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Nietzsche contra Darwin - II


Nietzsche contra Darwin é o título de um livro de autoria de Wilson Antônio Frezzatti Junior”, em se que aborda os argumentos do filósofo alemão contra o conceitos darwinistas de “luta pela existência” e “seleção natural”.

Sobre a primeira questão, diz-nos Frezzati:

“Nietzsche, em um fragmento póstumo da primavera de 1888, intitulado “Anti-Darwin”, afirma que, quando observa o caminho da humanidade, vê o contrário do que Darwin
vê ou quer ver: o que o filósofo alemão constata não é o progresso da espécie humana, mas a prosperidade da mediocridade. Mas não é apenas a história dos homens, conforme vista pelo naturalista inglês, que o filósofo expõe nesse fragmento, pois algo mais abrangente está na mira da crítica nietzschiana. A concepção darwiniana de natureza também é contestada em seu fundamento: a luta pela existência, que segundo Darwin promove a evolução das espécies, não pode ser uma lei da vida. Contra essa luta, o fragmento se insurge:

“Vejo todos os filósofos, vejo a ciência de joelhos ante a realidade de uma luta pela vida ao contrário, tal como ensina a escola de Darwin
— ou seja aqueles que comprometem a vida, o valor da vida, [...] O erro da escola de Darwin é, para mim, um verdadeiro problema: como pode ser tão cego que não percebe isso?” (Fragmento póstumo XIII 14 [ da primavera de 1888).

E, a respeito da “seleção natural”:

“A seleção natural, na visão de Nietzsche sobre o darwinismo, é, ao lado da luta pela existência, uma noção central, pois é um dos alvos preferidos de suas críticas. (p. 96).

[...]

“Nietzsche não aceita, nesta argumentação, o gradualismo darwiniano; não aceita que, devido à luta pela sobrevivência ser acirrada, uma pequena variação provoque um desequilíbrio considerável em favor de seu portador. O aparecimento de um órgão não é explicado por sua utilidade. Mas os aspectos mais importantes dessa crítica são outros: a finalidade e a conservação.Darwin, para o filósofo alemão, introduz uma teleologia ao indicar a utilidade futura de uma forma na luta pela existência. Por isso, aponta o erro na conclusão darwiniana: se as novas características existissem para alcançar um objetivo, como acredita que
Darwin pensa, seriam mantidas aquelas que sempre fossem úteis. Esse aspecto finalista está ligado à conservação, pois a luta pela existência é luta por conservação. Assim, temos mais uma vez a crítica nietzschiana ao darwinismo como conservação:

“O que é, afinal, ‘útil’? Deve-se perguntar ‘útil ao que? Por exemplo, o que é útil à conservação do indivíduo poderia ser desfavorável a sua força e esplendor; o que assegura a manutenção do indivíduo poderia, ao mesmo tempo, imobilizá-lo e congelá-lo em seu desenvolvimento. Além disso, um defeito, uma degenerescência pode ser de uma utilidade extrema, porquanto ela funcione como estímulo de outros órgãos”
(Fragmento póstumo XII 7 [ do final de 1886/primavera de 1887).

Outra questão
interessante abordada no referido livro diz respeito às idéias de Nietzsche e Darwin referentes a questões raciais e suas influências no regime nazista. Embora a noção do “super-homem” ou do “homem superior” de Nietzsche nos remeta de algum modo aos ideais de “superioridade” do “arianismo” de Hitler, são dos conceitos darwinianos de “luta pela sobrevivência” que o ditador alemão mais bebeu. Na verdade, Nietzsche não foi, como muitos supõem, um anti-semita. Isso está destacado inclusive na referida obra que serviu de título a este tópico. Sobre esta questão Frezzatti faz menção do seguinte texto de Nietzsche:

“É certo que os judeus [ serem a raça mais forte e mais rija que vive na Europa], se quisessem — ou, se fossem obrigados a tal, como os anti-semitas parecem querer —, poderiam desde já ter a preponderância, mais ainda, falando de modo completamente literal, o domínio da Europa; é também certo que não trabalham nem fazem projetos nesse sentido. Ao contrário, o que pretendem e querem, no momento, até com certa insistência, é ser absorvidos e integrados à Europa, pela Europa; desejam se fixar seja onde for e ser admitidos, respeitados e dar um fim à vida nômade, ao “judeu errante”
(JGB/BM § 251).

E, finalizando Frezzatti:

“O erro da escola de
Darwin, segundo Nietzsche, é considerar a vida como conservação, estar cego ao caráter de superação. Erro não só dos darwinistas, masde toda ciência e filosofia da época; daí as críticas ao darwinismo estarem contidas nas críticas nietzschianas à modernidade. Esse problema, contudo, no contexto da filosofia da maturidade nietzschiana, é mais do que um erro: é reflexo da própria condição fisiológica da quele que possui essa visão de mundo. Se a saúde é a luta por superação, por mais potência, a doença reflete luta por conservação, pelo mesmo. A superação, as difíceis condições, devem ser mesmo propositadamente procuradas.”
É isso!

