
Sendo instigado a falar em português corrente, assim traduziu o latim: “Amolou canelas, estirou as gambias, deu às trancas, e foi-se com os diabos!”

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Fonte:
Almanach popular para o anno de 1878 contendo diversos artigos de interesse geral, e uma parte noticiosa, literaria e recreativa. Primeiro anno. Silva, Hipólito da (ed.)., disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP
Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.

"Seção dos Caloteiros"


Achei tão divertido o anúncio, a seguir, que dei por conta postá-lo no blog. Ele foi publicado no ano de 1908, na revista Progresso Commercial do Brazil, e traz os seguintes dizeres:
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Seção dos Caloteiros
Iniciamos hoje esta seção.
O nosso intuito, registrando aqui o nome dos indivíduos que nos passaram a perna, é tão somente em interesse dos incautos, para que não aconteça a outros o que a nós aconteceu.
A quem cabe a honra de abrir esta seção é ao Genaro Fernandes, da Rua do Riachuelo, 119, Rio de Janeiro.
Outros que nos forem caloteando, irão aparecer aqui.
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Faltou apenas ao editor escrever: Assinado Gervásio, parafraseando o divertido José Simão!



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Fonte:
Progresso Commercial do Brazil, edição de 1918, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Como se morria em São Paulo no ano de 1912


Incrível, mas em 1912 morriam pessoas em São Paulo vítimas de micose!

Segundo dados estatísticos publicados no "Annuario demographico" do citado ano, a gripe estava em 4º lugar dentre as doenças que mais matavam em São Paulo. Em 1º lugar estava o chamado "mal do século" (referência ao século XIX), ou seja: a tuberculose. Varíola e sarampo vinham logo à reboque.

Atentando bem a tais dados, concluímos logo de chofre o quão estraordinário foi o avanço da Medicina ao longo do século XX.

Infelizmente, porém, algumas doenças, que naquela época era quase desconhecida, hoje é motivo de preocupação internacional, como é o caso do diabetes. Eis a lista:

1º lugar: Tuberculose, com 432 mortes;
2º lugar: Varíola, com 237 mortes;
3º lugar: Sarampo, com 133 mortes;
4º lugar: Gripe, com 106 mortes;
5º lugar: Febre tifóide, com 99 mortes;
6º lugar: Septicemia, com 69 mortes;
7º lugar: Sífilis, com 51 mortes;
8º lugar: Disenteria, com 42 mortes;
9º lugar: Coqueluche e Difteria croup, ambas com 39 mortes;
10º lugar: Tétano, com 29 mortes;
11º lugar: Lepra, com 24 mortes;
12º lugar: Malária, com 17 mortes;
13º lugar: Erisipela, com 16 mortes;
14º lugar: Cólera, com 7 mortes;
15 lugar: Peste, Mormo e lamparão e Micoses, todas com uma morte.

Estatísticas por tipo de doença em São Paulo, no ano de 1912
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Fonte:
Annuario demographico : secção de estatística demographo-sanitaria : anno XIX 1912. São Paulo (Estado). Diretoria do Serviço Sanitario, disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

Anúncios antigos de lingerie: VALISÈRE - II


Mais alguns anúncios antigos da antiga marca de lingerie "Valisère, todos feitos com arte, refletindo a sensualidade feminina na década de 40 e começo da década de 50.

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1952

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1951

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1950

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1948

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1948
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Fonte:
Revista "A Cigarra", edições de 1948, 1951 e 1952, disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

A mortalidade no final do século XIX


A estatística, a seguir, consta de um Anuário publicado no ano de 1891, e que versa sobre a redução da mortalidade no que se chamavam "países civilizados", ou seja, a Europa. Dentre algumas hipóteses acerca desse progresso humano, cita-se a vacina como um dos grandes fatores para o aumento da expectativa de vida dos europeus. Um dado sem dúvida interessante quando comparado aos dias de hoje.

