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Thomas Kuhn: O Conceito de Revolução Científica

“Se a história fosse vista como um repositório para algo mais do que anedotas ou cronologias, poderia produzir uma transformação decisiva na imagem de ciência que atualmente nos domina.” (THOMAS KUHN) Norte-americano, Thomas Kuhn nasceu em Cincinnati, Ohio (EUA). Foi professor na Universidade de Princeton; no MIT (Massachusetts Institute of Technology), no período de 1979 a 1991, onde encerrou sua carreira no magistério.

Kuhn é protagonista do que se convencionou chamar de “a nova filosofia da ciência”. Seu trabalho está na esteira de autores aos quais reconhece a antecedência, a saber: as pesquisas históricas de Koyré, Meyerson, Helène Metzger, Anneliese Maier, as inspirações de James B. Conant, os trabalhos de Jean Piaget, de Benjamin Whorf, de Ludwig Fleck, além das análises filosóficas de Quine.

Para Kuhn, o estudo histórico da ciência – que reúne e implica, a um só tempo, a habilidade do historiador e o conhecimento do cientista – é indispensável para se compreender como se desenvolveram as teorias científicas, como também por quê, em alguns momentos da história, certas teorias foram mais bem aceitas em vez de outras e, por isso, justificadas e validadas. Essa postura contraria a idéia de que a filosofia da ciência é, simplesmente, uma reconstrução lógica de teorias científicas.

Apesar de Thomas Kuhn ter, inúmeras vezes, revisto e aprimorado seu pensamento, podemos dizer que suas idéias centram-se no que se poderia chamar de “ciência normal” e de “ciência anormal”.

A ciência normal é aquela que é elaborada por uma comunidade científica e serve de base para os desenvolvimentos subseqüentes. Assim, baseia-se num paradigma (termo grego, empregado por Platão, em vários sentidos: “exemplo”, “amostra”, “cópia”, “padrão”, “modelo”; para melhor significar o sentido de paradigma em Platão, devemos precisar o mesmo como modelo = idéia. O termo também pertence ao vocabulário da gramática, designa um exemplo de construção sobre o qual muitos outros podem ser moldados), do qual derivam regras (sabe-se, no entanto, que para Kuhn, os paradigmas podem orientar a investigação mesmo na ausência de regras). Estabelecido um paradigma, a investigação procede de maneira semelhante à solução de “enigmas”, não sendo postos em dúvida os fundamentos do paradigma.

Descobertas “anomalias” no transcorrer do processo investigatório, o que de fato geralmente ocorre, o pesquisador deixa-as de lado como questões relativamente inoportunas, afim de que sejam melhor analisadas posteriormente. Quando tais anomalias tornam-se excessivas e já não se podem ignorá-las ou explicá-las em termos teóricos “normais” – elas assumem um caráter metafísico e extrapolam os limites científicos da teoria – produz-se, então, uma quebra do paradigma, que será substituído por outro. É no trânsito de um paradigma a outro que a ciência oferece um aspecto “anormal”, pois já não se está somente diante de perplexidades, mas diante de problemas que exigem, para sua solução, uma nova teoria, um novo paradigma.

A mudança de paradigma provoca um “deslocamento” semelhante ao que se observa no campo da percepção quando, de acordo com a Psicologia da Gestalt, se vê uma figura diferente da até então vista. Ora, os mesmos fatos são observados de forma distinta, numa perspectiva diferente, isto é, agora, no âmbito de um novo paradigma. As revoluções científicas consistem nessa crise de fundamentos: são mudanças na visão de mundo < invisíveis > inclusive para os próprios cientistas que as realizam.

As anomalias podem ser interpretadas como falseamento de teorias científicas, mas também podem ser vistas como condições para o surgimento de uma nova teoria. O paradigma pode ser estudado como uma estrutura lógica ou como uma série de pressupostos que são condições de possibilidade da investigação científica.

As idéias de Thomas Kuhn, sobre a estrutura das revoluções científicas, alcançaram grande ressonância devido ao fato de: abarcarem um campo muito amplo que vai da lógica da descoberta científica à psicologia (e à sociologia) da produção científica; seus conceitos básicos terem suficiente flexibilidade para admitir interpretações as mais diversas. Assim, é preciso considerar que uma mudança de paradigma pode acontecer subitamente, a exemplo daquele “deslocamento” da visão, antes indicado, como também pode acontecer que a formação de um novo paradigma leve muito tempo para se consolidar, o que pode implicar a coexistência de dois ou mais paradigmas num mesmo momento histórico.

Kuhn sempre rejeitou interpretações extremas de suas idéias. Assim, recusou todo reconstrucionismo e mesmo todos os falseamentos ingênuos; não aceitou que sua teoria sobre a estrutura e a história das teorias científicas fosse tratada como uma mera manifestação de historicismo, psicologismo ou de sociologismo. Seu trabalho está voltado para o desenvolvimento, por meio da descrição e da análise histórica, de uma teoria da racionalidade dentro da qual talvez se possam explicar as noções de paradigma e de mudança de paradigma, incluindo-se aí toda mudança radical ou revolucionária.

Neste sentido, dado o caso, num determinado momento histórico, de um paradigma diferir fundamentalmente de outro e, de modo específico, se um paradigma novo difere fundamentalmente do velho paradigma que, com o advento da crise, chegou a substituir, parece que se tem de concluir que os dois são completamente incomparáveis entre si. Esta situação de incomparabilidade entre os dois paradigmas não só tornaria difícil, mas também impossível uma história da ciência, que é justamente o que Kuhn procura fazer. Além disso, a ausência de uma história da ciência, fatalmente levaria a um irracionalismo e a um relativismo terminantemente recusados por Kuhn.

Essa incomparabilidade ou incomensurabilidade entre duas teorias, consiste numa diferença estrutural nas relações de termos-tipo (Kindterms) usados em distintas comunidades. Ela é sempre local, quer dizer, uma mudança teórica revolucionária afeta sempre alguns conceitos, mas nunca sua totalidade. Esse caráter local (específico, não geral) da incomensurabilidade, é o que permite uma ampla base conceitual comum para que se possa, apesar das diferenças conceituais pontuais, comparar teorias.

Bem entendida, a incomensurabilidade não impede – como alguns podem pensar – um real progresso do conhecimento. Ao contrário, é ela que, na realidade, leva ao progresso cognoscitivo, uma vez que este progresso não é meramente quantitativo, implicando, assim, uma profunda reorganização do conhecimento até então estabelecido. Não se trata de uma busca progressiva da verdade, pois Kuhn nega a existência de uma verdade independente da teoria.