Nietzsche contra Darwin


Essa crítica de Friedrich Wilhelm Nietzsche ao darwinismo, além de divertida, faz transparecer um pouco o modo como o naturalista inglês Charles Darwin concebia a evolução ao seu tempo, ou seja, uma “evolução” do tipo progressista, bem típica de filósofos como Herbert Spencer. O texto fora extraído de “A Vontade de Potência”, de Nietzsche, é claro.

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Contra o darwinismo.
A utilidade de um órgão não explica a origem; bem ao contrário!
Enquanto é formada uma quantidade ela não conserva o indivíduo e nem lhe é útil, pelo menos na luta contra as circunstâncias exteriores e os inimigos. Que quer dizer útil, afinal de contas? E mister perguntar: “útil com relação a quê?”

O que, por exemplo, é útil à duração do indivíduo poderá ser desfavorável à sua força e esplendor; o que conserva o indivíduo poderá simultaneamente retê-lo e imobilizá-lo na evolução. Por outra parte, um vício de conformação, uma degenerescência podem ser de maior utilidade, no sentido em que atuem como estimulantes dos outros órgãos. Da mesma sorte, um estado de necessidade pode ser uma condição de existência, no sentido que rebaixa o indivíduo a uma proporção em que se firma e não se desperdiça. — O indivíduo é o campo de batalha de suas diferentes partes (para a alimentação, espaço, etc.): sua evolução está ligada à vitória, à predominância de determinadas partes, ao perecimento, à transformação em órgãos de outras determinadas partes.

A influência das “circunstâncias exteriores” foi absurdamente exagerada por Darwin: o que há de essencial no processo vital é precisamente a imensa potência formadora, que cria formas de dentro para fora, que utiliza e explora as “circunstâncias exteriores”. As novas formas criadas de dentro para fora, não são formadas em vista de uma finalidade; mas, na luta das partes, uma forma nova não permanecerá por muito tempo sem relação com uma utilidade parcial, e com o decorrer do tempo, conforme o uso que dela faça, plasmará a si própria uma forma mais perfeita.

Anti-Darwin
Que valor definitivo pode ter a domesticação dos homens? Ou terá a domesticação sempre um valor definitivo? Existem razões para negarmos esta última proposição.

É verdade que a escola de Darwin fez grandes esforços para nos persuadir do contrário: ela quer que a influência da domesticação possa tornar-se profunda e até fundamental. Provisoriamente ficamos no passado: até hoje apenas foi demonstrada uma influência toda superficial da domesticação — ou ainda, a degenerescência. E tudo quanto consegue escapar-se da mão humana e de seu adestramento volve quase imediatamente ao seu estado natural. O tipo permanece constante: não se pode “dénaturer la nature”.

Confia-se na luta pela existência, na morte dos seres fracos e na sobrevivência dos mais robustos e melhor dotados; conseqüentemente imagina-se um aumento contínuo da perfeição dos seres. Em compensação temos comprovado que na luta pela vida, o acaso serve tanto aos fracos quanto aos fortes e que muitas vezes a astúcia supre o vigor com vantagem, que a fecundidade da espécie se encontra numa relação singular com as “chances” da destruição.

(...) tempo lentas e infinitas: querem crer que todo proveito transmite por hereditariedade e se manifesta nas gerações seguintes, com urna intensidade sempre maior (embora realmente a hereditariedade seja tão caprichosa...); encontram em certos seres a assimilação feliz às condições vitais determinadas e declaram que foi obtida por influência do ambiente.

Mas em nenhuma parte encontram exemplos de seleção inconsciente (de nenhuma espécie). Os mais díspares indivíduos unem-se, os mais extremos misturam-se à massa. Tudo concorre a manter seu tipo; os seres que possuem caracteres exteriores, que os protegem contra certos perigos, não os perdem quando submetidos às circunstâncias em que vivem sem perigo... Se transportados a lugares onde a roupagem cessa de escondê-los, absolutamente não se transformam para se reaproximarem do ambiente.

Exageraram a seleção dos seres mais belos a ponto que sobrepassaria em muito o instinto de beleza de nossa própria raça! Realmente o mais belo ajusta-se perfeitamente às criaturas deserdadas, o maior ao menor. Quase sempre vemos o macho e a fêmea aproveitarem-se de cada momento do acaso sem se apresentarem indecisos na escolha. — Há modificação pelo clima e pela nutrição, mas na realidade é diferente.

Não há formas intermediárias.
Pretendem que haja o desenvolvimento na evolução dos seres; mas falta qualquer fundamento a essa teoria. Cada tipo possui seus limites: além destes não há evolução. Até lá existe regularidade absoluta.

Minhas principais opiniões. Primeira proposição: o homem como espécie não está em progresso. Realizam-se tipos superiores, porém não se conservam.

O nível da espécie não se eleva.