Charge publicada em 1895 na revista "A Cigarra", que brinca com a dificuldade do diabético em encontrar um lugar para urinar, e a atitude moralizante da polícia em não permitir que isso seja feito em local público

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Diminuição da mortalidade nos países civilizados

É sempre agradável podermos dizer que morremos menos cedo hoje do que outrora, que a vida média tornou-se mais longa. Com efeito, é fato averiguado que a mortalidade diminuiu por toda a parte na Europa de um século para cá. Segundo o Dr. Vacher, deputado de Corrèze, a mortalidade cm França era, por 1.000 vivos de todas as idades, no tempo de Laplace e de Condorcet, 1770—1783, de 34, no entanto que não excede hoje de 22, conforme ficou demonstrado no congresso do instituto internacional de estatística
em Roma. Em uma comuna de Corrèze a mortalidade era, em 1775—1790, de 41; agora não vai além de 24, de sorte que a idade média tios óbitos é, hoje de 36 anos, quando então era de 23 anos. E a mesma cousa se dá na maior parte dos departamentos e nos outros países. Na Suécia, em 1740, contavam-se, por 1.000 habitantes, 28 falecimentos por ano; nos nossos dias dão-se apenas 17. Na Suécia e na Noruega a mortalidade é mais fraca do que em outra qualquer parte. Na Itália, a mortalidade era em 1774, no antigo ducado de Milão, de 41 por 1.000, desceu a 28 por 1.000. Em Roma mesmo, onde a mortalidade era, de 1794 a 1800, de 39 óbitos por 1.000, desceu em 1880—1885 a 27.

De onde provém este feliz decrescimento? Alguns políticos franceses atribuíram-no à influencia da revolução francesa. Entretanto ele se dá em outras partes tanto quanto na França e em regiões que não se aproveitaram senão muito tarde do aparecimento das, idéias novas. A verdade é que tem por origem os progressos da civilização geral, os progressos da higiene. Também se tem atribuído a diminuição da mortalidade aos progressos da medicina. O Dr. Vacher confessa francamente que a medicina não concorre para isso com grande cousa, salvas poucas exceções. Quando (pondera ele) diz-se, para sustentar esta tese, que em 1660, por exemplo, no Hotel-Dieu de Paris, morria a quarta parte das parturientes, entretanto que hoje a mortalidade não chega á vigésima parte, pode-se responder que a medicina em nada contribuiu para este resultado; bastou evacuar o velho Hotel-Dieu, sanear as salas e isolar as doentes para diminuir a proporção dos óbitos. Semelhantemente o Dr. U. Trélat, em uma comunicação recente à academia das ciências, anunciava que nas amputações dos membros ele perdia, de
1880 a 1884, 1 operado em 4, de 1884 a 1887 não perdeu mais do que 1 em 25! De que proveio a diferença? Simplesmente do melhoramento dos curativos anti-sépticos: é, pois, à higiene que cabe a glória; como, porém, a higiene e a medicina têm por fronteiras limites muito vagos, pode-se conceder que o prolongamento da vida humana é realmente devido em grande parte aos médicos deste século.

Demais, a vacina, como diz o Dr. Vacher, representou o seu papel, e papel considerável, como já havia mostrado Bertillon pai.
A. vacinação fez cair em França os óbitos variólicos de 301.000 135 a 33.000, Na Suécia, outrora, a varíola produzia 28 óbitos por 1.0.000 habitantes; hoje, 1 óbito somente. A vacina e a revacinação obrigatórias fizeram desaparecer completamente a varíola do império alemão. Nos países alagadiços e pantanosos, o dessecamento e o emprego do sulfato de quinino diminuíram notavelmente a moralidade. O Dr. Vacher achou que, em França e na Algéria, o consumo de quinino orça por 8.000.000, deduzindo-se daqui que o consumo em toda a Europa sobe a 25.000.000.

Na Itália, a direção da estatística é um modelo. No congresso de Roma, Luiz Bodio, servindo-se de números inatacáveis, chegou exatamente às mesmas conclusões- que o Dr. Vacher. Os óbitos tornaram-se mais raios, a raça ganha em força; em 1866—1870 reformavam-se por enfermidade ou fraqueza 36 conscritos em 100; em 1881—1884 esta proporção baixou a 20. O impaludismo, o grande inimigo a debellar, foi contido pelas obras de dessecamento. Em 1874—1876 morriam de malária em 100.000 militares italianos 50 indivíduos; em 1883—1884 somente 17. Bodio conclui insistindo na necessidade de organizar rigorosamente a higiene publica. Nisso é que está o segredo do prolongamento da vida.

A mortalidade diminui, sem duvida; mas é de nosso dever fezê-la diminuir ainda mais.

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Fonte do texto:
Annuario da Provincia do Rio Grande do Sul para o anno de 1891. Azambuja, Graciano A. de (dir.).
Nota:
Para melhor compreensão do texto, a ortografia utilizada na época foi atualizada para os padrões atuais.