O progresso científico precisa ser entendido de forma instrumental, como um crescimento intrateórico da capacidade de resolver problemas e de fazer previsões. É claro que essa compreensão do desenvolvimento teórico assinala um preço a ser pago pelas comunidades científicas, a saber: a crescente especialização que isola as comunidades umas das outras.”

NB: Cf., Ferrater Mora, 2001, págs. 1669s, 2199s.


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Fonte:
"Filosofia da Ciência": Nelson Matos de Noronha, José Alcimar de Oliveira, Deodato Ferreira da Costa. UEA – Universidade do Estado da Amazonas. Manaus, 2006.

Nota:
A imagem não se inclui na referida obra.

Thomas Kuhn e o funcionamento comunitário da ciência

"Embora, o modelo mertoniano tenha prevalecido até a década de setenta como um dos principais modelos da sociologia da ciência, a partir do final da década de cinqüenta e início dos anos sessenta, outros pensadores contribuíram para desconstrução dos modelos lógicos da filosofia da ciência que predominavam até então. Autores como Thomas S. Kuhn, Paul Feyranbend, Ludwig Wittgenstein, dentre outros, começaram a explicitar e apresentar ferramentas conceituais que explicitavam aspectos não contemplados nos estudos epistemológicos da ciência. A função da história, a subjetividade do cientista, a linguagem e as transgressões metodológicas são alguns dos pontos investigados por esses pensadores que auxiliaram a crítica da ciência como algo “puro” que poderia ser analisada apenas por seus aspectos racionais. Algo que se tornou cada vez mais difícil à medida que a pesquisa histórica e sociológica se entrelaçava com temas supostamente lógicos da ciência. (Oliva, 1994) O clássico trabalho de 1962 de Thomas S. Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas” é uma síntese e, ao mesmo tempo, um marco nas discussões sobre a história e sociologia da ciência, que traz a tona o controle social da ciência.

Kuhn (1962/2006), ao buscar compreender os padrões de uma comunidade cientifica e como ocorrem as mudanças de perspectivas científicas, chamadas de revoluções científicas, apresenta uma interpretação que vai muito além da epistemologia positivista. Na verdade, sua obra caracteriza-se por não dar destaque especial à epistemologia, mas sim a questões de ordem subjetiva e formas de controle social estabelecidas pela comunidade científica que são determinantes para a maneira como o cientista direciona seus esforços para certos problemas científicos. Para isso, Kuhn recorre a diversas disciplinas: História, Sociologia, Psicologia, Filosofia da linguagem, dentre outras. É emblemática nesse sentido a afirmação de Kuhn (1962/2006), na introdução de seu livro, quando afirma que: “(...) muitas de minhas generalizações dizem respeito à sociologia ou à Psicologia Social dos cientistas”.( p.27). Oliva (1994) sobre esse ponto destaca que:

É ambicioso o projeto Kuhniano: ir da história da ciência para a epistemologia passando por generalizações sobre as condições psicossociais que tornam possível fazer ciência. Daí conferir destaque à seguinte questão: é a comunidade especial que congrega os cientistas, que dá unidade mínima às atividades de seus praticantes ou é a existência de um método, ainda que tacitamente compartilhado, que gera a identidade peculiar dessa comunidade? Seu modo de respondê-la corresponde à busca dos pontos de interação entre as razões epistêmicas tradicionais e os fatores psicossociais que se fazem presentes no processo de reprodução da racionalidade científica. (Oliva, 1994, p. 68-69).

Para Kuhn (1962/2006) a comunidade científica é caracterizada pela adoção de um paradigma – ou matriz disciplinar 2. Para o autor “(...) paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma.” (Kuhn, 1962/2006, p. 201).

Dessa forma, a comunidade científica é constituída por pessoas que aderem ao paradigma formando o que ele chama de “ciência normal”. Essa adoção, segundo Kuhn (1962/2006), é fruto da tradição de pesquisa na qual os estudantes se inserem e são “obrigados” a se preocupar com determinados problemas que a comunidade científica impõe.

(...) “ciência normal” significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior.(p.29)

A partir disso, a comunidade científica estabelece formas de socialização específicas. Hochman (1994), ao discutir esse ponto na obra de Kuhn, sugere que o estabelecimento de um paradigma pode ser observado, em particular, pelos meios de comunicação utilizados pela comunidade. O aparecimento de revistas especializadas, sociedades, encontros e congressos, currículos de cursos, manuais científicos e livros didáticos são alguns dos meios pelos quais é possível observar a aceitação e divulgação de um paradigma.

Assim, Kuhn (1962/2006) salienta a necessidade de voltar-se para uma análise da estrutura comunitária da ciência. “Como se escolhe uma comunidade científica? Qual o processo e quais etapas as etapas de socialização de um grupo? Quais os objetivos coletivos de um grupo; que desvios, individuais ou coletivos, ele tolera?” (Kuhn, 1962/2006). São perguntas que podem indicar a organização social da comunidade científica.

Isso leva Kuhn (1962/2006) a dar destaque ao papel desempenhado pela linguagem assumida por uma comunidade cientifica uma vez que a relação entre os pesquisadores de uma comunidade científica ocorre por meio de uma linguagem bastante particular e, que para compreendê-la, é preciso estar minimamente inserido naquele contexto. Então, para Kuhn (1962/2006), a criação, legitimação e reprodução de uma linguagem é fator essencial para formação de uma comunidade científica. As duas últimas frases do posfácio da “Estrutura das revoluções científicas” evidenciam a importância dada a esse aspecto que é posteriormente uma das bases das tentativas reformulação de sua teoria.

O conhecimento científico, como linguagem, é intrinsecamente a propriedade comum de um grupo ou então não é nada. Para entendê-lo, precisamos conhecer as características essenciais dos grupos que a criam e o utilizam. (Kuhn, 1962/2006).

Embora a noção de paradigma seja vista por diversos críticos de Kuhn como uma idéia estática da ciência, Kuhn (1962/2006) afirma que não é verdade que sua teoria não reserve
espaço para problemas. Para ele, esses problemas são revelados por aquilo que ele chama de anomalias, sendo essas fundamentais para transformações na ciência. Em termos gerais, anomalias são problemas que surgem no interior de uma comunidade científica quando conceitos e/ou teoria não possibilitam ou são limitados para a resolução de problemas científicos. Anomalias são normais na ciência, mas essas passam a desempenhar papel importante na transformação da ciência quando levam grande parte da comunidade científica a procurar sua resolução e essa resolução torna-se visível e explicita um problema do paradigma ao lidar com determinados fenômenos. Isso acaba por resultar na consciência de uma crise do paradigma que supostamente conseguia ter respostas satisfatórias para um determinado fenômeno.