Segunda proposição: o homem, enquanto espécie, não realiza um progresso em comparação com qualquer outro animal. O mundo animal e vegetal, em seu conjunto, não se desenvolve do inferior ao superior... Tudo se faz ao mesmo tempo, a torto e a direito, superpondo-se, contrapondo-se... As formas mais complexas e mais ricas — a expressão “tipo superior” nada expressa a mais — perecem mais facilmente: só as inferiores mantêm seu caráter imperecível em aparência. As primeiras são realizadas com bastante raridade e mantêm-se dificilmente: as últimas têm a seu favor uma fecundidade comprometedora. Na humanidade também os tipos superiores, os casos felizes da evolução, com alternativas de boa e má sorte, perecem mais facilmente. São expostos a toda espécie de decadência; são extremos, e isso basta para torná-los quase decadentes... A curta duração da beleza, do gênio de César, é sui generis: tais qualidades não se transmitem por hereditariedade.

O tipo é hereditário; nada tem de extremo, não é um “lanço da sorte”... Não há nisso qualquer fatalidade particular, qualquer malquerer da natureza, mas simplesmente a idéia do “tipo superior”; o tipo superior representa uma complexidade infinitamente maior, — uma soma maior de elementos coordenados: eis por que a desagregação é infinitamente mais provável. O “gênio” é a máquina mais sublime que existe, — e por isso mesmo a mais frágil.

Terceira proposição: a domesticação (a “cultura”) do homem não atinge as camadas mais profundas... Em toda a parte onde penetra profundamente torna-se também degenerescência (o tipo de cristão). O homem “selvagem” (ou, para melhor expressar-me sob o ângulo moral, o homem mau) é um retorno à natureza — e, num certo sentido, um restabelecimento, uma cura da “cultura”...

O que mais me surpreende, quando passo em revista os grandes destinos da humanidade, é ter sempre diante dos olhos o contrário do que hoje vêem ou do que desejam ver Darwin e sua escola: a seleção em favor dos seres mais fortes e bem-nascidos, o progresso da espécie. Mas é precisamente o contrário o que entra pelos olhos: a supressão dos casos felizes, a inutilidade dos tipos melhor nascidos, a dominação inevitável dos tipos médios e até dos que estão abaixo da mediania. A menos que me demonstrem a razão que determina ser o homem exceção entre as criaturas, inclino-me a crer que a escola de Darwin errou em tudo. Essa vontade de potência, em que reconheço o fundo e o caráter de toda mutação, explica-nos por que a seleção não se faz precisamente em favor das exceções e dos acasos felizes: os mais fortes e os mais felizes são fracos, quando têm contra si os instintos organizados do rebanho, a pusilanimidade dos fracos e o grande número. Minha perspectiva total do mundo dos valores demonstra que, nos mais altos valores agora colocados acima da humanidade, não são os acasos felizes, os tipos de seleção que têm superado, mas os tipos de decadência. — Talvez nada haja de mais interessante neste mundo que este espetáculo indesejado...

Qualquer singularidade que haja em afirmá-lo, é mister sempre pôr em valor os fortes contra os fracos, os bem-nascidos contra os mal-nascidos, os saudáveis contra os degenerados e os doentes por hereditariedade. Se se quer reduzir a realidade numa fórmula moral, essa moral expressar-se-ia assim: a média vale mais que a exceção, as formações da decadência mais que a média; a vontade do nada prevalece sobre a vontade de viver — e a finalidade geral é, desde já, qualquer que seja a maneira em que se queira expressar, cristã, budista ou schopenhaueriana: “Antes não ser, que ser.”

Revolto-me contra essa maneira de formular a realidade para fazer dela uma moral: eis por que detesto o cristianismo com um ódio mortal, porque criou palavras e atitudes sublimes para outorgar a uma realidade detestável o manto do direito, da virtude, da divindade.

Vejo toda filosofia, vejo toda ciência de joelhos diante da realidade de uma luta pela vida que é o contrário dessa que ensina a escola de Darwin, quero dizer que percebo em toda a parte, na primeira fila, sobrando os que comprometem a vida, o valor da vida. O erro da escola de Darwin tornou-se para mim um problema: como se pode ser tão cego para enganar-se justamente neste caso?... Pretender que as espécies representam um progresso, é a afirmação mais desarrazoada do mundo: provisoriamente representam um nível. Se os organismos superiores se desenvolveram dos organismos inferiores, nenhum exemplo ao menos o demonstra... Vejo que os inferiores têm a preponderância pelo número, pela astúcia, pelo ardil. Não vejo como uma mutação fortuita pode ser vantajosa, sobretudo numa espécie de tempo tão longa: pois então se precisaria explicar por que uma transformação fortuita adquiriu uma tal força.

Encontro em outra parte a “crueldade da natureza” da qual tanto se fala: a natureza é cruel para os favoritos da fortuna: ela alimenta e protege e ama os humildes. Em resumo, o aumento de potência de uma espécie está garantido menos talvez pela preponderância de seus favoritos, de seus fortes, que pela preponderância dos tipos médios e inferiores... Estes últimos possuem uma grande fecundidade e a duração; com os primeiros, aumenta o perigo, a destruição rápida, a diminuição do número.”

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É isso!