Fonte da imagem:
A Cigarra, anno 1, n. 07, 20 jun. 1895, ambos disponíveis digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

Anúncios antigos de lingerie: VALISÈRE


Anúncios antigos da conhecida marca de lingerie "Valisère", da década de 40 e início da 50.

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1949

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1949

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1949

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1949

LINGERIE "VALISÈRE" - ANÚNCIO DE 1950
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Fonte:
Revista "A Cigarra", edições de 1949 e 1950,
disponível digitalmente no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Capítulo dos Chapéus


Como já havíamos escrito acerca dos chapéus, é sabido que durante décadas foi ele um utensílio que revelava inclusive a classe social de seu possuidor. O conto, a seguir, intitulado "Capítulo dos Chapéus", do nosso genial escritor Machado de Assis, gira em torno desse objeto que caracterizou toda uma época, assim como foi a peruca no século XVII na França. Na fina ironia de Machado de Assis, a escolha de um chapéu não é lá uma tarefa assim tão simples, em vez disso, ela é regida por um "princípio metafísico", que não se dá mediante um ato voluntário: "— A escolha do chapéu não é uma ação indiferente, como você pode supor; é regida por um princípio metafísico. Não cuide que quem compra um chapéu exerce uma ação voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A ilusão da liberdade existe arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao verem um freguês ensaiar trinta ou quarenta chapéus, e sair sem comprar nenhum, imaginam que ele está procurando livremente uma combinação elegante. O princípio metafísico é este: — o chapéu é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab æterno; ninguém o pode trocar sem mutilação. E uma questão profunda que ainda não ocorreu a ninguém. Os sábios têm estudado tudo desde o astro até o verme, ou, para exemplificar bibliograficamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecânica celeste até Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar diante do chapéu e estudá-lo por todos os lados. Ninguém advertiu que há uma metafísica do chapéu. Talvez eu escreva uma memória a este respeito. São nove horas e três quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflita consigo, e verá... Quem sabe? pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu..."

Mas, vamos ao Machado e aos chapéus...

Machado de Assis: “Capítulo dos Chapéus”


Géronte
Dans quel chapitre, s'il
vous plaît?
Sganarelle
Dans le chapitre des
chapeaux.
Moliére.

Musa, canta o despeito de Mariana, esposa do bacharel Conrado Seabra, naquela
manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um simples chapéu, leve, não deselegante, um chapéu baixo. Conrado, advogado, com escritório na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias à cidade, ia com ele às audiências; só não o levava às recepções, teatro lírico, enterros e visitas de cerimônia. No mais era constante, e isto desde cinco ou seis anos, que tantos eram os do casamento. Ora, naquela singular manhã de abril, acabado o almoço, Conrado começou a enrolar um cigarro, e Mariana anunciou sorrindo que ia pedir-lhe uma coisa.

— Que é, meu anjo?
— Você é capaz de fazer-me um sacrifício?
— Dez, vinte...
— Pois então não vá mais à cidade com aquele chapéu.
— Por quê? é feio?

— Não digo que seja feio; mas é cá para fora, para andar na vizinhança, à tarde ou à noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...

— Que tolice, iaiá!
— Pois sim, mas faz-me este favor, faz?

Conrado riscou um fósforo, acendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a princípio frouxa e súplice, tornou-se logo imperiosa e áspera. Conrado ficou espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinário, uma criatura passiva, meiga, de uma plasticidade de encomenda, capaz de usar com a mesma divina indiferença tanto um diadema régio como uma touca. A prova é que, tendo tido uma vida de andarilha nos últimos dois anos de solteira, tão depressa casou como se afez aos hábitos quietos. Saía às vezes, e a maior parte delas por instâncias do próprio consorte; mas só estava comodamente em casa. Móveis, cortinas, ornatos supriam-lhe os filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a concordância da pessoa com o meio, que ela saboreava os trastes na posição ocupada, as cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das três janelas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meio aberta; nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava às exigências monótonas da mulher, que mantinha sem alteração a desordem dos livros, e até chegava a restaurá-la. Os hábitos mentais seguiam a mesma uniformidade. Mariana dispunha de mui poucas noções, e nunca lera senão os mesmo livros: — a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoé e o Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de l'énigme, de Madame Craven, onze vezes.