Nesses momentos de crise do paradigma, são bastante comuns explicações não tradicionais para resolução do problema, o que acarreta a instauração de instabilidade do modelo vigente, de modo que o cientista passa a não mais ter confiança total em seu modelo científico. Com a eclosão dessa crise, todos os esforços da comunidade científica voltam-se para resolução desse problema que é em geral resolvido através da formulação de um novo modelo científico - estrutura-se dessa forma uma revolução científica. A partir dessa revolução, a comunidade científica passa a operar de forma totalmente incompatível com o paradigma anterior – assim um paradigma torna-se incomensurável . Isso significa que:

Conseqüentemente, em períodos de revolução, quando a tradição científica normal muda, a percepção que o cientista tem de seu meio ambiente deve ser reeducada – deve aprender a ver uma nova forma (gestalt) em algumas situações com as quais já está familiarizado. Depois de fazê-lo, o mundo de suas pesquisas parecerá, aqui e ali, incomensurável com o que habitava anteriormente. Está é uma outra razão pelo qual escolas guiadas por paradigmas diferentes estão sempre em desacordos.(Kuhn, 1962/2006, p.148)

Para Kuhn (1962/2006), o resultado de uma revolução científica é que a comunidade passa a vigorar sobre uma nova visão de mundo. Embora, não seja nosso objetivo aprofundar nas complexas discussões críticas que o trabalho do referido autor suscita até hoje.

Destacam-se neste momento dois pontos importantes para o campo da presente investigação. O primeiro diz respeito a principal fonte de crítica ao trabalho de Kuhn – a noção de incomensurabilidade dos paradigmas. O que alguns autores (Oliva, 1994; Roque, 2002) sugestionam é que uma revolução científica não significa o rompimento total com um modelo anterior e muito menos que o cientista mude de forma irrevogável sua visão de mundo ao adotar um paradigma novo. O segundo aspecto diz respeito às várias discussões sobre a impossibilidade de utilização do modelo de Kuhn para interpretação das ciências humanas e sociais. Isso porque, para Kuhn, seria impossível falar de paradigma nessas ciências. Em sua perspectiva, elas estariam situadas em um período denominado de pré-paradigmático, logo estariam em constante crise pré-paradigmática. Contudo, ele não argumenta que isso signifique algo inferior às ciências naturais nem muito menos que vários de seus conceitos, e esclarecimentos acerca do funcionamento da comunidade científica não sejam úteis para uma
interpretação das ciências humanas. Embora, seja quase impossível uma interpretação negativa derivada dessa concepção. Desse modo, o próprio Kuhn (1962/2006) realiza em sua obra análises de alguns aspectos do funcionamento das ciências sociais e outras áreas do conhecimento a partir de muitos de seus conceitos.

O que é necessário destacar neste momento é que a apresentação de algumas noções gerais das formulações de Kuhn não tiveram como função recorrer aos seus argumentos como base para discutir ou afirma a idéia de paradigma no contexto da Psicologia Social. O que buscamos foi destacar que Kuhn (1962/2006) explicita importantes aspectos que envolvem o controle social da ciência que parecem independer de qual modelo científico está se tratando, principalmente, aqueles envolvidos na definição de ciência normal.

Nessa perspectiva, Masterman (1970/1979) afirma que, dentre os diversos significados dados à expressão paradigma por Kuhn, encontra-se aquele que aproxima sua análise de questões sociológicas da ciência as quais envolvem o funcionamento da comunidade científica. Assis (1993) sugere que, nessa definição de paradigma, Kuhn estaria mais preocupado com questões que: “Dizem respeito mais à natureza da aceitação que às características estruturais de um corpo de doutrina.”(p.140).

A definição, por exemplo, dos problemas que serão investigados por uma comunidade científica estão largamente relacionados ao paradigma ou matriz disciplinar adotada até aquele momento. “Numa larga medida, esses são os únicos problemas que a comunidade admitirá como científicos ou encorajará seus membros a resolver.” (Kuhn 1962/2006, p.60). Nesse sentido, Kuhn (1962/2006) destaca o controle exercido pela comunidade científica sobre seus integrantes. Esse controle, com certeza, é mais explícito nas ciências naturais na qual os programas de pesquisa são bastante específicos e supostamente mais rígidos do que nas ciências humanas. O que não significa que esse tipo de controle não ocorra em tais ciências. O que parece acontecer, nesse caso, é um controle menos explícito o que dificulta observar as formas de controle social vigentes nessas áreas.

Ainda sobre o controle social da ciência Kuhn (1962/2006) chama atenção de aspectos até então poucos destacados, como, por exemplo, o pressuposto de que a comunidade científica é coercitiva e dogmática, em especial, com aqueles que buscam demonstrar que o modelo em vigor de uma ciência apresenta problemas, e outro pressuposto polêmico seria o de que a ciência, em alguma medida, é um empreendimento bem sucedido porque grande parte dos cientistas aceitam os pressupostos daquele modelo em vigor sem questionamento. Por isso, Kuhn (1962/2006) destaca que, para compreender como um pesquisador escolhe uma comunidade científica e como ele torna-se membro dessa sociedade, é preciso saber quais as etapas da socialização de uma comunidade científica e como são definidos os objetivos de um grupo e, ainda, como a comunidade lida com os desvios individuais e coletivos. O evidencia que tal enfoque salienta a importância de se voltar para o funcionamento comunitário da ciência.”

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É isso!

Fonte:
Robson Nascimento da Cruz: “A produção social do conhecimento na Psicologia Social brasileira: um estudo descritivo/exploratório a partir da revista Psicologia & Sociedade”. (Dissertação de mestrado apresentada ao Curso de pós-graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre). Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

"Anomalia e crise" em Thomas Kuhn

ANOMALIA/CRISE

“O exercício da ciência normal admite a percepção de anomalias, fato ligado à característica de relaxamento das restrições impostas pelo paradigma, conforme explicitado na seção anterior. Portanto, o adjetivo “normal” para designar o período em que a pesquisa acontece de forma persistente e determinada, segundo as indicações do paradigma, não indica uma rotina em que os imprevistos estão afastados. A crise é provocada pela desorientação da ciência normal quando as anomalias resistem ao trabalho do cientista em enquadrá-las nos preceitos ditados pelo paradigma


[...] a ciência normal freqüentemente suprime novidades fundamentais [...] não obstante, na medida em que esses compromissos retêm um elemento de arbitrariedade, a própria natureza da ciência normal assegura que e a novidade não será suprimida por muito tempo. Algumas vezes um problema comum [...] resiste ao ataque violento e reiterado dos membros mais hábeis do grupo [...] em outras ocasiões, uma peça de equipamento, projetada para fins da pesquisa normal, não funciona segundo a maneira antecipada [...] Desta e de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. (KUHN, 2001, p.24-25)

O exercício da ciência normal tem um papel regulador no desenvolvimento da pesquisa científica; ao mesmo tempo é inerente à sua natureza assegurar que a novidade apareça, provocando desequilíbrios. Regular e desequilibrar podem parecer ações paradoxais, entretanto essa combinação constitui-se na força motriz do desenvolvimento científico. Essa aparente contradição revela a presença do cientista como elemento imprescindível deste desenvolvimento. O elemento de arbitrariedade, citado por Kuhn, localiza-se naqueles que assumem o compromisso com a ciência normal, ou seja, os cientistas. O desenvolvimento científico não é determinado apenas pela observação e pela experiência. Elementos, como a história pessoal dos cientistas, ajudam a formular as crenças que a comunidade científica possui em determinada época e constituem os aspectos denominados por Kuhn como “[...] aparentemente arbitrários [...]” (KUHN, 2001, p.23)

Certamente há uma relação estreita e interdependente entre ciência normal e anomalia. Pode-se caracterizar a ciência normal como uma atividade de caráter rígido, estável, que, como já exposto, é regulada e direcionada, exigindo dos cientistas o compromisso em manter a pesquisa no âmbito dos limites impostos pelo paradigma. A anomalia, por sua vez, é elemento implícito na ciência normal. Entretanto, ela é, também, um fator de perturbação, de instabilidade que se instala no exercício da ciência normal.

Depois que elas [novidades fundamentais relativas a fatos e teorias] se incorporam à ciência, o empreendimento científico nunca mais é o mesmo – ao menos para os especialistas cujo campo de estudo é afetado por essas novidades. (KUHN, 2001, p.78)

Pressupõe-se que ciência normal e anomalia não sobrevivem uma sem a outra A ciência normal sem a presença da anomalia seria puro exercício de repetição. O próprio conceito de quebra-cabeças impõe a presença de desafios que se colocam aos cientistas. Esses quebra-cabeças podem ser resolvidos pelo paradigma, podem ser deixados de lado para servirem como objeto de pesquisa futura ou podem perturbar de tal forma o exercício da ciência normal, que sua presença torna necessária uma nova abordagem. Este processo pode levar a uma mudança de paradigma, denominada por Kuhn como Revolução Científica.

O objeto da pesquisa científica é a natureza e seus fenômenos. A complexidade da natureza com a qual a ciência se depara no processo de pesquisa, abre espaço para que cada vez mais novos fenômenos sejam descobertos.

Kuhn denomina como fatos os fenômenos que são descobertos durante o exercício da ciência normal e que não eram esperados ou previstos; denomina como teorias, as invenções que os cientistas propõem para a pesquisa científica, embora o autor afirme que a distinção entre descoberta e invenção seja artificial. O desenvolvimento histórico sugere que a ciência normal sempre é sobressaltada por fatos insuspeitados, pelos quais os cientistas são pegos de surpresa. Quando Kuhn enuncia por meio de um argumento circular, que “[...] é preciso que a pesquisa orientada por um paradigma seja um meio particularmente eficaz de induzir a mudanças nesses mesmos paradigmas que a orientam”(KUHN, 2001, p. 78), está confirmando a relação necessária entre a regularidade da pesquisa científica e a produção de fatos.

Muitos eventos aparecem e reaparecem periodicamente, fazendo com que as descobertas não sejam fatos isolados. O que faz com que um fato seja considerado uma descoberta a ser pesquisada e estudada pela pesquisa científica é a consciência da anomalia, ou seja, a percepção clara de que algo não está bem com a ciência normal. Ao ferir as expectativas que o paradigma originou, a anoma lia obriga os cientistas a explorarem a área em que ela surgiu. Entretanto, o novo fato só será considerado científico, quando o cientista aprender a ver o mundo de uma outra forma. Essa relação entre fato e teoria, apontada por Kuhn, demonstra como a tentativa de distinção entre descoberta e invenção é artificial, isto é, fatos e teorias estão entrelaçados. Não basta aparecerem novos fatos; os cientistas precisam propor quebra-cabeças, de acordo com os pressupostos teóricos, para eliminar a anomalia. Se a anomalia se mostra resistente, a desorientação, que inicialmente seria eliminada, instala-se no exercício da ciência normal.

Quando a anomalia se instala de forma irreversível, de modo que os cientistas não conseguem enquadrá- la na teoria vigente, ela contribui para a mudança de paradigma. A simples assimilação da anomalia pela ciência normal permite uma ampliação do número de fenômenos tratados pelos cientistas, além de uma maior precisão sobre os fenômenos antes tratados. Essa alteração construtiva só é possível pela modificação ou substituição de crenças ou procedimentos antes adotados. Entretanto, outros fatores contribuem para o questionamento do paradigma, como a interferência de eventos externos à comunidade científica. Na ERC, Kuhn trata da instalação irreversível de uma anomalia que culmina na crise e esta pode conduzir ao processo da Revolução Científica. A seguir apresenta-se a caracterização do período crítico no exercício da ciência normal.

Kuhn garante que a consciência da anomalia permite o aparecimento de novos fenômenos e a possibilidade de descobertas científicas aos olhos dos cientistas. Uma consciência mais profunda da anomalia é pré-requisito para as mudanças de teorias, desde que a nova teoria, ao aparecer, proponha promessas inquestioná veis de sucesso. Alguns exemplos citados pelo autor ilustram esse caminho:

A astronomia ptolomaica estava numa situação escandalosa, antes dos trabalhos de Copérnico. As contribuições de Galileu ao estudo do movimento estão estreitamente relacionadas com as dificuldades descobertas na teoria aristotélica pelos críticos escolásticos [...] A Termodinâmica nasceu da colisão de duas teorias físicas existentes no século XIX e a Mecânica Quântica de diversas dificuldades que rodeavam os calores específicos, o efeito fotoelétrico e a radiação de um corpo negro [...] Além disso, em todos esses casos, exceto no de Newton, a consciência da anomalia persistira por tanto tempo e penetrara tão profundamente na comunidade científica que é possível descrever os campos por ela afetados como em estado de crise crescente [...] (KUHN, 2001, p. 94-95)

Com relação ao sistema ptolomaico, fatores de ordem externa, além da consciência da anomalia e das tentativas infrutíferas no sentido de sua eliminação, levaram, mesmo que lentamente, à instalação de uma crise e à mudança de paradigma. A título de exemplo, pode-se citar a pressão social para a reforma do calendário. Este foi um dos fatores externos que influenciou a substituição do modelo cosmológico geocêntrico de Ptolomeu, pelo modelo heliocêntrico de Copérnico. No entanto, os fatores de ordem externa, mesmo importantes, não são determinantes; no centro da crise está o fracasso técnico. Kuhn não faz uma análise profunda sobre as influências de fatores externos na mudança de paradigma e alega que essa discussão não está nos propósitos do seu trabalho.