Isto posto, como explicar o caso do chapéu? Na véspera, à noite, enquanto o marido fora a uma sessão do Instituto da Ordem dos Advogados, o pai de Mariana veio à casa deles. Era um bom velho, magro, pausado, ex-funcionário público, ralado de saudades do tempo em que os empregados iam de casaca para as suas repartições. Casaca era o que ele, ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que o leitor suspeita, a solenidade da morte ou a gravidade da despedida última, mas por esta menos filosófica, por ser um costume antigo. Não dava outra, nem da casaca nos enterros, nem do jantar às duas horas, nem de vinte usos mais. E tão aferrado aos hábitos, que no aniversário do casamento da filha, ia para lá às seis horas da tarde, jantado e digerido, via comer, e no fim aceitava um pouco de doce, um cálice de vinho e café. Tal era o sogro de Conrado; como supor que ele aprovasse o chapéu baixo do genro? Suportava-o calado, em atenção às qualidades da pessoa; nada mais. Acontecera-lhe, porém, naquele dia, vê-lo de relance na rua, de palestra com outros chapéus altos de homens públicos, e nunca lhe pareceu tão torpe. De noite, encontrando a filha sozinha, abriu-lhe o coração; pintou-lhe o chapéu baixo como a abominação das abominações, e instou com ela para que o fizesse desterrar.

Conrado ignorava essa circunstância, origem do pedido. Conhecendo a docilidade da mulher, não entendeu a resistência; e, porque era autoritário, e voluntarioso, a teima veio irritá-lo profundamente. Conteve-se ainda assim; preferiu mofar do caso; falou-lhe com tal ironia e desdém, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Mariana quis levantar-se duas vezes; ele obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe levemente no pulso, a segunda subjugando-a com o olhar. E dizia, sorrindo:

— Olhe, iaiá, tenho uma razão filosófica para não fazer o que você me pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.

Mariana mordia o lábio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e entrou a bater com ela devagarinho para fazer alguma coisa; mas, nem isso mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:

— A escolha do chapéu não é uma ação indiferente, como você pode supor; é regida por um princípio metafísico. Não cuide que quem compra um chapéu exerce uma ação voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A ilusão da liberdade existe arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao verem um freguês ensaiar trinta ou quarenta chapéus, e sair sem comprar nenhum, imaginam que ele está procurando livremente uma combinação elegante. O princípio metafísico é este: — o chapéu é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab æterno; ninguém o pode trocar sem mutilação. E uma questão profunda que ainda não ocorreu a ninguém. Os sábios têm estudado tudo desde o astro até o verme, ou, para exemplificar bibliograficamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecânica celeste até Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar diante do chapéu e estudá-lo por todos os lados. Ninguém advertiu que há uma metafísica do chapéu. Talvez eu escreva uma memória a este respeito. São nove horas e três quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflita consigo, e verá... Quem sabe? pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu...

Mariana venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada daquela nomenclatura áspera nem da singular teoria; mas sentiu que era um sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para vestir-se; desceu daí a alguns minutos, e parou diante dela com o famoso chapéu na cabeça. Mariana achou-lho, na verdade, torpe, ordinário, vulgar, nada sério. Conrado despediu-se cerimoniosamente e saiu.

A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humilhação subsistia. Mariana não chorou, não clamou, como supunha que ia fazer; mas, consigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fora um pouco exigente, não achava justificação para tais excessos. Ia de um lado para outro, sem poder parar; foi à sala de visitas, chegou à janela meio aberta, viu ainda o marido, na rua, à espera do bond, de costas para casa, com o eterno e torpíssimo chapéu na cabeça. Mariana sentiu-se tomada de ódio contra essa peça ridícula; não compreendia como pudera suportá-la por tantos anos. E relembrava os anos, pensava na docilidade dos seus modos, na aquiescência a todas as vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso daquela manhã.

Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como tantas outras, a Clara e a Sofia, por exemplo, que tratavam os maridos como eles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem metade nem uma sombra do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou à idéia de sair. Vestiu-se, e foi à casa da Sofia, uma antiga companheira de colégio, com o fim de espairecer, não de lhe contar nada.

Sofia tinha trinta anos, mais dois que Mariana. Era alta, forte, muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que esta lhe não dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto e grande. Adeus, planos de Mariana! Daí a vinte minutos contava-lhe tudo. Sofia riu dela, sacudiu os ombros; disse-lhe que a culpa não era do marido.