Muitas das soluções dos problemas enfrentados pela pesquisa normal apareceram bem antes de sua adoção. Entretanto, foram ignoradas porque, no momento em que surgiram, a pesquisa normal não se encontrava em crise. Reforça-se o papel fundamental que a crise tem no desenvolvimento científico.

Um exemplo claro é o de Aristarco, no século três antes de Cristo. Aristarco antecipara o modelo cosmológico heliocêntrico. Entretanto foi ignorado, porque o modelo ptolomaico resolvia muito bem os problemas da época, que dependiam de uma concepção cosmológica. Não havia sentido considerar uma mudança de orientação.

Além de demonstrar a importância da crise, o exemplo de Aristarco reforça a característica funcional da contextualização do paradigma. Kuhn reforça a importância de não prescindir da atenção ao papel do contexto histórico ao se falar em desenvolvimento científico, declarando:

“[...] Afirma -se freqüentemente que se a ciência grega tivesse sido menos dedutiva e menos dominada por dogmas, a astronomia heliocêntrica, poderia ter iniciado seu desenvolvimento dezoito séculos antes. Mas isso equivale a ignorar todo o contexto histórico. Quando a sugestão de Aristarco foi feita, o sistema geocêntrico, que era muito mais razoável do que o heliocêntrico, não apresentava qualquer problema que pudesse ser solucionado por este último”. (KUHN, 2001, pp. 103-104)

As crises “[...] indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos [...]” (KUHN, 2001, p. 105) e este é o seu exato significado. As crises provocam desequilíbrio, contudo não impedem que os cientistas resistam a elas.

Uma das formas dos cientistas reagirem à crise é não desistirem de sua pesquisa na forma como está sendo realizada. Para isso, os cientistas não renunciam ao paradigma sob o qual desenvolvem suas pesquisas, mesmo que estejam com suas convicções abaladas e permitam-se considerar alternativas. Além disso, “[...] não tratam as anomalias como contra-exemplos do paradigma” (KUHN, 2001, p.107).

Há uma forte razão para que os cientistas não abandonem o paradigma, quando as anomalias ou os contra-exemplos aparecem. Caso os cientistas assumissem a renúncia ao paradigma apenas por estes fatores, não seriam mais cientistas.

O estudo histórico permite perceber que a rejeição a um paradigma só acontece quando um outro se coloca em substituição. Certamente, o novo paradigma deverá apresentar promessas de solução aos problemas postos pelas novas descobertas. Isso implica que os paradigmas são comparados entre si, além de passarem por uma comparação com a natureza.”

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Fonte::
LILIAM FERREIRA MANOCCHI: "PARADIGMAS EM KUHN: CONTEXTO, IMAGEM E AÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA". (Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Filosofia, sob a orientação do Professor Doutor Edelcio Gonçalves de Souza). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2006.

Nota:
O título inicial e a imagem (fonte:
Biblioteca Nacional Digital do Brasil) inseridos no texto não se incluem na referida tese.

O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.

As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

As visões de ciência de Thomas Kuhn e Gaston Bachelard

“Em primeiro lugar, ambos trabalham com o binômio ruptura-continuidade quando refletem sobre o desenvolvimento da ciência e do indivíduo. Já explicitamos de que modo isso aparece na epistemologia kuhniana, na qual a mudança entre paradigmas requer uma ruptura. Embora Kuhn enfatize a idéia de “comunidade científica”, deixa claro que o indivíduo particular deve ser convertido ao novo paradigma, e discute, como vimos, “boas razões” para essa adesão. Isso significa que a ruptura dá-se na ciência como um todo e no indivíduo, em particular. Bachelard, embora não se utilize da noção de paradigma, defende também a idéia de ruptura, que para ele significa um rompimento com os obstáculos epistemológicos que se colocam para o indivíduo. Sua ênfase encontra-se no indivíduo, no espírito científico que evolui superando obstáculos. E nos fala também ele de uma “conversão”:

Todo o progresso real no pensamento científico necessita de uma conversão. Os
progressos do pensamento científico contemporâneo determinam transformações nos próprios princípios do conhecimento.”

A idéia de continuidade parece-nos ainda mais clara em Bachelard, uma vez que
no conceito de perfil epistemológico está garantida a permanência das diversas doutrinas filosóficas. Isso representaria um tipo de continuidade conceitual no indivíduo, uma vez que os conceitos “ultrapassados” continuam fazendo parte de sua estrutura cognitiva, podendo ser usados tanto em sua linguagem cotidiana como na resolução de problemas científicos. O “alargamento” filosófico proposto por Bachelard por meio de sua filosofia do não esclarece-nos acerca da natureza da continuidade existente, por exemplo, entre a mecânica newtoniana e a relatividade, que representa um tipo de continuidade conceitual na ciência, não deixando, ao mesmo tempo, de destacar a ruptura existente entre uma e outra.

Esse segundo tipo de continuidade é apontado por Kuhn quando afirma que um paradigma conserva boa parte das realizações científicas passadas, e que o “novo” conhecimento sempre resgata parte do anterior, sob nova ótica. No entanto, o autor não
aprofunda muito a natureza desse “resgate”, e foi justamente nesse ponto que consideramos oportuna a introdução de algumas idéias de Bachelard. Quanto ao primeiro tipo de continuidade, ou seja, a continuidade conceitual no indivíduo, Kuhn parece contradizer as teses de Bachelard ao defender que o cientista normal é um devoto exclusivo de um paradigma. A questão é complexa, pois não há correspondência direta entre o “paradigma” kuhniano e a “doutrina filosófica” bachelardiana.

A contradição tende a desaparecer se assumirmos um ponto de vista “bachelardiano”, numa tentativa de “alargar” a posição de Kuhn. Afirmaríamos então que o cientista normal pode, por vezes, utilizar-se de paradigmas “ultrapassados”, do mesmo modo que se utiliza de noções filosóficas “ultrapassadas”. No lançamento de um satélite, por exemplo, pode não ser necessário fazer uso de correções relativísticas, o que garante a aplicação do paradigma newtoniano. Os cientistas envolvidos podem,certamente, pensar, agir e comunicar-se de forma newtoniana ao levar a cabo tal atividade. Isso não significa que não haja um paradigma dominante, pois o cientista sabe que está aplicando parte de um paradigma “ultrapassado”. Ainda que não tenha essa clareza durante todo o tempo, tomará o devido cuidado ao escrever um trabalho científico a respeito. Pode-se estabelecer aqui, inclusive, um paralelo com um estudante
principiante de física que, em situações de sala de aula, utiliza corretamente a física newtoniana na solução de exercícios típicos, e deixa transparecer a física aristotélica em situações não convencionais.

São os protagonistas de revoluções, entretanto, que nos evidenciam de forma maiscontundente como noções filosóficas e paradigmas diferentes podem conviver em um mesmo indivíduo. Kuhn salienta a existência de “debates filosóficos” nos momentos de transição. A “ciência extraordinária” é um momento propício para aflorar esse tipo de discussão. Encontramos em Galileu, Planck e Bohr, entre outros, fortes evidências em favor dessa análise, que seria uma interpretação bachelardiana tanto do espírito que
articula a ciência normal quanto daquele associado às revoluções científicas.

Chamamos a atenção, nos parágrafos anteriores, para a continuidade existente apesar das rupturas, para a sutil continuidade entre paradigmas incomensuráveis, que pode variar de intensidade e natureza (conceitual, ontológica, formal-matemática etc). Haveria ainda espaço para falarmos em outro tipo de continuidade, presente nos períodos de “calmaria” representados pela prática da ciência normal. Essa seria um tipo
explícito de continuidade, é a própria articulação do paradigma. É, mais apropriadamente, um continuísmo. É essa continuidade que Kuhn caracteriza como um aspecto cumulativo da ciência normal.

A análise precedente parece-nos relacionar, por fim, as visões do processo ruptura-continuidade em Kuhn e Bachelard, complementando-as. Contudo, não se dá essa complementação de modo tácito, restando uma vastidão de problemas filosóficos “abertos”. Por exemplo, o das possíveis relações entre a noção de “paradigma” e a idéia
de “doutrina filosófica”.

O caráter conservador da atividade científica é bastante evidente na visão kuhniana. Já Bachelard não segue esse caminho, mas deixa claro que, se deve haver rupturas, é porque há obstáculos colocados pela própria prática científica. Ao discutir o conceito de “massa negativa” de Dirac, por exemplo, afirma que para o cientista do século XIX esse conceito pareceria “monstruoso”, e seria considerado um erro fundamental. Não seria essa uma situação na qual a ciência normal procura afastar uma anomalia, desconsiderando-a, tratando-a como não-científica? As dificuldades de superação de um racionalismo simples em direção ao ultra-racionalismo evidenciam como:

“(...) as filosofias mais sãs como o racionalismo newtoniano e kantiano podem, em determinadas circunstâncias, constituir um obstáculo ao progresso da cultura.”

Vemos também profundas semelhanças entre a noção de incomensurabilidade de Kuhn e a idéia de transcendência presente em Bachelard. Os dois autores certamente concordam no que se refere à existência de mudanças nos significados de conceitos como espaço, tempo, massa, energia etc, quando analisamos comparativamente as mecânicas de Newton e de Einstein. Entretanto, Kuhn fala de uma transformação radical
na visão de mundo do cientista, que passa a viver num “mundo diferente” com a mudança de paradigma. Bachelard não parece ir tão longe, preocupado que está em evidenciar o “alargamento” dos conceitos, característico do novo espírito científico. Ambos, no entanto, concordam quanto à existência de mudanças ontológicas.

Outro ponto importante a considerarmos aqui é em que medida a concepção de progresso filosófico em Bachelard aponta um “destino”, um fim último. Seria o ultra-racionalismo o estágio final da evolução? Essa é uma questão polêmica, pois vimos que
a concepção “evolucionária” do progresso científico, presente em Kuhn, refere-se a uma evolução a partir de, e não em direção a. No entanto, parece-nos prematuro atribuir essa idéia “finalista” para a hierarquia proposta por Bachelard. Em nenhum momento ele parece conceber o ultra-racionalismo como algum tipo de “limite superior” em termos de doutrinas filosóficas, colocando um fim ao progresso filosófico dos conceitos. Sua preocupação é, antes, de caracterizar um “novo espírito científico” que surge, e de analisar as bases filosóficas que o sustentam, e que refletem o desenvolvimento histórico correspondente.

Bachelard não “dita regras”, e a própria natureza de sua filosofia do não nos
parece proibir uma interpretação pretensamente mais “fechada” da proposta bachelardiana. Ousaríamos dizer que o progresso para Bachelard é, sim, “em direção a”: mas em direção a uma filosofia aberta que reflete uma racionalidade que se complica, desdobra-se e multiplica as próprias direções possíveis para uma compreensão posterior dos conceitos.

Há uma evolução não em direção à verdade, à compreensão absoluta da natureza,
mas em direção à multiplicidade de direções, ao não-absoluto, no sentido da complicação e do desdobramento que os conceitos e teorias sofrem ao longo desse processo. O progresso é epistemológico, e não ontológico, o que nos lembra novamente as idéias de Kuhn, quando defende que a sucessão: teoria aristotélica, mecânica de Newton, e relatividade, não representa uma “direção coerente de desenvolvimento ontológico”.

Certamente encontraremos, em ambas as epistemologias, uma série de
implicações de natureza educacional. Kuhn e Bachelard ainda têm, nesse aspecto, muito a nos dizer. Deixaremos, entretanto, para um capítulo posterior essas considerações. Por ora, gostaríamos de finalizar com uma pergunta: poderia haver melhores maneiras de promover o progresso científico?

No posfácio de A Estrutura das Revoluções Científicas, Kuhn relata algumas críticas recebidas por seu trabalho, acusando-o de estabelecer uma confusão entre o descritivo e o normativo, entre o “é” e o “deve ser”. Vejamos então o que ele diz:

As páginas precedentes apresentam um ponto de vista ou uma teoria sobre a natureza da ciência e, como outras filosofias da ciência, a teoria tem conseqüências no que toca à maneira pela qual os cientistas devem comportar-se para que seu empreendimento seja bem sucedido. Embora essa teoria não necessite ser mais correta que qualquer outra, ela proporciona uma base legítima para o uso dos “o que poderia ser” (should) e “o que deve ser” (ought).”

O autor defende sua teoria dizendo que os cientistas comportam-se como ela prescreve. Na realidade, parece realmente possível fazermos leituras da obra de Kuhn bastante diferentes, que vão desde uma crítica contundente à prática científica até uma
prescrição do fazer científico, passando por uma simples descrição despretensiosa.

Há, sem dúvida, “boas razões” para aderirmos a esse “paradigma epistemológico”. A principal delas é que (e esperamos tê-la justificado suficientemente!) a proposta de Kuhn parece-nos descrever adequadamente o trabalho dos cientistas e permite-nos compreender a evolução histórica da ciência. Embora essa teoria “não necessite ser mais
correta que qualquer outra”, compartilhamos com ela uma concepção de como é a ciência. Mas a nossa leitura da obra de Kuhn não nos permite encará-la como uma prescrição, tampouco despretensiosa. Pelo contrário, tomaremos muitas de suas falas como críticas severas quando, em seguida, discutirmos uma concepção educacional que se pretenda transformadora. Sua epistemologia é tomada por nós não de uma forma dogmática, fechada. Resguardamo-nos o direito de incorporar a ela elementos importantes de outras epistemologias, de maneira que, parafraseando Bachelard, essa diversidade permita-nos esclarecer as diversas “faces” da ciência.

Desse modo, quanto à questão colocada acima (poderia haver melhores maneiras de promover o progresso científico?), o trabalho de Kuhn não nos permite estabelecer conjecturas, respondendo talvez com um histórico “não”. Mas a epistemologia de Bachelard parece em alguns momentos pregar uma atitude mais crítica e transformadora
por parte do cientista. No debate entre realismo e racionalismo, com respeito ao conceito de massa, ele deixa escapar que:

Só existe um meio de fazer avançar a ciência; é o de atacar a ciência já constituída, ou seja, mudar a sua constituição.”

Com isso queremos salientar que, embora a idéia de progresso histórico da ciência seja um elo de ligação entre Kuhn e Bachelard, suas diferentes abordagens sugerem respostas contrárias para a questão colocada por nós. A citação acima parece contradizer a prática da “ciência normal”. No entanto, Bachelard não aprofunda essa questão, não estabelece “diretrizes” claras para a prática posterior da ciência, ainda que aponte o aprofundar do pensamento racional.

Consideramos, no entanto, suficientemente apresentada, para os nossos propósitos, a nossa concepção de ciência e de seu desenvolvimento. Contudo, face a essa última polêmica, apresentaremos a seguir uma resposta possível, a partir da análise de algumas idéias defendidas por Paul Feyerabend. Isso levar-nos-á a novas conclusões..."

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É isso!


Fonte:
ANDRÉ FERRER PINTO MARTINS: “O ENSINO DO CONCEITO DE TEMPO: CONTRIBUIÇÕES HISTÓRICAS E EPISTEMOLÓGICAS”. (Dissertação apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ensino de Ciências – Modalidade Física. Banca Examinadora: Prof. Dr. JOÃO ZANETIC (Orientador) Profª. Drª. HERCÍLIA TAVARES DE MIRANDA Prof. Dr. MANOEL ROBERTO ROBILOTTA). Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.

Eu li isso...

A RESPOSTA Á CRISE

"Suponhamos que as crises são uma pré-condição neces­sária para a emergência de novas teorias e perguntemos então como os cientistas respondem à sua existência. Parte da resposta, tão óbvio como importante, pode ser descoberta observando-se primeiramente o que os cientistas jamais fazem, mesmo quando se defrontam com anomalias prolonga­das e graves. Embora possam começar a perder sua fé e a considerar outras alternativas, não renunciam ao paradigma que os conduziu à crise. Por outra: não tratam as anomalias como contra-exemplos do paradigma, embora, segundo o vocabulário da filosofia da ciência, estas sejam precisamente isso. Em parte, essa nossa generalização é um fato histórico, baseada em exemplos como os mencionados anteriormente e os que indicaremos mais adiante. Isso já sugere o que o nos­so exame da rejeição de um paradigma revelará de uma ma­neira mais clara e completa: uma teoria científica, após ter atingido o status de paradigma, somente é considerada inválida quando existe uma alternativa disponível para substituí-la. Nenhum processo descoberto até agora pelo es­tudo histórico do desenvolvimento científico assemelha-se ao estereótipo metodológico da falsificação por meio da com­paração direta com a natureza. Essa observação não significa que os cientistas não rejeitem teorias científicas ou que a expe­riência e a experimentação não sejam essenciais ao processo de rejeição, mas que - e este será um ponto central - o juízo que leva os cientistas a rejeitarem uma teoria previamente aceita baseia-se sempre em algo mais do que essa comparação da teo­ria com o mundo. Decidir rejeitar um paradigma é sempre de­cidir simultaneamente aceitar outro e o juízo que conduz a essa decisão envolve a comparação de ambos os paradigmas com a natureza, bem como sua comparação mútua.
A par disso, existe uma segunda razão para duvidar de que os cientistas rejeitem paradigmas simplesmente porque se defrontam com anomalias ou contra-exemplos. Ao apre­sentar essa segunda razão, delinearei outra das principais teses deste ensaio. As razões para a dúvida esboçadas acima eram puramente fatuais; isto é, eram, elas mesmas, contra-exemplos de uma teoria epistemológica atualmente admitida. Como tal, se meu argumento é correto, tais razões podem, quando muito, ajudar a formação de uma crise ou, mais exatamente, reforçar alguma já existente. Por si mesmas não podem e não irão falsificar essa teoria filosófica, pois os de­fensores desta farão o mesmo que os cientistas fazem quando confrontados com anomalias: conceberão numerosas articu­lações e modificações ad hoc de sua teoria, a fim de elimi­nar qualquer conflito aparente. Muitas das modificações e especificações relevantes já estão presentes na literatura. Por­tanto, se esses contra-exemplos epistemológicos constituem algo mais do que uma fonte de irritação de menor importância, será porque ajudam a admitir a emergência de uma nova e diferente análise da ciência, no interior da qual já não são uma fonte de problemas. Além disso, se é possível aplicar aqui um padrão típico (que será observado mais adiante nas revoluções científicas), tais anomalias não mais parecerão ser simples fatos. Ao invés disso, no interior de uma nova teoria do conhecimento científico, poderão assemelhar-se a tautologias, enunciados de situações que de outro modo não seriam concebíveis" (p. 107, 108).

É isso!

Fonte:
"A Estrutura das Revoluções Científicas", de Thomas S. Kuhn. Editora Perspectiva. São Paulo, 2006.

"Teorias obsoletas"


Lavoisier que fez desmoronar o "império" da Flogística

"A verdade surge mais facilmente do erro do que da confusão"
Francis Bacon

Lendo “A Estrutura das Revoluções Científicas", de Thomas Samuel Kuhn, fui impelido a rever alguns de meus conceitos sobre teorias científicas consideradas “ultrapassadas”, "arcaicas", "antiquadas" ou "obsoletas". Por exemplo, discorrendo sobre o desenvolvimento das descobertas no campo da eletricidade, Khun faz algumas considerações que certamente merecem uma boa e séria reflexão. Escreve ele:

“A história da pesquisa elétrica na primeira metade do século XVIII proporciona um exemplo mais concreto e melhor conhecido da maneira como uma ciência se desenvolve antes de adquirir seu primeiro paradigma universalmente aceito. Durante aquele período houve quase tantas concepções sobre a natureza da eletricidade como experimentadores importantes nesse campo, homens como Hauksbee, Gray, Desaguliers, Du Fay, Nollet, Watson, Franklin e outros. Todos seus numerosos conceitos de eletricidade tinham algo em comum - eram parcialmente derivados de uma ou outra versão da filosofia mecânico-corpuscular que orientava a pesquisa científica da época. Além disso, eram todos componentes de teorias científicas reais, teorias que tinham sido parcialmente extraídas de experiências e observações e que determinaram em parte a escolha e a interpretação de problemas adicionais enfrentados pela pesquisa. Entretanto, embora todas as experiências fossem elétricas e a maioria dos experimentadores lesse os trabalhos uns dos outros, suas teorias não tinham mais do que semelhança de família.

Um primeiro grupo de teorias, seguindo a prática do século XVII, considerava a atração e a geração por fricção como os fenômenos elétricos fundamentais. Esse grupo tendia a tratar a repulsão como um efeito secundário devido a alguma espécie de rebote mecânico. Tendia igualmente a postergar por tanto tempo quanto possível tanto a discussão como a pesquisa sistemática sobre o novo efeito descoberto por Gray - a condução elétrica. Outros "eletricistas" (o termo é deles mesmo) consideravam a atração e a repulsão como manifestações igualmente elementares da eletricidade e modificaram suas teorias e pesquisas de acordo com tal concepção. (Na realidade este grupo é extremamente pequeno - mesmo a teoria de Franklin nunca explicou completamente a repulsão mútua de dois corpos carregados negativamente.) Mas estes tiveram tanta dificuldade como o primeiro grupo para explicar simultaneamente qualquer coisa que não fosse os efeitos mais simples da condução. Contudo, esses efeitos proporcionaram um ponto de partida para um terceiro grupo, grupo que tendia a falar da eletricidade mais como um "fluido" que podia circular através de condutores do que como um "eflúvio" que emanasse de não-condutores. Por seu turno, esse grupo tinha dificuldade para reconciliar sua teo¬ria com numerosos efeitos de atração e repulsão. Somente através dos trabalhos de Franklin e de seus sucessores imediatos surgiu uma teoria capaz de dar conta, com quase igual facilidade, de aproximadamente todos esses efeitos. Em vista disso essa teoria podia e de fato realmente proporcionou um paradigma comum para a pesquisa de uma geração subsequente de “eletricistas”.

[...]

“Aquilo que a teoria ao fluido elétrico fez pelo subgrupo que a defendeu, o paradigma de Franklin fez mais tarde por todo o grupo dos eletricistas. Este sugeria as experiências que valeriam a pena ser feitas e as que não tinham interesse, por serem dirigidas a manifestações de eletricidade secundárias ou muito complexas. Entretanto, o paradigma realizou esta tarefa bem mais eficientemente do que a teoria do fluido elétrico, em parte porque o fim do debate entre as escolas deu um fim à reiteração constante de fundamentos e em parte porque a confiança de estar no caminho certo encorajou os cientistas a empreender trabalhos de um tipo mais preciso, esotérico e extenuante. Livre da preocupação com todo e qualquer fenômeno elétrico, o grupo unificado dos eletricistas pôde ocupar-se bem mais detalhadamente de fenômenos selecionados, projetando equipamentos especiais para a tarefa e empregando-os mais sistemática e obstinadamente do que jamais fora feito antes!

[...]

“Os que escreveram sobre a eletricidade durante as primeiras décadas do século XVIII possuíam muito mais informações sobre os fenômenos elétricos que seus predecessores do século XVI. Poucos fenômenos elétricos foram acrescentados a seus conhecimentos durante o meio século posterior a 1740. Apesar disso, em pontos importantes, a distância parece maior entre os trabalhos sobre a eletricidade de Cavendish, Coulomb e Volta (produzidos nas três últimas décadas do século XVIII) e os de Gray, Du Fay e mesmo Franklin (início do mesmo século), do que entre esses últimos e os do século XVI. Em algum momento entre 1740 e 1780, os eletricistas tornaram-se capazes de, pela primeira vez, dar por estabelecidos os fundamentos de seu campo de estudo. Daí para a frente orientaram-se para problemas mais recônditos e concretos e passaram cada vez mais a relatar os resultados de seus trabalhos em artigos endereçados a outros eletricistas, ao invés de em livros endereçados ao mundo instruído em geral. Alcançaram, como grupo, o que fora obtido pêlos astrônomos na Antiguidade, pêlos estudantes do movimento na Idade Média, pela óptica física no século XVII e pela geologia histórica nos princípios do século XIX. Elaboraram um paradigma capaz de orientar as pesquisas de todo o grupo. Se não se tem o poder de considerar os eventos retrospectivamente, torna-se difícil encontrar outro critério que revele tão claramente que um campo de estudos tornou-se uma ciência."

Fonte:

Thomas S. Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva. São Paulo, 2006, p.p. 33-35, 39, 42, 43).
Concluindo:
É comum considerarmos teorias já superadas com um certo desdém, vendo-as como mitos sobrepujados pelo progresso. Todavia, não nos esquecemos que foram a partir delas que se chegamos ao patamar de conhecimento em que nos encontramos hoje. Mui provavelmente, daqui a 100 anos (ou bem menos) as pessoas de “lá” terão as mesmas impressões que tivemos, hoje, das teorias do passado, isto porque temos a péssima tendência de não considerarmos os eventos retrospectivamente.


É isso!