— Bem sei, é minha, concordava Mariana.
— Não seja tola, iaiá! Você tem sido muito mole com ele. Mas seja forte uma vez; não faça caso; não lhe fale tão cedo; e se ele vier fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapéu.
— Veja você, uma coisa de nada...
— No fim de contas, ele tem muita razão; tanta como outros. Olhe a pamonha da Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido implicou com um inglês que costumava passar a cavalo de tarde? Coitado do inglês! Naturalmente nem deu pela falta. A gente pode viver bem com seu marido, respeitando-se, não indo contra os desejos um do outro, sem pirraças, nem despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia. Não lhe peço uma coisa que ele me não faça logo; mesmo quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. Não era ele que teimaria assim por causa de um chapéu! Tinha que ver! Pois não! Onde iria ele parar! Mudava de chapéu, quer quisesse, quer não.

Mariana ouvia com inveja essa bela definição do sossego conjugal. A rebelião de Eva embocava nela os seus clarins; e o contato da amiga dava-lhe um prurido de independência e vontade. Para completar a situação, esta Sofia não era só muito senhora de si, mas também dos outros; tinha olhos para todos os ingleses, a cavalo ou a pé. Honesta, mas namoradeira; o termo é cru, e não há tempo de compor outro mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miúdo do amor, que ela distribuía a todos os pobres que lhe batiam à porta: — um níquel a um, outro a outro; nunca uma nota de cinco mil-réis, menos ainda uma apólice. Ora este sentimento caritativo induziu-a a propor à amiga que fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de outros chapéus bonitos e graves. Mariana aceitou; um certo demônio soprava nela as fúrias da vingança. Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe deu tempo de refletir. Pois sim, iria, estava cansada de viver cativa. Também queria gozar um pouco, etc., etc.

Enquanto Sofia foi vestir-se, Mariana deixou-se estar na sala, irrequieta e contente consigo mesma. Planeou a vida de toda aquela semana, marcando os dias e horas de cada coisa, como numa viagem oficial. Levantava-se, sentava-se, ia à janela, à espera da amiga.

— Sofia parece que morreu, dizia de quando em quando.

De uma das vezes que foi à janela, viu passar um rapaz a cavalo. Não era inglês, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça, desconfiado de um inglês, e sentiu crescer-lhe o ódio contra a raça masculina — com exceção, talvez, dos rapazes a cavalo. Na verdade, aquele era afetado demais; esticava a perna no estribo com evidente vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino. Mariana notou-lhe esses dois defeitos; mas achou que o chapéu resgatava-os; não que fosse um chapéu alto; era baixo, mas próprio do aparelho eqüestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente para o escritório, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.

Os tacões de Sofia desceram a escada, compassadamente. Pronta! disse ela daí a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já sabemos que era alta. O chapéu aumentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido de seda preta, arredondando-lhe as formas do busto, fazia-a ainda mais vistosa. Ao pé dela, a figura de Mariana desaparecia um pouco. Era preciso atentar primeiro nesta para ver que possuía feições mui graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegância. O pior é que a outra dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sofia para si. Este reparo seria incompleto, se eu não acrescentasse que Sofia tinha consciência da superioridade, e que apreciava por isso mesmo as belezas do gênero Mariana, menos derramadas e aparentes. Se é um defeito, não me compete emendá-lo.

— Onde vamos nós? perguntou Mariana.
— Que tolice! vamos passear à cidade... Agora me lembro, vou tirar o retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao dentista?
— Não.
— Nem tirar o retrato?
— Já tenho muitos. E para quê? para dá-lo "àquele senhor"?

Sofia compreendeu que o ressentimento da amiga persistia, e, durante o caminho, tratou de lhe pôr um ou dois bagos mais de pimenta. Disse-lhe que, embora fosse difícil, ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um método para subtrair-se à tirania. Não convinha ir logo de um salto, mas devagar, com segurança, de maneira que ele desse por si quando ela lhe pusesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas, três a quatro, não mais. Ela, Sofia, estava pronta a ajudá-la. E repetia-lhe que não fosse mole, que não era escrava de ninguém, etc. Mariana ia cantando dentro do coração a marselhesa do matrimônio.

Chegaram à rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio-dia. Muita gente, andando ou parada, o movimento do costume. Mariana sentiu-se um pouco atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo do seu caráter e de sua vida, receberam daquela agitação os repelões do costume. Ela mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal era a variedade das lojas. Conchegava-se muito à amiga, e, sem reparar que tinham passado a casa do dentista, ia ansiosa de lá entrar. Era um repouso; era alguma coisa melhor do que o tumulto.

— Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.
— Sim? respondia Sofia, voltando a cabeça para ela e os olhos para um rapaz que estava na outra calçada.

Sofia, prática daqueles mares, transpunha, rasgava ou contornava as gentes com muita perícia e tranqüilidade. A figura impunha; os que a conheciam gostavam de vê-la outra vez; os que não a conheciam paravam ou voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de caridade, derramava os olhos à direita e à esquerda, sem grande escândalo, porque Mariana servia a coonestar os movimentos. Nada dizia seguidamente; parece até que mal ouvia as respostas da outra; mas falava de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja, de um chapéu... Justamente os chapéus, — de senhora ou de homem, — abundavam naquela primeira hora da rua do Ouvidor.

— Olha este, dizia-lhe Sofia.

E Mariana acudia a vê-los, femininos ou masculinos, sem saber onde ficar, porque os demônios dos chapéus sucediam-se como num caleidoscópio. Onde era o dentista? perguntava ela à amiga. Sofia só à segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas já agora iriam até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.

— Uf! respirou Mariana entrando no corredor.
— Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça...

A sala do dentista tinha já algumas freguesas. Mariana não achou entre elas uma só cara conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a janela. Da janela podia gozar a rua, sem atropelo. Recostou-se; Sofia veio ter com ela. Alguns chapéus masculinos, parados, começaram a fitá-las; outros, passando, faziam a mesma coisa. Mariana aborreceu-se da insistência; mas, notando que fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-lhe o tédio numa espécie de inveja. Sofia, entretanto, contava-lhe a história de alguns chapéus, — ou, mais corretamente, as aventuras. Um deles merecia os pensamentos de Fulana; outro andava derretido por Sicrana, e ela por ele, tanto que eram certos na rua do Ouvidor às quartas e sábados, entre duas e três horas. Mariana ouvia aturdida. Na verdade, o chapéu era bonito, trazia uma linda gravata, e possuía um ar entre elegante e pelintra, mas...

— Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.

Mariana fitou pensativa o chapéu denunciado. Havia agora mais três, de igual porte e graça, e provavelmente os quatro falavam delas, e falavam bem. Mariana enrubesceu muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou logo à primeira atitude, e afinal entrou.

Entrando, viu na sala duas senhoras recém-chegadas, e com elas um rapaz que se levantou prontamente e veio cumprimentá-la com muita cerimônia. Era o seu primeiro namorado.

Este primeiro namorado devia ter agora trinta e três anos. Andara por fora, na roça, na Europa, e afinal na presidência de uma província do sul. Era mediano de estatura, pálido, barba inteira e rara, e muito apertado na roupa. Tinha na mão um chapéu novo, alto, preto, grave, presidencial, administrativo, um chapéu adequado à pessoa e às ambições. Mariana, entretanto, mal pôde vê-lo. Tão confusa ficou, tão desorientada com a presença de um homem que conhecera em especiais circunstâncias, e a quem não vira desde 1877, que não pôde reparar em nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta qualquer, e ia tornar à janela, quando a amiga saiu dali.

Sofia conhecia também o recém-chegado. Trocaram algumas palavras. Mariana, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que não; negócio de meia hora a três quartos. Mariana sentia-se opressa: a presença de um tal homem atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão. Tudo culpa do marido. Se ele não teimasse e não caçoasse com ela, ainda em cima, não aconteceria nada. E Mariana, pensando assim, jurava tirar uma desforra. De memória contemplava a casa, tão sossegada, tão bonitinha, onde podia estar agora, como de costume, sem os safanões da rua, sem a dependência da amiga...

— Mariana, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro. Você não acha que está mais gordo do que no ano passado?... Não se lembra dele no ano passado?

Dr. Viçoso era o próprio namorado antigo, que palestrava com Sofia, olhando muitas vezes para Mariana. Esta respondeu negativamente. Ele aproveitou a fresta, para puxá-la à conversação; disse que, na verdade, não a vira desde alguns anos. E sublinhava o dito com um certo olhar triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assuntos, sacou para fora o teatro lírico. Que tal achavam a companhia? Na opinião dele era excelente, menos o barítono; o barítono parecia-lhe cansado. Sofia protestou contra o cansaço do barítono, mas ele insistiu, acrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez, já lhe parecera a mesma coisa. As damas, sim, senhora; tanto o soprano como o contralto eram de primeira ordem. E falou das óperas, citava os trechos, elogiou a orquestra, principalmente nos Huguenotes... Tinha visto Mariana na última noite, no quarto ou quinto camarote da esquerda, não era verdade?

— Fomos, murmurou ela, acentuando bem o plural.
— No Cassino é que a não tenho visto, continuou ele.
— Está ficando um bicho-do-mato, acudiu Sofia rindo.

Viçoso gostara muito do último baile, e desfiou as suas recordações; Sofia fez o mesmo às dela. As melhores toilettes foram descritas por ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os caracteres, dois ou três picos de malícia; mas tão anódina, que não fez mal a ninguém. Mariana ouvia-os sem interesse; duas ou três vezes chegou a levantar-se e ir à janela; mas os chapéus eram tantos e tão curiosos, que ela voltava a sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios à amiga; não os ponho aqui por não serem necessários, e, aliás, seria de mau gosto desvendar o que esta moça pôde pensar da outra durante alguns minutos de irritação.

— E as corridas do Jockey Club? perguntou o ex-presidente.

Mariana continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido às corridas naquele ano. Pois perdera muito, a penúltima, principalmente; esteve animadíssima, e os cavalos eram de primeira ordem. As de Epsom, que ele vira, quando esteve em Inglaterra, não eram melhores do que a penúltima do Prado Fluminense. E Sofia dizia que sim, que realmente a penúltima corrida honrava o Jockey Club. Confessou que gostava muito; dava emoções fortes. A conversação descambou em dois concertos daquela semana; depois tomou a barca, subiu a serra e foi a Petrópolis, onde dois diplomatas lhe fizeram as despesas da estadia. Como falassem da esposa de um ministro, Sofia lembrou-se de ser agradável ao ex-presidente, declarando-lhe que era preciso casar também porque em breve estaria no ministério. Viçoso teve um estremeção de prazer, e sorriu, e protestou que não; depois, com os olhos em Mariana, disse que provavelmente não casaria nunca... Mariana enrubesceu muito e levantou-se.

— Você está com muita pressa, disse-lhe Sofia. Quantas são? continuou voltando-se para Viçoso.
— Perto de três! exclamou ele.

Era tarde; tinha de ir à câmara dos deputados. Foi falar às duas senhoras, que acompanhara, e que eram primas suas, e despediu-se; vinha despedir-se das outras, mas Sofia declarou que sairia também. Já agora não esperava mais. A verdade é que a idéia de ir à câmara dos deputados começara a faiscar-lhe na cabeça.

— Vamos à câmara? propôs ela à outra.
— Não, não, disse Mariana; não posso, estou muito cansada.
— Vamos, um bocadinho só; eu também estou muito cansada...

Mariana teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sofia, — a pomba discutindo com o gavião, — era realmente insensatez. Não teve remédio, foi. A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas as calçadas, e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o obsequioso ex-presidente flanqueava as duas damas, tendo-se oferecido para arranjar-lhes uma tribuna.

A alma de Mariana sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa confusão de coisas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito, que lhe dera forças para um vôo audaz e fugidio, começava a afrouxar as asas, ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, tão quieta, com todas as coisas nos seus lugares, metódicas, respeitosas umas com as outras, fazendo-se tudo sem atropelo, e, principalmente, sem mudança imprevista. E a alma batia o pé, raivosa... Não ouvia nada do que o Viçoso ia dizendo, conquanto ele falasse alto, e muitas coisas fossem ditas para ela. Não ouvia, não queria ouvir nada. Só pedia a Deus que as horas andassem depressa. Chegaram à câmara e foram para uma tribuna. O rumor das saias chamou a atenção de uns vinte deputados, que restavam, escutando um discurso de orçamento. Tão depressa o Viçoso pediu licença e saiu, Mariana disse rapidamente à amiga que não lhe fizesse outra.

— Que outra? perguntou Sofia.
— Não me pregue outra peça como esta de andar de um lugar para outro feito maluca. Que tenho eu com a câmara? que me importam discursos que não entendo?

Sofia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos secretários. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ela ia à câmara, mas os do tal secretário tinham uma expressão mais especial, cálida e súplice. Entende-se, pois, que ela não o recebeu de supetão; pode mesmo entender-se que o procurou curiosa. Enquanto acolhia esse olhar legislativo ia respondendo à amiga, com brandura, que a culpa era dela, e que a sua intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.

— Mas, se você acha que a aborreço não venha mais comigo, concluiu Sofia. E, inclinando-se um pouco:
— Olhe o ministro da justiça.

Mariana não teve remédio senão ver o ministro da justiça. Este agüentava o discurso do orador, um governista, que provava a conveniência dos tribunais correcionais, e, incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial. Nenhum aparte; um silêncio resignado, polido, discreto e cauteloso. Mariana passeava os olhos de um lado para outro, sem interesse; Sofia dizia-lhe muitas coisas, para dar saída a uma porção de gestos graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a câmara, graças a uma expressão do orador e uma réplica da oposição. Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.

Essa diversão não o foi para Mariana, cujo espírito plácido e uniforme, ficou atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ela chegou a levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a ir ao fim, arrependida e resoluta a chorar só consigo as suas mágoas conjugais. A dúvida começou mesmo a entrar nela. Tinha razão no pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoável o espalhafato? Certamente que as ironias dele foram cruéis; mas, em suma, era a primeira vez que ela lhe batera o pé, e, naturalmente, a novidade irritou-o. De qualquer modo porém, fora um erro ir revelar tudo à amiga. Sofia iria talvez contá-lo a outras... Esta idéia trouxe um calafrio a Mariana; a indiscrição da amiga era certa; tinha-lhe ouvido uma porção de histórias de chapéus masculinos e femininos, coisa mais grave do que uma simples briga de casados. Mariana sentiu necessidade de lisonjeá-la, e cobriu a sua impaciência e zanga com uma máscara de docilidade hipócrita. Começou a sorrir também, a fazer algumas observações, a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da sessão.

Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sofia; e Mariana concordou que sim, mas sem impaciência, e ambas tornaram a subir a rua do Ouvidor. A rua, a entrada no bond completaram a fadiga do espírito de Mariana, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco antes de apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que lhe contara; Sofia prometeu que sim.

Mariana respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente dos encontrões, vertiginosa da diversidade de coisas e pessoas. Tinha necessidade de equilíbrio e saúde. A casa estava perto; à medida que ia vendo as outras casas e chácaras próximas, Mariana sentia-se restituída a si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquele o seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocara de lugar.

— João, bota este vaso onde estava antes, disse ela.

Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de jantar, os seus quartos, tudo. Mariana sentou-se primeiro, em diferentes lugares, olhando bem para todas as coisas, tão quietas e ordenadas. Depois de uma manhã inteira de perturbação e variedade, a monotonia trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu tão deliciosa. Na verdade, fizera mal... Quis recapitular os sucessos e não pôde; a alma espreguiçava-se toda naquela uniformidade caseira. Quando muito, pensou na figura do Viçoso, que achava agora ridícula, e era injustiça. Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira a cada objeto. Uma vez despida, pensou outra vez na briga com o marido. Achou que, bem pesadas as coisas, a principal culpa era dela. Que diabo de teima por causa de um chapéu, que o marido usara há tantos anos? Também o pai era exigente demais...

— Vou ver a cara com que ele vem, pensou ela.

Eram cinco e meia; não tardaria muito. Mariana foi à sala da frente, espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao bond, e nada. Sentou-se ali mesmo com o Ivanhoe nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam até o fim da página, e tornavam ao princípio, em primeiro lugar, porque não apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou outra vez desviavam-se para saborear a correção das cortinas ou qualquer outra feição particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.

Enfim, parou um bond; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do jardim. Mariana foi à vidraça, e espiou. Conrado entrava lentamente, olhando para a direita e a esquerda, com o chapéu na cabeça, não o famoso chapéu do costume, porém outro, o que a mulher lhe tinha pedido de manhã. O espírito de Mariana recebeu um choque violento, igual ao que lhe dera o vaso do jardim trocado, — ou ao que lhe daria uma lauda de Voltaire entre as folhas da Moreninha ou de Ivanhoe... Era a nota desigual no meio da harmoniosa sonata da vida. Não, não podia ser esse chapéu. Realmente, que mania a dela exigir que ele deixasse o outro que lhe ficava tão bem? E que não fosse o mais próprio, era o de longos anos; era o que quadrava à fisionomia do marido... Conrado entrou por uma porta lateral. Mariana recebeu-o nos braços.

— Então, passou? perguntou ele, enfim, cingindo-lhe a cintura.
— Escuta uma coisa, respondeu ela com uma carícia divina, bota fora esse; antes o outro.

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Fonte:
ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884, disponível digitalmente no site: Domínio Público

Fonte da imagem:
Revista "Para Todos", edição de 1923,
disponível digitalmente no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil